Revista “Cá Esperamos Nós”

 

Nº 06 – Agosto de 2006

Editor: Carlos Leite Ribeiro

VALSE DE RAVEL- Artur da Távola
 
Terá, a valsa,

Entranhas?
Seu viço de alce
Sua alça de vento
Sua ânsia de alçar-se
Na vaga amplidão.
 
Estranha valsa é a alma do vôo!
 
Por fora a mesura
Pior dentro o orgasmo.
Na forma o solene
No miolo o delírio.
A valsa retoma
O pulso de Eros
Parece um cavalo,
Centauro, estupor.
A valsa que é troça
Esconde o fragor
Da gruta nervosa
Na febre do amor.
A luz se mistura
Na dança dos pares
Voando na busca
De pele e de odor.
A valsa dissolve
A carne egoísta
Fazendo revolta
no corpo de um só.
 
Estranha alma é o vôo da valsa
 
A valsa resume
Dois corpos no uno
Que faz a conquista
Do outro no mim.
Voluta
em flama
De dois que são Deus
Fundindo o seu imo
Na esfera do três.
Profusos arquejos
Respiram silêncios
Madurando síncopes
Vibrando sínteses
De amor com tesão.
 
Estranha valsa é o vôo da alma.
 
É corpo que pulsa
A cópula expulsa
Do instante do não.
 
Artur da Távola
(poema publicado no livro Calentura, 1986)

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Madrugada do Adeus - Lígia Antunes Leivas

Madrugada
     profana
     obscura
Fantasmas dançam
     ( - à minha volta?...
       - dentro de mim?...)
Testam meus passos
na melodia espectral deste silêncio
Me perco na dança
Meu corpo balança
A madrugada prossegue... sepulcral
     Me faz insana
Perco meu rumo
... me sumo.

Lígia Antunes Leivas

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Paralelas - Mariete Lanzoni
 
Linha reta, muitas vezes curvas,
Vista grossa, paisagens turvas
Espelho de cristal, imagem sensual
Paralela entre visão agonizante e mortal.
Vejo a vida em alegria do outro lado da rua
Vida triste, vida vazia, nua e crua.
Tento agarrar o sonho, ando dou volta
Mas é uma paralela meu desejo impossível
É uma reta de poesias vazias,
Procurando a entrada, talvez uma saída.
Tento olhar fundo para dentro de mim,
Balanço o corpo, esboço um sorriso arteiro
Vejo só a alegria do outro lado da rua,
Sigo nua entre as esquinas da vida
Fecho os olhos para a despedida,
Abraços, carinhos entre estradas, cruzamentos,
E a cada volta vejo que não encontro nada...
Melhor dar uma parada,
Ver onde essas linhas se cruzam...
Talvez entre curvas, mudam...
São paralelas, assim como a esperança
Que não ensina o caminho dos ventos
Para mudar a rotina dessa andança.
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"TRABALHAR MENOS" - Pedro César Alves

Outro dia aqui sentado,
Ar ligado, som ligado,
E tudo mais que tinha direito...

No PC uma bela canção: Epitáfio.
Devia, portanto, trabalhar menos,
Amar mais, ver o sol se pôr!

Magnífico! Magnífico, rei Carlos!
E nós nos preocupando com coisas pequenas...

Eu me preocupando, e muito,
Com a produção dos meus meros textos.

Aceitar a vida como ela é... Faz parte.
Tem que fazer parte do ser humano que somos.

E, encerrando: o 'acaso'
vai NOS proteger...
(Eu, Você e Nossos Amigos...) - PCA.

saúde irmãos do CEN!
Prof. Pedro César Alves (PCA) - Araçatuba / SP - Brasil.

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Ânsia de viver - Simone Borba Pinheiro
 
Meu tempo, não tem tempo
de esperar por ti.
Por ti que, só enganos somou
aos meus desenganos.
 
A noite fria já não tem mais lua
e eu amor, já não sou mais tua.
Meu corpo hoje, se aquece em outros braços
e, é por isso que rompo todos os laços
com o tempo passado,
que nunca teve tempo para mim.
 
Cansei de esperar pelo vinho
que depois de feito,
já não fazia mais efeito em mim.
Cansei do dia, da noite,
da vida vazia
que se apoderou de mim.
 
Perdoe amor os meus desencantos,
mas hoje só canto
a alegria de viver.
Viver o amor sem pranto,
com outro amor no meu canto,
cantando pra eu dormir!...
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LOUCA SAUDADE – Sónya Monteiro
 
A chuva vai caindo na minha alma
Quando chega de manso o entardecer
E vou esperando uma nova alvorada
Como flor que anseia florescer
Na noite escura procuro uma estrela
Ou luar que me faça entender
O porquê desta estranha solidão
Invadir todo o meu ser
 
Louca saudade
Dor desencanto
Coso os retalhos
Deste meu pranto
Louca saudade
Funda amargura
Parto pra longe
Na minha clausura
 
Do dia em que parti só guardo a hora
E a dor que não consegui conter
E atrás de todo este sofrimento
Não esqueci as horas de prazer
E faço esta longa caminhada
No tempo que demora a passar
Relembrando em tempestade a tarde calma
Anseio o dia em que possa voltar
 
Louca saudade
Dor desencanto
Coso os retalhos
Deste meu pranto
Louca saudade
Funda amargura
Parto pra longe
Na minha clausura
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O TEMPO PASSOU? - Jandyra Adami

Eu não vi o tempo passar
Quando me ponho a pensar, percebo que ocorreram muitas coisas na minha vida. Mudanças, casamento, filho, partidas inesperadas, neto, formatura, doenças, médicos.. Tudo passou e não percebi. Continúo a mesma de antes e quando estou andando pela rua, sinto que continuo elegante como antigamente. Penso que posso arrancar suspiros e deixar corações apaixonados. A cabeça pensa o que já foi... O coração as vezes se inquieta e procuro logo a solução. Imagino: será a idade? Não. Estou inteira, gosto de mim... Meu cabelo impecável, pagem... beleza natural Nunca usei nada nele Só sabonete, naturalmente.. Pele macia, jovem, fresca, saudável.
Chamava atenção Um dia, no trem Vera Cruz um rapaz me chamou para elogiar meus cabelos: "-Que lindos. Nunca vi outro igual..." Parece que foi ontem.. Outra vez, andando pelas ruas do Rio um senhor me chamou pedindo que desfilasse para o Flamengo a fim de conquistar o título de Miss Guanabara. Eu me sentia feliz mas ao mesmo tempo envergonhada porque não achava que tinha chance nenhuma.
Fui muito solicitada, fiz muitas coisas boas. Parece que tudo foi ontem .O tempo não passou mesmo. Que coisa boa...
Mas, a lembrança logo é quebrada , quando entro no meu banheiro onde a parede é toda espelhada. O que? Esta sou eu? Cadê a Jandyra gloriosa que estava dentro de mim agora pouco? Que cabelo feio... Que cara diferente...
Até os olhos diminuiram. Eram tão grandes e verdes? Meus seios já não são tão bonitos, durinhos. provocantes,... A pele está enrugada.. Que é isso meu Deus? Não...não quero me ver assim.
Quero voltar à Idade da Pedra quando não havia espelhos, que quebra o encanto que há dentro de nós. Espelho invejoso, que só mostra os defeitos e nunca a bondade que temos dentro do coração e da alma. Vou quebrar todos. Vocês vão para o lixo.
Quero ser feliz com minha consciência. Quero continuar a criar minha imagem do jeito que eu fui, do jeito que eu quiser.
Quero ser até melhor
Quero acreditar no que diziam, que eu era bonita.
Quero agora, na terceira idade, sentir-me mais confiante e receber os elogios com a certeza de que são verdadeiros. Vou guardá-los em uma caixinha de boas lembranças e preservá-la de tudo e de todos Só eu poderei abrir e me ver, como eu era antigamente....
Do mundo, o que levamos? O que deixamos? Lembranças... Saudades... E eu quero ser lembrada assim, como sinto dentro de meus pensamentos. Quebrem os espelhos. São maldosos.. Só mostram o que está feio, só por fora. O que realmente melhora em nossa vida, o interior, eles não mostram...
"Acordei.. e chorei... pelo mundo que encontrei"(Jr.)
Jandyra Adami

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A MODA, Tito Olívio


 
A moda está ligada indissociavelmente ao poder de compra. Por isso, durante séculos e séculos, a moda era um privilégio dos ricos, dos poderosos. O povo, a arraia miúda, tinha de se amanhar com o que tinha.  Durante o curso de sociologia, li uma lei do século XVII que decretava a pena de morte pela fogueira à mulher do povo que trajasse seda ou veludo, porque era considerada bruxa. Logo, a moda como privilégio da nobreza defendia-se até com a Lei.
Só a partir da Segunda Guerra Mundial a moda começou a democratizar-se e, mesmo assim, por falta de poder de compra generalizado, ela pertencia praticamente à burguesia, em especial à alta e à média.
Não há dúvida que só nas últimas duas décadas o poder de compra se generalizou e, portanto, a moda se democratizou quase completamente. Para isso deu um decisivo contributo a indústria do pronto-a-vestir, que tornou a moda acessível a todas as bolsas, por ter descido os custos da roupa. Nos anos 60, as mulheres ainda mandavam fazer a roupa na modista e os homens no alfaiate, por medida e por modelo, depois de prévia compra do tecido, escolhido de acordo com o gosto de cada um. Agora os modelos serão menos diversificados e os tecidos mais padronizados. Já ninguém se importa de andar vestido como os outros, porque é moda.
A moda tem tal poder sobre as massas, constituindo um espectacular fenómeno de seguidismo social, que até os adolescentes e os jovens se deixaram prender ferreamente na sua teia. Tradicionalmente irreverente e inconformista, a mocidade de toda a sociedade ocidental aderiu incondicionalmente aos “jeens”, aos ténis gigantescos, à fralda da camisa de fora das calças, à camisola de malha atada à cintura, aos mesmos cabelos, ao boné com a pala sobre a nuca. Relegados para os sinais da exteriorização da irreverência e do inconformismo ficaram os adornos metálicos que alguns ostentam nos furos praticados nas orelhas, no nariz, nos lábios, nos sobrolhos e em tantos outros locais impróprios.
A individualidade na sociedade moderna é um mito, porque as leis da moda têm muita força. E a moda anda indissociavelmente ligada ao consumismo. Todas as estruturas sociais, todas as estruturas económicas, giram em torno da máquina consumista.
Na primeira metade do século XX, isto é, até poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, as roupas duravam anos e anos e, na sociedade rural da economia de subsistência, era usada até se romper, de tal forma que não pudesse ser reparada. Nos estratos sociais de poder de compra mais débil, os homens mandavam voltar os fatos, quando eles já tinham perdido o pelo e se apresentavam lustrosos; as mulheres refaziam as roupas com novos modelos e com a adição de golas e outros adornos feitos de tecido novo. Nessa época, a ausência de uma política de segurança social obrigava as pessoas a poupar, a aforrar, porque cada um tinha de constituir, na gaveta ou debaixo da enxerga, um pecúlio salvador, para a possível ocorrência de uma doença ou incapacidade.
Hoje, não é melhor nem pior, é simplesmente diferente. O homem vive a louvar a liberdade, esquecendo-se que, desde o nascimento, leva a vida acorrentado a números de registo e de identificação, da cédula de nascimento ao bilhete de identidade, cartão de contribuinte, cartão de eleitor, chapa de matrícula do automóvel, etc. Julgando-se um ser livre, é escravo, entre outros “senhores”, também da moda.

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Lenda de D. Dinis e de D. Isabel de Aragão

Existem várias lendas dos amores de el-Rei D. Dinis, mas esta escrita maravilhosamente pelo Dr. Afonso Lopes Vieira, é para mim, a mais preferida. Afonso Lopes Vieira, tem a sua Casa - Museu na praia de  São Pedro de Moel (Marinha Grande (Leiria) Portugal, digna de ser visitada

 

"Trovador meu rei, a nossa província é bela: tem o mar, a espessura verde (pinheiros bravos), o campo em flor, e a alta serra. E Coimbra é perto e nossa.

Tem castelos de orgulho, mosteiros de glória com capelas de heróis, e os túmulos onde sonham Tristan e Iseu (refere-se a D. Pedro 1º e a D. Inês de Castro), que nós cantamos.

E estas terras inda são cheias de ti, oh lavrador ! Que imensa brcarola o noso jardim marinho, onde aprendi certos ritmos que ora são de toda a gente.

E que linda lembrança tua é uma terrinha humilde que eu jamais quis ver, perto de outra que te recorda também :Monte Real.

Jamias quis ver essa aldeia vizinha, e, que passeei a cavalo esta província toda, porque ela tem o nome mais belo do mundo: AMOR.

Quero guardar preciosa a mentira da minha fantasia, quando imagino o lugar onde amavas não sei qual das tuas donas.

O povo conta o romance da terra amorosa, daquela eu jamais quis ver para guardar preciosa a mentira do meu sonho:

- Ai flores do verde pinho ! Seria Aldosa ? Grácia ? Marinha ? ou Branca ? Que importa, se todas elas eram rimas de um só cantar.

De Monte Real foras vê-la e nos beijos da sua boca esqueceras que o dia passara e oa lusco-fusco te soltaras delas.

Os beijos de Aldonsa ? de Branca ?. Os beijos de Grácia ou Marinha ? Que importa, se o beijo era um só, em outras bocas beijado !

E pela noite fora adiante cavalgavas, oh com saudades já daqueles beijos, daqueles beijos que quanto mais se davam, mais sede faziam !

E vinhas compondo uma trova em louvor da amiga fremosa, de bem talhada, da louçana e da valida.

Em louvor de Aldonsa ? de Branca ? de Grácia ou Marinha ? Que importa se as suas trovas cantavam mas era o amor !

Mas eis que o longe inxergas uma fila de luzes, e as luzes desciam do castelo e entornavam-se tremeluzindo pelo vale...

Era a Rainha Santa que te esperava com multidão de pagens que erguiam no ar as pinhas (fruto do pinheiro) que ardiam brilhando:

- Senhor (sorriu gravemente a Rainha) cego vindes de amor, e eu vos alumio por que vós não percais ...

Desde então chama-se AMOR a terra que eu jamais quis ver, para guardar preciosa a mentira de seu sonho.

 

E no sítio onde a Santa Rainha falou, fez-se a aldeia de Cégovim, que recorda as palavras da Rainha. Com o tempo, o povo as trocou por Segovim (vila do concelho da Leiria - perto da Marinha Grande).

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CEN  SEMPRE !