Nº 22 - JUNHO de 2004

EDITOR: CARLOS LEITE RIBEIRO

         15 de Julho de 1998 - 15 de Julho de 2004
6º Aniversário do Portal CEN - "Cá Estamos Nós"

A Direcção do CEN agradece a sua colaboração durante estes anos.
Sem você, sem a sua colaboração e a sua amizade, não podíamos ter chegado até aqui.
Você é muito importante!
O Portal CEN - "Cá Estamos Nós"
é de nós todos e feito por todos nós.
Por isso, estamos todos de parabéns!"

"QUEM SOU ?..."Eliane Maria Arruda Silva"
Nome Literário : Eliane Arruda

          Professora do Estado (aposentada) e da União (ainda na ativa).
          Nasci e moro em Fortaleza- Ceará- Brasil, uma capital de muito sol e mar, visitada por inúmeros turistas, e onde as pessoas dão muito valor às lides literárias, provavelmente, uma herança dos queridos ancestrais: os portugueses. Quase todo cearense tem um ancestral português, o meu, por exemplo, era de Açores que veio para a Terra de Alencar com o seu irmão. Depois, colherei mais dados para enviar. Fortaleza é a capital do Estado do Ceará, situado no Nordeste do Brasil.
         
          2º - a) Quando começou a escrever ? Talvez da mais tenra idade, porém só começando a publicar há uns oito anos.
          b) Teve a influência de alguém para começar a escrever ? Minha mãe incentivava bastante a leitura, a começar por Monteiro Lobato, depois José de Alencar e os clássicos.
          c) Lembra-se do seu 1º trabalho literário? Não me lembro do título, mas sei que foi uma redação escolar e bastante elogiada no colégio, pelas imagens que apresentava.
          d) Foi divulgado (como)? Pelas professoras (freiras), inclusive, lido na sala de aula.
         
          3º - a) Tem livro (s) impresso (s) ? Sim, e trabalhos publicados em antologias, inclusive na número II da Rebra, entidade da qual faço parte
          b) Tem livro (s) electrónico (e-book )? Ainda não.
          c) Projectos literários para este ano de 2004? Concluir livros já iniciados.
          d) Como vão ser editados ? Pode ser através de recursos eletrônicos, acho até melhor.
         
          4º - a) Fale-nos um pouco de si, como pessoa humana ? Aprecio as letras, as artes, o tudo o que diz respeito à nobreza de sentimentos e ações.
          Sou professora e futura jornalista: estou cursando Comunicação Social com habilidade em Jornalismo.
          A natureza me comove, bem como lutar pela integridade do meio-ambiente. Aprecio a maturidade e as pessoas sazonadas psicologicamente. Considero deprimente um adulto acriançado
          . b) Como Escritor(a)? Não tenho dificuldade com a palavra e sinto-me bem mais inclinada para o conto. Por sinal, o meu livro "Perfil do Entardecer" enfeixa alguns contos, mas já obtive a primeira classificação em concurso de crônicas, e segundo em versos. ?
          c) Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ? A natureza ou algo cômico e extravagante. c) Tem prémios literários ? Alguns, tanto em prosa como versos.
         
          5º - a) Tem Home Page própria ( não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus) – Não.
          -b) Conhece as vantagens que os Autores do CEN têm em ter sua Home Page ou (e) Livro (s) electrónicos, nos nossos sites (preços, condições e divulgação) ? Ainda não.
          c) Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ? Pensar no seu interlocutor, fugindo da mesmice e de temas muito pessoais ou ingênuos, levá-los também à reflexão.
          d) Para terminar este trabalho, queira fazer o favor de mandar um pequeno (e original) trabalho seu (em prosa ou em verso) ? Pois não! Segue:

DE REPENTE, UMA SAÍDA!

          Sempre fui uma entusiasta, constatando pela frente a beleza de uma paisagem. Parece que ao contemplá-la, aproximo-me um pouco do Criador. Transmite-me leveza e torpor, mesmo com árvores enfileiradas, num trabalho tecido pela ambição humana, mas, ali por trás, evidencia-se, também, um sopro divino no contraste com o azul anil do céu.
          Algumas pessoas, conhecendo-me tal predileção, enviam-me e-mails lindíssimos, com visão panorâmica de mares, bosques, rios, cascatas... Procuram-me saciar a visão com formas e cores, e a alma, com os senões da poesia.
          Suponho que, dentro de mim, dormita não apenas um sonho poético, mas uma pintora latente, que não desenvolveu um dom ancestral. E por que não? Minha mãe, em vida, foi notável artista plástica. Seus quadros simbolizam emoções desérticas, contendo, quase sempre, água, céu, nuvens e barco. Talvez, tenha sofrido influência da infância, pois nasceu num sítio próximo ao açude Acarape do Meio, daí a sua predileção por água. Não sei! Hoje, ela é a patronesse da Cadeira no 02 da Academia de Letras e Artes do Ceará, título merecido, pois todas as suas irrupções, através das cores, têm alma.
          Na atualidade, os cidadãos vivem bastante estressados, amargando um intenso inconformismo, reclamando de tudo e de todos, repassando má informação das criaturas, num extravasamento, sem limite, de seus sentimentos negativos, um prenúncio, talvez, de algum tipo de carência. Será que essas pessoas, como terapia, educassem os seus olhos para contemplarem a beleza e o brilho das paisagens, a alegria e o descompromisso que transmitem, não alterariam a cor das suas almas? Claro! Se o ser humano olhasse para a criação: árvores, pássaros, grama, animais, céu, mares, nuvens..., perceberia que "está cheia de alegria, graça, e toda a criação é feliz".
          Daí, provavelmente, o meu enleio ante as paisagens, mesmo através de telas, e-mails, mas será que o homem, acostumado com o artificialismo da sua própria inventividade, pensa em buscar emoções positivas no que a natureza descortina, nas coisas da criação? Talvez, ache até blá, blá, blá as idéias do presente texto, como também revestidas de completa absurdez.
          Tenho, não resta dúvida, a maior facilidade para repassar o meu pensamento para a folha de papel. Da mesma forma, queria poder repassar as paisagens que se formam no cerne da minha mente para a tela em branco, numa combinação suave de cores, projetando a delicadeza, porque até as paisagens descoloridas do agreste traduzem, mesmo de leve, uma mensagem expressando sutileza. Os cenários com os ingredientes da natureza transmitem vida, emoção, grandeza, suavidade... Como será o interior de um indivíduo que perdeu a capacidade de contemplar as telas pinceladas pelo Criador?
          Acho que muito baço e incolor!

MENSAGEM

          Cada pessoa, mesmo sem estar preocupada com isso, passa aos outros uma mensagem positiva ou negativa sobre si, dependendo da sua maneira de se projetar na sua condição de agente de uma sociedade.
          Percebe-se tudo: quem tem gestos estudados; é um carreirista; um perscrutador da paz e do bom viver; quem tem amor e dedicação à pessoa do próximo... Essas últimas inspiram confiança e respeitabilidade. É o carisma de cada uma que desperta os bons sentimentos do próximo para com ela, pois, às vezes, nem um profissional de uma determinada área sugere uma mensagem para que, de fato, mereça algum respeito.
          Pessoas que têm um ideal, lutam por ele, realizam um trabalho com amor, procuram arregimentar valores familiares, culturais, humanos, geralmente projetam uma imagem com dimensão de grandeza, então a maneira de se posicionarem fornece uma comunicação eficiente sobre seus propósitos.
          Gandhi já sugeria: "Que a nossa mensagem seja a nossa própria vida" e, realmente, possuía uma consciência muito exata do que proferia, porque seus pensamentos, até hoje, difundem-se pela humanidade e, quanto mais alta a influência do indivíduo entre o gênero humano, mais se traduz perante o público. Pensemos em Hitller, Mussoline, Napoleão, Tomás Edison, Jesus Cristo... Que mensagem cada um legou ao mundo com as suas ações? Embora de teor bem diferentes ( reprováveis ou admiráveis), mas legaram...
          Cada ser humano, sem nenhuma dúvida, deixa uma mensagem para os outros, quer universal, ou mesmo, restrita a um pequeno chão, dependendo do tamanho da sua fama. Caso seja um líder, a sua saída de circulação infunde saudade, desejo de que o próximo esteja à altura dele. Ou então o oposto, não havendo mantido uma atuação equilibrada.
          Um simples funcionário público imprime a sua mensagem: de postura ética, competência, relacionamento e permite aos seus pares lamentarem a sua ausência. Outros, pela natureza encrenqueira, desintegradora ou passiva, suscitam alívio ou indiferença, quando transferidos. Analise os grupos por onde você passou e passa, caro leitor, e sinta o tipo de mensagem de que é vendilhão!
          Somos sim os nossos próprios arautos, os nossos "marqueteiros" daí, a cada dia que passa, fortalecermos as qualidades espirituais e humanas, porque somos os nossos maiores amigos, e um amigo leal e verdadeiro não pode repassar um comunicado sem brilho, baço, do outro amigo, mas sim lições que possam despertar apreciadores. Precisamos sim ser cultores da nossa própria imagem, no entanto sem venerações narcísicas, mas delineando atitudes construtivas, palavras, posturas de procedimento ético.
          Ah, se todas as pessoas que nos cercam e nós mesmos conseguíssemos repassar aos outros mensagens construtivas: de amor, paz, união, sapiência, fiabilidade!... Seria um depoimento de que a nossa vida tem um sentido sério e útil. Deus, por conseguinte, nos enviou com alguma serventia.
          Quem manifesta as qualidades sugeridas anteriormente, sabendo conduzi-las, segue as pegadas de Gandhi, quando se expressou com a célebre frase: "Que a nossa mensagem seja a nossa própria vida"

Quem Sou ? ...: Rosimeire Leal da Mota

          1º - a) Nome -;- Idade (o ano de nascimento é facultativo -; - b) Profissão -;- c) Morada (não publicamos endereços de e-mail) -;- d) - Quer falar um pouco da terra onde mora ? :
         
          a) - : Rosimeire Leal da Motta - 35 anos (16/04/1969)
          b) - : Técnica em Ciências Contábeis/ Professora
          c) - : Vila Velha – Espírito Santo - Brasil
          d) - : Vila Velha está localizada no Estado do Espírito Santo, na região Sudeste do Brasil. A história de Vila Velha se remonta à segunda década do século XVI, quando em 1534, Vasco Fernandes Coutinho, em Alenquer (Portugal), recebeu a carta regia que o tornava donatário de uma capitania, nas terras brasileiras. Ele desembarcou em 23 de maio em 1535, onde hoje é a prainha que fica ao lado do Exercito (1702 - Fortaleza de Piratininga) e do Convento da Penha (1570.. está a 154 m de altura). Possui belíssimas praias, com destaque para a PRAIA DA COSTA, uma das mais procuradas em todo o Estado. Seguindo para o Sul, chega-se às praias de Itapoá, Itaparica e Barra do Jucu, esta mais freqüentada pelos adeptos do surf por causa de suas ondas altas. Mais adiante há ainda a Ponta da Fruta e a Praia do Sol. Temperatura agradável, estando o sol sempre presente. A indústria mais importante é a Chocolates Garoto. Vila Velha já foi a capital do Espírito Santo até 1551 quando a sede foi transferida para o municipio de Vitória para fugir dos constantes ataques dos indíos Goitacás... aliás, justamente por ter conseguido vencer a batalha com os índios é que este municipio passou a se chamar "Vitória". Vila Velha está a 12 Km de Vitória e sendo Vitória uma ilha, Vila Velha está ligada a ela por três pontes.
         
          2º - a) Quando começou a escrever ? -;- b) Teve a influência de alguém para começar a escrever ? -;- c) Lembra-se do seu 1º trabalho literário (se puder, indique o título) -;- d) Foi divulgado (como) ?;
         
          a) - : Comecei a escrever quando tinha 15 anos.
          b) - : Fui infuenciada por minha mãe que gostava muito de escrever e usava a escrita como uma maneira de expressar seus problemas pessoais. E eu iniciei fazendo o mesmo, ou seja, escrevendo sobre mim mesma. A outra influência foram os livros, pois por ter sido muito timida, passei a maior parte da minha adolêscencia lendo muitos livros.
          c) - : Meu primeiro trabalho literário foi "Meu Ideal de Poesia" (prosa), escrito aos 16 anos. Na verdade, neste texto MEU IDEAL DE POESIA não estou falando da poesia em si, mas de mim mesma. Sou uma pessoa tímida, que fala pouco e por isto muitas vezes as pessoas não conseguem entender quem eu sou, ou me julgam de outra maneira. Assim, digo que gostaria de escrever uma poesia que fosse o espelho de mim mesma, no qual todos pudessem ver meu interior refletido nele e desta forma poderiam ver a verdadeira pessoa que eu sou, pois por causa da timidez não é possível.
          d) - : Na época não foi divulgado, mas atualmente fa parte do meu livro virtual VOZ DA ALMA.
         
          3º - a) Tem livro (s) impresso (s) (editora e ano) ? -;- b) Tem livro (s) electrónico (e-book ? (editora e ano) -;- c) Projectos literários para este ano de 2004 ? -;- d) Como vão ser editados ?:
         
          a) - : No momento não tenho livros impressos.
          b) - : Meu livro virtual VOZ DA ALMA, foi publicado pela AVBL (Registro no ISBN n.º : 98218) em 16 de Abril de 2004 (no dia do meu aniversário). Neste livro virtual retrato a pessoa que eu sou, é uma viagem ao meu interior, onde por meio de simbolos, abstratamente, falo de mim. É minha alma quem fala. Endereço para o download:
         
http://www.ebooknet.com.br/rosimeirelealdamotta/index.htm  
          c) - : No momento não tenho projetos literários, mas me encantaria ver o meu livro virtual, VOZ DA ALMA, num livro impresso.
          d) - : -
         
          4º - a) Fale-nos um pouco de si, como pessoa humana ? -;- b) Como Escritor (a) ? -;- c) Para se inspirar literariamente, precisa de algum ambiente especial ? -;- c) Tem prémios literários ?:
         
          a) - : Sou uma pessoa tímida, romântica, sensivel, auto didata (aprendi espanhol e a criar sites sozinha). Sou muito criativa e sempre tenho muitas ideias e uso minha página na Internet para colocar minhas idéias em pratica. Gosto muito de analisar, pesquisar, investigar, descobrir. Além de literatura gosto muito de História e Arquelogia. Deus está sempre em primeiro lugar na minha vida.
          b) - : Meu estilo literária é o Simbolismo. Em meus textos a vida interior é revelada por meios de simbolos. Existe a postura romântica, centralizada no "eu", explorando as camadas mais profundas do subconsciente e inconsciente.
          c) - : A Inspiração não tem hora para chegar. Se estou triste os textos brotam com mais facilidade, mas gosto de olhar uma foto, imagem ou desenho por horas, analisando o que vejo, o que está me transmitindo, os sentimentos ocultos e logo está formada uma poesia. Algumas poesias de minha autoria que foram escritas assim: "Esquecido para sempre", e "Olhar vazio", e outras.
          d) - : Nunca participei de instituições que premiassem poesias....
         
          5º - a) Tem Home Page própria ( não são consideradas outras que simplesmente tenham trabalhos seus) -;-b) Conhece as vantagens que os Autores do CEN têm em ter sua Home Page ou (e) Livro (s) electrónicos, nos nossos sites (preços, condições e divulgação) ? -;- c) Que conselho daria a uma pessoa que começasse agora a escrever ? -;- d) Para terminar este trabalho, queira fazer o favor de mandar um pequeno (e original) trabalho seu (em prosa ou em verso) ?:
         
          a) - : Minha Home Page se chama "RAZÃO DE VIVER... Um louvor a vida" (antes de chamava Rosimeire´s Home Page) http://planeta.terra.com.br/arte/webmeire/ - É um site onde há oportunidades para os novos talentos da literaura, pois ajudo a divulgar os mesmos. Sou muito exigente com a seleção do conteúdo, com a finalidade de manter a qualidade do site, assim, nem todos os textos enviados são aceitos.
          b) - : Sim, conheço o prestigio do site CEN através dos autores que colaboram com a minha página (são 89 autores), pois a maioria deles são filiados ao CEN.
          c) - : O conselho que daria para quem está iniciando a escrever é que primeiramente, verifique se escrever é REALMENTE sua vocação, pois a arte de escrever é muito mais do que pegar lápis e papel e rabiscar algumas palavras. Em seguida descubra qual é o seu estilo para que você possa se aperfeiçoar cada vez mais. Seja auto critico com seus textos e crie o habito de auto analisa-los, verificando qual é a mensagem que seu texto está transmitindo, qual é o tema principal, se o texto tem começo, meio e fim e evite palavras repetidas. E por fim, leia e escreva bastante.
          d) - : A seguir uma poesia de minha autoria. Aqui atraves de simbolos, falo de mim mesma... sofri muitas influencias negativas, normais arcaicas que me causaram muitos temores durante toda a minha vida, mas um dia me senti livre de toda opressão interior, mas fiquei parada sem saber o que fazer com a minha liberdade de pensamento de tão acostumada que estava com a minha vida anterior...

          TIRANO INTERIOR
          Rosimeire Leal da Motta
         
          Um ser invisível ao olhar humano,
          usando chapéu e capa pretas até os joelhos,
          com a mão esquerda segura a mão direita de uma mulher.
          Ela está trajando vestido verde claro,
          está grávida, no final da gestação.
          As paredes ao redor de ambos são vermelhas.
          Ele está com a mão direita erguida para o alto,
          como quem diz: "Pare!"
          Ele escuridão, obstáculos, opressor.
          Ela esperança,
          o sangue corre em suas veias, tenta viver.
          Um candelabro de cristal dourado paira sobre eles,
          sua função é derrotar a insegurança.
          Ela não o vê, apenas sente o peso de seus atos sobre si.
          Opressão, que dificulta seu crescimento pessoal.
          Este vulto vigia seus passos,
          a persegue por onde ela for.
          São seus preconceitos, seus temores interiores,
          normas arcaicas que a sociedade lhe impôs,
          e a impede de seguir adiante.
          Barreiras que lhe impossibilita ser ela mesma.
          Do seu ventre nasceu a revolta,
          fruto de uma prisão no recôndito do seu íntimo,
          que explodiu e estraçalhou a redoma que a envolvia.
          Assassinou o tirano interior.
          Saiu correndo e abriu a porta da vida,
          mas, ficou parada segurando a maçaneta e olhando para fora,
          com medo da liberdade do pensamento.

    

Conheci Rita - Salomão Rovedo

         
          Conheci Rita numa festa e logo ela tomou conta do ambiente. Vivia cercada de toda gente e, como conversava com todos, arranjou um tempinho para falar comigo. Depois daí grudamos o tempo todo numa amizade de ferro e fogo. Amizade ou amor? Quantos anos? Nem sei. Muito tempo foi, porque crescemos, nos formamos, namoramos, não casamos. E por ser boa demais – por sermos feitos um para o outro – achamos de nos juntar um pouco. Mas viver juntos é para gênios e como éramos comuns nos apartamos em paz. Cada um para o seu lado. E mesmo depois das separações que a vida traz, achávamos um jeito de nos telefonar, fazer contato. Coisa assim mesmo, de grude, que nem mesmo as múltiplas oposições que isso acarreta conseguem separar nem provocar ciúmes bobos.
          Soubemos também ter capacidade para ouvir os problemas, as alegrias, as tristezas, de lado a lado. Principalmente estas, que a gente não encontra mais ninguém ainda disposto a ouvir tristeza de outro. E as confidências de casal, que o marido nem a mulher conta para o outro, segredo de alcova, de quatro paredes, de cama e mesa. Coisa muito além das barreiras intransponíveis que, com paciência e bondade, conseguimos transfundir no outro. A vida e a morte são duas caixas eternamente trancadas: uma guarda a chave da outra.
          Tudo começou com um gatinho cor de fogo condenado à morte pelas crianças da rua. Brincavam com ele como se jogassem bola. Atirando-o de um lado para o outro, chutando-o, jogando-o na parede, na calçada. Fui ver de se tratava aquela algazarra e mal abri a porta o gatinho passou por entre as pernas de Rita e sumiu para dentro de casa. Os moleques reclamaram um pouco, mas logo arranjaram outra ocupação.
          O bichinho estava castigado, sangrando numa das orelhas, mancando das patas, com arranhões por todo o corpo. Rita cuidou do bicho com carinho, passou mercurocromo nas feridas, deu um pires com leite e ele se recuperou por completo. Foi ficando e atraindo os companheiros. Era brincalhão como todo gatinho e todos gostavam dele. Veio um, mais outro, outro que estava ferido, uma fêmea prenhe, formando uma gataria de respeito que em pouco tempo principiou a interferir na nossa vida. Além da presença incômoda, os bichos ficaram fora de controle, pêlos começaram a flutuar pelo meu computador, enchendo o teclado, penetrando invisíveis na impressora, manchando o papel – uma loucura enfim.
          Nem toda bondade do mundo agüenta tanto gato. E porque sujavam meus papéis, arranhavam e comiam os livros, brincavam com meus CDs de um lado para outro, cagavam no velho, encardido e insubstituível sofá, pensei cá com meus colhões: ela não pode viver sem os gatos, eu não posso viver sem meus livros, ela não pode deixar de ser boa com todos, eu não posso largar o computador nem a internet. Em resumo: nós não podemos viver sem o outro. Parece muito zen não é verdade? Porque também não podemos viver juntos. Acreditem.
          Por isso a despedida foi ao som do zunido das cigarras, só uma lágrima para tantos adeuses. As garças voavam para o sul sob um aguaceiro de lágrima que acabou por contaminar os amigos, alguns com defecções terríveis. Lastimáveis batalhas entre eles, um eco tão impensável e terrível. Como a destruição em cascata que provocam os tremores sísmicos. Como o câncer que só dá na mulher do vizinho... Enfim foi bom para a produção individual de cada um: ela lá com seus gatos e a Sociedade União Internacional Protetora dos Animais, eu aqui tratando de artigos diários para a imprensa, de livros para editoras. Além do mais, fundamos eu e amigos uma editora pequenina, vaidade própria que cuido com um gosto tarado, a ponto de examinar um a um os originais que nos são enviados por escritores de todo canto.
          Para fazer tremer a paz que eu estava desfrutando (que transmitia a ela através de e-mail), Rita, contando com a minha compreensão infinita, me relatava coisas sobre seus novos namorados, incluindo alguns detalhes que – confesso sinceramente – não me interessavam de modo algum. Me deixava intrigado quando vinha com essas histórias. Que prazer sentiria em me contar? Por que insistia em me detalhar casos que já haviam recebido o meu repúdio mais de uma vez? Acho que sabe que isso me magoa, mas continuava com a cantilena. Talvez eu também a ofendesse quando contava dos meus prazeres e alegria de estar realizando o sonho de uma vida trabalhosa, mas tranqüila. Paciência, me calava ao telefone e deixava ela discorrer à vontade sobre tudo e todos, até que se cansasse.
          Foi Rita que me levou ao aeroporto. As garças voavam para o sul. Estávamos no apartamento dela, eu com malas arrumadas, passagem no bolso, só queria passar os últimos momentos perto dela. Ela foi ao banho, passou de toalha na minha frente e foi se vestir. Fui para a janela ver as cigarras chiando, grudadas nos galhos invisíveis e também tirar da cabeça muitos desejos. Amigos. Amigos. Da janela dava para ver uma réstia do quarto onde Rita se arrumava. E da fresta um bem abençoado espelho refletia pedaços dela. O corpo nu passeava no quarto, se enxugando, pegando peças de roupas, se penteando. Os seios fartos balançavam fazendo um bale com os bicos negros. Era uma bonita mulher. Cheia de carne, sem ossos a mostra, ancas ondeadas, quadris generosos. Uma excelente candidata à mãe.
          Na despedida ela não chorou. A demonstração se limitou à uma vozinha triste, um certo desânimo, suspiros. Eu senti menos porque sabia das minhas necessidades: ou faria a viagem ou todas as portas do futuro se fechariam de vez. No fundo, no fundo, eu odiava era ter que cair no mesmo engodo, ser atraído para a mesma armadilha da solidão que, afinal, está ali na espreita de todos nós. Enfim, se eu não fugisse de perto de Rita acabaria tendo que casar com ela. Isso estragaria a amizade e me transformaria também num criador de gatos. Esse era o terror real que me impelia para longe dela.

         Olhando a vida pela Janela - Vanderli Medeiros
         
          Hoje, olhei pela janela e revi minha vida,
          vi com assombro como anos se passaram;
          pela minha retina desfilava um filme
          em preto e branco do que já vivi...
          Não percebi a rapidez de como as coisas mudaram;
          conceitos, pré-conceitos, amores, valores, pessoas...
         
          Amores que pareciam eternos, se foram,
          outros que pareciam passageiros
          que perduraram por tempo demais...
          Sonhos acalentados, há muito perdidos,
          esquecidos no fundo do baú das lembranças envelhecidas...
         
          Revi essa velha companheira que insiste em me acompanhar:


         
A SOLIDÃO
         
          Como o tempo passou tão rápido e não percebi?!
         
          Percebi que um fio branco surgia entre os fios negros,
          como a lembrar-me que os anos
          são imperdoáveis à todos nós,
          e eu não estava imune a ele também.
         
          Mirei-me no espelho,
          os olhos são os mesmos,
          a mesma coloração esverdeada,
          esses parecem não envelhecer,
          ainda chamam atenção.
         
          Contudo, em volta deles,
          ainda quase que imperceptível,
          uma ruga teima em querer aparecer,
          para lembrar-me, uma vez mais,
          que os anos passam por mim
          e vão deixando suas marcas registradas.
         
         
          Pela Janela da vida,
          pude ver que meus trinta e poucos anos
          passaram num átimo de segundo,
          e o quanto o tempo é volátil, relativo...
          Preciso com urgência rever meus planos
          antes que seja tarde demais
          e eu perceba daqui trinta anos
          que esqueci fazer o mais importante:
          DE VIVER!