Falando de "Trovas e de Trovadores"

 

 

Nº  03 – Outubro de 2006

Editor: Lairton Trovão de Andrade

 

 

 
 ÍNDICE

- Trova e Quadra no Brasil
- Diretoria da UBT Nacional
- Diretoria da UBT – Paraná
- Concursos de Trovas
- Trovas em Muro
- Trovas de Autores Imortais
- Maria da Graça Stinglin
- Maria José Fraqueza
- Olga Agulhon
- Entrevista com Apollo Taborda França
 


TROVA E QUADRA NO BRASIL

A Trova, que surgiu na amena região de Provença, ainda nos longínquos idos da Idade Média, expandiu-se naturalmente pela Itália, Espanha e Portugal, transbordando de ternura os corações das classes sociais da época, numa clara manifestação do espírito,  freqüentemente espontâneo e extrovertido,  dos povos de línguas neo-latinas. 
Através dos tempos, a Trova não permaneceu inalterável como algo estático e acabado, mas sofreu alterações em sua estrutura, principalmente externa, como que a procura da própria identidade e perfeição. 
Assim sendo, fora se transformando  progressivamente, através das literaturas, a tal ponto que podemos evidenciar: “As trovas dos seus primeiros tempos, bem como dos tempos de Dom Dinis,  diferem,  e muito, daquelas que praticamos hoje”.
Ainda no passado próximo, as alterações foram bem acentuadas. Cristalizaram-se definitivamente os versos setissilábicos. As rimas, que a princípio nem sempre existiam, tornaram-se indispensáveis.  
Posteriormente, nos jogos florais e nos concursos, não se admitiu mais a presença de trovas com rimas simples ( rima do 2º com o 4º verso), permanecendo, como regra, apenas as de rimas duplas , do 1º com o 3º, e do 2º com o 4º verso.
As históricas alterações, entretanto, preservaram na Trova a grandeza da essência. O  íntimo substancial praticamente permaneceu, a tal ponto que o conceito “trova” ultrapassou os séculos e as culturas e, em nossos dias, recebeu  imenso vigor de expressividade. 
E as tendências continuam... 
Trovadores sérios do Brasil não admitem mais os termos “quadrinha”, “trovinha” etc. como referências à “Trova”. 
Ainda mais: Em se tratando de trovadores brasileiros, mesmo que “trova” e “quadra” sejam ainda sinônimos, já existe por aqui, talvez por influência de trovadores da UBT (União Brasileira de Trovadores), tendência de não reconhecer o termo “quadra” como simples sinônimo de “trova”. 
A Trova representa profícua escola literária da Língua Portuguesa, onde o dinamismo dos seus membros, no seio de entidades como a UBT, por exemplo, expressa o esmero de um gênero literário florescente, além da convivência de seus pares numa confraria exemplar.  
Entre os brasileiros, o conceito “quadra” faz pensar, muitas vezes, que se trata de uma forma de versejar do povo, sem nenhuma preocupação gramatical, lembrando forma simples de poemeto de uma estrofe só, onde a simplicidade confunde-se com expressões incultas.
Diante da sua relevante envergadura, designá-la simplesmente de “quadra” parece-nos “sacrilégio literário”.
Nos dias de hoje, o conceito “trova” supõe rigor maior:  Há exigências incondicionais quanto ao número de sílabas, quanto ao sistema de rimas, quanto ao primor de conteúdo, quanto à correção gramatical e quanto à conclusão perfeita  de um pensamento. 
Mais do que nunca, representa hoje a “excelência de um achado”. Por isso, a Trova, por sua estirpe e magnitude, pertence à alta nobreza da Literatura.
Enfim, o que se propõe, acima de tudo, é o cultivo da “Trova Literária” que, no seu íntimo, deve ser muito diferente da simples “trova popular”, apesar de que o desejo de todo trovador é que sua trova torne-se popular, no sentido de que seja lida e recitada  por todas as camadas sociais, manifestando a cultura e o esplendor do lado puro e simples da Língua Portuguesa.
Apesar disso, a “Trova Literária” será sempre erudita, ainda que espontânea, cujo conceito  ultrapassa, sem comparações, o mundo limitado e tacanho do conceito, às vezes pejorativo, de  “quadra  popular” do Brasil.
Trovador é aquele que faz trovas. O trovador é maior que o simples poeta, pois todo trovador é poeta, mas nem todo poeta é trovador. No reino das musas, não há orgulho maior que ser trovador!
Por isso, aquele que tem o dom de fazer trovas deve se sentir privilegiado, pois a Língua Portuguesa adquiriu suas primeiras formas literárias, através do labor heróico dos trovadores medievais.    
Os modernos trovadores são os legítimos herdeiros dos primeiros cultores da língua portuguesa. 
É possível que, num futuro não muito distante, a Literatura Brasileira, o Dicionário Aurélio e outros possam apresentar diferenças essências entre “Trova” e “quadra”, uma vez que a Língua Portuguesa, sendo viva e dinâmica, pode, muito bem, continuar a ter evoluções e aquisições de novos conceitos, mesmo que alterando noções antigas por serem já, na opinião de muitos, obsoletas e inadequadas. 
Concluindo, as considerações feitas aqui não dizem respeito à Trova de Portugal, denominada pelos irmãos lusitanos de “Quadra Popular”, que historicamente serviu de suporte ao nascimento da trova no Brasil.

O Editor 

DIRETORIA DA UBT NACIONAL
 
PRESIDENTE NACIONAL: Eduardo A. O. Toledo - UBT - Pouso Alegre/MG
VICE-PRESIDENTE NACIONAL: Arlindo Tadeu Hagen - UBT - Juiz de Fora/MG
SECRETÁRIO NACIONAL: Izo Goldman - UBT - São Paulo/SP
 
CONSELHO NACIONAL DA UBT
 
PRESIDENTE: Carolina Ramos - UBT - Santos/SP
VICE-PRESIDENTE: Flávio Roberto Stefani - UBT - Porto Alegre/MG
SECRETÁRIA: Domitilla Borges Beltrame - UBT - São Paulo/SP

DIRETORIA DA UBT – PARANÁ
 
PRESIDENTE: Vânia Maria Souza Ennes – UBT - Curitiba/PR
VICE-PRESIDENTE: Maria Lúcia Daloce Castanho – UBT - Bandeirantes/PR
SECRETÁRIO: Nei Garcez – UBT - Curitiba/PR
 
CONSELHO ESTADUAL
 
PRESIDENTE: Dari Pereira - UBT - Maringá/PR
VICE-PRESIDENTE: Apollo Taborda França – UBT - Curitiba/PR
SECRETÁRIA: Maria Aparecida Frigeri – UBT - Londrina/PR

CONCURSOS DE TROVAS
 

III CONC. LITERÁRIO CIDADE DE MARINGÁ
Academia de Letras de Maringá
Caixa Postal 982
87001-970   MARINGÁ/PR
Tema:  COLHEITA (L/F)
Sistema de envelopes. Máximo de 3 Trovas por concorrente. ATÉ 31.10.06
*** Há concursos para Crônica, Soneto e Poema Livre.
 
II COM. NAC/INTERN. RÁDIO DIFUSORA DE OURO FINO
A/C de: Eduardo A.O. Toledo
Caixa Postal 181
37550-000   POUSO ALEGRE – MG
Tema: NOTÍCIA (L/F)
Sistema de envelopes. Máximo de 3 Trovas por concorrente. ATÉ 31.10.06
 
CONCURSO UBT – Academia Pedralva
Trovas começadas com a letra X e com a letra Z. Uma de cada letra para cada concorrente (L.F. ou H.).
A/C. Antonio Roberto
Rua Santa Teresa, 189 – Caju
CAMPOS DOS GOYTACAZES - RJ
28050 -270  (até 10/02/07)

TROVAS EM MURO


Os muros do Colégio Estadual  Leonardo Francisco Nogueira, Ensino Médio, da cidade de Pinhalão/PR/BR estão, pouco a pouco, sendo ornamentados com belas trovas cujos autores são filhos da própria Comunidade.  Este gesto cultural tem merecido  aprovação de todos os transeuntes que têm alguma sensibilidade pela arte literária.


TROVAS DE AUTORES IMORTAIS
 

Saudade, perfume triste
de uma flor que não se vê;
culto que ainda persiste
num crente que já não crê!
Menotti del Picchia

No mundo são as verdades
como as nossas esperanças;
as que vêm nas tempestades
vão-se nas águas mansas.
Gonçalves Magalhães.

Dá, meu Deus, que eu possa amar,
dá que eu sinta uma paixão,
torna-me virgem a alma
e virgem meu coração.
Gonçalves Magalhães
 

Este é o exemplo que damos
aos jovens recém-casados:
que é melhor se brigar juntos
do que chorar separados!
Lupicínio Rodrigues
 

Vi uma estrela tão alta,
vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
na minha vida vazia!
Manuel Bandeira
 
MARIA DA GRAÇA STINGLIN
Curitiba – PR/BR
 
Um abraço com freqüência
sempre muito amor nos traz.
Ele desarma a violência,
constrói um mundo de paz.
 
Por incrível que pareça,
a pessoa que é ranzinza
leva acima da cabeça
uma leve nuvem “cinza”.
 
Na linda manhã de sol
ouvi uma canção tão bela...
Eu debaixo do lençol
e a cigarra na janela!
 
Quem trafega com atenção
demonstra conhecimento,
melhora a circulação...
e evita aborrecimento!
 
Faça o trânsito seguro.
Só dirija com cuidado.
Não deixe o outro no apuro...
Está certo? Combinado!
 
MARIA JOSÉ FRAQUEZA
Portugal
 
Trato a trova com carinho 
e num gesto mais gentil
segue a trova o bom caminho
dos trovadores do Brasil.
 
As minhas trovas singelas
que brotam da minha fonte
vogam como caravelas
que avisto no horizonte.
 
Como o vai-vem da maré
as trovas soltas ao vento
são hinos de amor e fé
que brotam do sentimento.
 
São um imenso oceano 
são fonte que não se esgota
as simples trovas que emano
são livres como gaivota!
 
Tão livre como a gaivota,
neste céu azul de anil
levam amor nesta rota
de Portugal ao Brasil.
 
OLGA AGULHON
Maringá - PR/BR
 

Mil sonhos num embornal,
tantas pedras no caminho...
Era a sina do “imortal”,
que nunca encontrou seu ninho.
 
Era uma estrada deserta,
com muito barro... atolamos.
Não me lembro a data certa;
lembro o quanto nos amamos!
 
Quanto sonho não vivido
do jeito que foi sonhado!
Mas tudo tem mais sentido
quando, enfim, é conquistado.
 
Neste mundo conturbado,
todos nós, mesmo os ateus,
temos encontro marcado
no fim da vida, com Deus.
 
Carrego pouca bagagem
porque, na vida, aprendi
que, mesmo longa a viagem,
preciso apenas de ti.



ENTREVISTA COM O TROVADOR

APOLLO TABORDA FRANÇA


A Revista virtual “Falando de Trovas e de Trovadores” tem a elevada honra de entrevistar o ilustre escritor Apollo Taborda França, que já conquistou lugar de destaque na galeria dos grandes poetas e trovadores do Brasil.

Dr. Apollo, queira nos dizer onde nasceu e reside.
Apollo: Nasci em Curitiba, capital do estado do Paraná, onde resido.
Para correspondência: Caixa Postal 1174 – Centro (41) 80001-970 – Curitiba/PR

 
Lairton: Como foi a sua infância e adolescência?
Apollo: Tanto minha infância quanto adolescência foram excelentes, em companhia de meus pais, irmãos, parentes e amigos.
 
Lairton: Fale-nos sobre sua vida escolar.
Apollo: Fiz cursos primário e ginasial no Instituto Santa Maria, dos Irmãos Maristas. Posteriormente me formei em Direito pela Universidade Federal do Paraná, em Jornalismo pela Universidade Católica (hoje PUCPR), ainda em Curso Técnico de Construção de Máquinas e Motores, pela Escola Técnica Federal do Paraná que agora está transformada em Universidade; e  mais ainda me formei em Ciências Econômicas.
 
Lairton: O Senhor é autor de importantes obras literárias. Quando começou e que razões o levaram a escrever? Quantos livros de trovas editou?
Apollo:  Efetivamente tenho 17 livros publicados, em prosa e em verso. Inclusive cinco de Trovas. Passei a fazer versos naturalmente, talvez por influência sangüínea, uma vez que meu pai Heitor Stockler de França era escritor, poeta, jornalista e advogado e meus irmão também fazem poesias e trovas. Quanto aos títulos dos meus livros, vou enviar ao amigo o último que publiquei, Ano 2001 dC., “Vento Forte” que contam nas orelhas as devidas informações.
 
Lairton: De que maneira suas obras literárias foram divulgadas?
Apollo: Minhas composições literárias foram publicadas em jornais, especialmente em livros e coletâneas impressas em São Paulo e Rio de Janeiro, etc.
 
Lairton: Sabemos que o Senhor é renomado trovador e fez história nas páginas da Literatura Paranaense. Participou da criação da UBT-União Brasileira de Trovadores – no Estado do Paraná?
Apollo: Não participei da criação da UBT em Curitiba, que foi feita por outros trovadores sob a presidência do médico e trovador pernambucano Barreto Coutinho, ladeado por outros aqui da Capital. De todos um dos remanescentes vivos é o muito admirado: Prof. Orlando Woczikoski que está sempre junto às reuniões da UBT-Curitiba. Posteriormente tive o prazer de presidir a UBT/Curitiba 1984/86 e 1990/92.
 
Lairton: Em sua opinião, o que faz a trova ser tão apreciada entre os brasileiros?
Apollo: A TROVA é admirada por pessoas letradas ou não, face sua singela facilidade de compor especialmente com o conhecimento das leis do verso; o setissílabo é muito espontâneo no linguajar erudito e popular, é só conferir.
 
Lairton: Podemos afirmar que, no Brasil, o movimento trovadoresco constitui uma escola Literária? Explique-nos.
Apollo: Diz-se Escola Literária porque demanda o melhor conhecimento e prática permanente. Hoje há aulas de “trovas” em diversas escolas primárias no elevado sentido cultural e educativo e maneiras de as fazer e de expressar (recitar) em público. Então, trata-se de um movimento em ascensão, com muito brilho e persistência.
 
Lairton: O Senhor pertence à diversas entidades literárias do País. O que o levou à  Cadeira nº 36 da  Academia Paranaense de Letras?
Apollo: A minha já consolidada representatividade literária como escritor, poeta e jornalista, inclusive, com livros já editados e com a melhor aceitação pública.
 

Lairton: Qual a razão de existir das academias literárias, além de ser, por si só, merecido galardão de ilustres escritores?
Apollo: É o sentido de unir, congregar e incentivar todos os que usam a cultura como meio e fim, instrumento de comunicação entre os diversos setores das comunidades física e espiritualmente falando.
 
Lairton: O que é a MPPr, qual a sua função e que ligação tem o seu nome com este Movimento?
Apollo: Movimento Poético Paranaense-MPPr.; tem objetivos e finalidades de publicar e difundir a literatura, especialmente poética entre seus leitores, poetas e escritores, em seus diversos níveis observando e respeitando as individualidades e suas criações eruditas, clássicas, modernas e que, por si só, ajudam a estabelecer os parâmetros funcionais de nossa literatura, frente a do país.
 
Lairton: Valeu a pena ter sido poeta e trovador? Sente-se realizado como pessoa e como escritor?
Apollo: Valeu! Mas, continuo me realizando nos meus seguidos trabalhos em prosa e verso.
 
Lairton: O Senhor tem usufruído das vantagens da Internet? Possui algum site?
Apollo: Relativamente, conforme as necessidades imediatas e mediatas. Os “e-mail” que me estão ligados são: apolloversos@bol.com.br; mp-pr@ig.com.br; e também o ordemdosapo@yahoo.com.br
 
Lairton: Que opinião tem sobre as atividades literárias do Portal CEN?
Apollo: Portal CEN?  Desejo que o mesmo alcance seus objetivos de difusão literária.
 
Lairton: Quem é Apollo para Apollo, como pessoa e como poeta?
Apollo: Apollo para Apollo: Somo um! Com os mesmo ideais, caráter e personalidade.
 
Lairton: O que diria aos principiantes da “arte de fazer trovas”?
Apollo:  Aos principiantes insisto que aprendam as regras da versificação, especialmente sobre tônicas, ritmo, censura e aplicação das rimas.
 
Lairton: Agradecemos sua importante participação na Revista “Falando de Trovas e de Trovadores” e solicitamos seis trovas de sua autoria, para coroamento desta preciosa entrevista.
Apollo: As seis trovas solicitadas seguem, junto com mais uma ao amigo!
Grato: Apollo

 

TROVAS DE APOLLO TABORDA FRANÇA
 
Com garra de trovador,
Vou seguindo meus caminhos...
Venturoso e com amor,
Num roseiral sem espinhos!
 
Cai a tarde, fico triste,
Pressuroso como o quê...
O coração não resiste
A saudade de você!
 
Poeta diz sempre o que quer,
Na verdade ou de impulsão...
Tenho certeza e assim penso,
Com você e sem vaidade!
 
Disse adeus à virgindade,
Optou, em seus dilemas...
Quis amar com pouca idade:
– Está cheia de problemas!
 
Pelas ruas da cidade,
Encontrei com Jesus Cristo...
– Faze e prega a caridade,
Para o Céu bem chega isto!
 
Especial:
 
Lairton Trovão de Andrade,
“Setissílabo” perfeito...
Tem da trova a afinidade:
– Na UBT mostra seu jeito!
 
Apollo Taborda França

 


Visite o Espaço do Editor no nosso Portal CEN


Formatação e Arte: Iara Melo