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DE ONDE VENHO ? -
António Miguel - Ericeira (Portugal)
Inquietante pergunta .....
Que permaneces como brisa
Que não se sente,
Mas paira para lá da mente
no conluio duma qualquer poetisa,
Como o vento inebriante
num dia de primavera
conforta, enleia e nos liberta
na busca do segredo
que procuro desvendar, debaldemente ?
Vou no seu enredo,
e quedo-me no infinito do relaxe
nedo e quedo encontro
com razão
o que me vai no coração.
Venho das profundezas do infinito
Do tudo e do nada,
Do Amor e da verdade,
Trago comigo a certeza
De que este Mundo ainda é possível,
com verdade e com franqueza,
dar-mos as mãos ,
Comigo vieste nessa mesma missão,
Não esqueças, por incrível
Que o teu e o meu advir
Correm vorazmente para o mesmo provir.
Então,
Vamos, não percamos o tempo
Não deixemos que o sofrimento alastre.
Assim,
A morte desaparecerá
A esperança florescerá
A verdade viverá
O amor vencerá
E tu acreditarás,
Também tu,
Que vens do infinito
Que apesar de nu
Es filho do Universo
«««»»»

Retrato - Artur da
Távola
A dolorosa
e lenta
refeição do velho.
Sopas e papas insepultas
voracidade morta
lassa obrigação de alimentar.
Saliva é cuspe
o cuspe é baba
na dócil refeição do velho.
A lentidão exasperante
de quem come para não morer
e morrerá porém. Só
A dolorosa
e benta
refeição do velho.
A carne insulta-lhe
a indecisão do dente,
dor e cansaço no deglutir.
Tudo é torpor ou gole
na fome sem sabor
da refeição do velho.
«««»»»

Espera e Atenção -
ElaneTomich
Fecham-se tramelas do peito
e meu coração transborda
tempo de longo alcance.
Por vezes, minha vez rejeito
como a quem nada importa.
Mas estou só... Perdida
nesse lance
do peito.
Defeito
ou jeito?
Veias tortas
conduzem certas
o sangue de amar
separado do sangue de sofrer
...
mas minha emoção mistura tudo.
Não sei estar
em ocasiões de ficar.
Minha dor tem astúcia
de codinome, Angústia.
Contudo
esperarei sempre o amanhecer
com olhos de entardecer .
canto cerrado
em peito travado
e mudo
«««»»»

A Claridade - Eliane
Gonçalves - Rio de Janeiro RJ
Desaparece a penumbra
Surge a claridade
Minha alma em calma noite
Busca-te em sonhos
A minha paz é realidade clara
Suave e calma espero
A simples claridade
Ainda difícil de encontrar
Mesmo na tempestade
Sou a claridade do disparo
Do trovão no céu escuro
Que entra em nossas vidas
Quando luto e venço
Os meus desafios de vida
Paciente sigo e procuro a luz
Busco sempre a urgência do Sol
Sigo muito mais alto
Que a claridade do vôo das aves
Vou ao seu encontro
Na busca do desconhecido
Sou seu equinócio
Trazendo a luz na escuridão
Tornando primavera os seus dias
Como o lírio da Paz
Mesmo na sombra de tua ausência
Danço uma música clássica
Na mais concisa claridade
Do nosso amor
«««»»»

O Homem da Casa -
(Elida Kronig®)
E foi-se o tempo do jantar quentinho
posto na mesa justo na hora do "homem da
casa" chegar.
Já faz parte do passado, a época em que a
mulher levantava de madrugada
para acalantar as dores dos filhos,
enquanto o homem dormia porque tinha que
trabalhar.
Não existe mais aquele ser primitivo que não
aceitava um "não" como resposta
quando a mulher não estava a fim.
Acabou-se aquela história de que mulher é
piloto de fogão.
O homem perdeu seu espaço, perdeu seu
domínio.
Perdeu mais ainda o seu direito de dominar.
Falar mais alto é correr sério risco de ser
exposto ao ridículo.
Estão como crianças indefesas indagando-se
"o que estou fazendo aqui?"
O marketing do machão não nos serve mais,
a imagem de trabalhador já tomamos pra nós,
o chefe de família tem agora uma sócia na
função.
E chatas pra caramba, queremos tudo
certinho.
Coitados dos homens!
Eu não invejo a atual posição de vocês hoje
em dia.
São meros perdidos num mundo dos esquecidos.
Não ultrapassam mais a "metade".
São a parte do "mínimo".
Viramos as donas de nossos próprios narizes,
somos excepcionalmente competentes em tudo
que nos metemos no mercado de trabalho.
Aprendemos a ter e tomar iniciativas.
Desvendamos os complexos mistérios da
economia doméstica.
Despojamos completamente os homens de
tomarem pra si qualquer direito.
Acertamos do nosso jeito o que já tínhamos e
roubamos o que queríamos do mundo masculino.
Vivemos a realidade de saber poder ser o que
sonhamos.
De quebra, aumentamos nosso poder de
sedução.
Agora com licença.
Dessa vez fico por cima
Porque sou eu, A mulher!
«««»»»

Porque escrevo - Luiz
Eduardo Caminha
Porque escrevo?
Escrevo por desejar,
Devaneios a esperar,
Esperanças que almejo!
Escrevo, sim! Horas a fio,
Porque a vida, como o rio,
Há de chegar no oceano,
Lago sereno do desengano.
Ah! Eu me sentiria inútil,
Ai de mim, se não escrevesse!
Seria simples expressão do fútil,
Por isso poetizo, como se bebesse,
Da fonte das letras, que é mel,
Que faz minh´alma atingir o céu,
Infinito véu que me envolve o ser,
Meu ser maior que meu pretenso ter!
Post Scriptum, minimus est:
Nas linhas, grades de meu caderno,
Escrever me prende, me torna eterno.
Luiz Eduardo Caminha
«««»»»
Soneto Para Garimpar
Sonhos
©
Nathan de Castro
Por quantas vezes eu me vi na estrada
a confundir cristais com diamante...
Às vezes, penso que perdi o instante
do apaixonante sonho de alvorada.
Por quantas vezes vi, sem dizer nada,
o brilho de uma pétala distante...
Não fui ao seu encontro e, sempre errante,
vaguei um verso frio à madrugada.
Juntando pedras falsas e sonetos,
sigo a marcar as curvas do caminho...
E cumpro esse meu canto garimpeiro!
Talvez uma pepita entre os gravetos
do tempo, inda me traga à flor do ninho
o encanto de um brilhante verdadeiro!
«««»»»

Nas linhas dos
poemas... - (Olívia Cardoso) - SP Capital
A cada verso...
A cada linha traçada...
Nas linhas dos poemas...
Afasto a distância,
Alivio os meus lamentos,
Navego em pensamentos
Quero contigo sonhar
Imaginando o seu jeito de me amar
E que nos seus braços possa me acolher,
Lentamente me envolver
Sem pressa, sem promessas...
Sem dor, sem esquecimento...
No mais terno jeito de amar
Curando a toda e qualquer dor
Eternizando-nos de amor
Nas linhas do poema...
Nascemos do amor!
Vivemos de amor!
Renascemos!
através, e por conta...
de um novo...
sincero...
puro...
e...
maravilhoso
AMOR !
«««»»»
COLORINDO MEU MUNDO -
Renate Emanuele
Vou pincelando minha vida com amor
Nas cores preferidas de meu coração
Tinta à óleo que pinto com a emoção
Com azul pinto o céu de meu Senhor
Com os amarelos pinto minha alegria
São cores emocionantes e divertidas
São também minhas cores preferidas
Convivo com os amarelos noite e dia
O branco é a paz que eu mesma faço
Que é o que mais acredito nesta vida
O viver bem com todos e ser querida
Pois o mundo é apenas meu pedaço
As cores do arco-íris são pigmentos
Que passeiam tingindo minha ilusão
Todas as cores unidas num corrimão
Pelo infinito dos meus sentimentos
Na fantasia de todas estas mil cores
Na tela da vida o pincel mais desliza
Pintando o orvalho e também a brisa
Também colorindo o jardim de flores
Com pontinhos brilhantes cor de prata
Pinto estrelinhas de luz num céu azul
Em diversos tons verde de norte a sul
Vou colorindo a tela com nossa mata
Com preto mágico inserido no pincel
Entre as lágrimas de emoção e amor
Inspirações poéticas vertidas com cor
Vou borrando poesias no alvo papel
«««»»»
Sobre o amor. – Tonho
França
Todo amor é cíclico, de fases, como a lua.
Todo amor morre, todo amor mata
Todo amor tem cios, como a natureza,
Como as fêmeas, como a terra.
Todo amor começa e encerra.
Todo amor tem alma, tem pele, tem cor,
Todo amor inala e exala, amor.
Precisa de cuidados, de versos, de estrelas,
De contos, de surpresas, de sereias.
De sanidade, de sair às ruas, de se atrever,
De ser Cervantes, Neruda, Picasso.
Todo amor antes é pedaço.
Todo amor conspira, delira, vagueia.
Todo amor comunga, tem fé, Santa Ceia,
Tem brilho profundo, sem fundo, maré cheia.
Todo amor é improviso, é sem aviso, é fato.
Todo amor é inexato, é todo, é tato.
É convulsão, confusão, extrapola a medida,
Todo amor é chegada e partida
Todo amor é intuição, carinho, doação,
É caminho, é espinho, é infusão
É mais que um, é comum.
E ao mesmo tempo é solidão.
Todo amor é sagrado, é bendito, é bem-feito,
Todo amor é pródigo, é filho, é pai, é
perfeito
É congruente, inerente, é transparente, é a
razão,
De sermos, de vivermos, é de Deus, é
coração.
Tonho França
«««»»»
Onde está minha
poesia? - Antonia Nery Vanti (vyrena)
Voou minha inspiração!
Perdeu-se entre as nuvens negras
da desilusão.
Não a encontro mais para minhas rimas.
Meus versos que já eram quebrados,
mais quebrados ainda, ficaram.
A fantasia, constante companheira,
que fazia parte de meu dia a dia,
tomou rumo desconhecido.
Desencontram-se os sentimentos,
dispersam-se os pensamentos.
O romantismo,
minha marca registrada,
desapareceu repentinamente,
deixando-me com a alma vazia
a vagar sem rumo
nas ondas desse caos
que em mim se instalou.
Onde está minha poesia,
receptáculo de meus sonhos,
de minhas ilusões?
Onde está minha poesia,
que em silêncio ouvia
minhas lamentações?
«««»»»
Um Rio de lembranças – Tereza
Pereira
Continua. Lindo. O Rio de Janeiro. Do alto,
vejo o Rio em janeiro. O mar de azul. Rio.
Nunca mais. Mais nunca? Salão dourado...
Mármore de Carrara. Cristais checos. Hotel
de tantas estrelas... Leme, Copacabana,
passeio na Barra da Tijuca, programa no Joá,
Ipanema da Garota, Leblon. Coisa aquela.
Moça vir para o Rio para estudar medicina.
Eu, para pagar a faculdade, envolvi-me
negócios ilícitos. Quando me terminasse meu
curso, sairia daquilo, mudaria para longe.
Ficaria livre dos laços. Coisa que nem a
mim afiançava.
Conheci a moça da janela de casa, enquanto
olhava o nada acontecer. Foi num anoitecer.
Então, uma luz clareou a janela da casa da
frente. Ela ensaiava passos de dança,
vestes de dançarina. Músicas de dançar... Me
encheu de vontade. Com ela, rosto colado,
girar num salão de baile. Não somente uma
vez e nada mais. Beija-me muito, como se
fosse esta noite a última vez. Vezes, já
havia escutado o portão ranger nas manhãs,
quando meu repouso noturno nem começara.
Seria ela. Relógio, marca ligeiro as
horas. Vigiar os ponteiros do relógio
aquietava-me. Pela fresta da janela via que
a bela saía, jeito de estudante. Eu estudava
à noite. Negócios, aconteciam nas tardes ou
no depois das aulas. A bela voltaria só,
fim de tarde, carregada de livros... Com
pouca pressa, que a menina não era daquelas
de fins de noite. Soube que seu nome era
Maria Elena. Deixei choros, sambas e
Dolores Duran... A bela ensaiava seus
passos, eu ligava minha vitrola antiga para
fazê-la ouvir “Maria Elena”, “Aquellos ojos
verdes”. Nesses tempos, já cantavam Beetles
e Rolling Stones, garotos como eu.
Percebeu-me numa tarde de sábado. Uma
colega, sentada na calçada de Copacabana
sentia-se mal e ela a abanava com um
caderno. Lance de dados. Puro. Passava eu
nesse momento. Um gentil desconhecido? Quis
saber o que eu fazia, se estudava, se
trabalhava, onde. Omiti coisas. Já havia me
visto, juraria. Da janela, dançava para mim,
pequetita linda, lábios de rubi. E quando,
música alta, debruçava-se sobre livros e
chupava o lápis daquele jeito... Seguia-a
com pernas e olhar enquanto ia pelas ruas.
Olhos verdes-serenos-espertos já teriam me
visto na caça. Providencial encontro.
Casual? Cismo. Por veredas tropicais do Rio
desabrochou um caso. De amor. Intenso,
tempestuoso. De paixão. Minhas noites de
ronda, nenhum endereço, de meus pais não
recebia tostão. Dinheiro, tinha eu sempre.
Como? Estopim das tempestades. Nossos
grandes momentos? Os salões de baile, as
prolongadas caminhadas pelas calçadas de
Copacabana a contemplar o vaivém voluptuoso
das águas prateadas de lua. Ah, passeios
de barco, deleite puro, diante da cidade
iluminada. Beijos, amor com frenesi, como se
fosse cada noite a última vez. A formatura.
O baile aconteceu com todas as pompas num
clube de requinte. O choro da mãe no fim da
festa, que queria tanto exibir a filha
doutora na sua cidade. Nada disso. Maria
Elena ficaria no Rio, já trabalhava num
hospital infantil. Tinha mais que estudar.
Após as festas, Elena recusou meus beijos,
rejeitou meus carinhos. Soubera, nas
vésperas, que eu havia sido preso, acusado
de... Tempo todo negava tudo, quando ela
suscitava suspeitas sobre meus negócios.
Esperou passar a formatura para anunciar que
eu não mais fazia parte de seus sonhos...
Viver com um camaleão? Dizer-lhe que ela
era meu coração, que nosso amor era
infinito... Desnecessário. Nem uma vez e
nada mais. Noite última aquela. O relógio
marcava a hora final. Adeus. Foi seca,
áspera, apesar da intensa luz daqueles
serenos olhos verdes.
Quando me formei, quis sair do Rio. Não nos
víamos há um ano. Se se escondia, se
fugia... Se eu, se ela... Os dois...
Procurei-a no hospital onde trabalhava.
Recebeu-me, sorriso de pérola nos lábios de
rubi. Que me encontrasse lá. Nem imaginam.
Ela chegou vestida de lua. Eu contratara
uma festa. Para dois. O salão dourado,
decoração, muitas flores, orquestra inteira.
Esperei-a no salão principal do “Copacabana
Pálace”, o que concebíamos de mais belo,
charmoso e elegante de hotel no Rio
daquela época. Antes, sonháramos estar lá
dentro e de uma janela olhar o mar. Num
canto, o pianista negro, dentes alvos,
sorriso aberto, tocava “As time goes by”,
tema de “Casablanca”, filme que ela havia
visto mais de algumas vezes. Notei que, ao
som da música, ela tremia, dentro da roupa
prateada, cabelos claros esvoaçantes,
brincos de pedras verdes olhos dela. Havia o
quarto preparado para o final do jantar, o
champanhe, as flores. Ao entrarmos no salão
dourado, a orquestra começou a tocar músicas
de nossos momentos. Dançamos rosto, corpo e
alma colados. Esperei chegar no quarto para
dizer-lhe dos meus, só meus, planos.
Ofereci-lhe o champanhe, ela tirou o chale
cor de lua. Convidei-a para mais uma dança.
No ouvido, um sussurro, sugeri que
partisse comigo para o norte do país, que
havia encontrado um emprego. Falou de amores
por mim, mas não abandonaria o trabalho nem
os estudos por nada. Pedi. Insisti.
Implorei. Estava com a cabeça cheia de
álcool, tomara muito whisky no salão
dourado. E ela me recusava... Odiei- a.
Empurrei-a com força sobre a cama e quis
beijá-la. Tentou se livrar de mim a custo.
Não pôde. Quanto mais gritava, com mais
fúria eu a beijava, chupava, mordia.
Arranquei-lhe as roupas. Deixei-a
inteiramente nua, só os brincos
verdes-olhos. Desvesti minhas calças. Fui
até ao ponto final. Ela gritou, debateu-se
o tempo todo, sorte que ninguém ouviu,
poucos hóspedes naquela hora, que no Rio, a
noite não finda. Jamais soube o que houve
com Elena após aquele momento. Se tivesse
morrido, teria eu sabido pelos jornais...
Quando saí do hotel, peguei um táxi e fui
para a casa de colegas. Semana seguinte
segui para o interior do Pará, dias de
viagem, para trabalhar numa mineração.
Estava já acomodado ao trabalho quando, numa
tarde, um moleque me alcançou com um recado.
Que eu fosse, às cinco em ponto, ao posto
telefônico da vila. Fui. Em ponto, o
telefone tocou no posto. Um companheiro do
Rio me propunha trabalho, coisa para muita
grana, que eu estava no lugar certo.
Desconversei, fiz-me de otário, que havia
saído do grupo, ganhava bem _ que nada.
Sábado seguinte, hora marcada, estava lá
para fazer o serviço. Dinheiro não deu.
Lucro, foram oito anos de cana, lá mesmo no
Pará, que eu não tinha endereço fixo e a
família para mim nem lixava. Pudera...
Diploma para quê? Esses anos foram de
pouca valia. No dia em que fui solto,
mudei-me para o norte do estado. Rio, mais
nunca... Nunca mais? Pelo correio, solicitei
cópia do diploma de engenheiro, que não me
valeu grandes coisas. Trabalho de carregador
em portos de rio, de ceramista em Marajó,
era o que havia. Olhos verdes por lá são
raros. Uma ou outra mulher quebrou minha
solidão. Este requinte destas minhas roupas,
sapatos e maleta de hoje... Elegante
executivo. Eu. Mais. Perversão. Depravação.
Comichão.
No “Tom Jobim” o avião acaba de pousar.
Participo de uma convenção de cúpula..
Negócios diferentes, produtos outros. Pego
um táxi e dou o endereço do hotel na Avenida
Atlântica. O taxista pede licença e liga o
som. “As time goes by”. Como? Arrepio... O
Rio, o “Copacabana Pálace”. Lindos.
Permanecem. A algumas quadras dali, desço
na entrada do hotel moderno onde acontecerá
a reunião à noite. O relógio marca onze.
Enquanto guardo a bagagem ligo o som.
“Aquelles ojos verdes.” Não acredito.
Desligo. Saio. De terno, caminho pela
calçada, sol de janeiro. Almoço em Ipanema.
Entro na Prudente de Morais e dobro a, hoje,
Vinícius de Morais. Vejo. É outro o Rio de
minhas lembranças. Então na Vinícius, vejo
um homem vestido como eu. Está na entrada
de uma “Clínica para tratamento de
deficiências infantis”, prédio novo,
luxuoso. Ao ver-me, mostra-se intrigado.
Parece que olhávamos num espelho, um no
outro. Olhos meus castanhos nos olhos dele,
de um verde conhecido. Não tenho rugas e
semana passada pintei os cabelos de
castanho escuro... Esse fitar de olhos tem a
duração de alguns segundos. Ele entra na
clínica levando uma criança que acaba de
sair de um carro. Ao lado, funciona um
café. Vou até lá, peço água. Pergunto ao
garçom sobre a clínica. Ele conta que
funciona ali há três anos, foi construída
por uma doutora famosa na cidade. Tem um
filho, Augusto, que também é médico. Não
sabe se é viúva, separada, não tem marido
nem homem nenhum. O filho dela havia
acabado entrar com o garoto dele, que passa
as tardes ali. O nome da doutora? É Elena.
Maria Elena, mas todo mundo diz doutora
Elena. Maria Elena, és tu....
«««»»»
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CEN SEMPRE ! |