Revista “Cá Esperamos Nós”

 

Nº 08 – Agosto de 2006

Editor: Carlos Leite Ribeiro

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Revista "Cá Esperamos Nós" em Divulgação directa para 23.307 e.mails autorizados (não estão incluídos os Autores CEN), para:


Escritores – Poetas – Jornalistas – Editores – Livreiros – Bibliotecas (desde as municipais às universitárias) - Embaixadas – Consulados – Corpo Diplomático – Políticos – Empresários -  Rádios – Televisões – Jornais – Revistas - Universidades – Escolas (incluindo as Superiores) – Institutos – Professores (de várias áreas) – Outros Licenciados de várias áreas - etc. , etc.


Uma nova revista do CEN, onde todos os Autores do CEN são benvindos !

 

Revistas do CEN  já no ar - Confira em :

 

 

 

 

             Revistas em "Cá Estamos Nós" :  índice
 

 

LUTA INTERNA - Arlinda Lamêgo
 
Tímida luz de vela tremula e assim luta
Contra o frio do vento e a fina chuva.
No deserto gelado que em mim existe.
Traz a chama de amor, em si persiste.
 
Veste-me a alma em seu sopro tépido
Calçam-me os pés em sombra de ébano
Escreve a proposta de novo a viver.
E novo parágrafo, de vida-em-prazer.
 
Frases se despertam, sem se esconder,
Ousam no verbo o texto a escrever.
É como uma prece, encho-me de cores.
 
Sem trevas, vejo brilho de sol e luar.
Venço, magnânima, as lutas das dores.
O meu mundo colore e aprendo a amar.

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     Caríssimo Carlos Leite Ribeiro
Parabéns pelas atuais iniciativas e novidades no PORTAL, principalmente a criação da Revista "CÁ ESPERAMOS NÓS", que certamente dará nova dinâmica no já dinâmico Portal CEN. Parabenizo também pela felicíssima escolha de Blumenau, SC, para sediar o III Encontro de Escritores em 2008. 
Agradeço a oportunidade de divulgar um trabalho meu, segue em anexo, nesta pioneira revista.
Abraços fraternos
Edir Meirelles

POEMA TELÚRICO (*)  - Edir Meirelles
  
Meus sonhos são infinitos
trabalho
e brinco com as formigas
brinquei com o mangue, com granitos
e lamabrinquei
cavalguei corcéis de argila
e o boi alado
formei e comandei exércitos
poderosos
mergulhei fundo nas raízes da cultura
fui ao encontro de  meus antepassados
convivi com Zumbi dos Palmares
aprofundei discussões com o Conselheiro
lutei ao lado de Poti
descobri a incrível força telúrica
dos heróis populares
peregrinei nas caatingas do sertão
travei combates sérios e desiguais
amei guerrilheiras fogosas
disparei a metralha contra espantalhos
ombreei-me com os lendários Lampião
e Maria Bonita
tomei do padre Cícero a bênção
discutimos os caminhos do homem
a moderna igreja libertadora
a questão agrária
sonhei com a redenção humana
suas diretrizes e sementes
no eito da cana-de-açúcar
comi restos dos bóias-frias
acampei ao lado dos sem-terra
e senti a chibata da repressão.
Ainda encontrei tempo para amar
e perpetuar-me. 
(*) Do livro POEMAS TELÚRICOS
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PITADAS - Eliane Arruda – Fortaleza CE
 
Retorno aos tempos idos não faz mal,
Recheia a beleza das manhãs,
Mormente se de um sonho auroral
Com flores alvadias e brilhantes.
 
Da cantilena de um longe passado,
Sorvemos as histórias da infância,
Com brincadeiras, danças, muitos saltos,
Ainda sem achar o mundo infame.
 
Nas rosas do sol posto encontramos
Amores que se foram e deixaram
Perfumes e saudades tantas, tantas!
 
As crises de retorno só têm frutos,
Se forem passageiras, não ficarem
Na nossa existência feito cruzes!

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MALDITO AMOR - Lena Ommundsen
 
Ardente como vulcão,
mais profundo que a tormenta.
Do abismo os horrores,
sofrerei sem teu amor.
Imploro-te que me voltes,
estou sofrendo, alma sedenta
quero um pouco do teu ser,
para acalmar a minha dor.
 
Sem teu corpo sucumbirei;
vem, desceremos aos infernos.
Neles padeceremos após orgia
e pecaremos sem perdão.
Que nos importa se o Senhor
nos enviar castigos eternos.
Se meu corpo arde em fogo,
se meu amor já é perdição.
 
Imploro-te que me voltes...
ou te maldigo, maldito amor!
Vem, homem por quem pulsou meu coração!
Maldito Homem! Maldita dor!!

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Na proa da vida - Luiz Eduardo Caminha
  
No ébano, as estrelas cintilam,
Faíscam, como luzeiros na noite;
Ao mar, marujos vagueiam, fitam,
O frio do inverno nos é um açoite.
 
Minha nau cruza mares bravios,
Singra a foz contra pororocas,
Adentra à corrente dos rios,
No plácido lago desemboca.
 
Meu rumo hei de seguir sem medo,
Derrotas, vitórias, conquistas,
Na proa da vida, engano ledo.
 
Num porto seguro, eu me vejo,
Busco lugar pra cansadas vistas,
Deitar num colo, roubar um beijo.

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Trovas - Nei Garcez-Curitiba-Paraná-Brasil.

1) A nossa fisionomia,
revelada no facial,
de tristeza ou de alegria,
é um idioma universal.

2) Quem esquece da saúde,
entregando-se a bebida,
tem por prêmio um ataúde
e uma herança dividida.

3)A educação é processo
de maior utilidade
para integrar, com sucesso,
todo ser na sociedade.

4) Pra evitar um acidente
atenção tenho que dar,
dirigindo mais consciente
sem usar meu celular.

5) A poetisa que poetiza
os seus poemas preferidos
só por eles se eterniza
ao passar dos tempos idos.

6) Quando uma mãe amamenta,
com seu leite maternal,
enquanto ao filho acalenta
cumpre a lei universal.

7) Na escalada de um edifício,
num mergulho mais profundo,
seu trabalho é um sacrifício
pra salvar vidas no mundo.

8)Só é livre de verdade
quem conhece o seu caminho
pra pensar com liberdade,
mas pensar por si sozinho.

9) Quem namora a vida inteira,
com a mesma namorada,
numa mão tem a bandeira
e na outra a sua amada.

10) Amizades que são boas
e atitudes tão singelas
é gostarmos das pessoas
bem assim como são elas.

Nei Garcez-Curitiba/PR/Brasil

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Labirintos no destino nordestino: algumas veredas e interlocuções  - por Tchello d'Barros*


 
Na condição de artista catarinense, neo-nordestino radicado em Maceió, visitava recentemente o bairro do Pontal, muito procurado por turistas por sua profusão de artesanias têxteis, nomeadamente as rendas de Filé, Renascença, Redendê e Labirinto. Num primeiro momento foi inevitável comparar as ricas peças com aquelas produzidas pelas rendeiras da Ilha de Santa Catarina - lugar também muito conhecido como Florianópolis, ou apenas Floripa. Tal reflexão não rendeu muito, mesmo quando tentei comparar os desenhos com as padronagens geométricas da tecelagem de Jacqard, desenvolvida com tecnologia de ponta, na germânica cidade de Blumenau, também situada naquele estado do Sul, e que nesta edição do Rumos Visuais Itaú revelou a obra de Suzana Pabst. 
Mas entre um devaneio e outro, o que me chamou a atenção mesmo foi as intrincadas linhas geométricas da técnica do Labirinto, cujo entrelaçamento de fios desafia a acuidade visual do observador leigo, produzindo uma breve vertigem, como aquela que se pode sentir ao observar as obras do artista visual alagoano Delson Uchôa, expoente da chamada Geração 80, cujas imagens dialogam com temáticas e iconografias regionais, apresentando uma complexidade matemática e cromática que põem em xeque as atuais conceituações sobre a permanência da pintura no campo da arte contemporânea. Mas isso já é outra história, já que sempre aparece alguém querendo anunciar a morte da pintura. 
Mas a divagação com a renda artesanal me remeteu ainda à outros labirintos, inicialmente à produção plástica dos artistas paraibanos Alice Vinagre e Sidnei Azevedo, e depois ao inevitável argentino universal Jorge Luís Borges, com sua prosa e poesia aludindo às emblemáticas 'veredas que se bifurcam'. Se na obra daqueles a abordagem do tema se dá na obra visual, em Borges o tema, de início literário, se amplia para o campo da própria vida, conceito que para nós permanece atual pela multifacetação do indivíduo nestes tempos de metamodernidade, onde o labirinto reaparece como possível metáfora, pois se não explica a fragmentação da realidade nessa era de hiper-informação, nessa idade-mídia, ao menos abre novas passagens e caminhos para a produção visual no âmbito da contemporaneidade. 
Naquela mesma tarde, ainda imerso nestas questões, agora degustando um licor de genipapo, acompanhado com um apimentado caldinho de sururú, lembrei que por esses dias estaria acontecendo na capital alagoana uma oficina de arte contemporânea com a curadora - também paraibana - Cristiana Tejo. Esse fato por si só já abre outra vereda não menos labiríntica: considerando-se que Alagoas vive à margem de um circuíto brasileiro da arte contemporânea, que meandros foram se desenhando para que os artistas alagoanos recebessem na cidade uma crítica de arte e curadora sintonizada com as atuais correntes estéticas e poéticas dentro e fora do país? Para tentar elucidar um pouco, lembro que, em companhia da alagoana Ana Glafira, tivemos um primeiro contato, com o Dyógenes Chaves - outro paraibano! - numa teleconferência no Serpro, em Recife, onde também conhecemos o pernambucano Bruno Monteiro, hoje titular da Câmara Setorial de Artes Visuais, sendo que reencontramos ambos depois na Funarte do Rio de Janeiro e mais tarde na Funarte de Brasília. Ainda no Serpro, fizemos contato com os recifenses Rodrigo Braga e Beth da Matta, entre outros artistas. Logo mais Bruno nos apresenta para Raúl Córdula, da ABCA  - outro paraibano, mas radicado em Olinda - que posteriormente assina um texto para uma exposição fotográfica de Glafira, no Museu Murillo La Greca, dirigido por Beth, em pleno SPA 2005, este coordenado por Rodrigo. 
No mesmo SPA Semana Pernambucana de Artes, participávamos da oficina de Gravura no hospício da Tamarineira, em Recife, ministrada por Dyógenes e por mais um paraibano, o fotógrafo Rodolfo Athayde, oficina em que as classes eram mescladas entre artistas e usuários do hospício, uma maravilhosa loucura, projeto criado também por Raúl. Ainda no hospício, conhecemos Fernando Neves e Lu Carvalho (alunos da oficina, não usuários!) da Galeria Arte Plural, de Recife, onde posteriormente apresentamos uma projeção de fotografias de arte no evento mensal Terça-foto, mediado na ocasião por Maria do Carmo Nino. Neste evento da Arte Plural conhecemos a pernambucana Suzana Azevedo e a curadora baiana Viga Gordilho, autora da instalação processual e itinerante "Afetos Roubados no Tempo, e depois desse contato, ambas seguem para Maceió, apresentam a mostra no Museu Théo Brandão e Viga ministra também oficinas de 'Poéticas Visuais Contemporâneas".  
E o labirinto se amplia: Dyógenes e Rodolfo nos recebem em João Pessoa, quando expusemos no III Salão da Gravura no Fenart, onde reencontramos Raúl, Bruno e Cristiana Tejo, que conhecemos ao fazer o curso História da Arte da Fundaj, onde ela é titular do setor de artes visuais. Nesse encontro em João Pessoa, onde também participou Ricardo Resende, do Centro Dragão do Mar, em Fortaleza, lembro que se discutiu muito a idéia de se fortalecer uma corrente com ações de intercâmbio para o setor das artes visuais no eixo Nordeste. No mesmo evento, por um atraso no hotel, topamos com Rubem Grilo, e conhecemos sua exposição "Arte Menor". Não demorou muito para o mestre xilogravurista aterrisar em Maceió, com uma conferência, um curso sobre xilogravura e sua exposição no Centro Cultural e de Exposições. No mesmo Fenart, além do contato com Fernando Cocchiarale, a Maria Botelho, do Casarão 34, nos apresentou para Hugo Peregrino, do Centro Cultural de São Francisco, instituição que ora apresenta nossa exposição Diálogos Foto-poéticos - Fotografias de Glafira e ideogramas de Tchello - e que já passou pela Pinacoteca da Ufal em Maceió e pela Galeria Capibaribe da UFPE, onde fomos recebidos por Maria do Carmo Nino, exposição que contou com textos críticos do alagoano Francisco Oiticica-Filho e do pernambucano Mário Sette, do IAC Instituto de Arte Contemporânea, ligado à UFPE. O mesmo Hugo Peregrino, recebe ainda este ano outra mostra nossa, desta vez no NAC de João Pessoa, instituição que passou por ampla reforma e teve como um dos fundadores nosso já citado Raúl Córdula.   
A mesma exposição no Centro Cultural de São Francisco, conta com textos das cariocas Nadja Peregrino e Ângela Magalhães, e também com texto de Cleomar Rocha, de Salvador, atual presidente da Anpap - Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas, cujo encontro nacional este ano contará com uma mesa-redonda promovida por Glafira em torno de questões de editais de estatais e assuntos relacionados com a economia da cultura, ao passo que concomitantemente mostraremos obras inéditas na Galeria Ebec, leia-se Matilde Matos, também da ABCA, onde estaremos levando outros artistas alagoanos, que têm se mobilizado no sentido de uma renovação da produção visual na região, de uma ocupação em condições profissionais dos espaços expositivos e de uma programação que forme e informe a geração atual sobre as transformações rizomáticas do campo da arte contemporânea. Como referência podemos citar as ações desenvolvidas pelo recente Fórum de Artes Visuais de Alagoas, visando também desenvolver localmente a crítica de arte, e também o projeto Corredor das Artes, liderado por Fredy Correia. São novos labirintos que estão se formando dentro de um labirinto maior, com caminhos de futuro ainda incerto mas que aos poucos estão se estabelecendo e abrindo interlocução com artistas e profissionais dos estados vizinhos, sejam do âmbito acadêmico, das instituições ou mesmo do mercado. 
Olhando agora essa peça de rendas de Labirinto, com seus padrões geométricos intercruzados, que me aludem à rede de artistas, críticos, curadores e produtores culturais que vem se encontrando e estabelecendo laços, parcerias e também dinamizando um intercâmbio regional, divago sobre como esta malha de relações estará se costurando em cinco ou dez anos, em que proporção se darão tais ações culturais e qual a amplitude dos caminhos deste inextrincável labirinto que ora vem se construindo no circuíto das artes visuais no Nordeste.
(*Tchello d'Barros é escritor e artista visual. - Autor de Letramorfose, entre outros, e ministra oficinas literárias e cursos em artes visuais.

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A Lenda de Orelhão – Dr. Xavier Fernandes – 1944

 

“Em tempos idos, que entrou na tradição, um emir árabe vivia na serra hoje chamada de Santa Comba e por ser fronteira à povoação que deu a Mirandela de hoje, dizia ele estar à mira dela.

Fantasia ?

Comba era uma recatada lavradeirinha, que teve a má sorte de aquele chefe mouro a encontrar com o irmão no amanho de um campo.

Pretendeu-a primeiro a bem, depois à força. Neste último lance, matou o irmão e degolou-a depois.

Hoje existe uma povoação a vinte e um quilómetro, chamada Lamas de Orelhão, que decerto é adulteração de Lágrimas de Orelhão, as choradas por ele, arrependido do seu negro feito contra a pobre Comba”.

Mas o topónimo Mirandela, evidentemente não provém de à mira dela nem de mirando ela, mas como se conta numa variante da mesma lenda, pois não é mais do que um derivado de Miranda, com um sufixo diminutivo … Mirandela tem, pois, o significado de Miranda pequena.

 

Nota: Os enchidos com nome de “Alheiras” é uma especialidade de Mirandela. É um produto de origem judia, pois em vez da carne de porco, os judeus enchiam com carne de aves.

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