VALSE DE RAVEL- Artur da Távola
Terá, a valsa,
Entranhas?
Seu viço de alce
Sua alça de vento
Sua ânsia de alçar-se
Na vaga amplidão.
Estranha valsa é a alma do vôo!
Por fora a mesura
Pior dentro o orgasmo.
Na forma o solene
No miolo o delírio.
A valsa retoma
O pulso de Eros
Parece um cavalo,
Centauro, estupor.
A valsa que é troça
Esconde o fragor
Da gruta nervosa
Na febre do amor.
A luz se mistura
Na dança dos pares
Voando na busca
De pele e de odor.
A valsa dissolve
A carne egoísta
Fazendo revolta
no corpo de um só.
Estranha alma é o vôo da valsa
A valsa resume
Dois corpos no uno
Que faz a conquista
Do outro no mim.
Voluta
em flama
De dois que são Deus
Fundindo o seu imo
Na esfera do três.
Profusos arquejos
Respiram silêncios
Madurando síncopes
Vibrando sínteses
De amor com tesão.
Estranha valsa é o vôo da alma.
É corpo que pulsa
A cópula expulsa
Do instante do não.
Artur da Távola
(poema publicado no livro Calentura, 1986)
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Madrugada do
Adeus - Lígia Antunes Leivas
Madrugada
profana
obscura
Fantasmas dançam
( - à minha volta?...
- dentro de mim?...)
Testam meus passos
na melodia espectral deste silêncio
Me perco na dança
Meu corpo balança
A madrugada prossegue... sepulcral
Me faz insana
Perco meu rumo
... me sumo.
Lígia Antunes Leivas
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Paralelas -
Mariete Lanzoni
Linha reta, muitas vezes curvas,
Vista grossa, paisagens turvas
Espelho de cristal, imagem sensual
Paralela entre visão agonizante e mortal.
Vejo a vida em alegria do outro lado da
rua
Vida triste, vida vazia, nua e crua.
Tento agarrar o sonho, ando dou volta
Mas é uma paralela meu desejo impossível
É uma reta de poesias vazias,
Procurando a entrada, talvez uma saída.
Tento olhar fundo para dentro de mim,
Balanço o corpo, esboço um sorriso arteiro
Vejo só a alegria do outro lado da rua,
Sigo nua entre as esquinas da vida
Fecho os olhos para a despedida,
Abraços, carinhos entre estradas,
cruzamentos,
E a cada volta vejo que não encontro
nada...
Melhor dar uma parada,
Ver onde essas linhas se cruzam...
Talvez entre curvas, mudam...
São paralelas, assim como a esperança
Que não ensina o caminho dos ventos
Para mudar a rotina dessa andança.
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"TRABALHAR
MENOS" - Pedro César Alves
Outro dia aqui sentado,
Ar ligado, som ligado,
E tudo mais que tinha direito...
No PC uma bela canção: Epitáfio.
Devia, portanto, trabalhar menos,
Amar mais, ver o sol se pôr!
Magnífico! Magnífico, rei Carlos!
E nós nos preocupando com coisas
pequenas...
Eu me preocupando, e muito,
Com a produção dos meus meros textos.
Aceitar a vida como ela é... Faz parte.
Tem que fazer parte do ser humano que
somos.
E, encerrando: o 'acaso'
vai NOS proteger...
(Eu, Você e Nossos Amigos...) - PCA.
saúde irmãos do CEN!
Prof. Pedro César Alves (PCA) - Araçatuba
/ SP - Brasil.
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Ânsia de viver -
Simone Borba Pinheiro
Meu tempo, não tem tempo
de esperar por ti.
Por ti que, só enganos somou
aos meus desenganos.
A noite fria já não tem mais lua
e eu amor, já não sou mais tua.
Meu corpo hoje, se aquece em outros braços
e, é por isso que rompo todos os laços
com o tempo passado,
que nunca teve tempo para mim.
Cansei de esperar pelo vinho
que depois de feito,
já não fazia mais efeito em mim.
Cansei do dia, da noite,
da vida vazia
que se apoderou de mim.
Perdoe amor os meus desencantos,
mas hoje só canto
a alegria de viver.
Viver o amor sem pranto,
com outro amor no meu canto,
cantando pra eu dormir!...
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LOUCA
SAUDADE – Sónya Monteiro
A chuva vai caindo na minha alma
Quando chega de manso o entardecer
E vou esperando uma nova alvorada
Como flor que anseia florescer
Na noite escura procuro uma estrela
Ou luar que me faça entender
O porquê desta estranha solidão
Invadir todo o meu ser
Louca saudade
Dor desencanto
Coso os retalhos
Deste meu pranto
Louca saudade
Funda amargura
Parto pra longe
Na minha clausura
Do dia em que parti só guardo a hora
E a dor que não consegui conter
E atrás de todo este sofrimento
Não esqueci as horas de prazer
E faço esta longa caminhada
No tempo que demora a passar
Relembrando em tempestade a tarde calma
Anseio o dia em que possa voltar
Louca saudade
Dor desencanto
Coso os retalhos
Deste meu pranto
Louca saudade
Funda amargura
Parto pra longe
Na minha clausura
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O TEMPO
PASSOU? - Jandyra Adami
Eu não vi o tempo passar
Quando me ponho a pensar, percebo que
ocorreram muitas coisas na minha vida.
Mudanças, casamento, filho, partidas
inesperadas, neto, formatura, doenças,
médicos.. Tudo passou e não percebi.
Continúo a mesma de antes e quando estou
andando pela rua, sinto que continuo
elegante como antigamente. Penso que posso
arrancar suspiros e deixar corações
apaixonados. A cabeça pensa o que já
foi... O coração as vezes se inquieta e
procuro logo a solução. Imagino: será a
idade? Não. Estou inteira, gosto de mim...
Meu cabelo impecável, pagem... beleza
natural Nunca usei nada nele Só sabonete,
naturalmente.. Pele macia, jovem, fresca,
saudável.
Chamava atenção Um dia, no trem Vera Cruz
um rapaz me chamou para elogiar meus
cabelos: "-Que lindos. Nunca vi outro
igual..." Parece que foi ontem.. Outra
vez, andando pelas ruas do Rio um senhor
me chamou pedindo que desfilasse para o
Flamengo a fim de conquistar o título de
Miss Guanabara. Eu me sentia feliz mas ao
mesmo tempo envergonhada porque não achava
que tinha chance nenhuma.
Fui muito solicitada, fiz muitas coisas
boas. Parece que tudo foi ontem .O tempo
não passou mesmo. Que coisa boa...
Mas, a lembrança logo é quebrada , quando
entro no meu banheiro onde a parede é toda
espelhada. O que? Esta sou eu? Cadê a
Jandyra gloriosa que estava dentro de mim
agora pouco? Que cabelo feio... Que cara
diferente...
Até os olhos diminuiram. Eram tão grandes
e verdes? Meus seios já não são tão
bonitos, durinhos. provocantes,... A pele
está enrugada.. Que é isso meu Deus?
Não...não quero me ver assim.
Quero voltar à Idade da Pedra quando não
havia espelhos, que quebra o encanto que
há dentro de nós. Espelho invejoso, que só
mostra os defeitos e nunca a bondade que
temos dentro do coração e da alma. Vou
quebrar todos. Vocês vão para o lixo.
Quero ser feliz com minha consciência.
Quero continuar a criar minha imagem do
jeito que eu fui, do jeito que eu quiser.
Quero ser até melhor
Quero acreditar no que diziam, que eu era
bonita.
Quero agora, na terceira idade, sentir-me
mais confiante e receber os elogios com a
certeza de que são verdadeiros. Vou
guardá-los em uma caixinha de boas
lembranças e preservá-la de tudo e de
todos Só eu poderei abrir e me ver, como
eu era antigamente....
Do mundo, o que levamos? O que deixamos?
Lembranças... Saudades... E eu quero ser
lembrada assim, como sinto dentro de meus
pensamentos. Quebrem os espelhos. São
maldosos.. Só mostram o que está feio, só
por fora. O que realmente melhora em nossa
vida, o interior, eles não mostram...
"Acordei.. e chorei... pelo mundo que
encontrei"(Jr.)
Jandyra Adami
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A MODA, Tito
Olívio
A moda está ligada indissociavelmente ao
poder de compra. Por isso, durante séculos
e séculos, a moda era um privilégio dos
ricos, dos poderosos. O povo, a arraia
miúda, tinha de se amanhar com o que
tinha. Durante o curso de sociologia, li
uma lei do século XVII que decretava a
pena de morte pela fogueira à mulher do
povo que trajasse seda ou veludo, porque
era considerada bruxa. Logo, a moda como
privilégio da nobreza defendia-se até com
a Lei.
Só a partir da Segunda Guerra Mundial a
moda começou a democratizar-se e, mesmo
assim, por falta de poder de compra
generalizado, ela pertencia praticamente à
burguesia, em especial à alta e à média.
Não há dúvida que só nas últimas duas
décadas o poder de compra se generalizou
e, portanto, a moda se democratizou quase
completamente. Para isso deu um decisivo
contributo a indústria do pronto-a-vestir,
que tornou a moda acessível a todas as
bolsas, por ter descido os custos da
roupa. Nos anos 60, as mulheres ainda
mandavam fazer a roupa na modista e os
homens no alfaiate, por medida e por
modelo, depois de prévia compra do tecido,
escolhido de acordo com o gosto de cada
um. Agora os modelos serão menos
diversificados e os tecidos mais
padronizados. Já ninguém se importa de
andar vestido como os outros, porque é
moda.
A moda tem tal poder sobre as massas,
constituindo um espectacular fenómeno de
seguidismo social, que até os adolescentes
e os jovens se deixaram prender
ferreamente na sua teia. Tradicionalmente
irreverente e inconformista, a mocidade de
toda a sociedade ocidental aderiu
incondicionalmente aos “jeens”, aos ténis
gigantescos, à fralda da camisa de fora
das calças, à camisola de malha atada à
cintura, aos mesmos cabelos, ao boné com a
pala sobre a nuca. Relegados para os
sinais da exteriorização da irreverência e
do inconformismo ficaram os adornos
metálicos que alguns ostentam nos furos
praticados nas orelhas, no nariz, nos
lábios, nos sobrolhos e em tantos outros
locais impróprios.
A individualidade na sociedade moderna é
um mito, porque as leis da moda têm muita
força. E a moda anda indissociavelmente
ligada ao consumismo. Todas as estruturas
sociais, todas as estruturas económicas,
giram em torno da máquina consumista.
Na primeira metade do século XX, isto é,
até poucos anos depois do fim da Segunda
Guerra Mundial, as roupas duravam anos e
anos e, na sociedade rural da economia de
subsistência, era usada até se romper, de
tal forma que não pudesse ser reparada.
Nos estratos sociais de poder de compra
mais débil, os homens mandavam voltar os
fatos, quando eles já tinham perdido o
pelo e se apresentavam lustrosos; as
mulheres refaziam as roupas com novos
modelos e com a adição de golas e outros
adornos feitos de tecido novo. Nessa
época, a ausência de uma política de
segurança social obrigava as pessoas a
poupar, a aforrar, porque cada um tinha de
constituir, na gaveta ou debaixo da
enxerga, um pecúlio salvador, para a
possível ocorrência de uma doença ou
incapacidade.
Hoje, não é melhor nem pior, é
simplesmente diferente. O homem vive a
louvar a liberdade, esquecendo-se que,
desde o nascimento, leva a vida
acorrentado a números de registo e de
identificação, da cédula de nascimento ao
bilhete de identidade, cartão de
contribuinte, cartão de eleitor, chapa de
matrícula do automóvel, etc. Julgando-se
um ser livre, é escravo, entre outros
“senhores”, também da moda.
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Lenda de D.
Dinis e de D. Isabel de Aragão
Existem
várias lendas dos amores de el-Rei D.
Dinis, mas esta escrita maravilhosamente
pelo Dr. Afonso Lopes Vieira, é para mim,
a mais preferida. Afonso Lopes Vieira, tem
a sua Casa - Museu na praia de São Pedro
de Moel (Marinha Grande (Leiria) Portugal,
digna de ser visitada
"Trovador
meu rei, a nossa província é bela: tem o
mar, a espessura verde (pinheiros bravos),
o campo em flor, e a alta serra. E Coimbra
é perto e nossa.
Tem castelos
de orgulho, mosteiros de glória com
capelas de heróis, e os túmulos onde
sonham Tristan e Iseu (refere-se a D.
Pedro 1º e a D. Inês de Castro), que nós
cantamos.
E estas
terras inda são cheias de ti, oh lavrador
! Que imensa brcarola o noso jardim
marinho, onde aprendi certos ritmos que
ora são de toda a gente.
E que linda
lembrança tua é uma terrinha humilde que
eu jamais quis ver, perto de outra que te
recorda também :Monte Real.
Jamias quis
ver essa aldeia vizinha, e, que passeei a
cavalo esta província toda, porque ela tem
o nome mais belo do mundo: AMOR.
Quero
guardar preciosa a mentira da minha
fantasia, quando imagino o lugar onde
amavas não sei qual das tuas donas.
O povo conta
o romance da terra amorosa, daquela eu
jamais quis ver para guardar preciosa a
mentira do meu sonho:
- Ai flores
do verde pinho ! Seria Aldosa ? Grácia ?
Marinha ? ou Branca ? Que importa, se
todas elas eram rimas de um só cantar.
De Monte
Real foras vê-la e nos beijos da sua boca
esqueceras que o dia passara e oa
lusco-fusco te soltaras delas.
Os beijos de
Aldonsa ? de Branca ?. Os beijos de Grácia
ou Marinha ? Que importa, se o beijo era
um só, em outras bocas beijado !
E pela noite
fora adiante cavalgavas, oh com saudades
já daqueles beijos, daqueles beijos que
quanto mais se davam, mais sede faziam !
E vinhas
compondo uma trova em louvor da amiga
fremosa, de bem talhada, da louçana e da
valida.
Em louvor de
Aldonsa ? de Branca ? de Grácia ou Marinha
? Que importa se as suas trovas cantavam
mas era o amor !
Mas eis que
o longe inxergas uma fila de luzes, e as
luzes desciam do castelo e entornavam-se
tremeluzindo pelo vale...
Era a Rainha
Santa que te esperava com multidão de
pagens que erguiam no ar as pinhas (fruto
do pinheiro) que ardiam brilhando:
- Senhor
(sorriu gravemente a Rainha) cego
vindes de amor, e eu vos alumio por
que vós não percais ...
Desde então
chama-se AMOR a terra que eu jamais quis
ver, para guardar preciosa a mentira de
seu sonho.
E no sítio
onde a Santa Rainha falou, fez-se a aldeia
de Cégovim, que recorda as palavras da
Rainha. Com o tempo, o povo as trocou por
Segovim (vila do concelho da Leiria -
perto da Marinha Grande).
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