PEQUENA ODE A JOHANNES BRAHMS – Artur da
Távola

A dor em Brahms não é chorosa.
É dolorosa e valente.
O sentimento introvertido de Brahms
Desborda o sentimentalismo
E toca nas raízes do Bem.
A musicalidade de Brahms é a mistura exata
De cultura, inspiração, realidade e
contenção.
A esperança em Brahms é timoneira,
De um rumo que o leva às essências do
homem
A tristeza é sem desencanto.
O humor é para poucos ouvidos
E a profundidade para todos.
A música de Brahms não impõe, propõe.
Não pergunta, diz.
Não reclama mas combate.
O Deus de Brahms vive no ser humano
Mais que nas religiões. E existe.
Brahms não pede , define o que quer.
Não chora: lamenta.
Não tem pena de si mesmo,
Vive da nostalgia do não vivido.
Brahms é amor maduro e fiel
A todos os seus amores.
A rude delicadeza de Brahms
Atinge as alturas do sublime.
Não se entrega ao êxito
Mas almeja a glória que redime.
Brahms é densidade, ternura máscula,
Noites de taberna solitário, independente
e turrão,
A melhor dosagem entre inteligência,
Exigência consigo próprio, emoção honrada
E coragem de Ser.
«««»»»
SEMENTE DE DOR - Lígia Tomarchio

De mãos atadas
nada escrevo
de alto ou
baixo relevo.
Nas arestas e encostas
propostas surgem
urge entendê-las.
De todo não descarto
um momento que tardio
a se impor à vontade
de ser o imaginário.
Criador, criado, criatura
mistura de sonho e realidade
sem idade, eterno
moderno jeito de existir
sem persistir no objetivo
criativo, destrutivo.
Desfruta, a fruta madura,
de sementes viris
férteis pensamentos
antes descartados
agora encarte de revista.
na vista do olho
vê-se a retina
que olha a mente,
esconde verdades.
Ligi@Tomarchio®
«««»»»
Esta poesia....! - Marisa Cajado

Tem dia
Que poesia
Não fica na gente.
É teimosia
Rebeldia
Inclemente.
Digo: Aquieta
Na fresta
Do coração.
Não demora,
Põe cabeça fora
Correndo pra mão.
Sai da ostra
Dá mostra
De realizada
Só acalma
Se toca alma
Triste na estrada.
«««»»»
Meu Sertão - Mônica Serra Silveira
- Fortaleza CE

Como é lindo
o sertão...
Quando vem o
cheiro da chuva,
Quando o
barro resfria nas casas
E tem café
perfumado no fogão"
Já chegando
o inverno...
Como é lindo
o sertão!
A vovó faz
seu bordado,
A criança
brinca de anel
E o
sacristão toca o sino
Pra chamar o
povoado.
Blam-blam-blam-blam!
Como é lindo
o sertão!
O menino do
pirulito
Exibe uma
táboa furada,
A melhor
mercadoria
Na opinião
da garotada.
Olha o
pirulito, quem vai querer?
As mulheres
vão à missa
Como seus
melhores vestidos
Véus nos
ombros
Mão no
queixo
Mostrando a
cara pro céu
E pensando:
Como é lindo
o sertão!
«««»»»
OLHO D’ÁGUA - Nadir A D’Onofrio -
Santos SP

Camuflada, asfixiada,
Nas entranhas da terra mãe,
Decidi me rebelar e à tona aflorar.
Fui surgindo gota a gota...
Clara cristalina.
Tomo a forma de fonte,
Assim...tua sede vou saciar.
Querendo ainda agradar, virei lago!
De sentimentos represada.
Não quero viver assim...rompo as
barreiras...
Jorro...sou cachoeira...
Novamente tentam, minha fúria represar,
Terei que abastecer aldeias, cidades...
Transformaram-me em simples riacho.
Sigo meu curso...cansada,
Quase sem vida...
Deságuo num grande rio,
Sinto-me mais protegida!
Busco uma força maior,
Vou rolando sobre pedras,
Até no mar desaguar...
Agora, sou vagalhão, onda, sal, espuma!
Transmutação mais que perfeita...
Para teu corpo acariciar!
«««»»»
ELE & ELA - Schyrlei Pinheiro -
Rio de Janeiro RJ

Trocam
prazer,
invadindo as muralhas da solidão,
que, nos sonhos, permitem à emoção
dizer: te amo,
adormecendo a cumplicidade,
tentando apenas reviver saudade,
insatisfeita conhecedora da
impossibilidade
que ele e ela eternizam,
venerando, ao pensar,
que a vida é um breve encontro,
sonhando com o bem-me-quer,
relembrando, em par,
tantas dores do passado
que existem, e insistem
em não partir,
unindo sombras de amores
nos novos sonhos de felicidade,
somando amor
com o mesmo sabor de saudade.
«««»»»
PARTISTE - Tito Olívio

Partiste, amor, e nem adeus disseste!
Levaram-te ilusões que eu não te dei
ou ilusões que em ti mesma criaste,
remorso de pecado que inventaste,
porque não pode haver regra nem lei
que proíba as pessoas de se amarem.
Partiste simplesmente, de fugida,
sem dizer a razão dessa partida,
como quem se perdeu no nevoeiro,
seguindo nas pegadas do Destino.
Triste filha da noite em sorte dura,
tacteando a escuridão, sempre à procura
da razão que não achas no caminho!
Assim, te sonho em fuga pela vida,
fugitiva do medo, rumo ao nada,
e eu espero aqui outra alvorada,
pobre de amor, mendigo de carinho.
«««»»»
Lenda de Coimbra
Existem
várias lendas de Coimbra (a terra dos
doutores para as moças os seus
trovadores), mas escolhi esta do Dr.
Miguel Leitão de Andrade, de 1898.
“Em tempos
que ninguém conhece, uma formosa princesa,
residente nesta cidade, era ardentemente
amada por um esforçado cavaleiro. Tinha
este envidado todos os meios para obter a
mão da donairosa donzela, mas em vão o
fizera, porque a tal recusavam os nobres
autores dos dias da bela. O esse tempo,
lavrava enorme terror na povoação em
virtude do aparecimento de uma terrível
serpente que o povo chama Coluber.
A formosa serpente participando do medo
que a todos invadia mostrou desejos de ver
o nauseabundo réptil reduzido à
impotência. Então o ousado donzel
armando-se de coragem atacou Coluber
e matou-a, conquistando assim o coração e
a mão da dama dos seus pensamentos.
Em memória
do acto valoroso do cavaleiro fundou-se
então uma cidade no mesmo lugar que o
réptil fora trucidado, e deu-se a essa
nova povoação o nome de Coluber
Briga que vem a ser a Batalha da
Cobra.
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