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Contos
Lendas do Uirapuru
Lu Colossi
Quando eu era uma menina, minha mãe Carmencita que
nasceu em Manaus,me contava que morava bem no meio da
mata, pois meu avó era quem abastecia
pequenas e médias embarcações que passavam no rio
Amazonas, rumo a outras cidades, moravam em casa tipo
palafita, com suas longas pernas dentro d'água.
Era uma vida tranquila cheia de frutas de nomes
exóticos buriti, caja manga, acaí,fruta pão, graviola,
cupuaçu e buriti...e lá se vão os anos...
E os peixes então pirarucu, pacu, tucunaré, tambaqui,
peixe boi...e lá se vão mais anos...
Me contava histórias de cobras imensas que a noite
passavam por cima da casa,e ela e os irmãos crianças
ainda não podiam sair, onças que rondavam, do boto
namorador, e quando meu avó voltava de alguma viagem,
lhes dava jacarézinhos de bocas amarradas, como bichos
de estimação.
E foi assim que fiquei sabendo sobre um pássaro de
nome Uirapuru, de canto mavioso, chamado também de
músico da mata.
Quem ouve o seu canto, tem felicidade para a vida
toda, e quando ele canta,
todos os
pássaros se calam, é um canto cheio de magia e paz.
Seu canto lembra as notas de uma flauta, e é estudado
pelo mundo afora,
e ele
tem quatro cantos diferentes, um mais lindo que o
outro.
Hoje voltei a minha infância vendo uma reportagem
sobre o Uirapuru, e voltou com ela a magia do doce
canto do Uirapuru e da voz suave de minha mãe.
E eu só de ouvi-la contar sobre a sorte que o Uirapuru
trás, tive eu a mesma sorte de ter uma mãe amiga
especial e mágica também.
Que saudade de você minha mãe, que saudade de suas
histórias de
Felicidade e de
Uirapuru...
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FLAGELADOS D’ALMA
A campainha da porta toca, uma, duas,
três e assim sucessivamente, mas ninguém se habilita a
atendê-la. Do lado de dentro, um homem de aparências
rústicas faz uma cara feia e resmunga baixinho, quase
num sussurro: “Droga, quem será?”
O visitante não desiste e
continua insistindo incansavelmente até que Emanuel
tenta esticar o corpo, porém os nervos estão
atrofiados. Não consegue sequer um pequeno movimento,
faz força e se estica na cama, mas seus músculos estão
enrijecidos. Com muita luta, ele consegue se levantar,
caindo aqui e ali, até chegar à porta; percebe que, do
lado de fora, instalou-se um silêncio, um agradável
silêncio.
Cambaleando, Emanuel chega
até a cozinha, abre a geladeira, bebe quase uma jarra
d’água, espreguiça-se e, em seguida, volta à cama.
Outra vez a campainha, agora bem mais
insistente. Isso o irrita. Na tentativa de não ouvir
mais aqueles insuportáveis toques, põe o travesseiro
nos ouvidos, o que não surte efeitos. Range os dentes
como se fosse um bicho e faz força para se levantar.
Quando está quase chegando na sala, vê que não precisa
mais abrir a porta, pois alguém já o fez para ele.
Olha para o chão com os olhos esbugalhados e constata
que a porta está quase a seus pés. Em sua frente,
surge uma bela mulher que destemidamente se joga em
seus braços e vai logo beijando suas faces, seus
olhos, seus lábios e, por fim, um longo e demorado
beijo na boca. Parece que esse beijo trouxe Emanuel de
volta ao mundo dos vivos. Ele sorri e solta um sonoro
grito: - “É ela, a minha querida, a minha amada, a
minha idolatrada Bela”.
Emanuel estava ali, parado, agarrado à
sua amada. Não se incomodava com as pessoas que o
olhavam. Até parecia que, no mundo, só existiam ele e
sua querida Bela. Na mesma hora, juntou um pequeno
aglomerado de curiosos na porta da casa. Todos queriam
entender o que estava se passando ali, mas ninguém
ousava fazer perguntas ou comentários. Apenas olhavam
aquele protagonista entregue a uma estranha cena de
amor. Podia-se ver que tudo ali estava em grande
desordem: havia sapatos pela sala, roupas espalhadas
por todos os cômodos da casa, a TV permanecia ligada
por tempo ininterrupto.
Certo
dia apareceu no bairro, como se fosse por magia, uma
mulher de mau aspecto. Lola era o nome dela. Não se
sabia se era da família de Emanuel ou uma pedinte que
não tinha para onde ir. Enquanto isso, ele continuava
envolvido, unicamente com seu relacionamento amoroso,
sem se dar conta de que o seu “lar” tinha sido
invadido por uma criatura estranha, se é que podíamos
chamar aquilo de lar!
Os
vizinhos nada sabiam sobre Emanuel, pois ele
estranhamente repelia todas as possibilidades de
comunicação. Quando não passava dias após dias
trancado em sua casa, saía muito cedo, deixando a
porta escancarada e à mercê de quem quisesse ou
tivesse coragem de adentrar. Na rua da solidão, as
pessoas já o conheciam e, por isso mesmo, faziam
questão de não cumprimentá-lo. Somente quando chegava
novo morador na rua (era que) acontecia uma nova
tentativa de aproximação. Ele não dava espaço ao seu
interlocutor, deixando logo bem claro que não tinha
interesse na conversa. Às vezes, parecia ser uma
pessoa dita “normal” e muito importante, trajava
roupas finas e caras, embora malcuidadas, em outras,
andava sujo e desgrenhado. Dava pena só de vê-lo.
Enquanto o
tempo seguia o seu curso, as pessoas se apressavam
para não perder as oportunidades diárias, ao contrário
de Emanuel, que continuava em seu nefasto e isolado
mundo da escuridão. Apenas a estranha Lola tinha
acesso a ele. Passaram-se quase três meses até que um
carro tipo furgão, parou em frente da casa. Saiu dele
uma jovem loura, alva como se fosse de porcelana,
tinha semblante de fada! Com ela, mais quatro homens
trajando roupas brancas. Eles eram profissionais da
saúde que tinham vindo buscá-los. A Doutora era
conhecida de Emanuel que, por ter sido um grande amigo
de sua mãe, tinha zelo e carinho especial por ele. Era
de partir o coração ver um homem tão talentoso,
entregue àquele estado deplorável. Durante o processo
de remoção, ele gritava desesperadamente: “- Bela,
minha Bela não me deixe ser levado por estes monstros.
Socorro! Ajude-me, meu amor”. Enquanto isso, aos
berros, a desvalida Lola se agarrava ao corpo dele,
dizendo: “- Sou eu, o seu amor, a sua Bela, a sua
vida. Olhe para mim, estou aqui pertinho de você”. O
carro arrancou em grande velocidade, mas ainda se pôde
ver o que estava escrito nas portas traseiras
garrafais, em caixa alta: HOSPITAL MENTAL WANESSA
QUEIROZ.
Posteriormente, o povo da rua ficou
sabendo que Emanuel era um bem sucedido artista
plástico que vinha se comportando duvidosamente, que
se isola dos amigos e dos próprios familiares.
Segundo comentários, suas esquisitices levaram a
esposa a um fim trágico, tendo ela, depois de uma
briga, pegado o carro e saído aos prantos e em alta
velocidade, há quem diga que isso a vitimou
fatalmente. Após o ocorrido, ele ficou sozinho,
entregue à própria sorte e aos cuidados de sua amiga
Psiquiatra. Com o passar do tempo os sintomas
psicóticos de Emanuel foram se agravando. “As
medicações controlam parcialmente os sintomas: não
normalizam o paciente. Quando isso acontece é por
remissão espontânea da doença e não por outro motivo.”
Quando as
crises diminuíam, ele pintava quadros e os vendia por
quase nada.
Lola, anteriormente sofria de
ansiedade, portanto, forte candidata à depressão.
Tinha longo tempo de lucidez e podia realizar qualquer
tarefa... Até que o marido a deixou por outra mais
jovem. A partir daí, ela passou a sofrer de depressão
crônica. Não tinha filhos e, por ser estrangeira,
estava sozinha no Brasil. Ela era paciente da Dra.
Wanessa e tinha fugido do sanatório na época em que
Emanuel recebeu alta. A pobre mulher se dizia dona de
Emanuel, por isso tinha que cuidar dele!
Quanto a Bela, ela era fruto das alucinações de Emanuel. Quando estava
em crise, não identificava o que era real ou
imaginário. Seu quadro esquizofrênico se agravou com a
perda da mulher e o desprezo de seus familiares.
Nestes casos, restam prejudicados o paciente e o
tratamento propriamente dito. Com Emanuel não foi
diferente: ele resistia às seções psicoterapêuticas,
não restando alternativa a não ser a adoção,
unicamente do tratamento farmacológico. Resta dizer
que sua obra é de rara beleza e, até hoje, atrai o
público como pouquíssimos artistas conseguem.
Maria Vilma Matos
Peixoto
Pedagoga - Pós-Graduada em Psicopedagogia –
Universidade Estadual Vale do Acaraú
Capacitação em Saúde Mental – Universidade Federal do
Ceará
Dinâmica de Grupo – Universidade Federal do Ceará
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... a liberdade de expressão
tem limites que o ser humano comum não pode jamais
alcançar. Silvino Potêncio.
De: S. Potêncio Os Gambuzinos (045)
<<... Lá na Vila Viçosa Alentejana, onde outrora a
realeza da vida terrestre usufruira de tantos
benesses, corria - devagarinho - o ano da graça de
1930, já pelos idos do final do outono, ... quando no
dia 8 de Dezembro logo pela manhã, ela se levantou
absolutamente inspirada para concluir o ultimo
capitulo daquilo que seria a sua escrita lapidar,
imortal.
- Fogosa, com um coração desmedido de impulso
avassalador.
- Provida que fora pela natureza com um dom inacabável
de idealismo sonhador, romântico, temperamental às
últimas consequências, ela tirou primeiro o pé
esquerdo de debaixo dos lençois e soergueu-se por
sobre a ilharga arredondada do quadril direito.
- Levou as palmas das mãos suavemente das ancas até
aos mamilos e depois as deixou escorregar por debaixo
das axilas para, finalmente elevar os braços ao alto.
- Primeiro em forma escultural dentro do seu corpo de
36 anos de idade, de uma maneira verdadeiramente
lânguida, sensual e extremamente feminina,
espreguiçando-se completamente antes de se levantar
para se dirigir à escrivaninha.
- Ela sentia um tremor no peito absolutamente
diferente de todos quantos havia sentido até esse dia,
préviamente escolhido por ela e por ser a data do seu
aniversário... e por isso mesmo resolveu - ao pegar na
caneta de aparo dourado, e antes de o mergulhar no
tinteiro estratégicamente colocado ao meio da mesa na
sua frente - abrir a gaveta do lado direito onde ela
guardava os barbitúricos alucinógenicos, os mentores
da veia aberta ao conhecimento literário mais profundo
da sua época, e de lá tirou um pequeno frasco de
vidro... despejou-o em cima da folha de papel em
branco.
- vou tomar só um!,... bem, talvez dois!?,... estou
com uma dor de cabeça tão grande!
- É melhor tomar logo uns três, afinal hoje é o dia do
meu "cumpleanos" - prontos!, tomo-os todos e acaba-se
esta dúvida.
- Ninguém se torna imortal por coisa nenhuma... ou
todos são imortais por alguma coisa?!
Levantou-se para ir à cozinha do seu pequeno
apartamento, pegou um copo com água e voltou para a
escrivaninha.
- Sentou-se pesadamente, apesar do seu corpo leve.
Um a um engoliu os milagrosos pedaços de felicidade
sensorial e em plano totalmente espiritual,
imobilizada, ela elevou o seu pensamento ao alto,...
depois, de um só trago, emborcou o copo de água o qual
deixou escorregar algumas gotas pela garganta de
alabastro em direção ao sensual vertice do seu colo
imaculado.
-Ainda lhe restaram forças para voltar ao leito onde
ela foi encontrada...
---Ali estava amortalhada aquela que foi a nossa mais
bela flor da literatura lusa do século vinte buscar...
para irmos para o meio do nada!... Florbela
Espanca...>>
Silvino Potêncio/Natal-Brasil - Autor de "Os
Gambuzinos" e outras frivolidades virtuais...
http://zebico.blog.com/
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visão
Ela sonhava ver o mundo através das asas de uma
borboleta, quando rompesse o casulo e despertasse em
uma nova fase. Nova vida... Queria esconder os olhos
e não deixar as imagens reais construírem castelos
desfeitos. Cores... Somente as cores eram
bem-vindas. Não fossem o tempo, o frio, as chuvas e
tempestades. Lembrou-se ao refletir-se no fundo de
um lago. Nem todas as borboletas surgem perfeitas,
suas cores em tons pastéis traziam a decepção da
espera. Queria ser o vermelho brilhante, o azul
celeste em verdes campos e matas. Não era nada além
daquela cor refugo-casulo absorvido na ânsia da
gestação. Os dias passavam e não percebia um
detalhe... Nas letras, no vento no pensamento...
Podia voar.
Maria Inês Simões - Bauru/SP
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