Nº 15 - Março de 2004

EDITOR: CARLOS LEITE RIBEIRO

Filhos do Mar e da Terra do Planeta Terra...e da Liberdade Eterna...

"Sou Assim Mesmo!..." - Manuel de Sousa

Em meus pensamentos gritam os Iberos aos rebanhos
Em minha ideia reside a mística dos cultos Celtas
Em minhas costas hirtas aportam intrépidos Fenícios
Em meu sangue negoceiam antigas mãos Hebraicas

Em meus pesadelos aportam barcos trazendo Cartigineses
Em minha mente Viriato corre à frente dos Lusitanos
Em meus olhos os Romanos constroem aquedutos
Em meus pingos de suor banham-se Suevos e Alânos

Em meu espelho ocorre olhar para as barbaridades Vândalas
Em minha peugada caminham Visigôdos de espada em riste
Em minha pele correm os cavalos de Árabes e Moiros
Em minhas lutas interiores agarrei-me aos ideais Cruzados

Em meu temor fugi da sanha bruta dos Vikings do norte
Em minha história fui cavaleiro do Templo da liberdade
Em minha memória partem barcos com Cruzes de Cristo
Em minha nau fui navegador dos setes mares e de mim mesmo

Em minhas palmas das mãos descobri as lindas Indianas
Em meus caminhos cruzei-me com o exotismo das Orientais
Em meus sonhos sonhei com as mulheres Timores
Em meus desejos misturei-me com Indias e Africanas

Hoje sou um mestiço de tantos Povos do Mundo
Hoje sou um dos antepassados da longínqua Lusitânia
Hoje sou Americano ou Africano ou Asiático
Que mais quero ser eu do que aquilo que sou!...

Um Sêr da Criação...

     Escrito em Homenagem aos Antigos Portugueses, Povo de muitas misturas e que em muitas outras misturas navegou, os quais, embora originários de diferentes Povos de todo o Mediterrâneo e de toda a Europa, numa primeira fase da pré-História de Portugal, e de outros oriundos da certas partes da Europa, África, das Américas, da Ásia, Australásia, com quem se cruzaram e misturaram, em sua épica cruzada pelo Mundo, numa última fase que prevaleceu e perdura ainda até aos dias de hoje, e a todos os seus milhões de descendentes (crioulos, mestiços) espalhados em/por todo o Globo, hoje parte integral desses múltiplos Povos Mundiais...
     Também se Homenageia todos os Povos Antigos e Modernos que viveram ou vivem uma miscelinização activa que, está contribuindo para a uniformização humana e para a harmonia étnica dos Povos Humanos de todo o Globo Terrestre, independente de Religiões, Filosofias, Étnias, Origens, Políticas, etc.
Escrito e m Luanda, Angola, por manuel (duarte) de sousa, a 23 de Março de 2004.


Limusine - Lílian Maial

          Mal acreditava no que meus olhos viam: o motorista todo uniformizado, luvas brancas, quepe, um sorriso sério e sem olhar nos olhos, abre a porta daquele carro absolutamente glamuroso, cheio de mesuras e elegância. E eu, que a vida toda havia sonhado com esse dia, mal continha o disparo do coração no peito, a respiração ofegante, a calcinha molhada.
          Por alguns instantes, tudo veio novamente à lembrança.
          Parece que foi ontem que li aquele anúncio sobre o "concurso de crônicas a respeito da cidade de Nova Iorque, para estrangeiros" . O prêmio era um jantar no restaurante mais sofisticado da cidade, além de um traje de gala completo, jóias formando um conjunto e uma limusine à minha disposição.
          Nunca imaginei que pudesse sequer ser classificada como uma das finalistas, que dirá ganhar o primeiro lugar! Arrisquei, coloquei a velha "New York, New York", com Liza Minelli, pra tocar no CD, e me visualizei lá, na "cidade que nunca dorme", cercada de brilho, champanhe e muita bajulação. Escrevi as impressões de uma brasileira em Nova Iorque, e lá estava eu, com um longo decotado vermelho, rubis no pescoço e no braço, meias de seda 7/8, cabelos como os das estrelas de Hollywood, um chofer só meu (sim, porque motorista é coisa banal) e aquela limusine imensa!
          Entro no carro e quase tenho um faniquito. Tudo lá dentro é lindo! Eu parecia criança, em sua primeira vez num parque de diversões, ou uma adolescente em sua primeira ida a um motel: apertava todos os botões, abria todas as portinhas, mexia em toda a louça, taças de cristal e... pasme! Um balde de gelo, com uma garrafa de champanhe Veuve Clicquot na temperatura ideal.
          O assento da limusine é tão grande, mas tão grande, que a primeira coisa que me passou pela cabeça (e entre as pernas) é que ali seria o local mais fantástico para se fazer amor em movimento.
          Estava nesse devaneio, quando a janelinha que separa o chofer do resto do veículo abaixa, e eu vejo aqueles olhos pelo retrovisor. Impossível! Como não reparei antes de entrar no carro? Meu motorista era nada mais, nada menos que Antonio Banderas, em carne e osso! Ai, em carne, muita carne! Que olhos penetrantes! Que boca carnuda! Que mãos! Ele, para meu deleite, fala! E com um portunhol de fazer inveja a qualquer um! Ele sorri com os olhos, e me pergunta se gostaria de passear pela cidade antes de jantar, ou se deveria ir direto ao restaurante. É óbvio que pedi para que me mostrasse a cidade antes, mas emendei que estava me sentindo muito sozinha ali atrás. Ele sorri, fecha a portinhola e segue, como se não tivesse me ouvido.
          Muda o trajeto suavemente, entra por uma rodovia que não me era familiar, e pára o carro. Desce. Vai até uma espécie de garagem e volta de lá com um outro rapaz, também de uniforme idêntico. O rapaz não me vê, entra na direção, e o Banderas entra no banco de trás, postando-se ao meu lado.
          Imediatamente o sangue ferve, o rosto enrubesce, o fogaréu sobe pelas pernas.
          Ele naturalmente sorri, com os dentes mais brancos que já vi, curva-se sobre mim, alcança o balde de gelo, abre a garrafa e serve duas taças do precioso líquido. Oferece-me uma das taças e brinda ao meu sucesso (eu posso com isso?).
          Sorvo um pequeno gole, mais inebriada pelos olhos e pelo cheiro daquele Diavolo, do que com a bebida, quando, subitamente, ele liga o som, maravilhoso, um solo de sax absolutamente perfeito!
          Enquanto eu permanecia ali, meio que sem ação, sem saber o que fazer com as mãos, o nosso chofer Banderas sabia exatamente o que fazer com as dele. E assim, sem que eu nem pudesse raciocinar, sinto uma de suas mãos subindo por minhas pernas, numa carícia tão sedutora, quanto ousada.
          Bebo mais um gole, e mais outro, e mais outro... ah! Ele rasga minha calcinha de seda, de uma vez só! Com a outra mão, puxa o vestido tomara-que-caia (que caiu) e beija-me voluptuosamente um dos seios, enquanto que a outra mão continua em sua peregrinação úmida.
          Eu devo estar sonhando. Não acredito nisso.
          - Belisque-me! - grito eu ensandecida, entre um gemido e outro.
          Ele estranhou, parou um pouco, mas obedeceu. E com força, o danado! E beliscou, e
          apertou, e arranhou, e mordeu... tudo junto!
          E eu gemia, e gemia, e tremia, e tremia.
          E ele me possuiu ali, no centro de Nova Iorque, num banho de champanhe e língua,
          com o motorista ali na frente, cego, surdo, mudo (mas de pau duro, certamente). E como foi bom! Ele é tudo aquilo e muito mais: carinhoso, gostoso, beija bem, lambe tudo, é forte, viril... ah! Um sonho!
          Tanto prazer me deixou cheinha de caraminholas na cabeça. Afinal, já que era para experimentar coisas novas, por que não todas? Era para realizar sonho? Então, que fosse completo. Como se diz por aqui: barba, cabelo e bigode.
          Mandei parar o carro num estacionamento, um edifício garagem, para me recompor,
          antes de ir para a festa em minha homenagem. O motorista abre a portinha, tira os óculos e... uau! É ´... o Al! O Al Pacino! Ai, minha Nossa Senhora da Perdição, eu junto com Banderas e Pacino! Isso não ia prestar...
          Saltei do carro, trôpega, andei até à porta da frente, abri, arranquei o Pacino de lá, beijei-o ardentemente, imprensei-o contra o carro, abri-lhe as calças e mostrei o que é que a baiana tem...
          Empurrei-o para o banco de trás, abri o vestido e entrei, nua, de colar de rubis, meias de seda 7/8, sapato finíssimo, e perfumada, para os braços dos meus dois astros preferidos. Ah... New York, New York...
          Bem, o resto da história eu não vou contar, porque só interessa a nós três, os personagens principais. Posso adiantar apenas que cheguei na recepção às 5 horas da manhã, e encontrei tudo vazio, naturalmente. Mas ainda havia lá alguns garçons arrumando o salão...


Dois achados numa noite quase perdida - osvaldo pastorelli

          Com movimento não muito rápido, mas decidido, Marciel enfiou a mão no bolso traseiro e tirou a carteira. Satisfeito e contente separou a quantia certa e chamou o garçom para pagar a conta. Do outro lado da mesa Nana via a alegria estampada no rosto moreno do amigo e sorriu de leve demonstrando assim que estava contente também. No simples gesto de mostrar masculinidade sem ser machão sentiu-se confiante em estar na presença dele. Marciel notou em seu peito o gosto saboroso de estar na companhia da amiga e ela sabia disso tanto quanto ele sabia da felicidade dela. Sem se perguntar, coisa que não queria fazer, mas tinha uma leve impressão que tanto ela como ele estavam se apaixonando. Desde o aniversário dele, dia 19 de abril, vinham se encontrando regularmente. Logo que o garçom lhe entregou o troco saíram do restaurante.
          A noite se punha agradável para eles que sorrindo receberam o frescor úmido. Marciel podia até gritar a plenos pulmões tudo o que sentia naquele momento. E foi o que fez:
          - Noite como está agradável, mas não tão bonita como os olhos brilhantes morenos da Nana.
          - Você está embriagado, disse sorrindo abraçando o corpo moreno.
          - Sim, é extremamente verdade, falou beijando o rosto da amiga, sim estou embriagado, mas pela sua companhia, pela sua beleza, pelo seu amor, por me fazer feliz.
          Nana puxando-o pela mão gritou:
          - Venha, vamos atravessar, o farol abriu.
          Chegando do outro lado da rua, Marciel continuou o seu discurso:
          - Hoje minha querida, é uma daquelas noites em que eu faria amor com todo mundo e com tudo de tanta felicidade que bate em meu peito. Mas...
          - Mas o que?
          - To querendo...
          - O que?
          - Urinar...
          - Acabamos de sair do restaurante...!!
          - Eu sei...
          - Também quem manda tomar muita cerveja!
          - Não vou agüentar...
          - Faça aí nessa árvore.
          - Você sabe que isso para mim é difícil. Se não for num banheiro, entre quatro paredes, não consigo.
          É ela sabia disso. Quantos apuros já não passaram por causa da timidez dele. Olhando para o rosto aflito do amigo Nana teve um lampejo malicioso que colocou em prática. Sabia que Marciel queria fazer amor com ela há bastante tempo. Pensativa com medo da reação dele, propôs:
          - Bom vou propor algo a você.
          - O que é?
          - Se você conseguir urinar na árvore a gente faz amor.
          - O que? Você ta é tirando uma da minha cara.
          - É verdade, passo a noite toda com você.
          Ele não acreditava no que ouvia. Desejava tanto o amor dela que tinha instantes o peito parecia estourar e a garganta fechar pela raiva da emoção contida. E agora ela vinha propor o que mais ele queria! Nana sabia da impossibilidade dele, por isso fizera a proposta, mas se surpreendeu vendo-o se dirigir para a árvore e abaixar o zíper da braguilha. Começou a se arrepender do que dissera. Não muito confiante, mas decidido Marciel abaixou o zíper e encostou-se à árvore. A bexiga estava estourando mesmo assim procurou se concentrar tentou se imaginar num banheiro fechado, não ouvir o barulho dos carros, as vozes dos pedestres, fixou o olhar num ponto. Dizendo mentalmente: "Eu vou conseguir, vou conseguir". E já estava conseguindo quando ouviu em seu ouvido Nana dizendo:
          - Isso, você consegue. É só lembrar em mim, na proposta que te fiz.
          E enquanto falava, abraçou o amigo por traz e começou acariciar o peito liso e lentamente dirigiu a mão para a braguilha aberta. Nisso Nana vendo que ele estava conseguindo, e que sua proposta ia se concretizar, falou alto no ouvido dele:
          - Olha vem vindo um guarda.
          E saiu correndo. Marciel assustado, rapidamente fechou a braguilha e seguiu Nana que virava o quarteirão. Alcançou a amiga na escada rolante.
          - Por que me assustou?
          - Por brincadeira.
          - Ou por arrependimento? Estava conseguindo se não fosse me assustar.
          Nana ria sem parar e apontou para a calça dele.
          - Droga! Viu o que você me fez.
          - Eu não. Você que estava urinando. Fechasse a braguilha depois.
          Marciel tirou a blusa e amarrou na cintura para tampar a mancha escura que tinha ficado na calça. Nisso Nana chegou mais perto dele. Fazendo menção em dar-lhe um beijo, enfiou a mão por baixo da blusa e apertou carinhosamente o membro que Marciel desprevenido deu um pulo para traz. Nana gritou:
          - Medroso.
          E entrou rápida no trem ao ouvir o sinal seguido por Marciel que ficou espremido na porta, mas conseguiu entrar. Nana sentou num banco perto de duas senhoras de idade, sem dar importância para os olhares das senhoras, Marciel sentou bem junto e abraçou a amiga beijando-a na boca. Nana retribui e propositadamente fez questão de prolongar o beijo mais que pode. E mais uma vez, lentamente introduziu a mão por baixo da blusa deixando Marciel apreensivo sem saber o que a amiga poderia fazer. Dali a instantes percebeu os dedos dela abrindo a braguilha. Marciel comprimiu as pernas prendendo a mão de Nana. Estava gostoso sentir a pele suave da mão morena da amiga. Aos poucos ele foi se excitando desejando prolongar a brincadeira, nisso o trem parou.
          - Minha estação, tchau Marciel.
          Rapidamente levantou sem esperar o companheiro e saiu do trem em tempo antes que a porta fechasse. Marciel num ímpeto sem pensar quis acompanhar a amiga, mas ao se levantar a blusa caiu e deixou a braguilha aberta e o membro amostra. As duas senhoras soltaram um oh reprimido fazendo com que o pobre do Marciel voltasse e se sentasse cobrindo a vergonha com a blusa novamente. Mal dera tempo de dar um aceno para Nana que da plataforma ria ao ver a atrapalhação do amigo. Marciel encostou a cabeça no vidro olhando a escuridão ponteada de luzes relembrando todos os últimos instantes passados com a amiga. Será que estava apaixonado por ela? E ela, estaria por ele? Como ela tinha uma mão gostosa, meu Deus! Por que tinha ela que descer? Por que não continuou como estava? Lá estava ela toda de branco, com gestos suaves retirava peça por peça do seu corpo. Uma por uma, se aproximando cada vez mais dele. Já estava bem pertinho dele, já sentia o calor da respiração dela, até o seu cheiro atiçando o desejo dele, quando acordou sobressaltado.
          - Vamos, moço acorde, ponto final, tem que descer.
          Tinha cochilado. Sonhava com ela. Foi então que notou uma quentura na perna, precisamente na coxa esquerda. Sobressaltou-se.
          - Caramba! Não cochilei, dormi, sonhava e acabei me melando todo, que coisa, disse amarrando novamente a blusa na cintura.
          Contente com a vida que caminhava numa linha reta de felicidade, Marciel deu um pulo esmurrando o ar como o seu ídolo fazia.
          Nisso a cena congelou deixando ele estático no alto enquanto o letreiro subindo apresentava o fim.
          pastorelli


Roupa suja se lava em casa! - Elizabeth Misciasci

          Em determinadas situações, nos sentimos amuados por saber que nossos nomes são envolvidos em assuntos até alheios aos nossos conhecimentos e sem absoluta certeza de serem as "conhecidas fofocas" de autor conhecido como o mencionado pelo mediador que "como prova" de amizade sincera nos tornam conhecedores dos assuntos pautados, nos deparamos com uma situação de absoluto constrangimento.
          - Constrangimento por que? - Oras, como dizem no dito popular, "quem conta um conto, aumenta um ponto" e como ter a certeza de que o referido mediador não esta com intuito de polemizar, gerar confrontos é algo desagradável e constrangedor sem dúvidas.
          Dizer que conhecemos o ser humano não pode ser por vida de regra uma verdade, pois muitas vezes, nos surpreendemos até mesmo com nossas reações mediante a determinadas situações. Não sei, mas acredito que ninguém seja tão auto suficiente para crer que conhece todas as pessoas com quem convive cem por cento. Claro que temos uma percepção e a intuição para formarmos nosso rol de amizades, critérios que adotamos como uma estrada que norteia nossas atitudes e estas não deixam de serem colocados em prática, quando escolhemos quem realmente vale a pena se ter por perto porém, as vezes até por uma questão de credibilidade, pensamos que todos são capazes ou incapazes de ter uma determinada postura diante de uma circunstância. Mas como podemos ter certeza das reações se podemos cometer equívocos até com a gente mesmo?
          Se existem formas de se elucidar um acontecimento, temos que estar atentos para que estes esclarecimentos não venham a ferir amizades verdadeiras que colocadas de forma inequívoca pode romper laços para sempre.
          Quando apenas os vínculos se cortam ainda assim é menos preocupante, do que o agente que resolve "lavar a roupa suja em casa" propondo um confronto nada amigável, aí literalmente a questão torna-se algo irreversível, pois com certeza alguém sairá machucado, ou pela decepção por se tornar conhecedor de fatos que até então desconhecia, ou por ter sido "objeto" que permitiu desenvolver assuntos em torno de seres humanos, ou até mesmo por total contragosto ser alvo de uma "baixaria".
          Mas, pior ainda do que "lavar a roupa suja em casa" é quando o indivíduo atingido resolve cobrar as diferenças no "mano-a-mano" pois como disse, volto a repetir, nem sempre sabemos como iremos agir em determinada situação... e, como nem todo mundo é igual, tragédias em virtude de "disse-que-disse" acontecem todos os dias.
          Assim sendo, não aconselho que as pessoas que se sintam atingidas ou magoadas fiquem em cima do muro, ao se verem envolvidos em questões alheias ao seu conhecimento, mesmo porque, existem pessoas que adoram holofotes, são os que exercitam ao pé da letra o "falem bem ou mal, mas falem de mim" e estes não medem atos, nem tão pouco se importam com os que abraça e chama de amigo do peito. Agora, a partir do momento que temos a plena convicção de que não criamos situações para servirem de assuntos para os desocupados, nem somos coniventes com tumultos que não valem a pena serem duelados entre os ativistas do faz de conta, mas nos sentimos estritamente magoados, podemos e devemos esclarecer porém, que tudo seja muito bem analisado deixando de lado toda e qualquer atitude precipitada, pois infelizmente as vezes é melhor não "lavar a roupa suja em casa" e sim, deixar que toda e qualquer sujeira ou "roupa suja" (pois a referida roupa, definitivamente não nos pertence) que seja lavada na lavanderia, de preferência bem longe de nossos olhos, do nosso convívio e da nossa sagrada casa.
          "Elizabeth Misciasci" .


DE QUEM É A CULPA? - Celito Medeiros

          Desde os primórdios dos tempos, quando da mal explicada história sobre a criação dos corpos de Adão e Eva, homens e mulheres questionam sobre suas posições sociais nesta humanidade. Talvez esta seja uma das questões principais para as diversas religiões terem colocado os homens em diferentes posições sociais em relação às mulheres. Esta questão cultural tem influenciado o comportamento do ser humano em todas as partes do mundo em diversos modos, muitas vezes, cruelmente.
          Não se pode generalizar como sendo culpa do próprio homem em seu pretenso ‘domínio’ sobre as mulheres.
          Senão, vejamos as ocorrências no presente, visto o passado estar lá e nós aqui, procurando entender, para mudar o que não mais suportamos nestas diferenças impostas. Na maioria dos casos, ainda no presente, quem dá educação aos filhos é a família e a questão cultural está nas escolas e na rua. Se alguém nasce em uma religião, logo é catequizado para seguir os mesmos princípios e não lhes dão oportunidade de escolha. Quem de fato cuida e educa as crianças em casa, ainda em sua maioria é a mãe.
          Quer aceitem ou não esta teoria, é a própria mãe-mulher, quem primeiro distingue ou distinguia o ensinamento diferenciado em muitas coisas em relação aos meninos e meninas. É mãe, em primeiro lugar, que dá certas liberdades ao menino e não às meninas. É a mãe, que mostra para as comadres o piu piu do filho e dificilmente mostra o que a menina tem. Ela, muitas vezes orgulhosa, dá risadas de ver este piu piu se manifestando. Incita sem querer, esta diferenciação de tratamento sexual. Ela, a mãe é que muitas vezes presenteia a filha com boneca e o filho com um revólver de brinquedo e o leva fantasiado de super homem, batman ou herói dos bang gang à matinee de carnaval.
          Parte normalmente da mãe a autorização para o filho sair à noite e a filha sair sob suas saias. Pensem nisto, não como culpa à própria mulher, dos ensinamentos que dá ao futuro homem, mas como algo cultural que precisa ser compreendido e mudado. Daria para dizer que ‘ ensinamento que nasce torto, não tem jeito, morre torto’. Não, podemos mudar isto, sim. Mas não será com acusações ao comportamento do homem ‘machão’ ou da mulher que deseja ‘mostrar’ seu corpo para seduzir os machões da vida, seja com silicone, seja com outros cones ou fones.
          Nem todo homem é igual, nem toda mulher está nesta briga que não levará a nada. Competição é algo que não trará a solução!
          Quem esteve comigo na cama, que não foi na cama, pela primeira vez, não foi uma mulher amada e nem uma mulher desconhecida, mas uma mulher ‘danada’ que me induziu ao que o corpo pedia. De quem é a culpa? É culpa? O ‘pecado’ da carne me foi ensinado como sendo algo terrível, mas eu não achei que era terrível... Então, melhor pecar do que o inferno esperar! Disse ela, a tia.
          Não sou espada, sou facão. Espada corta dos dois lados e eu não.
          Ora, não sou nem espada e nem facão, muito menos macho, sou masculino. Assim, as mulheres possuem um corpo feminino. Veja que a diferença está apenas no corpo. Como espíritos, sem corpos, não temos sexo!
          Deste modo, é preciso que os verdadeiros homens se unam às verdadeiras mulheres para que as mentiras do passado sejam postas à compreensão de todos, não pela competição, mas por direito ao devido lugar que cada um poderia ocupar. É muito, muito difícil para um homem ter uma posição ética hoje em dia, com relação ao sexo, mesmo casado. Ele foi ‘instruído’ a ser macho e não lhe disseram que ele era masculino. Macho é a designação para animal. Deste modo, muitas mulheres andaram se aproveitando para ‘vender’ seus corpos ou se exporem para estes machos. De quem é a culpa? Existe culpa? Penso que não se pode culpar homens ou mulheres, mas podemos culpar uma cultura imposta desde que nascemos. Hoje estamos avançando e eu creio que a ‘luta feminista’ que pensa ter alcançado alguma coisa, na verdade esteve e está atrapalhando outras conquistas quando ‘entra em choque’ com o próprio homem ou mulheres condescendentes. Esta luta não deveria ser ‘feminista’ mas sim, de todos nós – homens e mulheres.
          A triste competição entre homens e mulheres, terá a mesma conseqüência que competições religiosas que hoje levam os povos às desastrosas guerras e terrorismo indulgente.
          Assim, parece que os espaços são ocupados por quem de fato nem é homem e nem mulher, mas aplaudem o fim do casamento.
          Convoco ambos os lados à conciliação, ao entendimento, à soma de todos para que se consiga os mesmos direitos e deveres tanto de homens quanto de mulheres. A capacidade de cada um é que poderia ditar pequenas diferenças, mas com as mesmas oportunidades e condições para a liberdade das conquistas.
          O que eu mais admiro em termos de corpo é uma mulher, assim como muitos homens e, possivelmente de modo inverso as mulheres em relação aos corpos masculinos, afinal, além dos corpos somos todos iguais. Poderíamos portanto, completar nossas vidas em harmonia, amor e felicidade. Enquanto não conseguirmos isto, talvez, sejamos todos culpados!


AMAR ASSIM.... - Tania Lemke

          O que nos leva a amar assim?
          Carência? Solidão? Inadaptabilidade? Fraqueza?
          Ou será que como diz a lenda, nossa cara metade existe em algum lugar e ansiamos por encontrá-la.
          Pode até ser verdade que exista alma gêmea. Será?
          Imagino que talvez somemos nossas faltas e medos e neles nos preenchamos, confundindo isto com amor.
          Viver só dá mais trabalho, dá mais despesas, dá mais insegurança, dá mais "panos pra manga", não temos com quem dividir nossos medos e anseios e ao mesmo tempo, em quem colocar nossas culpas. Acredito sim que existam maus relacionamentos, pessoas que escolhem mal, casais que vivem junto apesar dos pesares, seres humanos que não saem de sua rotina depressiva e massacrante. Acredito no comodismo e acomodamento, duas coisas completamente diferentes. Comodismo seria deixar a vida correr do jeito que está, tampando faltas e desejos em outros lugares, tendo vida dupla, tripla, quádrupla, sei lá... já vi de tudo! Acomodamento seria a pessoa entregar-se à mesmice rotineira, deixar-se levar dentro de suas angustias, nada fazendo para delas sair, acomodar-se em seu mundo depressivo, fanatizar-se em algo que lhe traga o que seu relacionamento não trouxe, como alguma religião, por exemplo. Academias de ginástica, cabeleireiros, dermatologistas, consultórios de cirurgiões plásticos são outros exemplos da tentativa vã em transformar algo externo que traga a paz interna, que falta pela ausência de verdade, pela ausência do amor real e verdadeiro.
          Nada externo pode nos tornar mais felizes e alterar nosso íntimo se não fizermos uma verdadeira revolução dentro de nós.
          Ai entra o AMAR ASSIM..... amar-se "assim" a si próprio em primeiro lugar, não admitindo em sua vida absolutamente nada que transforme-o em um ser apático.
          A partir do momento que nos olhamos com bons olhos em nosso espelho, mesmo que seja o mental e nos gostemos, passamos a emanar esta certeza de bem estar e felicidade. Nosso eu fica preenchido por um valor que nunca a ele atribuímos: amor próprio.
          Quem não tem amor próprio não vive bem em lugar algum, muito menos em seu relacionamento com qualquer outra pessoa. Isto que vou dizer é chavão, mas não importa, é verdadeiro: como queremos ser amados se nem nós mesmos nos toleramos?
          A partir deste princípio, começamos a evoluir na busca do amor, do AMAR ASSIM, da verdade de sentimentos. Duas pessoas bem resolvidas consigo mesmas não vão colocar expectativas demasiadas na outra pessoa, deixando de sobrecarregá-la com responsabilidades que não são suas. Bom início para um final feliz, não? Estas tais pessoas bem resolvidas irão doar o que tem de melhor, aquilo que amam em si mesmas e, quando isto é bilateral, bingo! Conseguimos um par perfeito. Amizades verdadeiras são baseadas nisto. Ninguém olha cor dos olhos, formato dos quadris, largura dos ombros ou conta bancária. Olha sim o interior, o doar, a cumplicidade, o colo nas boas e más horas. Por que não fundamentar o "Amor" nestes preceitos de uma real amizade?
          Um dar de si o melhor, um não cobrar o que não nos pode ser oferecido, um completar onde existe possibilidade, cumplicidade sempre, tolerância aos pequenos deslizes do dia a dia, relevar tampas de vasos abertas e meias jogadas, bem como o par de sapato a mais que esta caindo para fora do armário. Deixar de lado picuinhas!
          Agora, o fundamental para o verdadeiro amor existir entre duas pessoas e dar certo: rolar arrepio na pele, tesão, química, muita química, sem constrangimentos e moralismos falsos, ter conhecimento mútuo, generosidade, um eterno querer fazer feliz para ser feliz, uma verdadeira simbiose de afeto, troca de sensações e emoções. De ambas as partes.
          Ai eu acredito que realmente valha a pena AMAR ASSIM.... sem começo e sem fim! (Como diz Ivan Lins em sua música)
         
          ®Tania Lemke


MONÓLOGO - Viegas Fernandes da Costa

          Que fazer, se há estes dias em que tudo que nos resta é a vontade de uma lágrima que insiste em não correr? E nada nos basta... nada nos basta...
          Que fazer, se há estes dias em que, impotentes, observamos o perfil de um rosto alheio que nos despe suas angústias, e tudo que nos resta é calar em cumplicidade?
          - X -
          E o grande carrossel, insano carrossel, com seus cavalinhos coloridos, os lábios pintados de um rubro assustador, girando, subindo e descendo... subindo e descendo... O movimento acompanhado por aquela musiquinha de parque de diversões, monótona musiquinha de parque de diversões, repetindo-se infinitamente... infinitamente... Que fazer se o carrossel não pára?
          - X -
          Há dias em que nos faltam as palavras, nada temos a dizer! Há dias, no entanto, em que o autômato ato de respirar se transforma em literatura. E como são doces estes dias de bolha de sabão! Pudéssemos vivê-los sempre! Ah, e o carrossel, e os cavalinhos coloridos, e a musiquinha de parque de diversões, tudo nos apetece o espírito nestes dias de bolha de sabão!
          Mas há sempre estes dias em que o desejo de berrar o que o velho Raul já cantava se faz presente. E então saímos como sombras urbanas à gritar em silêncio para que o mundo pare e nos permita descer! Mas o mundo não pára, sabemos, e, teimosos, insistimos.
          Há dias de Cabul, de Bagdá, de Madri; há dias de Torres Gêmeas e dias de meninos-bomba! Há dias, no entanto, em que impassíveis observamos a breve lágrima que resvala sobre o perfil daquele rosto alheio que atravessa a noite, e nos calamos.
          E esta lágrima, pequeno pingente de dor, é tudo que passa a existir.


          A todos os Autores que colaboraram nesta Revista os nossos agradecimentos. Continuamos a contar com a vossa precisosa colaboração.

           Abraço

Carlos Leite Ribeiro

Carlos Leite Ribeiro é uma espécie de Rei Midas da Literatura:
                         tudo que toca, vira arte ! - RPires