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Nº 32 -
Agosto de 2004
Editor :
Carlos Leite Ribeiro

Vejo e não-vejo flores - Amaso e
Thackyn
Vejo e antevejo
as flores que exalam odores
e palavras que soam resoam
como um bálsamo
no sentir e no olhar
talvez no mirar em jardins
e acertar no bosque
quando vejo e antevejo
uma simples imagem de mulher
e
quando mulher
vejo a imagem do imaginário homem
pois
sou o sujeito-lírico
que habita as linhas
que reside nos versos
e completa a obra
o poema que se forma
no oferta de apenas uma simples rosa...
Por isto
que
sou muitos
para não me limitar em ser apenas mais um...
Por isto
amo e odeio
Construo e destróio
Armo e desarmo
Amo e desAmo
Vivo e Morro
Ressucito e Renasço
Acendo e apago
os pavios
só para ver o teu cio:
Mulher
e quando mulher
enganar também os tolos homens...
Sem me vestir de rosa
sou o espinho
a antítese da negação
no niilismo do existir enquanto pedra...
FORÇA DO AMOR -
Nadir A D’Onofrio
Sentimento estranho,
causa, alegria, nostalgia.
Quando teu olhar, tento imaginar
minhas mãos, teu rosto contornar.
Meus dedos teus lábios tocar.....
Não é loucura esse desejo sentir,
nem tampouco, almejar ser feliz.
Como criança carente de afeto,
procuro em teus braços me aninhar.
Um carinho ganhar...
Vencendo barreiras em pensamentos
vou em forma de vento, brisa ou temporal.
Transmuto-me, em gaivota ou colibrí
perfume, sabonete ou tua caneta.
Realizo milagres, para junto de você ficar!
Envolta nas cores do arco-íris,
Vivenciando sonhos em vigília.
Correndo de encontro a um amor,
que imaginei, no éter plasmei...
Até que afinal, um dia encontrei!
Santos SP
A Máscara Rainha
- Safira Lilás® Sueli Donario
Dentre os meus males sentidos
Todos os meus bens querendo
Tolos sentimentos, tão queridos
Mas quase só amor, morrendo
Dependentes, nos mais que falidos
Salvos com puro amor, devendo
Proibidos, sem ter alvos lascivos
Completos no profundo ser, vivendo
Sempre tão egoístas no fim
A memória só, foge enfim
Recalcados então, rosto abjeto
Invisíveis, a marca descobrem
Com quem vivem, se cobrem
No mundo escuro, distraídos.
Você é minha
maior emoção - Luciane Macário
O sol nasce e com seu esplendor nos ilumina.
Fazemos planos, saímos, trabalhamos...
Em cada palavra, cada gesto e toque,
Nos lembramos de alguém.
Um sorriso marca.
Um abraço marca ainda mais.
Palavras eternizam...
Estou aqui, hoje em especial,
Para dizer que você é essencial em minha vida.
Que os dias sem você não têm o mesmo brilho,
Dizer que sem suas palavras sem o seu sorriso
Nada sou...
A cada dia suas mensagens me tocam o coração,
Você é minha maior e melhor emoção, sem você,
Não faz sentido viver...
Amigos são assim, tem que ser assim...
Para sempre.
Amigo Luso Pastor
:
O maior anseio do poeta é poder pintar com palavras, retratos da alma e
do quotidiano.
Não sou grande apreciador de praia porém, há dias, resolvi dar um
pequeno passeio por Sesimbra, sentando-me por momentos no muro da
marginal, olhando o areal que se estende até ao mar. O meu olhar saltou
na praia, brincou e gargalhou com as crianças, jogou com os adolescentes
e acompanhou o passeio lento dos mais idosos. De repente parou
embevecido e foi então que assistiu a esta enternecedora cena de...
CIÚME - Humberto Soares Santa
Ó que linda imagem
Tenho na retina :
É uma miragem
De uma menina
Que na fina areia
Se aquece ao Sol
E ao Sol se penteia.
Ai que bela tela !...
Que linda menina !...
Que linda donzela
De cintura fina,
Qual estrela do mar
Que o mar rodeia,
Beleza na praia,
Que da praia, alheia,
Ali se penteia
Com pose felina.
É moira encantada
Que na maré cheia
Foi p’lo mar deixada
Sobre a fina areia.
Surge p’la calada,
Ali se bronzeia
E fogos ateia
Na rapaziada
Que alvoroçada
Por lá se passeia.
Bela, penteada,
Mil olhos enleia.
Ignora a moçada,
Sem pose estudada
Toda se meneia.
Alguém na enseada
Fala à namorada :
- Quem é a sereia ?
Diz esta enjoada :
- Eu não faço ideia !
Apareceu do nada
Essa descarada !...
... Que garota feia !...
Cotovia, Sesimbra - Portugal
Humberto Soares Santa
FILHOS DO NADA -
Sónia Monteiro
Vagueiam sem rumo
Sem lugar nem destino
Um passado ausente
Um presente indefinido
Têm um lar incerto
Sem portas, paredes
Sem tecto nem chão
Andam à sua sorte
Uma guerra selvagem
Na lei do mais forte
São os filhos do nada
Em busca do paraíso
Dormindo no Sol nascente
Pedindo forças numa estrela cadente Refrão
São os filhos do nada
Neste mundo de ninguém
Uma luta incessante
No meio desta selva
Tentar ser alguém
Por ruas ou becos
Andando sempre por novas paragens
Entre sonhos perdidos
Rumando agora por outras margens
Identidades escondidas
Numa história apagada doutra era perdida
Olhados com indiferença
Mas cada um tem em si
Um lado de decadência
Refrão
(Instrumental)
Serão filhos de ninguém?
Não têm tempo nem espaço
Não há destino marcado
São os filhos do nada
Irão chegar mais além?
Voando noutros caminhos
Noutros lugares imprecisos
São os filhos do nada
São os filhos do nada
São os filhos do nada
(Pausa)
São os filhos do nada
(Refrão)
Letra: Sónia Monteiro
Poema com música já destinada
RECORDAÇÕES -
Margarida Reimão
Recordo-te na última tarde em que bebendo cerveja
Tomei coragem par tentar achar-te na cidade
Captei teus pensamentos em insignes momentos
Encontrando-te um minuto e meio antes da hora
Achei-te abatido, desconfiado e pensativo
Um tanto mudo e absorto em contemplar a vida
Chamei-te alto, dentro do coração
Corri aos teus braços que me esperam
Vaguei em cauda de foguete em direção ao espaço
Criei fantasias de brisa e melodias de amor
Efêmero encontro, talvez, modesto até
Mas ficaram marcas entranhadas dentro de mim.
No silêncio em que mergulhei em seguida,
dancei, dormi, encontrei-te em fim
Naufraguei-me na noite seguinte
E ainda hoje procuro, bêbada, teus passos.
Cá
Estamos Nós
Naturalmente !!! |
O Capitão - Schyrlei Pinheiro
Ficou à deriva, no mar,
enfrentou tempestades, ressacas.
Ouvindo a sereia, distante, cantar,
içou velas; afoito,
foi ao leme girar
para esquerda, para direita.
Queria, no tempo avançar,
porém, estava encalhado.
Sua sina era esperar
que o bom tempo soprasse
e ele pudesse, novamente, navegar
sobre as águas verde-claras
da imensidão do mar.
Seguindo a sua rota, calculando encontrar, em um porto seguro,
dois braços a esperá-lo,
despedindo-se da saudade,
resguardando um terno olhar
espelhando felicidade,
murmurando ao falar,
bem vindo ao nosso lar.
Amar é...
Vanderli Medeiros
Amar é doar-se,
e na entrega ser autêntico,
é desejar que quem amamos seja feliz,
mesmo que longe de nós,
mesmo que em braços alheios...
Quem ama
desconhece a posse,
a desconfiança,
a maledicência,
o ciúme,
a covardia...
Amar é ter luz própria,
é confundir seu brilho
com o brilho do sol,
das estrelas...
Quem ama sempre é amado,
se é dando que recebemos,
ao amarmos ficamos iluminados
e nossa luz atrai corações afins,
e o amor perdura em nós!
Vanderli Medeiros
DO ÓDIO & DO AMOR -
Salomão Rovedo
Jogou o pacote de pão no lixo. Eu vi.
Não estava à vista nenhum necessitado.
A presença mais forte é a do amor, do ódio,
do querer e não-querer, do ficar e ir-se.
Agora que estou longe, espero que o amor
insista em perseguir sonhos e pesadelos.
Não me atrai a queda, porque o caído
supera o próprio existir, fotografias apenas.
Ali mesmo, bem ali, na próxima esquina
a mulher amamenta o filho mal e porcamente.
Atirou o pacote de pão na lixeira, pão fresco
da padaria e um meio-litro de leite e café.
E foi apenas uma decisão pessoal: ela
embrulhou os olhos verdes para outro.
Fim.
Embora veja os lábios de negra dela,
grossos, carnudos, entreabertos de prazer, fico.
Eu, a vítima. E porque ela não me quis.
E por que sinto-me atacado pela banalidade.
Guardo os pães não jogados no lixo,
manteiga, aqui o café, leite quente, biscoito.
Joguei o rancor na lata de lixo, o ódio que
não tive preso na lembrança, a memória.
Livrando-me do peso, querendo ser leve,
sem direito de julgar o que fosse, ou seja.
Algumas datas não se deve esquecer:
15 de outubro, 9 de maio, nascimento, morte.
O momento é aqui e agora, a transposição,
o outro mundo, o corpo invoca-se e vai.
Pode parecer uma atitude banal, mas não,
não pensei na fome da mulher sentada.
Porque não se ganha esperança, nem o dia
de ontem: por que não desejar o amanhã.
EU TE PERDÔO -
DIANA LIMA
Eu te perdoo, meu querido
Por não estares sempre comigo
Por teres o espírito, me traído
Por tu seres, na carne, impoluto
Traição em outros sentidos
Eu te perdoo, meu amor
Por trazeres-me a alma sempre em dor
Por fazeres em minha vida
Sempre em lágrimas vestida
Sempre em culpas, dorida
Eu te perdoo, meu amado
Por jamais teres estado ao meu lado
Quando mais de ti precisei
Eu só queria um ombro amigo
Um forte abraço...
Nada precisavas dizer...
Eu te perdoo por me julgares
Forte, fraca, tua, nua, bonita, feia
Às vezes mulher, às vezes sereia
Às vezes esposa, às vezes amante
Eu te perdoo por acentuares
Fraca, feia, esposa, tua mulher
Fizeste com tua ausência
Minha marcada presença
Forte, bonita, nua, sereia, amante
Abriste espaços a todo instante
A cada lágrima por ti vertida
A cada dor, resignada
Me fizeste amar, ser amada
Me fizeste, sublimada
Por isto te perdoo de coração
Por toda minha emoção
Por me fazeres crer e saber
Que apesar de resignar, sublimar,
Que preciso de mais...
Que minha força é débil sozinha
Que minha beleza caminha
Sem dar-te as mãos...
Que meu lado amante é marcante
Que ele precisa ser exercitado, extasiado
Eu te perdoo e te agradeço, meu adorado
Pela oportunidade, mesmo inconsciente
Que me lançaste, mesmo sob correntes
Fizeste me forte a ponto de romper
Elos de aço...
Elos de compromissos...
Libertas com meu perdão,
Minha alma, meu coração...
DIANA LIMA, ITANHAÉM/SP
PENSAMENTO -
Maria Angélica Mello
O pensamento voa livre como um pássaro.
Submerge corajoso em mundos escuros como um submarino.
Flutua preguiçoso como uma bóia no mar,
Nada tranqüilo como um peixe.
Corre possante como um tigre na selva.
É curioso e criativo como criança.
É cruel como um carrasco
E doce como um chocolate.
Submisso como uma gueixa
E rebelde como um guerreiro.
Ama como o Criador
E odeia como os espíritos das trevas.
Peça poderosa e independente, que por vezes tem vida própria
e não se curva às nossas ordens.
Me rendo a ti, engrenagem divina, ao sentir que te desenvolves
dentro de nós, nos transformando em
Diferentes, Especiais, Únicos... no seio de um Universo global,
cada vez mais tão igual!
O FANTASMA DA
ÓPERA - Tereza da Praia
Temer o amor é temer a vida, e os que temem a vida já estão meio
mortos."
Bertrand Russell
Tereza da Praia
Eu poderia me vestir de Carmem, a Cigana;
Ou Aída, a amiga. Talvez Ilara, a índia.
Quem sabe vestir-me com aquela fulana
A quem Beethoven denominou "Minha Amada Imortal"
E sobre ela guardou segredo por todos anos e dia
Que nem seus biógrafos descobriram, era confidencial.
É, eu poderia...
O fantasma da ópera, porem, veste-me bem melhor.
Após os aplausos, terminado o espetáculo,
Apagadas as luzes, no teatro escuro,
Sem obstáculo, escuto!
Escuto-te e respondo-te, vida!
Eu, o fantasma, que te ouve e te sente.
Que conhece o teu pulsar
Que advinha o teu medo de amar.
Quando o espetáculo termina,
Cai o pano, fecha-se a cortina,
Sei a dor que te domina,
Não é uma dor de menino
É dor de homem sofrido
Que dá um calado gemido
Por que já nem pode sonhar.
Escutam-te, junto comigo,
Os ratos e as lagartixas,
O vira-latas que pra mim cochicha
A existência de almas que habitam
Esta tua indômita solidão.
Além do mais, minha vida,
No palco do teu teatro, há um ator,
Que representa tão bem o papel
Que chega fingir que é dor violenta
A dor que deveras inventa
E assim gira a roda cruel,
Enganando a razão desatenta
Vivendo do amor desilusões e tormentas
Que na verdade não sente, acalenta!
Tereza da Praia
Cenas Insanas.
QUERO VOCÊ -
Margaret Pelicano
Cuide de minha alma adolescente com carinho
Venha para mim nessa noite escura
A vida está tão dura
Vamos construir nosso ninho!
Entregue-se ao meu beijo apaixonado
Venha para os meus braços com cuidado
lentamente o amor acalentando...
venha, amor, traga sua alma. Pairando
sobre a minha, está sua boca que se entrega
num beijo longo, de longa espera;
suas mãos em minha nuca e cintura,
firme segurando o meu corpo em doçura
e após o beijo suave, a barba áspera em meu rosto
se arrasta, provocando o gemido
do tesão que alucina...essa é minha sina
Desejar e não ter isso posto...
Você é o meu amor, o meu gosto
Aceite o meu convite, não me dê esse desgosto
A noite está escura e eu quero o seu corpo
sobre o meu, do lado do meu
Quero você em minha cama,
me sentir amada a protegida,
e não levar essa vida sentida...
Quero você dizendo que me ama!
Brasília
BEM-TE-VI - Célia Lamounier
Bem-te-vi é um passarinho
Muito alegre e brincalhão
Vive feliz no seu ninho
Cata migalhas de pão.
No meu lar são três filhinhos
Bem-te-vi a escutar
Quisera fossem bonzinhos
E aprendessem a cantar.
Meninos, o bem-te-vi
É amável professor:
Ensina a ver por ai
Que a vida é canto de amor.
http://celialamounier.portalcen.org |
TEXTO - by P@ulo
Monti
Escrevo-te, esta noite, sobre um violão. Não tem nenhum sentido simbólico.
Escrevo sobre um violão. Apenas isto. Mas, escrevo-te como quem pare:
sofrendo o conjugar de novas palavras, o descobrir de maneiras diferentes de
percepção. Escrevo na noite. Por sua calma com que me faz pensar em ti.
Mas, sinto-te como
nunca, longe. Estás, não estando. Sentes falta minha, de meu espaço físico,
de minha caminhada, porém, situas-te noutra atmosfera. E, perdôo-te por não
poder sentir a minha. Ela é mais densa, mas nem tanto que não a possas
penetrar: nela, sofro o desgaste do escrever. E, ainda mais, sobre um
violão. Até podes achar-me ridículo e pouco cômodo. Não te censuro. Pelo
contrário. Concordo contigo. Mas, se não passarmos uma noite em claro,
jamais saberemos o quão gratificante é o amanhecer. E, no amanhecer, me
revelo. Assim como no anoitecer me desvelo. Mas, são condições.
Quem tem opções, me
rirá. E rirei junto. É preciso muita pouca coisa para haver condição – é
preciso que ela exista, simplesmente. E ela existe e isso é maravilhoso. Eu
me gratifico profundamente. E, profundamente, vou tecendo os elos da minha
corrente. Um a um. Até que, de repente, o lirismo me surpreenda numa sílaba
ou num verbo – amar, sempre tão intransitivo, mas com que transitar!
Mas, já outros mundos
me ocorrem. Assaltam, quase. Enfim, a vida é feita de assaltos. Então, cada
vez mais bandoleiro me torno. Assalto o sol pela manhã – estrelas, à noite.
E, nas estrelas, o grande mistério: serão realmente poligonais? Não o sei.
Aliás, já outro assalto me interrompe.
O poder, o fascínio
que exercem sobre nós certas criaturas encantadas que não quero desencantar.
Aliás, estas ficarão comigo, não o saberás. Não quero desencantá-las. Às
vezes, acho que o poder maior está no próximo minuto. Dele dependem todos os
meus sentidos. E, nele, te encontrarei. Ou perderei.
Não, não quero o
próximo instante. Basta-me o que tenho, se é que o tenho. Acho até que é ele
que me tem. E, nesse ter ou não ter, vamos assaltando e balançando
loucamente sobre o abismo. O abismo que nos separa física e emotivamente,
pois, jamais estaremos dentro de nós.
Aliás, sábia lei,
esta da física: não ocupar o mesmo lugar. Ainda poderemos tentar – e devemos
fazê-lo quando estivermos a sós, embora sabendo que nunca estaremos, pois,
somos dois – derrubar este mito.
Por falar em mito,
somos tão carentes de mitos que esquecemos o maior deles: nós mesmos. Por
que não seres um mito para ti mesmo? Por que precisas buscar fora quando
tens tudo dentro? Necessário é, pois, que jorrem todas as coisas, as poucas
coisas que, falsamente, pensamos que somos. Deixemos que venham à tona todos
aqueles corpos celestes que nos foram fecundados há séculos, quando o
primeiro grande contato foi feito: sejamos capazes de ser, não de buscar o
que não é somente porque o projetamos.
Queres que te diga
que grande contato é esse, não? Para que queres saber? Não te basta que ele
aconteceu? São coisas encantadas nas quais é preciso crer. Crer cegamente.
Ou, ainda, saber que são encantadas, pois, ser é fundamental. Sejamos,
então. Por isso, quero ser justamente aquele que está atento, que cuida do
mundo, que olha mais internamente: que escreve à noite, como um suicida,
equilibrando-se numa tênue linha – como uma buzina na madrugada. Mas, já é
outro mistério. E a necessidade de explicar se faz presente.
Ah! Explicar. Sempre
explicar. Aceita o mistério e procura sê-lo, encantadamente, como ele o é,
sem perguntas. Ele é. Isso basta. E de um ângulo sobre um violão. Um violão
apenas. Mas, quanta música dorme nele esta noite. Quanta!
E tu não saberás que
atravesso a noite, olhos atentos ao menor ruído e, ouvidos prestes a divisar
o amanhecer. Assim, vou sendo: meio louco e meio poeta, rasgando as cortinas
da casa para que o sol surpreenda-nos magnificamente nus, embora estejamos
cobertos com a poeira dos séculos. Mas, o que importa, agora, é que a lua
descobriu-se e é. Lua, apenas lua. Vou fechar a janela e vou dormir.
Dormirei sendo.
Um abraço
P@ulo Monti

Quentes lembranças - Kika Perez
Naquele dia de final de inverno, frio, tristonho e solitário, eu na cama
aquecida, coberta pelas lembranças do passado.
Sentia seu cheiro,
que ia entrando junto com o frio, pelas frestas e, você apareceu, foi se
despindo, das roupas, dos pudores e das agruras do seu dia. Seu corpo moreno
e cansado, caminhava para o banho e, eu via, pela porta entreaberta, a água
e a espuma cobrirem teu corpo que assim, se refazia do cansaço.
Então, nua fiquei, e
juntei-me a esse banho, esperando receber todo o teu carinho, tuas carícias
e o calor que só teu amor conseguia me dar.
Rápido, com um forte
abraço, você me alcançou, juntando nossos corpos, eu pude sentir o gosto de
sua boca em minha boca, sua língua percorrendo meu pescoço, meu peito, os
seios. Os nossos corpos ensaboados giravam, num baile de infindável desejo.
Tuas mãos grandes e
macias me tocando, me puxando, pedindo tudo de mim.
E eu, feito gata no
cio, roçando, gemendo e querendo todo teu calor, teu sexo, teu amor.
Senti sua carne em
minha carne se esfregando, procurando, me penetrando. Devagar, molhado,
forte, na medida certa do meu desejo, que agora, já se perdia entre tua
boca, teu sexo, sussurros e beijos.
A água morna, a
espuma deslizando e nós dois delirando de tesão, querendo entre braços,
pernas, beijos e abraços, de tudo esquecer, na vida nos perder. No êxtase
total, a entrega, o máximo do prazer.
E, depois do gozo, no
final desse meu delírio, o frio me fez acordar, minhas unhas cravadas nos
lençóis, o cheiro do gozo em meu corpo, a umidade em meu sexo, me fizeram
lembrar que você ainda está em mim, me amando, me penetrando, me dando e eu
querendo esse nosso prazer... sem fim.
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