Revista Especial
“CÁ ENTRE NÓS”

 

 Nº 01 – Agosto de 2006

Editor: Carlos Leite Ribeiro

 

(Só Karinhos !)

 

Elaine & Henrique

 

Para ti Henrique – de sua esposa Elaine Santa Rosa

Hoje é uma data muito importante
e significativa para mim e para todos que lhe querem bem.
Porque é o seu aniversário...
Queria dar-lhe o melhor presente,
dizer-lhe coisas bonitas e jamais ditas por alguém no mundo.
Pensei... pensei e nada decidi...
é tão difícil....
Qualquer presente não seria o melhor presente...
e as palavras, as mais bonitas, todas elas,
já foram ditas tantas vezes... mesmo assim vou repeti-las...
porque tudo isso vem do fundo de meu coração
e é o que tenho de mais valioso:
o meu sentimento mais profundo....
o meu amor por você...
essa vontade de estar a seu lado, sempre...
e de ser cada vez mais e melhor
sua mulher; sua companheira; sua namorada; sua amante.
Saiba, Henrique, estar ao seu lado é a melhor coisa do mundo!
Aceite de presente o coração
de uma pessoa que é totalmente completa com você:o meu...
 a sempre sua,
Elaine

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Sou Português, de Lisboa, Coronel de Infantaria Aposentado, depois de passar à reserva a meu pedido na promoção por escolha a coronel; tomei parte activa em 3 revoluções: 25Abr74 (anti-ditadura salazarista), 11Mar75 (anti-golpe da extrema direita), 25Nov75(anti golpe do Partido Comunista); fiz guerra de guerrilha em Angola, onde me iniciei nos "Comandos", quer no deserto do Kalahari, quer nas florestas do Congo (3 vezes ferido em combate); fui professor das forças NATO/OTAN das cadeiras de terrorismo internacional e a de segurança (pessoal, instalações, documentos) ;professor de segurança pessoal, formado pelo MI 6/GB e Special Branch/Scotland Yard/GB,em cursos para a Polícia e forças Armadas; alem de ter realizado a 3ª reunião da ONU em Cascais/Lisboa (pelo que tive louvor do Vice-Presidente dos EUA, único louvor até aí, nas reuniões antecedentes nos EUA e Alemanha); responsável pela recepção de comitivas militares estrangeiras em visita a Portugal, convivi com Ceausesco/Roménia, Tito/Yuguslávia, Carluci/EmbaixadorUSA e depois Chefe da CIA,Kalinin/Embaixador URSS, Valentina Tereskova/astronauta, Raul Castro/Ministro Defesa Cuba, Field Marshal Carver /vice rei da Rodésia,etc., reuniões em Portugal da chefia de topo da Nato; instrutor da Policia de Angola para o Curso de formação da segurança de PR Agostinho Neto, no Corpo de Policia de Angola; assessor do EMGFA/Angola por 4 vezes nos anos 90 a seu convite, quando contactei José Eduardo dos Santos/PR; Chefe do Serviço de Segurança do EMGFA/Portugal, depois, por indicação e escolha, Comandante do Aquartelamento e Segurança do MDN e EMGFA; assessor de um governador no Brasil; etc... etc...
Não sou politico, vermelho ou direitista... mas sou
únicamente militar, e como militar , os militares não mentem nem romantizam: são simples, precisos e concisos, "para militares perceberem"...

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Crônica:

 A Emboscada – Henrique Lacerda Ramalho

Jantar normal, ninguém era conhecedor!
Era necessário prevenir para que não se pedisse aos lavadeiros fardas lavadas, nada de limpeza extraordinária de armas, a ida inopinada ao paiol buscar um cunhete de munições já aberto como para conferencia de existências: nada de movimentações que denunciassem anormalidade... a noite se foi cerrando, naquele p
ôr de sol, único, africano.
Os animais, em fila indiana, entravam no arame farpado, por baixo da improvisada trave levadiça do simbólico portão de viaturas.
Um quartel? Pouco menos que meio campo de futebol: duas construções de adobe revestido a cimento do lado direito, outro do lado esquerdo seguido do gerador "lister-frapil"; no topo o coberto
, a capim ,da cozinha. Suficiente para 27 homens perdidos nas fronteiriças "matas" do Congo e lentamente, debicando aqui e ali, vieram as galinhas, seguidas das cabras, dos cães...fechando a lista, meus saguins.
A opressão no estômago se acentuava, como que agonia: meu ordenança, aflito me dava a escolher entre omelete, batata frita, galinha ou outro... Minha alimentação já era só uma refeição ao 3º dia, até aí mantido a café.
Me levantei da cadeira feita de barril de madeira, e fui chamando os dez elementos que necessitava: entramos no quarto/enfermaria, por ser o mais vasto: dei a conhecer o que preparara para a noite.
Sairíamos às 2 horas da manhã, levando cada um pão no bolso da perna das calças de camuflado e um cantil de água, 4 carregadores de munições com 20 cartuchos cada; fardamento
: calças e tee-shirt, botas de lona - haveria de haver necessidade de velocidade...
nada nos bolsos que fizesse barulho, nada de cigarros, um relógio de pulso para cada dois e que não brilhasse, pelo que se formaram de imediato as parelhas.
A revista seria no mesmo local às 1h30.
E à hora militarista, o pessoal saltitou, mostrou que nada havia nos bolsos, nada ruidoso ou que suscitasse atenção, um maço de tabaco e um "dupont da mata" para todos a meu cargo. Os cartuchos entraram nas câmaras das armas, ficando prontas ao disparo.
No silencio, sem perturbar os restantes que dormiam, sob os olhos esgazeados e interrogativos do sentinela, nos envolvemos no escuro silencioso da quase madrugada em passo célere...
Fugimos dos trilhos e picadas, possivelmente armadilhados e minados... caminhávamos à vista mas relativamente afastados
uns dos outros e dessas vias.
Os vales se seguiram; na passagens de alturas, íamos pela chamada crista militar, uns metros abaixo da geográfica, para evitarmos nossas silhuetas... os olhos tentavam descobrir possíveis posições de tiro e se alguém as ocupava... o chão também era foco devido a poder haver arames de tropeçar das armadilhas... o tempo contava, 4h20 já luz de dia... era necessário embrenhar ainda mais na floresta, para evitar a todo o custo sermos detectados...
Os olhos ardem do suor salgado que escorre da testa, a face e as mãos ardem dos golpes das folhas da vegetação, a marcha é mais lenta e cuidadosa, os flancos e retaguarda me preocupam, os ouvidos alerta, mas a velocidade de penetração é primordial; irritação pela floresta não pode haver, para que ela e seus deuses não se vinguem, nos enovelando ainda mais...
Cuidado com as armadilhas de caça: buraco fundo pleno de pontas afiadas para esventrar... qualquer sinal nas arvores nos avisava: um bocado de pano velho e cinzento pelo tempo, um pau seco preso nos galhos, um cesto roto... respeito silencioso pelo lugar de deus indígena (um tronco, uma pedra, um pau?) da aldeia próxima (detectável pelo cheiro do fumo velho): a sua presença se nota pelo seu peso estranho, e nervosismo inexplicável.
Os pássaros não podem deixar de cantar, ao mínimo suster, paramos também para a vida selvagem se recuperar... os macacos olham para nós lá de cima, tranquilos... eles, pássaros e macacos nos protegem com sua estabilidade, nos dando assim o sinal que somos só nós e eles... os quilómetros passam, a fronteira fisicamente inexistente teria sido já ultrapassada, paramos na altura de o povo ir para as lavras... recomeçamos na hora de calor, quando todos repousam...
As mãos crispadas na espingarda, o radiotransmissor  vai rodando por todos, porque as alças cortam a carne.
Estamos agora sós num raio de 100 quilómetros, ninguém poderá nos ajudar...
o local de destino está próximo, paramos.
No chão é desenhado com o bico de um pau, o esquema do terreno: tu, "A" e tu "B" grupo de detenção à frente!; "C" e "D" o de retaguarda!"E", de vigilância na nossa retaguarda; os restantes, grupo de assalto do lado leste (lado da luz do sol) pela ordem seguinte "F" e "G", eu,"H" e "I"... fogo à vontade depois de meu tiro inicial; o assalto à minha voz! necessidades fisiológicas, neste local e neste momento, e cobertas por terra: 10 minutos para prontos a seguirmos e tomarmos posições!
A picada faziam o tradicional longo "S", e deitados, esperamos. Com a percepção confiro as colocações de cada um.
As formigas percorriam nossos corpos, as moscas com sua ferroada de ferro em brasa, mas o receio de um movimento em altura imprópria, nos fazia ficarmos imóveis... com o escurecer, os mosquitos fizeram seu voo, como que entrando zumbindo por um ouvido, um silencio breve e o zumbido de sair pelo outro ouvido...
um bando de galinhas do mato veio pousar e debicar na poeira da picada, mesmo na zona de morte, o que nos fez sorrir e até apontarmos para elas, sentindo-nos como que vencedores do alarme da sobrevivência animal...
o tempo passava, os ossos e músculos doíam da posição ventral, a arma era insuportável de calor... a fome começava a dar sinais... horas... a noite chegou... do bolso tiramos nosso pão, seco e quebradiço do calor, da humidade seca do suor; a água foi deslizante na garganta, depois de bochechada, havia de a poupar! 3 rolhas de cantil era a dose depois da soalheira de perto de 45º...
alguns dormiram no sentido dos ponteiros do relógio para o grupo de assalto, porque em cada grupo teria que um ficar de sentinela.
A madrugada chegou com o fim do cacimbo (garoa) da noite: havia que disfarçar a vegetação mexida ou esmagada, a hora se aproximava e por fim chegou: o ruído de areia esmagada e de liamba (maconha) atingiu aos nossos sentidos, cada vez mais próximo... uma mulher se avistou, pouco carregada, sem ar de ir trabalhar a lavra, outra seguia a 1 passo dela: deixamos passar.
Apareceu o 1º grupo de guerrilheiros, uns 3 armados, outro era carregador: nossa sensação de estarmos a ser vistos oprimia para uma resolução imediata: o suor frio do medo de que estaríamos a ser vistos, se misturava com o escaldante da temperatura ambiente.
O grupo se foi aproximando dos homens de detenção à frente, segundo grupo apareceu constituído por mais 7 homens... calma... todos terão de ficar na zona de morte
...os olhos medem as distancias... não sabemos se haverá mais que nos possam envolver e passarmos de emboscadores a cercados e emboscados. Por sinais atribui os alvos para cada do grupo de assalto, dois por cada; os de detenção à frente e os da retaguardas terão de eliminar o 1º e ultimo da fila, no mínimo...
É o momento: da minha arma sai o tiro certeiro para aquele que me pareceu mais desenvolto, abrindo o torrencial de fogo! Ao grito de "assalto", arrancamos como molas para a picada, sem notar os disparos já à nossa volta, corremos até ao lado contrário, semeando projécteis a qualquer movimento dos nossos destinados. Chegados no outro flanco do trilho, acabamos com o que ficara atrás de nós...
Recolher as armas do inimigo, ver o conteúdo dos bolsos e do interior das camisas... e rapidamente tomarmos a direcção contrária quer para a fronteira quer para o quartel:  havia de impedir qualquer retaliação... éramos agora a caça! aqui, o caçador e o caçado se alternam!
Já perto da picada de viaturas escondemos o espólio metálico, para não nos atrasar... mais tarde viríamos buscar
Em passo acelerado, correndo por vezes, fomos fazendo um vasto circulo, sempre parando nos pontos dominantes propícios a ver se éramos seguidos... mas a preocupação aumentava quanto mais perto do destino: seria que estariam nos esperando quando já convictos de estarmos quase a salvo?
As mudanças de direcção eram constantes, ora o sol no ombro direito (norte), ora no esquerdo (sul).
O alívio quando por fim passamos o arame farpado e os abrigos de tiro: a alegria nervosa era contagiosa, cada um contava sua façanha, enquanto limpava sua arma... os prontos, debaixo do balde de lona que outro soltava a água de duche, cigarro aceso nos dedos no braço estendido e descansado na lona circundante, numa nudez ávida de se livrar da crosta de toda a lama física e psíquica agarrada.
Redobramos as sentinelas nessa noite...


 

Nota: só quem viveu meses e meses no meio da guerra, é que pode dar bem o valor a casos como o Henrique aqui muito bem relata. Conheço um ex-oficial miliciano que ainda há pouco tempo se levantava de sua cama, para ver se os sentinelas estavam acordados e a postos… Carlos

 

CEN  SEMPRE

Uma pequena homenagem a quem  tanto tem ajudado o Portal CEN – “Cá Estamos Nós”, a quem apresentamos a nossa gratidão: Henrique Lacerda Ramalho e Elaine Santa Rosa.

Bem – Hajam, amigos !

Carlos Leite Ribeiro

(Director do Portal CEN – “Cá Estamos Nós”)

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