Revista “Cá Esperamos Nós”

 

Nº 03 – Agosto de 2006

Editor: Carlos Leite Ribeiro

DE ONDE VENHO ? - António Miguel - Ericeira (Portugal)
 
Inquietante pergunta .....
Que permaneces como brisa
Que não se sente,
Mas paira para lá da mente
no conluio duma qualquer poetisa,
Como o vento inebriante
num dia de primavera
conforta, enleia e nos liberta
na busca do segredo
que procuro desvendar, debaldemente ?
Vou no seu enredo,
e quedo-me no infinito do relaxe
nedo e quedo encontro
com razão
o que me vai no coração.
 
Venho das profundezas do infinito
Do tudo e do nada,
Do Amor e da verdade,
Trago comigo a certeza
De que este Mundo ainda é possível,
com verdade e com franqueza,
dar-mos as mãos ,
Comigo vieste nessa mesma missão,
Não esqueças, por incrível
Que o teu e o meu advir
Correm vorazmente para o mesmo provir.
 
Então,
Vamos, não percamos o tempo
Não deixemos que o sofrimento alastre.
Assim,
A morte desaparecerá
A esperança florescerá
A verdade viverá
O amor vencerá
E tu acreditarás,
Também tu,
Que vens do infinito
Que apesar de nu
Es filho do  Universo

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Retrato - Artur da Távola

A dolorosa
e lenta
refeição do velho.
Sopas e papas insepultas
voracidade morta
lassa obrigação de alimentar.

Saliva é cuspe
o cuspe é baba
na dócil refeição do velho.

A lentidão exasperante
de quem come para não morer
e morrerá porém. Só

A dolorosa
e benta
refeição do velho.

A carne insulta-lhe
a indecisão do dente,
dor e cansaço no deglutir.

Tudo é torpor ou gole
na fome sem sabor
da refeição do velho.

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Espera e Atenção - ElaneTomich

Fecham-se tramelas do peito
 e meu coração transborda
 tempo de longo alcance.
Por vezes, minha vez rejeito
 como a quem nada importa.
Mas estou só... Perdida
 nesse lance
do peito.

Defeito
ou  jeito?

Veias tortas
 conduzem certas
 o sangue  de amar
 separado do sangue de sofrer
...
mas minha emoção mistura tudo.
 Não sei estar
em ocasiões  de ficar.
Minha dor tem astúcia
 de codinome, Angústia.
Contudo
 esperarei  sempre o amanhecer
com olhos de entardecer .
 canto cerrado
em peito travado
 e mudo

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A Claridade - Eliane Gonçalves - Rio de Janeiro RJ
 
Desaparece a penumbra
Surge a claridade
Minha alma em calma noite
Busca-te em sonhos

A minha paz é realidade clara
Suave e calma  espero
A simples claridade
Ainda difícil de encontrar

Mesmo na tempestade
Sou a claridade do disparo
Do trovão no céu escuro
Que entra em nossas vidas

Quando luto e venço
Os meus desafios de vida
Paciente sigo e procuro a luz
Busco sempre a urgência do Sol

Sigo muito mais alto
Que a claridade do vôo das aves
Vou ao seu encontro
Na busca do desconhecido

Sou seu equinócio
Trazendo a luz na escuridão
Tornando primavera os seus dias
Como o lírio da Paz

Mesmo na sombra de tua ausência
Danço uma música clássica
Na mais concisa claridade
Do nosso amor

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O Homem da Casa - (Elida Kronig®)

E foi-se o tempo do jantar quentinho
posto na mesa justo na hora do "homem da casa" chegar.
Já faz parte do passado, a época em que a mulher levantava de madrugada
para acalantar as dores dos filhos,
enquanto o homem dormia porque tinha que trabalhar.
Não existe mais aquele ser primitivo que não aceitava um "não" como resposta
quando a mulher não estava a fim.
Acabou-se aquela história de que mulher é piloto de fogão.

O homem perdeu seu espaço, perdeu seu domínio.
Perdeu mais ainda o seu direito de dominar.
Falar mais alto é correr sério risco de ser exposto ao ridículo.
Estão como crianças indefesas indagando-se "o que estou fazendo aqui?"

O marketing do machão não nos serve mais,
a imagem de trabalhador já tomamos pra nós,
o chefe de família tem agora uma sócia na função.
E chatas pra caramba, queremos tudo certinho.

Coitados dos homens!

Eu não invejo a atual posição de vocês hoje em dia.
São meros perdidos num mundo dos esquecidos.

Não ultrapassam mais a "metade".
São a parte do "mínimo".

Viramos as donas de nossos próprios narizes,
somos excepcionalmente competentes em tudo que nos metemos no mercado de trabalho.

Aprendemos a ter e tomar iniciativas.
Desvendamos os complexos mistérios da economia doméstica.
Despojamos completamente os homens de tomarem pra si qualquer direito.
Acertamos do nosso jeito o que já tínhamos e roubamos o que queríamos do mundo masculino.

Vivemos a realidade de saber poder ser o que sonhamos.
De quebra, aumentamos nosso poder de sedução.

Agora com licença.
Dessa vez fico por cima
Porque sou eu, A mulher!

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Porque escrevo - Luiz Eduardo Caminha
 
Porque escrevo?
Escrevo por desejar,
Devaneios a esperar,
Esperanças que almejo!
 
Escrevo, sim! Horas a fio,
Porque a vida, como o rio,
Há de chegar no oceano,
Lago sereno do desengano.
 
Ah! Eu me sentiria inútil,
Ai de mim, se não escrevesse!
Seria simples expressão do fútil,
Por isso poetizo, como se bebesse,
 
Da fonte das letras, que é mel,
Que faz minh´alma atingir o céu,
Infinito véu que me envolve o ser,
Meu ser maior que meu pretenso ter!
  
Post Scriptum, minimus est:
 
Nas linhas, grades de meu caderno,
Escrever me prende, me torna eterno. 
  
Luiz Eduardo Caminha

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Soneto Para Garimpar Sonhos

           ©
Nathan de Castro

Por quantas vezes eu me vi na estrada
a confundir cristais com diamante...
Às vezes, penso que perdi o instante
do apaixonante sonho de alvorada.

Por quantas vezes vi, sem dizer nada,
o brilho de uma pétala distante...
Não fui ao seu encontro e, sempre errante,
vaguei um verso frio à madrugada.

Juntando pedras falsas e sonetos,
sigo a marcar as curvas do caminho...
E cumpro esse meu canto garimpeiro!

Talvez uma pepita entre os gravetos
do tempo, inda me traga à flor do ninho
o encanto de um brilhante verdadeiro!

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Nas linhas dos poemas... - (Olívia Cardoso) - SP Capital

A cada verso...
A cada linha traçada...
Nas linhas dos poemas...
Afasto a distância,
Alivio os meus lamentos,
Navego em  pensamentos
Quero contigo sonhar
Imaginando o seu jeito de me amar
E que nos seus braços possa me acolher,
Lentamente me envolver
Sem pressa, sem promessas...
Sem dor, sem esquecimento...
No mais terno jeito de amar
Curando  a toda e qualquer dor
Eternizando-nos de amor
Nas linhas do poema...
Nascemos do amor!
Vivemos  de amor!
Renascemos!
  através, e por conta...
de um novo...
sincero...
puro...
e...
 maravilhoso
AMOR !

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COLORINDO MEU MUNDO - Renate Emanuele

Vou pincelando minha vida com amor
Nas cores preferidas de meu coração
Tinta à óleo que pinto com a emoção
Com azul pinto o céu de meu Senhor

Com os amarelos pinto minha alegria
São cores emocionantes e divertidas
São também minhas cores preferidas
Convivo com os amarelos noite e dia

O branco é a paz que eu mesma faço
Que é o que mais acredito nesta vida
O viver bem com todos e ser querida
Pois o mundo é apenas meu pedaço

As cores do arco-íris são pigmentos
Que passeiam tingindo minha ilusão
Todas as cores unidas num corrimão
Pelo infinito dos meus sentimentos

Na fantasia de todas estas mil cores
Na tela da vida o pincel mais desliza
Pintando o orvalho e também a brisa
Também colorindo o jardim de flores

Com pontinhos brilhantes cor de prata
Pinto estrelinhas de luz num céu azul
Em diversos tons verde de norte a sul
Vou colorindo a tela com nossa mata

Com preto mágico inserido no pincel
Entre as lágrimas de emoção e amor
Inspirações poéticas vertidas com cor
Vou borrando poesias no alvo papel

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Sobre o amor. – Tonho França

Todo amor é cíclico, de fases, como a lua.
Todo amor morre, todo amor mata
Todo amor tem cios, como a natureza,
Como as fêmeas, como a terra.
Todo amor começa e encerra.
Todo amor tem alma, tem pele, tem cor,
Todo amor inala e exala, amor.
Precisa de cuidados, de versos, de estrelas,
De contos, de surpresas, de sereias.
De sanidade, de sair às ruas, de se atrever,
De ser Cervantes, Neruda, Picasso.
Todo amor antes é pedaço.
Todo amor conspira, delira, vagueia.
Todo amor comunga, tem fé, Santa Ceia,
Tem brilho profundo, sem fundo, maré cheia.
Todo amor é improviso, é sem aviso, é fato.
Todo amor é inexato, é todo, é tato.
É convulsão, confusão, extrapola a medida,
Todo amor é chegada e partida
Todo amor é intuição, carinho, doação,
É caminho, é espinho, é infusão
É mais que um, é comum.
E ao mesmo tempo é solidão.
Todo amor é sagrado, é bendito, é bem-feito,
Todo amor é pródigo, é filho, é pai, é perfeito
É congruente, inerente, é transparente, é a razão,
De sermos, de vivermos, é de Deus, é coração.

 

Tonho França

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Onde está minha poesia? - Antonia Nery Vanti (vyrena)
 
Voou minha inspiração!
Perdeu-se entre as nuvens negras
da desilusão.
Não a encontro mais para minhas rimas.
Meus versos que já eram quebrados,
mais quebrados ainda, ficaram.
 
A fantasia, constante companheira,
que fazia parte de meu dia a dia,
tomou rumo desconhecido.
 
Desencontram-se os sentimentos,
dispersam-se os pensamentos.
 
O romantismo,
minha marca registrada,
desapareceu repentinamente,
deixando-me com a alma vazia
a vagar sem rumo
nas ondas desse caos
que em mim se instalou.
 
Onde está minha poesia,
receptáculo de meus sonhos,
de minhas ilusões?
Onde está minha poesia,
que  em silêncio ouvia
minhas lamentações?

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Um Rio de lembranças – Tereza Pereira


Continua. Lindo. O Rio de Janeiro.  Do alto, vejo o Rio em janeiro. O mar de azul. Rio. Nunca mais. Mais nunca?  Salão dourado... Mármore de Carrara. Cristais checos. Hotel de tantas estrelas... Leme, Copacabana,  passeio na Barra da Tijuca, programa no Joá, Ipanema da Garota, Leblon. Coisa aquela. Moça vir para o Rio para  estudar medicina. Eu, para  pagar a faculdade, envolvi-me negócios ilícitos. Quando me terminasse meu curso,  sairia daquilo, mudaria para longe.  Ficaria livre dos  laços. Coisa que nem a mim afiançava. 
Conheci a moça  da janela de casa, enquanto olhava o nada acontecer. Foi num anoitecer. Então,   uma luz clareou a janela da casa da frente. Ela  ensaiava passos de dança,  vestes de dançarina. Músicas de dançar... Me encheu de vontade. Com ela,  rosto colado,  girar num salão de baile.  Não somente uma vez e nada mais.  Beija-me muito, como se fosse esta noite a última vez. Vezes, já havia escutado o portão ranger nas manhãs, quando meu repouso noturno nem começara. Seria ela.   Relógio, marca ligeiro as horas.  Vigiar os ponteiros do relógio aquietava-me. Pela fresta da janela via que a bela saía, jeito de estudante. Eu estudava à noite. Negócios, aconteciam nas tardes ou no depois das aulas. A bela voltaria só,  fim de tarde, carregada de livros... Com pouca pressa,  que a menina não era daquelas de fins de noite. Soube que seu nome era  Maria Elena.  Deixei choros, sambas e Dolores Duran... A bela  ensaiava seus passos, eu ligava minha vitrola antiga para fazê-la ouvir “Maria Elena”, “Aquellos ojos verdes”. Nesses tempos, já  cantavam Beetles e Rolling Stones, garotos como eu. Percebeu-me  numa tarde de sábado. Uma colega, sentada na calçada de Copacabana sentia-se  mal  e  ela a abanava com um caderno. Lance de dados. Puro.  Passava eu nesse momento. Um gentil desconhecido? Quis saber o que eu fazia, se estudava, se trabalhava, onde. Omiti coisas. Já havia me visto, juraria. Da janela, dançava para mim, pequetita linda, lábios de rubi. E quando, música alta, debruçava-se sobre livros e  chupava o lápis daquele jeito... Seguia-a com pernas e olhar enquanto ia  pelas ruas. Olhos verdes-serenos-espertos já teriam me visto na caça. Providencial encontro. Casual? Cismo. Por veredas tropicais do Rio desabrochou um caso. De amor. Intenso, tempestuoso. De paixão. Minhas noites de ronda, nenhum endereço, de meus pais não recebia tostão. Dinheiro, tinha eu sempre. Como? Estopim das tempestades. Nossos  grandes momentos? Os salões de baile, as prolongadas    caminhadas pelas calçadas de Copacabana a contemplar o vaivém voluptuoso das águas prateadas de  lua.  Ah, passeios  de barco, deleite puro, diante da  cidade iluminada. Beijos, amor com frenesi, como se fosse cada noite a última vez. A formatura. O baile aconteceu com todas as pompas num clube de requinte. O choro da mãe no fim da festa, que queria tanto exibir a filha doutora na sua cidade. Nada disso. Maria Elena ficaria  no  Rio, já trabalhava num hospital infantil. Tinha mais que estudar. Após as festas, Elena  recusou  meus beijos, rejeitou meus carinhos.   Soubera, nas vésperas,  que eu havia sido preso, acusado de... Tempo todo negava tudo, quando ela suscitava suspeitas sobre meus negócios. Esperou passar a formatura para anunciar que eu não mais fazia parte de seus sonhos...  Viver com  um camaleão? Dizer-lhe que ela era meu coração, que nosso amor era infinito... Desnecessário. Nem uma vez e nada mais. Noite  última aquela. O relógio marcava a hora final. Adeus. Foi seca, áspera, apesar da intensa  luz daqueles  serenos  olhos verdes.
Quando me formei, quis sair do Rio.  Não nos víamos há um ano. Se se escondia, se fugia... Se eu, se ela... Os dois... Procurei-a no hospital onde trabalhava. Recebeu-me, sorriso de pérola nos lábios de rubi.  Que me encontrasse lá. Nem imaginam. Ela chegou vestida de lua. Eu contratara  uma festa. Para dois. O salão dourado, decoração, muitas flores, orquestra inteira. Esperei-a no salão principal do “Copacabana Pálace”, o que concebíamos de mais belo, charmoso e  elegante de hotel  no Rio daquela época. Antes, sonháramos estar lá dentro e de uma janela olhar  o mar. Num canto, o pianista negro, dentes alvos, sorriso aberto,  tocava “As time goes by”,  tema de “Casablanca”, filme que ela havia visto mais de algumas vezes.  Notei que, ao som da música, ela tremia, dentro da roupa prateada, cabelos claros esvoaçantes, brincos de pedras verdes olhos dela. Havia o quarto preparado para o final do jantar, o champanhe, as flores. Ao entrarmos no salão dourado, a orquestra começou a tocar músicas de nossos momentos. Dançamos rosto, corpo e alma colados.  Esperei chegar no quarto para dizer-lhe dos  meus, só meus,  planos. Ofereci-lhe  o champanhe, ela tirou o chale cor de lua. Convidei-a para mais uma dança. No ouvido, um sussurro,  sugeri que partisse  comigo para o norte do país, que havia encontrado um emprego. Falou de amores por mim, mas não abandonaria o trabalho  nem os estudos por nada. Pedi. Insisti. Implorei. Estava com a cabeça cheia de álcool, tomara muito whisky no salão dourado. E ela me recusava... Odiei- a. Empurrei-a com força sobre a cama e quis beijá-la. Tentou se livrar de mim a custo. Não pôde. Quanto mais  gritava, com mais fúria eu a beijava, chupava, mordia.  Arranquei-lhe as roupas. Deixei-a inteiramente nua, só  os brincos verdes-olhos. Desvesti minhas   calças. Fui até  ao ponto final. Ela gritou, debateu-se  o tempo todo, sorte que ninguém ouviu, poucos hóspedes naquela hora, que no Rio, a noite não finda. Jamais soube o que houve com  Elena após aquele momento. Se tivesse morrido, teria eu sabido pelos jornais... Quando saí do hotel, peguei um táxi e fui para a casa de colegas. Semana seguinte segui  para o interior do Pará, dias  de viagem,  para trabalhar numa mineração. Estava já acomodado ao trabalho quando, numa tarde, um moleque me alcançou com um recado. Que eu fosse, às cinco em ponto, ao posto telefônico da vila. Fui. Em ponto,  o telefone tocou no posto. Um companheiro do Rio me propunha  trabalho, coisa  para muita grana, que eu estava no lugar certo. Desconversei, fiz-me de otário, que havia saído do grupo, ganhava bem _  que nada.  Sábado seguinte, hora marcada, estava lá para fazer o serviço. Dinheiro não deu. Lucro, foram oito anos de cana, lá mesmo no Pará, que eu não tinha endereço fixo e a família para mim nem lixava. Pudera... Diploma para quê?  Esses  anos  foram de pouca valia.  No dia em que fui solto,  mudei-me para o norte do estado. Rio, mais nunca... Nunca mais? Pelo correio, solicitei cópia do  diploma de engenheiro, que não me valeu grandes coisas. Trabalho de carregador em portos de rio, de ceramista em Marajó, era o que havia. Olhos verdes por lá são raros.  Uma ou outra mulher quebrou minha solidão. Este requinte destas minhas roupas, sapatos e maleta de hoje... Elegante executivo. Eu. Mais. Perversão. Depravação. Comichão.
No “Tom Jobim” o avião acaba de pousar.  Participo de uma convenção de cúpula.. Negócios diferentes, produtos outros. Pego um táxi e dou o endereço do hotel na Avenida Atlântica. O taxista pede licença e liga o som. “As time goes by”. Como? Arrepio... O Rio, o “Copacabana Pálace”. Lindos. Permanecem.  A algumas quadras dali, desço na entrada do hotel moderno onde acontecerá a reunião à noite. O  relógio marca onze. Enquanto guardo a bagagem ligo o som. “Aquelles ojos verdes.” Não acredito. Desligo. Saio. De terno, caminho pela calçada, sol de janeiro. Almoço em Ipanema. Entro na Prudente de Morais e dobro a, hoje, Vinícius de Morais. Vejo. É outro o  Rio de minhas lembranças. Então na  Vinícius,  vejo um homem vestido como eu.  Está  na entrada  de uma “Clínica para tratamento de deficiências infantis”, prédio novo, luxuoso. Ao ver-me, mostra-se intrigado.  Parece que olhávamos num espelho, um no outro. Olhos meus castanhos nos olhos dele, de um verde conhecido. Não tenho rugas e semana passada  pintei os cabelos de castanho escuro... Esse fitar de olhos tem a duração de  alguns segundos.  Ele entra na clínica levando uma criança que acaba de sair  de um carro. Ao lado,  funciona um café. Vou até lá,  peço água. Pergunto ao garçom sobre a clínica. Ele conta que funciona ali há três anos,  foi construída por uma doutora famosa na cidade. Tem um filho, Augusto, que também é médico. Não sabe se é viúva, separada, não tem marido nem homem nenhum.  O filho dela havia acabado entrar com o garoto dele, que passa as tardes ali. O nome da doutora? É Elena.  Maria Elena, mas todo mundo diz doutora Elena.  Maria Elena,  és tu....

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CEN  SEMPRE !