Revista Só Karinho's
Editor: Elaine & Henrique
Edição02 - Agosto/2006
 

Contos

Lendas do Uirapuru
Lu Colossi
 
Quando eu era uma menina, minha mãe Carmencita que nasceu em Manaus,me contava que morava bem no meio da mata, pois meu avó era quem abastecia
pequenas e médias embarcações que passavam no rio Amazonas, rumo a outras cidades, moravam em casa tipo palafita, com suas longas pernas dentro d'água.
 
Era uma vida tranquila cheia de frutas de nomes exóticos buriti, caja manga, acaí,fruta pão, graviola, cupuaçu e buriti...e lá se vão os anos...
E os peixes então pirarucu, pacu, tucunaré, tambaqui, peixe boi...e lá se vão mais anos...
 
Me contava histórias de cobras imensas que a noite passavam por cima da casa,e ela e os irmãos crianças ainda não podiam sair, onças que rondavam, do boto namorador, e quando meu avó voltava de alguma viagem, lhes dava jacarézinhos de bocas amarradas, como bichos de estimação.
 
E foi assim que fiquei sabendo sobre um pássaro de nome Uirapuru, de canto mavioso, chamado também de músico da mata.
Quem ouve o seu canto, tem felicidade para a vida toda, e quando ele canta, todos os pássaros se calam, é um canto cheio de magia e paz.
Seu canto lembra as notas de uma flauta, e é estudado pelo mundo afora, e ele tem quatro cantos diferentes, um mais lindo que o outro.
 
Hoje voltei a minha infância vendo uma reportagem sobre o Uirapuru, e voltou com ela a magia do doce canto do Uirapuru e da voz suave de minha mãe.
E eu só de ouvi-la contar sobre a sorte que o Uirapuru trás, tive eu a mesma sorte de ter uma mãe amiga especial e mágica também.
Que saudade de você minha mãe, que saudade de suas histórias de Felicidade e de Uirapuru...

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FLAGELADOS  D’ALMA 

    A campainha da porta toca, uma, duas, três e assim sucessivamente, mas ninguém se habilita a atendê-la. Do lado de dentro, um homem de aparências rústicas faz uma cara feia e resmunga baixinho, quase num sussurro: “Droga, quem será?”

       O visitante não desiste e continua insistindo incansavelmente até que Emanuel tenta esticar o corpo, porém os nervos estão atrofiados. Não consegue sequer um pequeno movimento, faz força e se estica na cama, mas seus músculos estão enrijecidos. Com muita luta, ele consegue se levantar, caindo aqui e ali, até chegar à porta; percebe que, do lado de fora, instalou-se um silêncio, um agradável silêncio. 

          Cambaleando, Emanuel chega até a cozinha, abre a geladeira, bebe quase uma jarra d’água, espreguiça-se e, em seguida, volta à cama. Outra vez a campainha, agora bem mais insistente. Isso o irrita. Na tentativa de não ouvir mais aqueles insuportáveis toques, põe o travesseiro nos ouvidos, o que não surte efeitos. Range os dentes como se fosse um bicho e faz força para se levantar. Quando está quase chegando na sala, vê que não precisa mais abrir a porta, pois alguém já o fez para ele. Olha para o chão com os olhos esbugalhados e constata que a porta está quase a seus pés. Em sua frente, surge uma bela mulher que destemidamente se joga em seus braços e vai logo beijando suas faces, seus olhos, seus lábios e, por fim, um longo e demorado beijo na boca. Parece que esse beijo trouxe Emanuel de volta ao mundo dos vivos. Ele sorri e solta um sonoro grito: - “É ela, a minha querida, a minha amada, a minha idolatrada Bela”.

     Emanuel estava ali, parado, agarrado à sua amada. Não se incomodava com as pessoas que o olhavam. Até parecia que, no mundo, só existiam ele e sua querida Bela. Na mesma hora, juntou um pequeno aglomerado de curiosos na porta da casa. Todos queriam entender o que estava se passando ali, mas ninguém ousava fazer perguntas ou comentários. Apenas olhavam aquele protagonista entregue a uma estranha cena de amor. Podia-se ver que tudo ali estava em grande desordem: havia sapatos pela sala, roupas espalhadas por todos os cômodos da casa, a TV permanecia ligada por tempo ininterrupto.

Certo dia apareceu no bairro, como se fosse por magia, uma mulher de mau aspecto. Lola era o nome dela. Não se sabia se era da família de Emanuel ou uma pedinte que não tinha para onde ir. Enquanto isso, ele continuava envolvido, unicamente com seu relacionamento amoroso, sem se dar conta de que o seu “lar” tinha sido invadido por uma criatura estranha, se é que podíamos chamar aquilo de lar!

Os vizinhos nada sabiam sobre Emanuel, pois ele estranhamente repelia todas as possibilidades de comunicação. Quando não passava dias após dias trancado em sua casa, saía muito cedo, deixando a porta escancarada e à mercê de quem quisesse ou tivesse coragem de adentrar. Na rua da solidão, as pessoas já o conheciam e, por isso mesmo, faziam questão de não cumprimentá-lo. Somente quando chegava novo morador na rua (era que) acontecia uma nova tentativa de aproximação. Ele não dava espaço ao seu interlocutor, deixando logo bem claro que não tinha interesse na conversa. Às vezes, parecia ser uma pessoa dita “normal” e muito importante, trajava roupas finas e caras, embora malcuidadas, em outras, andava sujo e desgrenhado. Dava pena só de vê-lo.

 Enquanto o tempo seguia o seu curso, as pessoas se apressavam para não perder as oportunidades diárias, ao contrário de Emanuel, que continuava em seu nefasto e isolado mundo da escuridão. Apenas a estranha Lola tinha acesso a ele. Passaram-se quase três meses até que um carro tipo furgão, parou em frente da casa.  Saiu dele uma jovem loura, alva como se fosse de porcelana, tinha semblante de fada! Com ela, mais quatro homens trajando roupas brancas. Eles eram profissionais da saúde que tinham vindo buscá-los. A Doutora era conhecida de Emanuel que, por ter sido um grande amigo de sua mãe, tinha zelo e carinho especial por ele. Era de partir o coração ver um homem tão talentoso, entregue àquele estado deplorável. Durante o processo de remoção, ele gritava desesperadamente: “- Bela, minha Bela não me deixe ser levado por estes monstros. Socorro! Ajude-me, meu amor”. Enquanto isso, aos berros, a desvalida Lola se agarrava ao corpo dele, dizendo: “- Sou eu, o seu amor, a sua Bela, a sua vida. Olhe para mim, estou aqui pertinho de você”. O carro arrancou em grande velocidade, mas ainda se pôde ver o que estava escrito nas portas traseiras garrafais, em caixa alta: HOSPITAL MENTAL WANESSA QUEIROZ.

Posteriormente, o povo da rua ficou sabendo que Emanuel era um bem sucedido artista plástico que vinha se comportando duvidosamente, que se isola dos amigos e dos próprios familiares.  Segundo comentários, suas esquisitices levaram a esposa a um fim trágico, tendo ela, depois de uma briga, pegado o carro e saído aos prantos e em alta velocidade, há quem diga que isso a vitimou fatalmente. Após o ocorrido, ele ficou sozinho, entregue à própria sorte e aos cuidados de sua amiga Psiquiatra. Com o passar do tempo os sintomas psicóticos de Emanuel foram se agravando. “As medicações controlam parcialmente os sintomas: não normalizam o paciente. Quando isso acontece é por remissão espontânea da doença e não por outro motivo.” Quando as crises diminuíam, ele pintava quadros e os vendia por quase nada.

Lola, anteriormente sofria de ansiedade, portanto, forte candidata à depressão. Tinha longo tempo de lucidez e podia realizar qualquer tarefa... Até que o marido a deixou por outra mais jovem. A partir daí, ela passou a sofrer de depressão crônica. Não tinha filhos e, por ser estrangeira, estava sozinha no Brasil. Ela era paciente da Dra. Wanessa e tinha fugido do sanatório na época em que Emanuel recebeu alta. A pobre mulher se dizia dona de Emanuel, por isso tinha que cuidar dele!

Quanto a Bela, ela era fruto das alucinações de Emanuel. Quando estava em crise, não identificava o que era real ou imaginário. Seu quadro esquizofrênico se agravou com a perda da mulher e o desprezo de seus familiares. Nestes casos, restam prejudicados o paciente e o tratamento propriamente dito. Com Emanuel não foi diferente: ele resistia às seções psicoterapêuticas, não restando alternativa a não ser a adoção, unicamente do tratamento farmacológico. Resta dizer que sua obra é de rara beleza e, até hoje, atrai o público como pouquíssimos artistas conseguem.  

Maria Vilma Matos Peixoto

Pedagoga -  Pós-Graduada em Psicopedagogia – Universidade Estadual Vale do Acaraú

Capacitação em Saúde Mental – Universidade Federal do Ceará 

Dinâmica de Grupo – Universidade Federal do Ceará

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... a liberdade de expressão tem limites que o ser humano comum não pode jamais alcançar. Silvino Potêncio.
De: S. Potêncio Os Gambuzinos (045)

<<... Lá na Vila Viçosa Alentejana, onde outrora a realeza da vida terrestre usufruira de tantos benesses, corria - devagarinho - o ano da graça de 1930, já pelos idos do final do outono, ... quando no dia 8 de Dezembro logo pela manhã, ela se levantou absolutamente inspirada para concluir o ultimo capitulo daquilo que seria a sua escrita lapidar, imortal.
- Fogosa, com um coração desmedido de impulso avassalador.
- Provida que fora pela natureza com um dom inacabável de idealismo sonhador, romântico, temperamental às últimas consequências, ela tirou primeiro o pé esquerdo de debaixo dos lençois e soergueu-se por sobre a ilharga arredondada do quadril direito.
- Levou as palmas das mãos suavemente das ancas até aos mamilos e depois as deixou escorregar por debaixo das axilas para, finalmente elevar os braços ao alto.
- Primeiro em forma escultural dentro do seu corpo de 36 anos de idade, de uma maneira verdadeiramente lânguida, sensual e extremamente feminina, espreguiçando-se completamente antes de se levantar para se dirigir à escrivaninha.
- Ela sentia um tremor no peito absolutamente diferente de todos quantos havia sentido até esse dia, préviamente escolhido por ela e por ser a data do seu aniversário... e por isso mesmo resolveu - ao pegar na caneta de aparo dourado, e antes de o mergulhar no tinteiro estratégicamente colocado ao meio da mesa na sua frente - abrir a gaveta do lado direito onde ela guardava os barbitúricos alucinógenicos, os mentores da veia aberta ao conhecimento literário mais profundo da sua época, e de lá tirou um pequeno frasco de vidro... despejou-o em cima da folha de papel em branco.
- vou tomar só um!,... bem, talvez dois!?,... estou com uma dor de cabeça tão grande!
- É melhor tomar logo uns três, afinal hoje é o dia do meu "cumpleanos" - prontos!, tomo-os todos e acaba-se esta dúvida.
- Ninguém se torna imortal por coisa nenhuma... ou todos são imortais por alguma coisa?!
Levantou-se para ir à cozinha do seu pequeno apartamento, pegou um copo com água e voltou para a escrivaninha.
- Sentou-se pesadamente, apesar do seu corpo leve.
Um a um engoliu os milagrosos pedaços de felicidade sensorial e em plano totalmente espiritual, imobilizada, ela elevou o seu pensamento ao alto,... depois, de um só trago, emborcou o copo de água o qual deixou escorregar algumas gotas pela garganta de alabastro em direção ao sensual vertice do seu colo imaculado.
-Ainda lhe restaram forças para voltar ao leito onde ela foi encontrada...
---Ali estava amortalhada aquela que foi a nossa mais bela flor da literatura lusa do século vinte buscar... para irmos para o meio do nada!... Florbela Espanca...>>

Silvino Potêncio/Natal-Brasil - Autor de "Os Gambuzinos" e outras frivolidades virtuais... http://zebico.blog.com/

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visão  

   

Ela sonhava ver o mundo através das asas de uma borboleta, quando rompesse o casulo e despertasse em uma nova fase. Nova vida... Queria esconder os olhos e não deixar as imagens reais construírem castelos desfeitos. Cores... Somente as cores   eram bem-vindas. Não fossem o tempo, o frio, as chuvas e tempestades. Lembrou-se ao  refletir-se no fundo de um lago. Nem todas as borboletas surgem perfeitas, suas cores em tons pastéis traziam a decepção da espera. Queria ser o vermelho brilhante, o azul celeste em  verdes campos e matas. Não era nada além daquela cor refugo-casulo absorvido na ânsia da gestação. Os dias passavam e não percebia um detalhe... Nas letras, no vento no pensamento... Podia voar.
 
 
Maria Inês Simões - Bauru/SP