Revista “Sinfonia em Blu"

8ª edição

Ano 02 - Maio de 2007

Editora: Terezinha Manczak

Formatação e Arte: Iara Melo

Blumenau - SC - Brasil

O tempo - Benedita Azevedo

As mágoas do passado
Que me fizeram sofrer
Hoje são vagas lembranças
Que me alimentam o viver.

Momentos de dor e tristeza
Que pareciam eternos
Hoje os relembro com saudade
Nesses novos tempos modernos.

Um aperto no coração
Ao relembrar a ternura
Transformada em decepção
Em dor, tristeza e amargura.

Mas o  tempo,  bálsamo salutar,
Vai transformando tudo ao seu passar
E até as mágoas, se você deixar
Em suave lembrança para recordar.

Benedita Azevedo
Praia do Anil

*

MULHER - Carmo Vasconcelos
 
“Sete foles como os gatos”
sete vidas tens de ter
numa existência somente…
Não dá para uma escolher
todas terás de viver
PORQUE NASCESTE MULHER
 
És a filha, és a esposa
és a mãe e em ti repousa
toda a canseira do lar…
És pau para toda a colher
não tens tempo de sonhar
PORQUE NASCESTE MULHER
 
Nessa lida, nesse afã
sais para a rua de manhã
figura quase sem jeito
carregando a sacola
filho pendurado ao peito
largado à porta da escola…
Não tens tempo de sofrer
PORQUE NASCESTE MULHER
 
Cansada e dolorida
vais para o trabalho a correr
sentindo como chicotes
impropérios e dichotes
dos que babam por te ter
PORQUE NASCESTE MULHER
 
Voltas a casa à noitinha
lavas roupa, fazes camas
e milagres na cozinha
porque o dinheiro é tão pouco…
Cais na cama, finalmente
sufocando um grito rouco
pois teu homem inda quer
que lhe mostres com prazer
POR  QUE NASCESTE MULHER
 
E já é de manhãzinha…
Não te podes esquecer!
“Sete foles como os gatos”
PORQUE NASCESTE MULHER!

Carmo Vasconcelos
Lisboa - Portugal
 
*

CORAÇÃO VAZIO - Célia Jardim
 
Ver-te feliz em outros braços
faz-me entender
que é o fim
 
Nada te pedi
nada cobrei
apenas te amei
sempre foi assim
 
Hoje ainda nada te peço
nada cobro
apenas espero
que me devolvas
tudo que levou de mim
 
Uma vida
um sonho
um amor sem fim
 
Célia Jardim
 
*

E UM GRILO - Eduardo de Almeida Farias
 
Na velha casa abandonada,
A sombra duma candeia pendurada
Na parede,
Sem azeite e sem pavio
Treme de frio,
Desenhando sombras reticentes.
 
Pelos corredores da velha casa,
Um anjo querubim
De nome Benjamim,
Em camisa de dormir
De linho alvo e puro,
Leva ao colo um menino
A chorar de medo,
Dos fantasmas do escuro.
 
Num canto da casa, ao fundo,
Range um tear
Da idade do mundo;
Junto ao lume na lareira,
Um bichano fica-se a sonhar
Com o petisco que seria o pisco,
Do telhado;
E também o cri cri do grilo borralhento
Que ficou aprisionado
Nas teias do tempo.

Aquele menino era eu,
O anjo querubim
O meu avô Benjamim.
Aquele menino, que não cresceu,
Ainda hoje sente o medo,
Na procura de mim.
 
Eduardo de Almeida Farias
Do livro:  VIDA DISTÂNCIA DE  CURTA MEDIDA  2002
 
*
 
Uma Questão de Juízo - Eliane Gonçalves
 
Das cinzas, ergueu-se a águia.
Da Fênix, uma esperança de voar
Das brasas que custam a esfriar
Soltando fagulhas do nosso amor
Nas  nossas horas mágicas de amar
 
Tem dias que sobem como estrelinhas
Perdão!
Pois falo nas entrelinhas
No tanto que penso nele
E em nossas fogueiras de sonhos
 
Como um capítulo a mais
Por vezes até me julgo incapaz
De vê-lo sofrer como eu.
Em demasia!
De nossos olhos eternos em maresia
 
Mas pensando sempre  com a mente
Falo dessa pobre gente
Dispenso toda essa fala alheia e demente
Que só sabem das coisas de amor em conto emergente
E nunca sofreram esses sintomas ardentes
 
Porém, para quem já perdeu o siso
Apostar às vezes também é preciso
Nas horas do perde  se ganha o juízo
Mesmo sem evitar tanta dor de sacrifício
Nunca aceitar uma vida só de momentos
 
Enfim,
Quando a mulher é séria
sempre acreditará,
nos verdadeiros
E benditos sentimentos...
 
Eliane Gonçalves

*
 
Escuta... - Isabel Fontes

A música que o meu coração toca.
Mera melodia que vem de longe, mas nunca está completa...

Escuta...
É a minha forma de encontrar alívio.
Chegou a minha hora de sonhar...

Escuta...
Vou completar os meus sonhos.
Só porque não queres ouvir, não vou desistir.

Escuta...
Estou sozinha numa encruzilhada.
Estou em casa e não me sinto...na minha própria casa.

Escuta...
Fiz-te sinais, olhares, para entenderes,
Tudo o que se passa na minha cabeça...no meu coração.

Escuta...
Após estes anos já deverias adivinhar,
Não sou o que esperas nem o que quero ser.

Escuta...
Vou tentar ser o que procuro,
Ser EU e lutar por ser como sou.
 
Escuta...
Não sou a tua voz, tens de ouvir a minha.
Porque não tentaste ouvir?

Escuta...
Vivo num turbilhão de emoções,
Alguém quer sair de dentro de mim e gritar!

Escuta...
Já não vou colocar de lado o que sinto,
Só porque não te parece bem.

Escuta...
Agora sou Livre de fazer o que quero,
De falar, gritar, lutar, ser EU!

Escuta...
Eu não sei onde pertenço...
Mas vou seguir em frente...
Se não...
Perco-me...

Escuta...

A minha melodia quer ser tocada,
Vou descobrir a nota certa e tocá-la.
Já que não queres tocar...Escuta.

By Isabel Fontes - Lisboa - Portugal
 
*
 
RAIOS DE LUZ - Joaquim Sustelo

Raios de luz que vêm de um poente
Com pouca intensidade, menor chama;
Contudo um sol ainda refulgente
Enquanto não se deita em sua cama.

A minha alma sonha...assim se sente
Tal qual o arrebol que o sol derrama:
Vigia numa torre mais ausente
Num longe que contudo ainda inflama.

Raios de luz... mirífico arrebol;
Sonhando a alma sonhos, os que o sol
Ainda há-de trazer em outros dias...

E enquanto ele se esconde e anoitece,
A pena num poema se enternece
E oiço nas estrelas, melodias.

Joaquim Sustelo  - Lisboa - Portugal
(em  RAIOS  DE LUZ)
 
*
 
"A Paciência é um Dom" - Pinhal Dias
 
A Paciência...
Dizem ser uma conquista!?
No amadurecimento para uns,
Outros vivem com outra virtude,
Sem conquista.
São os felizes pacientes,
Arcam suas vidas sorridentes...
Por serem afirmados de consciência,
E são humildes de paciência...
Estão elevados nesse tom...
Porque a Paciência
É um Dom.
A falta de Paciência gera um stress...
Saber esperar exige paciência.
Paciência... No saber amar
...Namorar!
...Casar!
...E até no divórcio tem que haver Paciência
...Por esse escrito assinado,
...Por vezes... É falta de consciência.
E não me venham dizer agora!?
Por alguém não dar esmola...
A um ser pedinte,
Na vida vive muito pobrezinho...
Você satisfaz dizendo:
-Tenha Paciência
Com este seu predicado!?
Você já perdeu a consciência
E não tem Paciência.

Pinhal Dias - Amora - Portugal
 
 


Entrevista
Luiz Eduardo Caminha entrevista Benedita Azevedo


1. Caminha: Quem Benedita diz ser Benedita Azevedo?
R. Benedita Azevedo:
Sou uma batalhadora. Tudo que consegui na vida foi com muito trabalho, muita luta, muita persistência. Sou sujeito da minha própria história.

2. Desculpe-me entrar nesta seara, mas a sua história é contemporânea. Mostra a face de uma brasileira que quis vencer e encontrou nos estudos um caminho para tal. Vivemos num país em que a grande discussão é a oportunidade na Educação. Muito disto, em parte, por ser eleito um Presidente que parece não valorizar este aspecto. Ou, pelo menos, não pode servir de exemplo. Mas Benedita Azevedo pode. Fale-nos desta sua epopéia. Tim-tim por Tim-tim.
R. Benedita Azevedo:
Sou filha de lavradores. Fui alfabetizada pelos meus pais. Só entrei em uma escola regular aos 10 anos. Terminei o primário aos 15 e estudei até a 2ª série do ginásio, hoje  6ª série do Ensino Fundamental. Casei-me em 62, aos 18 anos. Nove meses depois nascia meu filho Rogério, quando ele fez um ano e 15 dias nascia Jane, a minha caçula.  Em 72, meu marido, que era comerciante, sofreu um acidente vascular cerebral e perdemos tudo.  Voltei a estudar. Em um ano, mesmo tendo de trabalhar para arcar com a manutenção da minha família, varando as madrugadas e dormindo sobre os livros, consegui fazer o 1º e 2º Graus (Supletivo) e passar bem no vestibular para Direito e Letras. Embora pretendesse fazer Direito, tive de optar por Letras, pois precisava trabalhar de imediato e não queria voltar a ser balconista de uma loja, ganhando salário mínimo, como acontecera na minha adolescência.

3.Qual  ou quais atividades você está envolvida atualmente?
R. Benedita Azevedo:
No momento, além de ajudar a minha filha cuidar dos três filhos dela, dedico-me inteiramente às letras. Sou membro efetivo da Academia Mageense de Letras;  da APALA – Academia Pan Americana de Letras e Artes; do IBRACI – Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais; do Grêmio Haicai Ipê, o mais antigo do Brasil, no gênero  e que me inspirou a fundar o Grêmio Haicai Sabiá; sou presidente do GAALA – Grêmio Aluísio Azevedo de Letras e Artes que completará 2 anos a 23 de março, criado para que me desse oportunidade de continuar oferecendo as oficinas de redações e poesias, após a minha aposentadoria.  O  GAALA e o GHS  fazem parte do Centro Cultural Professora Benedita Azevedo que funciona  em um anexo construído ao lado da minha casa, desde o ano  2000,  onde coloco à disposição da comunidade os 3.000 volumes da minha biblioteca particular. Para  fazer adaptações na sala onde funcionara  o consultório dentário da minha filha, usei o dinheiro que tinha para  trocar o carro.  Quando pretendia trocá-lo outra vez, resolvi publicar  dois livros: O dia-a-dia de uma professora e Nas trilhas do haicai. No ano passado, ao invés de trocar meu velho Fiesta 97, por um zero, mais uma vez optei por publicar dois livros de haicai: Canto de Sabiá e Praia do Anil – Haikai.  Meu velho Fiesta côr ferrugem continua colaborando com a literatura e a cultura de modo geral.
Além da participação nas Academias e grupos literários, tenho trabalhos publicados em vários sites da Internet.
 
4. Caminha: Quando e como começou o seu interesse pelas letras.
R. Benedita Azevedo:
Sempre gostei de ler e escrever. Aos doze ou  treze anos, como não tinha dinheiro para comprar livros, lia todos os textos  dos livros de leitura das minhas irmãs que estavam em séries mais adiantadas que eu.  Às vezes a diretora do Grupo Escolar mandava livros muito velhos para minha casa; alguns sem as folhas iniciais e finais. Eu os lia e imaginava o começo e o fim da história. Foi assim que  conheci a obra de Shakespeare,  Romeu e Julieta. Ao terminar de ler a parte que tinha naquele livro aos pedaços, não me contive e procurei a diretora para que me contasse o início e o fim.  Chorei ao saber que ao final os dois morriam. A diretora ficou tão comovida que me deu vários livros para ler. Dentre eles, Iracema de José de Alencar. Minha primeira professora primária, que também foi diretora do Grupo Escolar Gomes de Sousa,  quando eu estudava do 2º ano  ao 5º ano, nos incentivava a ler e escrever;  fazia peças de teatro, saraus lítero-musicais, cantava-se todos os dias os hinos cívicos, tudo isso me fez desenvolver essa vontade de fazer coisas parecidas com o que ela nos ensinava. Minha mãe queria me tornar uma boa dona de casa, meu pai dava asas à minha imaginação e me queria advogada e foi graças a ele que pude ir para a capital fazer o ginásio.
 
5. Caminha: Em que aspectos ser poeta e escrever influencia ou influenciou a sua vida?
R. Benedita Azevedo:
Como gostava de ler os textos dos livros didáticos, ao terminar a leitura, lia a biografia dos autores e desejava seguir-lhes o exemplo.  Principalmente, a de  Humberto de Campos e Gomes de Sousa, meus conterrâneos, pobres como eu, que se tinham tornado grandes personagens da Literatura.  O fato de querer escrever sempre me impulsionou para frente e continua influenciando toda a minha trajetória. Hoje, a minha vida gira em torno das atividades literárias. Quase esqueço a família.
 
6. Caminha: Qual o nome de seu primeiro livro qual o gênero (poesias? crônicas? contos?) e sobre o que tratava?
R. Benedita Azevedo:
“ Marista, 60 anos a serviço da comunidade maranhense”,  um opúsculo de 48 páginas,  uma monografia sobre o histórico do colégio, escrita em três dias, para distribuição entre os alunos e  as outras unidades da congregação, por ocasião da “Semana Champagnat” foram  mimeografados três mil exemplares.
 
7. Caminha: Quantos e quais livros você já tem publicados?
R. Benedita Azevedo:
1 – Marista, 60 anos... 2 – Voltando viver;  3 – Trajetória;  4 – Shena e Hércules (Infantil);  5 – Nas Trilhas do haicai;  6 - O dia-a-dia de uma professora;  7 – Novo desafio; 8 - Fatalidades da vida;  9  -  Canto de Sabiá – Haikai;  10 – Praia do Anil – Haikai
Idealizei e organizei as Antologias em prosa e verso I, II e III de escritores da Academia Mageense de Letras. 
Organizei as Antologias I e II dos vencedores dos Concursos de Redações e Poesias I, II , III e IV de alunos do Colégio Estadual Mauá, onde eu lecionava Português e Literatura.
Organizei a VIII Antologia de Escritores da APALA- Academia Pan Americana de Letras e Artes.
Tenho publicações em várias Antologias impressas e virtuais, jornais, revista e sites. No link abaixo você poderá ler alguns livros virtuais.
http://www.avllb.org/academicos/063/livros.html
 
8. Você tem se dedicado muito aos Haicais. Eu costumo dizer que o Haicai é a síntese da síntese poética. Nele o poeta precisa escrever a poesia e fazer com que o leitor veja poesia no que está escrito. Conte-nos um pouco desta paixão e de seus prêmios e reconhecimentos neste gênero literário.
R. Benedita Azevedo:
Apesar de ter lecionado Português e Literatura por quase 30 anos, só conhecia a definição de que o haicai era uma poesia de forma fixa. Os compêndios de Literatura não falavam sobre essa modalidade poética. Tomei contato com ela em 2000 quando fui ao lançamento do livro “Nas tranças do Tempo” , de Lena Pontes, em Niterói.  Ao ler os poemas e a monografia com o histórico do haicai no Brasil, apaixonei-me pelas dezessete sílabas. Também em Niterói, conheci Luis Antônio Pimentel, um dos introdutores do Haicai no Brasil, hoje com  94 anos, que me deu as primeiras dicas sobre o assunto. Comecei a escrever tercetos e em 2004 publiquei meu primeiro livro “Nas Trilhas do Haica” com 280 poemas.  Neste mesmo ano, comecei a enviar meus poemas para as seleções quinzenais do Jornal Nippo-Brasil, feitas  pelos haicaístas Edson Kenji Iura e o Monge Francisco Handa, até hoje, tenho 45 haicais publicados. Em julho de 2005, convidada pelo Edson a participar do Festival do Japão, tomei contato com os haicaístas do Grêmio Haicai Ipê, o mais antigo do Brasil, que me convidaram a participar do grupo. Desde então, vou a São Paulo, no primeiro sábado de cada mês para as reuniões, onde estudamos e compomos haicais, sob a coordenação do Edson e de Teruko Oda. Em 2006 publiquei mais dois livros de haicai, estes já dentro das normas clássicas; Canto de Sabiá e Praia do Anil – Haikai.
Tenho participado de  concursos e recebi prêmios em alguns:
a) 1º lugar no 17º Encontro Brasileiro de Haicai em, 05 / 11 / 2005 – São Paulo - SP
b) 4º lugar no Festival das Estrelas  - Tanabata Matsuri - , promovido pela Associação Cultural Miyagui Kenjin-Kai do Brasil, da qual sou sócia, em sua 28ª edição, que aconteceu nos dias 29 e 30 de julho de 2005 – Liberdade -  São Paulo - SP
c)  A 1.ª Edição do Concurso Nacional de Haicai Caminho das Águas, recebeu 87 inscrições, de 13 Estados brasileiros, do Distrito Federal e da Suíça, num total de 46 cidades. De 65 inscrições válidas, num total de 130 haicais, foram classificados 10 conforme o previsto no Regulamento do Concurso. Eu consegui a 4ª e 9ª  classificações - Santos - SP

9. Qual a sua experiência em publicações na internet? Como você vê esta ferramenta - onde é possível publicar e-books, ter seu próprio site com suas obras, etc - que a cada dia mais se coloca à disposição dos escritores?
R. Benedita Azevedo:
A minha primeira experiência foi na AVLLB – Academia Virtual de Letras Luso Brasileira. O grande trovador Antônio Augusto de Assis sempre me enviava as atualizações do Boletim Trovia, um dia, enviou-me sua página da AVLLB com o link do Webmaster Baçan.  Entrei em contato com ele e perguntei como eu poderia participar da Academia?  Ele me pediu o material para avaliar, logo a seguir apresentou-me ao Presidente de Honra da AVLLB e Presidente do Portal CEN Carlos Leite Ribeiro. Fui admitida como membro fundador da AVLLB, cadeira 63 – Patrono Viriato Correia e posteriormente como autora do Portal Cá Estamos Nós.

10. Caminha: Além de excelente poeta você tem se revelado uma grande cronista e contista. Tem romance publicado.Ufa! Benedita não é pouco! Fale-nos a respeito. Qual dos gêneros mais lhe encanta?
R. Benedita Azevedo:
Costumo escrever com mais freqüência, crônicas e contos, mas gosto também do romance. Meus livros, até o momento, foram escritos como relatos de acontecimentos comuns do dia-a-dia, numa linguagem simples e despretensiosa, com o objetivo de que servissem de exemplo, para que as pessoas  observassem que, cada um poderá chegar exatamente onde desejar, sem precisar  se submeter à auto-piedade e  que os outros são responsáveis pela situação em que se encontram sem fazer nada para resolver seus problemas.  Temos de buscar nossos objetivos, sem atropelar os outros. Cada um colhe o que planta. Pretendo, em novas edições, dar-lhes um tratamento mais acadêmico, usando uma linguagem literária e objetiva. Mas, a minha paixão mesmo é pelo haicai.

11. Você viveu um período de sua vida em nossa terra. No eixo Blumenau-Itajaí. Agora, no final de 2006 você voltou aos mares do sul. Como foi este recontato com as cidades, suas gentes, seus amigos. O que mudou?
R. Benedita Azevedo:
Morei  em Blumenau no período 68/69; em Itajaí  69/77. Foi uma das fases mais difíceis da minha vida, mas também, a que realizei o sonho de fazer meu curso universitário. Em Itajaí, superei a barreira da falta de instrução, eliminando sete anos em um e passei a servir de exemplo para os alunos dos cursos preparatórios que surgiam. Cursei Letras na UNIVALI e fiz todos os cursos de extensão oferecidos pala faculdade nos quatro anos do curso. Ao final, fiz concurso e fui aprovada para o magistério público e passei pelo crivo de um Colégio Marista onde lecionei Português e Literatura de 77 a 86,  e saí voluntariamente quando me mudei para o Rio de Janeiro.
Em novembro de 2006 voltei a Itajaí para a comemoração dos 30 anos de formatura da turma de Letras de 1976. O meu período de faculdade foi muito atribulado pela mudança de padrão de vida a que já me acostumara após o casamento. Com a doença de meu marido tudo voltou à estaca zero. Então as colegas de curso, ao me localizarem, pela pesquisa Google, não estavam acreditando que seria eu.
Sempre gostei muito da Região Sul, mas ao retornar tive a grata surpresa de encontrar tudo, maravilhosamente, mudado para melhor e a felicidade de reencontrar os amigos de 30 anos.
Meu querido amigo, a mudança mais importante em tudo, foi ter incorporado você, sua família maravilhosa que nos recebeu com tanto carinho, ao rol de amigos preferenciais.

12. Como foi rever Florianópolis. Aliás você se mostrou, na visita que me fez, uma pessoa de incrível ligação com a natureza. Isto vem da vertente poética?
R. Benedita Azevedo :
Foram momentos de muita alegria  que a minha amiga Sandra, colega de faculdade, nos  proporcionou mostrando os pontos turísticos da Ilha. Florianópolis, assim como Itajaí e Camboriú cresceram muito e estão maravilhosas.
A minha ligação com a natureza, vem das minhas origens. Cresci no interior do Maranhão, à beira do Rio Itapecuru, em contato direto com a natureza. Acho que a vertente poética está diretamente ligada a essa vivência: o sabiá cantando na palmeira, na mangueira ou no cajueiro. Os ninhos de pássaros que protegíamos dos gaviões predadores, das caminhadas  pela floresta em busca de frutas silvestres, das brincadeiras e cuidados a pequenos animais e dos intermináveis banhos de rio.

13. O Portal CEN dedica uma revista a Benedita Azevedo. Fale-nos a respeito: do Portal e da Revista.
R. Benedita Azevedo:
Comecei as minhas atividades no Portal CEN em agosto de 2005.  Tenho  06  E-books publicados, participação nas Antologias: A Gosto,  Receita de Família, Dia do poeta,  II Antologia de Natal, II Antologia do Portal CEN e outros. Após o II Encontro de Escritores Luso-brasileiros, onde tive o privilégio de conhecer, pessoalmente, nosso amigo, Carlos Leite Ribeiro e você,  ele percebendo a minha paixão pelo Haicai,  convidou-me a ser Editora de uma Revista só de Haicai, dando-me, assim, a oportunidade de divulgar a história do haicai no Brasil, seus mestres e escritores.

14. Algum livro no forno? Quais os próximos projetos?
R. Benedita Azevedo:
Tenho vários. Sou muito inquieta. A escrita funciona como fonte de equilíbrio. Vejamos: a) Folhas Soltas (crônicas) onde pretendo reunir todas que já escrevi - 80 páginas. b) Pedaços de Mim ( poesia) - 132 páginas. c) Crescimento Pessoal (contos e pequenos textos abordando problemas do dia-a-dia) - 119 páginas. d)  A Literatura Através dos tempos ( uma abordagem histórica da escrita, dos primórdios  aos nossos dias) – 93 páginas.  e) Vida de Estudante (Romance) – 31 páginas. f) Cartas amorosas e familiares – 47 páginas.  g) História de Magé – 70 páginas, em parceria com uma colega do magistério. h) Meus Haicais Publicados no Nippo-Brasil  e classificados em concursos.
Os títulos  são provisórios, só os defino quando fecho a obra e todos ainda estão em andamento. Escrevo todos os dias. Passo de um a outro assunto, dependendo do meu estado de espírito.
 
15. Qual o recado que você daria a todos os que gostam de escrever e ainda não tiveram uma oportunidade de publicar um livro?
R. Benedita Azevedo:
Continuem escrevendo e organizem seus trabalhos. Nunca desistam de seus sonhos, eles são prenúncios da realidade.
 
16. Caminha: Qual o recado que você daria a todos os escritores e poetas?
R. Benedita Azevedo:
Que usem a palavra em prol do bem da humanidade, buscando a paz, a fraternidade, e o equilíbrio. Há espaço para todos. Não tentemos atropelar nossos semelhantes.
 
17. Caminha: Você acredita em Deus?
R. Benedita Azevedo:
Acredito.
 
18. Caminha: O que isto significa em sua vida?
R. Benedita Azevedo:
Tudo.  Todas as minhas atividades são realizadas de acordo com suas palavras e tenho a sua bênção permanente.  Nós nos conhecemos.
 
19. Caminha: Escrever, para você, significa mais uma auto-realização ou você acha que a literatura e os seus trabalhos podem servir para a realização dos leitores? Para a construção de consciências?
R. Benedita Azevedo:
As duas coisas. Não consigo viver sem escrever; mas,  procuro passar os fatos do dia-a-dia numa perspectiva de superação, deixando sempre uma mensagem positiva.
 
20. Caminha: O que significou e significa a leitura em sua vida?
R. Benedita Azevedo:
O canal que me conduziu a tudo que aprendi; fui autodidata no ginásio e no clássico, estudei sozinha e fui fazer as provas. Consegui êxito porque lia muito e estava sempre ligada aos acontecimentos do dia-a-dia.  A falta de livros na minha infância e adolescência foi compensada  após meu casamento, aos 18 anos. Recebi de presente, de meu marido, uma pequena biblioteca com enciclopédias, dicionários, assinatura de revistas ( O Cruzeiro, Manchete e Seleções) e lia tudo. Ainda hoje, leio jornais diariamente e tenho uma biblioteca com mais de 3.000 livros.
 
21. Caminha: Qual o recado que você daria para os políticos administradores municipais, estaduais e brasileiros, vereadores, deputados e senadores quanto aos seguintes aspectos:
 
21.1 – Incentivo à produção literária
R. Benedita Azevedo:
Seria interessante a criação de um Centro Comercial público/privado para atender aos escritores, tipo a Fábrica de livros que funciona no SENAI – RJ, onde se  pode publicar a partir de 10 unidades.  A expansão dessa prática poderia aumentar a produção literária.

21.2 – Incentivo à leitura
R. Benedita Azevedo:
Criação de bibliotecas interativas, onde além da leitura se fizessem  saraus de poesias, dramatizações, rodas de leitura, lançamento de livros etc. Que dotassem todas as escolas com livros suficientes para que nenhuma  criança deixe de ler por falta de livros.  Cada município, cada bairro precisa ter uma biblioteca com livros atraentes. Assim como as  lan houses  estão para  todos os lados e sempre cheias, precisamos incentivar ambientes atrativos para a leitura.

21.3 - Incentivo às artes e a cultura
R. Benedita Azevedo:
Criação de pólos de cultura com acesso ao público em geral. Um espaço que contemplasse a todos, a nível de  cidade pequena ou bairros de cidades grandes.

22. Vou lhe dar três motes. Dá para nos brindar com três haicais? Vamos lá: sabiás; loiras ou loiros; porto.
R. Benedita Azevedo:

Recepção de amigos –
Três sabiás em penugem
De bicos abertos.

Noitinha de inverno –
Cabelos loiros deslizam
Sobre o travesseiro.

Barcos enfeitados
No Porto de Itajaí –
Carnaval no mar.

23. Caminha: Obrigado Benedita. Deus lhe abençoe. Seu recado final.
R. Benedita Azevedo:
Só tenho de agradecer a você esta oportunidade e todo o seu empenho em prol da literatura e da cultura de modo geral.

Uma nova revista , onde todos os Autores são benvindos !
Você é nosso convidado!

Convido-os a visitarem o site do grande amigo e autor do CEN,
Luiz Eduardo Caminha
http://www.stmt.com.br/dasletras.htm

Envie seus textos para:
manczak@terra.com.br


Formatação e Arte: Iara Melo