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Revista “Cá Esperamos Nós”
Nº 09
– Agosto de 2006 |
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Editor: Carlos Leite Ribeiro |
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SONETO DA SABEDORIA - ARTUR DA TÁVOLA
- 
Saudade é lúcida
Ensina verdades boas
Perda é arguta
Ajuda a julgar.
Morte é glória
Ensina o sido, sendo.
(Dava tudo pra descobrir o que sou
Vendo-me visto depois da morte.)
As pessoas se separam
Para antever em vida
O que delas será dito depois.
O morto ajuda a percepção
O vivo embota a clareza
Morrer é esclarecer
«««»»»

SER POETA - Eliane Arruda - Forteza CE
Ser poeta é converter o
sentimento
nas notas coloridas da canção...
É soluçar em verso e poema
o que a alma sente e se atormenta.
É rir com as estrelas ou chorar
com o dia se tornando nevoento,
amar as invenções do Criador
até uma andorinha alçando vôo...
Ser poeta e encantar-se com o luar,
sonatas dedilhadas pelo mar,
cobrir a alma com os mesmos tons,
os tons que cobrem o céu da primavera.
Ser poeta é procurar a vida inteira
um sonho com as cores divinais,
buscá-lo nos ramais da poesia,
envolto em cintilações e ais,
prender-se à alvura do espírito,
às coisas que prometem algum alívio.
É entristecer o frágil coração,
diante do flagelo do irmão
e dar eterna voz a uma viola,
cantar o que lhe sopra algum vexame.
Ser poeta é achar vida
nos instantes.
«««»»»

DISSONÂNCIA - Elane Tomich
Entre eu e a dissonância
com os acontecimentos de fora
há um cinismo da vida?
Tranquei todas as possibilidades
da palavra em consonância
com os absurdos da hora,
que trouxessem especulações
sobre quaisquer veleidades,
amor-em-pedaços-ilusões.
Corria a vida lá fora
num dia estancado aqui dentro.
O céu estrelas varria
e a chuva molhava o riso.
Estava ali meu receio
de existir num sim conciso
confinado no recheio
das coisas sem importância
como os pecados per capita
da vida fora de si
adentrando -me afora
e as duas, eu e a vida,
engravidadas de horas.
Um diz que me diz
versa,
sobre acertos da conversa
nas dores dos bastidores.
A vida fora de mim
achando-me pouco apta
pagando juros de mora
num verbo mal conjugado
eu, sujeito que não capta
o objeto largado
num verso encarcerado.
A escrita que houve aqui
comprova que eu vivi.
Pertenço a uma tal saudade
feita de pontos de gente
reta sinuosa, serpente,
se dizendo humanidade.
«««»»»
CRIADOR - por Luiz Eduardo Caminha
-

Voa pensamento, voa;
Procura nos píncaros
Dos montes.
Na imensidão infinita
dos céus, do Universo.
No infinito imenso
Que é mar.
Busca na magnitude
Das florestas...
E, quando de voar,
cansares,
Repousa tua luz,
Na perfeita harmonia
Dos seres;
E reconheças :
Há uma obra,
Onde permeiam as criaturas,
Onde reina um Criador !
«««»»»

Despedida Sem Abraço - Marise Ribeiro
Errante..., solitária, com a
esperança esmagada,
atravesso a amargura das noites frias...
Ecoam no peito os segredos da escuridão,
purgo da ausência as dores..., as fobias,
a consciência pesa, a alma chora...
Por que reneguei teu abraço quando foste
embora?
Este deserto secou minha ternura...
O desejo cada vez mais impiedoso
soterra-me nas dunas arenosas da quentura...
Longe de ti mais árida ficou a vida...
Procuro a sombra, mas só encontro os
abutres...
Por que reneguei teu abraço na hora da
despedida?
Dele poderia ter tirado o agasalho,
para suportar o vento gélido das madrugadas
ou quem sabe a aragem refrescante,
para mitigar as feridas que doem,
latejadas...
Por que não entendi quando me estendeste os
braços
com um olhar de que ainda valia a pena
seguir adiante?
Marise Ribeiro Rio de Janeiro RJ
«««»»»
Entrevista a Carlos Leite
Ribeiro -

Formato jornalístico de:
Mónica Silveira
– Fortaleza CE - Brasil
(Escritora e Jornalista da TV - Ceará -
Brasil)
Jornalista e escritor, Carlos Leite Ribeiro
é uma das grandes expressões da
intelectualidade portuguesa. Ele é o
fundador de um dos mais visitados portais da
atualidade, o "Cá Estamos Nós", sendo autor
de várias e talentosas obras virtuais,
incluindo uma sobre o Rio de Janeiro, onde
conta sua visita à Cidade Maravilhosa, na
altura sem ainda a conhecer . Português
ilustre, Carlos Leite Ribeiro produziu
muitos textos e pesquisas sobre a história,
a cultura e a paisagem lusitanas, assim como
a brasileira. Em cada um desses escritos
podes perceber o imenso amor e respeito, que
ele devota a terra natal, e o amor especial
que tem pelo Brasil. Com um pé no passado e
outro no futuro, Carlos Leite faz do
presente um rico momento. Quando leva sua
sabedoria e a de seus amigos, através da
Internet para pessoas de todo o mundo,
Carlos abre uma grande porta para o
conhecimento e a informação. É, portanto,
uma grande honra entrevistá-lo e saber mais
sobre seu trabalho e sua vida.
Perguntas:
Mônica: - O Carlos conseguiu criar um
portal luso-brasileiro extremamente visitado
e elogiado, justamente por seu formato
dinâmico, bem cuidado esteticamente e muito
informativo, como conseguiu chegar a esse
modelo?
Carlos:- O "Cá Estamos Nós" começou a ser
planeado (planejado) em princípios do ano de
1998 e começou a funcionar a 15 de Julho do
mesmo ano. Tive o cuidado de fazer um
trabalho que se diferenciasse do que então
era feito na Internet. Nunca procurei ser o
melhor, mas sim, ser do grupo dos
diferentes, falando, evidentemente, da parte
literária. Tenho a meu cargo, além de
escritor e crónista, a sua divulgação e a
divulgação dos trabalhos literários dos
Autores do CEN. Neste momento estamos com
uma divulgação de 23.307 de e-mails
autorizados, de entidades oficiais e
particulares, para todo o mundo Lusófono e
núcleos espalhados pelo Mundo. Deste número,
4.163 emails, são de bibliotecas, desde as
municipais às universitárias. É com esta
enorme divulgação directa que divulgo os
Autores do CEN e suas obras. Temos grandes
webmastrs como o Henrique Lacerda, a Elaine
S. Rosa e a Iara Melo, que muito trabalham
com amor à camiola e à literatura.
Mônica: - A obra virtual é para a literatura
o que a televisão é para o teatro?
Carlos: - O teatro beneficiou muito da
divulgação feita através da televisão,
assim, como a literatura, tem beneficiado
muito com a divulgação que a Internet lhe
tem feito. Em certas situações, já se nota
uma simbiose quase perfeita e que agrada a
ambas as partes.
Mônica: - Como foi romper o preconceito pela
novidade, no caso a literatura virtual?
Carlos: - Gradualmente, esse rompimento
tem-se dado. Os escritores, mesmo os de
renomado nome, já verificaram que já não
podem prescindir da divulgação através da
Net. Muitos deles, já estão a editar livros
electrónicos em paralelo com os
tradicionais. Os escritores menos
conhecidos, que em muitos casos, têm as suas
obras esquecidas nas prateleiras das
livrarias, estão a notar que para seu nome e
principalmente suas obras literárias serem
conhecidas e apreciadas em todo o mundo, só
através dos livros electrónicos ( e.book). É
uma realidade, pois muitos e bons
escritores, até para saltarem barreiras
geográficas (não falando de outras), só
conseguem através da Internet. Um amigo meu
e apreciável escritor, tem muitas vezes este
desabafo: "A Internet é um mal necessário
para a divulgação do escritor …".
Mônica: - O portal consegue fazer livros
virtuais muito atraentes, complementados
por ilustrações, fotos e músicas
adequadas. Este é um dos segredos do sucesso
nessa área?
Carlos: - Os livros electrónicos são feitos
pela Iara Melo, pelos mais modernos
processos, aliados ao seu reconhecido bom
gosto estético. Mas o segredo do sucesso,
passa muito pela divulgação que temos
oportunidade de fazer. Os livros
electrónicos como os impressos, se não
tiverem grande e creditoriosa divulgação,
ficaram sempre áquem das perspectivas dos
escritores. Nós, conseguimos aliar o
magnífico trabalho do webmaster, com a nossa
profunda divulgação.
Mônica: - Sabemos que o Carlos tem hobbys
muito interessantes, como ler, escrever,
ouvir música e passear a pé. O portal
Cá Estamos Nós com certeza ocupa
diariamente um longo tempo de sua Vida?
Dá para manter os velhos hábitos ou
muita coisa mudou?
Carlos: - Trabalho diariamente, entre 12 a
16 horas, incluindo sábados, domingos e
feriados. Raramente posso gozar férias.
Grande parte destas horas, são dedicadas ao
Portal CEN – "Cá Estamos Nós", que digamos,
é o meu principal hobby, e por sinal, muito
caro ! Continuo a ler, a ouvir música e
noticiários enquanto escrevo. Todos os dias
dou o meu passeio pedestre, embora mais
reduzido que anteriormente, por manifesta
falta de tempo. Os velhos hábitos sem
mantêm, embora, digamos, de maneira mais
racional. Nem podia ser de outra forma !
Mônica: - Falando em hobbys como a
leitura, quais os seus autores e obras
preferidas?
Carlos: - Gosto dos clássicos do século XlX,
nomeadamente os portugueses e os
brasileiros. As obras preferidas, são
aquelas que relatam factos e figuras
históricas. São estes a principal base de
dados para o meu trabalho.
Mônica: - Seus livros costumam falar
detalhadamente sobre as belezas, cultura e
história de Portugal (e também do Brasil).
Hoje no mundo esse patriotismo vem
diminuindo, o Carlos concorda ser
necessário que isso seja retomado?
Carlos: - Concordo que é necessário, mas com
o ensino reformulado. Todos os países têm os
seus heróis e mártires, mas que devem ser
analisados no estrito contexto da época em
que se deram os factos e os actos. Analisar
à lupa do século XXl, factos passados no
século XV ou anteriores ou posteriores, não
é correcto. A História é necessária para
sabermos o que fomos para podermos saber o
que somos.
Mônica: - Quais são os próximos planos
para o remodelado portal ?
Carlos: - O novo Portal CEN - "Cá Estamos
Nós" está sempre em evolução e actualização.
Temos alguns projectos para um futuro
próximo, mas estamos muito condicionados ao
factor financeiro. Se conseguissemos um bom
sponsor …
Mas contamos ser sempre fieis ao que nos
propusemos fazer: divulgar dentro das nossas
possibilidades, todos os Autores e suas
obras não conhecidos do grande público,
embora, com valor literário. Também contando
com os grandes amigos da Liga dos Amigos do
Portal CEN - "Cá Estamos Nós"
Mônica: - E em relação a sua carreira como
escritor ?
Carlos: - Neste momento e devido a
acontecimentos inesperados, a minha carreira
de escritor, digamos, está um pouco parada.
Conto retomá-la nos princípios do próximo
ano. Na caverna do meu cérebro, tenho
projectos interessantes que conto poder
dar-lhe vida.
Mônica: - Para encerrar essa deliciosa
entrevista, uma mensagem sua para leitores e
amigos.
Carlos: - Começo por agradecer a
oportunidade que a Mônica Silveira me dá,
além de agradecer-lhe a gentileza da sua
entrevista. Aos leitores e amigos, o meu
muito obrigado pelo carinho e consideração
com que sempre me distinguiram. Desde os
catorze anos, quando comecei a trabalhar no
jornal "O Comércio", responsável pela coluna
tri-semanal "Factos e Figuras que deram nome
a Ruas de Lisboa", aprendi a respeitar os
amigos (considero-me amigo do meu amigo) e
leitores, que sempre me respeitaram e me
acarinharam. Um Bem-Haja a todos !
«««»»»
O ESTATUTO SOCIAL, Tito Olívio
- 
Não é legítimo escalonar a
nossa sociedade por “classes”, porque é
coisa que já não existe. Ela é escalonada,
sim, por “estratos”, de acordo com
determinadas características, onde se
inclui, evidentemente, o dinheiro, mas não
apenas ele. Se não somos todos iguais, é
porque somos diferentes, nos hábitos, nos
costumes, nos conhecimentos adquiridos, na
maior ou menor facilidade em poder comprar
coisas supérfluas, nos valores e padrões a
que se dá importância, etc. Somos
“culturalmente” diferentes, onde a palavra
“cultura” não significa conhecimentos
adquiridos, mas um estatuto da pessoa
perante as pessoas e a sociedade, resultante
de uma “culturação”, quer em criança, quer
no próprio meio onde se vive. Então, hoje a
divisão da sociedade faz-se por “estratos”.
O “estrato”, no fundo, só difere do antigo
conceito de “classe” no facto de haver
mobilidade nos “estratos” e de não haver nas
“classes”. Uma “classe social” era um mundo
hermético, de onde não se saía nem se
entrava. Eram clero, nobreza e povo. Todas
fechadas. Quem nascia na nobreza ou no povo
aí morreria. Aí nasceriam e morreriam os
seus filhos. Quem entrava para o clero nunca
mais saía e só lá entrava quem tivesse
determinadas condições que interessassem à
classe.
Depois da Revolução Francesa, a burguesia
constituiu-se em classe e as diversas
repúblicas que foram aparecendo terminaram
definitivamente com as “classes”,
consagrando nas constituições que os homens
são iguais perante a Lei. Embora na prática
este princípio nunca haja sido perfeitamente
válido, a verdade é que hoje há “mobilidade
social”.
Uma coisa é “estrato social” e outra
“estatuto social”. Uma pessoa pertence a
determinado “estrato social” conforme as
condições em que vive e o ambiente onde
vive. Não é uma divisão matemática, em que
fazendo uma certa conta se vê a que estrato
a pessoa pertence. Nos limites dos estratos
a confusão é de todo possível, mas em
situações distantes já é mais fácil.
“Estatuto social” de uma pessoa é a situação
social que a sociedade lhe “reconhece” e não
aquela que ela julga ter.
É verdade que um pedreiro rico terá uma boa
casa, bons carros, comerá do que lhe der na
gana, mas certamente o D. Duarte Pio não o
convidará para sua casa, porque ele
provavelmente nem sabe pegar no talher para
comer, nem como manter uma conversa
interessante. Se o dinheiro é fundamental
para situar uma pessoa na sociedade, no caso
do picheleiro rico ele ficaria no “estrato
dos novos ricos”. Esses juntam-se para
conviver uns com os outros e comem muitas
lagostas, porque é um artigo caro. Podem até
comer “caviar”, mesmo que não gostem, se
ouvirem dizer que é comida de gente fina. É
que eles, tendo todos muito dinheiro, têm
também algo em comum: vieram do nada e hoje
são ricos. Podem conversar uns com outros
dentro mesmo diapasão. Contam estórias de
quando eram pobres e tinham de dar no duro e
contam também como foram espertos em certos
negócios, etc.
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