Nº 37 - SetembroMarço de 2004

EDITOR: CARLOS LEITE RIBEIRO

NAQUELA NOITE…- Sara Rafael

Nas tuas mãos perfumadas
a rosa se entreabria
os amantes iniciados
a cor, a sintonia

Impulsos bailados
rendilhada harmonia
harpégios desejados
em espamo sem agonia

Hoje esperei por ti
se viesses ver-me
seria trivial

Naquela noite,
a primeira, original...
o ritmo e a magia!

Lisboa – Portugal

Língua portuguesa - Wanderlino Arruda

Mensageira do amor,
timoneira da esperança,
testemunha de muitas lutas,
acompanhante de muitos anseios
no maior cadinho de raças,
que a história já viu.
És mistura, eterna mistura
de lusos, celtas, fenícios
gregos e cartagineses.
És cadinho ibero de romanos e suevos ,
alanos e godos, gente brava germana.
Língua mãe de uma pátria universal,
mestiçagem de antigos árabes
luta e trabalho da raça africana,
mescla de sangue da América.
És história de muitas conquistas,
na guerra, na paz,
no desfrute, na tristeza,
na opressão, na liberdade,
acima de tudo, ó Língua Portuguesa,
és o canto maior de uma raça,
de homens e mulheres
que ampliaram fronteiras.
Altaneira na humildade,
és soberana e criativa na formação
de uma nova gente
mesclada raça lusitana.

QUAL É A VERDADE - Rosélia Martins 

SENTO-ME NA CADEIRA DO MEU SONHAR
ABRAÇANDO OS SONHOS QUE NÃO REALIZEI
QUEDO-ME POR INSTANTES A PENSAR
PORQUE RAZÃO EU NESTE MOMENTO PAREI

VIVO NO AGORA ESTE MOMENTO FINGINDO
QUE É O OUTRO QUE PASSOU E SE PERDEU
CORRO PARA TEUS BRAÇOS SORRINDO
DISTRIBUINDO SONHOS EU POR AÍ VOU

VIVO SINTO CANTO SOFRO E CHORO
NESTE DIA A DIA PLENO DE INCERTEZAS
SE CHORO SERÃO LÁGRIMAS DE ALEGRIA
SE CANTO SERÁ FINGINDO MINHAS TRISTEZAS

MERGULHO NESTE ESPAÇO ONDE NÃO ENCONTRO
A PALAVRA CHAVE DESTA SITUAÇÃO
MEU SORRISO DISFARÇANDO MEU PRANTO
MEUS OLHOS ABERTOS AO MUNDO DA EMOÇÃO

SOU A PALAVRA SEMEADA AO VENTO
SOU O GESTO DOANDO UM FELIZ AMOR
SOU MIL EUS NO MEU PENSAMENTO
SERÃO BOCADOS DE CÉU CLARO OU DE DOR

A VIDA É UM VERDADEIRO DESENCONTR0
NESSE SONHO QUE É O NOSSO IMAGINAR
ONTEM HOJE MIL AFECTOS MAS A QUE PONTO
SABEMOS DOS REAIS AOS FALSOS DIFERENCIAR !?

Rosélia MariaGuerrero Martins
P S Adrião- PORTUGAL

Vida de uma nota só ! - Zena Maciel

Nas trilhas do tempo
fui caminhando pelos anos e
muitos espinhos pisei
Com labirintos obtusos
me deparei!
Ecos vazios gritei
As portas do mundo
não encontrei
A boca da felicidade
não beijei
Desejos ocultos guardei
Utopias não desvendei
Fantasias rasguei
Nas vãs filosofias não
acreditei
A primavera abortei
Flores ao vento soltei
Com o perfume da solidão
me banhei
O coração vagabundo machuquei
Cicatrizes magoadas no
peito tatuei
Com elos da escravidão
a alma amarrei
Os nós não desatei
A carta de alforria não
mais desejei
No jardim da desilusão
sentei
e a lei da estática desenhei
A luz do sol ironizei
Nas trevas penetrei
A vida de uma nota só
foi tudo que ganhei
Diante da cruz do destino chorei
porque a sinfonia dos meus sonhos
nunca escutei!
A partitura da ilusão de ódio
rasguei !
Com a música do desencanto meus
dias acalentei!
A sede de infinito não matei!

(IM) PULSO - Nilson Matos Pereira

Criança tem apenas sentimento
Sendo inocente, pura e sem malícia
Ouve a emoção que é voz do pensamento
Não quer saber de lei nem de polícia

Adulto ouve a voz só da razão
Sabido, que levar sempre vantagem
Assim procura a certa decisão
Cabeça fria mostra-lhe a passagem

Há muito que aboli sábio domínio
Não sigo mais a voz do raciocínio
Ouço somente a voz do coração

Voltei a ser criança novamente
Não quero mais escravo ser da mente
Quero perder-me em tua tentação

Araranguá

Onde anda meu amor... - Schyrlei Pinheiro

No ar,
sinto teu perfume diluindo-se na água da felicidade,
banhando os cantinhos de meus olhos,
dilatando os poros
do meu corpo,
à espera de sorver,
gota a gota,
do teu carinho,
sentindo-me vestir
de ternura,
acalentando minha alma
febril,
delirando no êxtase
de gozar a liberdade,
de roubar, de tua boca,
os beijos eternos
do sentir,
que espelhamos
na mesma vontade
de sem medo,viver
a somar amor

PORQUE ESCREVO? - Arneyde T. Marcheschi

Escrevo para esquecer
para reviver os momentos
felizes...e os tristes...
Escrevo rebuscando na alma
memorias esquecidas
brincando com minha dor
com minha solidão.
Escrevo para voce
que confia em mim
que me ama...que me quer.
Somente para contar
dos meus anseios,
dos meus medos
dos sonhos que ainda tenho.
Escrevo para mim
para dizer-me o quanto
vale a pena viver
lutar e lembrar que um dia
fui uma pessoa feliz
lembrar dos amigos queridos
e saber que inimigos
não tenho...
Se voce me le,
simplesmente me aplaude
ri comigo de minhas
travessuras, chora comigo
as minhas dores...
as minhas saudades...
é porque realmente
voce é meu querido amigo.

Vitoria - E.Santo

CAIXA DE FIGURAS - Margarida Reimão

Noite alta, tarde densa,
de memória em memória, reacendo meu calendário
passando, vagarosamente, meu caminho, de pedras fartas,
de lasso inconveniente e de figurinhas desmaiadas e solitárias.

Noite alta, lua dormente,
aleluia ascendente em minh´alma.
Vai-se, com claridade, amanhecendo,
enquanto procuro minhas figurinhas novamente.

Cálido, o peito aberto, em festa, calado,
na desobrigação de ser ou estar sem ir
e, sorrateiramente, balança minha testa e meus pensamentos.

Enquanto a ventura me aguarda,
coleciono as peças do meu calendário imprescindível,
Em vôo rasante de volta às minhas lembranças.

Margarida Reimão

O HOMEM E A MULHER - Selma Amaral

O homem e a mulher
surgiram na Terra
primatas,
símios,
homem e mulher
das cavernas
não civilizados.

O homem e a mulher
evoluíram na Terra,
fizeram descobertas,
geraram o fogo,
registraram acontecimentos
e garantiram os alimentos.

O homem e a mulher
desenvolveram-se na Terra,
criaram a Ciência,
vivenciaram a Educação,
praticaram a Medicina,
aperfeiçoaram a Tecnologia
e formularam as Leis.

O homem e a mulher
parecem haver
estagnado na Terra:
violência, fome,
desrespeito,
desemprego,
injustiça,
marginalização
e exclusão.

O homem e a mulher
vislumbram
outro tipo de Terra:
sabedoria, competência,
igualdade, justiça,
amor e paz.

O destino do homem
e da mulher
na Terra?
Explicações,
controvérsias
e indefinições.

Selma Amaral Barbosa Leite
Arcoverde/PE/BR

Loucura - Kátia Aguiar

Nos corredores da minha insônia
O que me assusta não é o vão,
Não é o tédio, nem o vácuo... não.
Assusta-me uma certeza tristonha

De passar por mim mesma muitas vezes,
Olhar meu olhar próprio fatigado,
Meu corpo inteiro louco, cansado,
E não me reconhecer, minh'alma alhures.

Nos corredores da minha insônia cismo
Com o pulsar amargo do meu medo,
Com a urgência lúgubre do abismo

Em que me jogo e não concebo
Hipótese ou ânsia, loucura ou partida,
Ou coisa qualquer que mude essa vida.

Kátia Aguiar

DEUS NÃO DORME - Machado Frassino

No princípio era Deus no Seu descanso.
Depois de ter gerado a Criação
e tendo visto que tudo era bom
recolheu-Se à sombra do remanso.

A astuta Serpe sai do seu festanço
e chegando-se ao simples do Adão
fez dele um orgulhoso fanfarrão:
das coisas do saber era um fartanço!

Mas, ó ‘stulta ilusão e imprudência,
ó trágica vaidade e vil demência,
fizestes ser irmãos Adão e Lúcifer...

Afinal Deus é Uno e nunca dorme:
fez feio a Adão e Lúcifer disforme
e deixou-se render pela mulher !

Frassino Machado
In AS MINHAS ANDANÇAS

VOZES DO SILÊNCIO - Tereza da Praia.

Tudo é silêncio.
Penso no amor.
(mesmo quando havia falatório, eu pensava.
Parecia um clamor.)
Tudo é silencio e o meu som interior.
Pensei tanto. Senti tão pouco.
Não sei por quais caminhos
Perderam-se meus pensamentos loucos,
E minhas sensações em torvelinhos.
Lembro que já peguei atalhos,
Já perdi a rota,
Fiz trilhas a picadas de machado.
Cortei os secos galhos.
Trilhei caminho desacertado.
Sonâmbula, quase morta.
Minha alma, nem sei por onde andou ela,
Em sonho delirante,
Quando a noite se desprendia
Do meu corpo agonizante.
Rememorei em pensamento
Todos os meus sentimentos,
Descobri o vácuo, o vazio.
Não há mais amor
Passou... Silêncio...
Nem sequer uma dor.
Não amo mais a nenhum.
Recorda-los é uma coisa de saudade.
Não saudade de algum,
Mas do sentimento de amar.
Daquele amor profundo,
Que passa, mas fica o perfume, a claridade.
Quando amei, eu era toda amor.
Amava o amor que eu sentia, fecundo.
Eles foram do meu amor,
Objetos escolhidos,
Para os quais me dei inteira.
O amor me fazia bela, colorida.
Tudo era uma linda brincadeira.
Meus olhos tinham brilho de vida,
Meus suspiros longos,
Noites quentes e cheias de carinho,
Mãos para segurar com força,
Ou de leve, sem intenção alguma.
Tantas coisas boas, que não amesquinho.
Sentia-me leve feito pluma.
Tecia tantas loas.
Um não-sei-quê, que vinha não-sei-de-onde.
Tudo tinha sabor de fruta de conde.
Agora, passou o amor, a dor... Silêncio...
Harmonia no todo está presente.
Só ouço os sons de minha mente!

Tereza da Praia

NAU SOLIDÃO - Nadir A D’Onofrio


Meu barco é de ilusões,
Velas sempre enfunadas!
Singrando mares, cavalgando ondas...
Tenho pressa de chegar.
Na melodia do vento,
Que as ondas acariciam
Ouço teu comando, Norte ou Sul?
Leste ou Oeste?
A bússola...deixou de funcionar !
Aturdida, fico á deriva,
Nem a carta náutica consigo utilizar...
Nela só vejo seu rosto,
Nas coordenadas, teu nome
Abre-se sobre o mar,
O breu tenebroso da noite.
Não visualizo o cruzeiro do sul...

Terei tempestade ou calmaria?
Instintivamente giro o leme,
Tento encontrar minha rota.
Em barco de amor transformar,
Essa nau chamada solidão!
Más e você nobre capitão?
Estará no porto á esperar-me?
Ou será que, quando eu lá aportar,
A mesma estória se repetirá?
De ouvir ao longe um apito,
E mais uma vez decepcionada,
Coração oprimido, lágrimas que teimam
Pelo rosto deslizar, tentando compreender...
Uma realidade que, recusarei aceitar.

Com os obstáculos, surgidos,
Novamente...
Retardar minha chegada.
E no antigo cais, só restará
Acenar, seu barco...
Mais uma vez, acaba de zarpar.
Se isso acontecer,
Juro-te meu capitão!
Verás uma cena de pirataria,
Do cais, teu barco partiu
Más da barra, ele não sairá...
Pois, para minha nau,
Você terá que passar!
O que depois... acontecerá,
Só o tempo dirá!

Santos

"PREDESTINAÇÕES" - Luiz Gilberto de Barros

Nascido entre as raízes da cultura,
Seu moço planta seu acontecer,
Criado nas mãos da literatura,
Cultiva ambicioso o seu saber.

Estuda os fenômenos da vida,
Suas fórmulas e suas dimensões
E a vida lhe passa despercebida
Sem vida, entregue às suas pretensões.

Criado na lama do desengano,
O pobre nem tenta profetizar,
Espera acomodado, sem ter planos,
A vida que lhe vive a esperar.

Seu moço regressa à casa grã-fina
Levando um novo tipo de mulher
A quem mostra dos móveis à piscina
E dá tudinho que a moça quiser.

O pobre chega em casa já noitinha,
Levando o que ganhou e que não dá
E um beijo pra saudar Mariazinha,
Que só tem beijos pra se alimentar.

Seu moço é dono de uma construtora
De nome, a mais rica do lugar;
A irmão caçula é quase já doutora
E o pai é o prefeito titular.

O pobre é pedreiro, marceneiro,
Biscateiro, tecelão;
A irmã mais nova é triste lavadeira
Que vive ensaboando ilusão.

O pobre, coitado, morre de fome
E o rico, o grande, morre de enfarte;
No final disso tudo a terra os come
E a morte é quem faz a sua arte.

A vida quando vem, nos acolhe,
Nos faz ricos ou pobres afinal,
Mas quando a morte chega, não escolhe
Pessoas quanto ao meio social.

Helena Armond

em formas mal feitas e rimas suspeitas
nasce o poema imediato
ao que morre
no poente das gavetas...
escritas sugerem imagens
em folhas de verde mofo
e
sem poentes velhos rostos
se tornam mumificados
e de novo...poemas... e de novo
tentativas...
e....tudo decodificado e
posto...
um texto direto ao poente
pois da grande aventura ....
um aborto

e previu Deus que poemas
mal formados
ficam mesmo é no ocaso

helena armond