Revista Trovia UBT -

Maringá - PR

Ano 8 - nº 99 - Outubro/2007

Editor: Antonio Augusto de Assis

(A. A. de Assis)

Formatação e Arte: Iara Melo

PORTALCEN – A maior ponte literária Brasil - Portugal

O que você faz pela trova é tão importante quanto

as trovas que você faz

 

 
A doce utopia

 
Dentre os direitos fundamentais do poeta, um dos mais importantes é o direito de sonhar. Nós, os trovadores, desde o início da escola otaviana, vimos sonhando fazer do trovismo um modelo de convivência fraterna, que possa até servir de inspiração aos demais agrupamentos da sociedade. Em boa parte, já o conseguimos, faltando apenas corrigir algumas imperfeições, aliás muito freqüentes no ser humano. A geração pioneira cumpriu com entusiasmo e carinho a parte que lhe coube. Agora, aos poucos, vai transferindo a responsabilidade aos mais jovens, na esperança de que a obra será continuamente levada adiante, de olho na doce utopia que há meio século vem sendo construída. Produzir trovas, e a cada ano melhores, é uma de nossas preocupações permanentes; para tanto procuramos estudar bastante, treinar bastante, aprimorar a técnica e exercitar maximamente a criatividade. No entanto, o ideal maior é consolidar o nosso movimento literário como um modo bonito e fértil de fazer amigos, os quais, pelo convívio alegre, inteligente e ético, após algum tempo em geral se tornam irmãos. Assim sonhavam os primeiros parceiros de Luiz Otávio. Assim seguimos sonhando hoje. Esse é um dos direitos fundamentais do poeta. Sabemos que utopia somente é utopia até o momento em que se faz realidade. E vocês, trovadores mais jovens, hão de um dia comprová-lo.
 

Inesquecíveis
 
 
Os beijos, segundo os sábios,
dados com muita afeição,
não deixam sinal nos lábios,
mas deixam no coração.
Belmiro Braga
 
Chamar-me de sem-vergonha
por amá-lo, meu senhor?...
Amor que tiver vergonha
será a vergonha do amor!
Benedita de Melo
 
Por que é que vives, memória?
Por que não passas também?
Dás uma vida ilusória
ao que já vida não tem.
Filinto de Almeida
 
O coração nasceu mudo,
Deus fê-lo assim de prudente,
para que não conte tudo
que vai por dentro da gente.
Floriano de Lemos
 
Minhas netas, sempre rindo,
são meu alegre evangelho:
– musgo verde revestindo
de esperança um muro velho!
Lilinha Fernandes
 
O bambu com muita gente
se parece no feitio:
por fora é belo e imponente,
por dentro é oco e vazio...
Nilo Aparecida Pinto


Revista

 
São Francisco – Outubro, 4, dia de São Francisco de Assis (1182-1226). Nós, os trovadores, o escolhemos como patrono por vários motivos: um deles é o fato de ser Francisco um dos mais queridos poetas de todos os tempos; mas o motivo mais forte é a afinidade espiritual, porquanto a trova também se apóia no tripé humildade-simplicidade-amor. Essas três virtudes têm regido ao longo dos séculos o coração franciscano. E é na adesão espontânea a elas que se revela o trovador inato. Humildade,  simplicidade e amor aproximam o poeta do povo, dos demais poetas e de tudo o que Deus criou, daí resultando o que de mais bonito a trova produz: a fraternidade.

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Lóla Prata – Da trovadora Lóla Prata, de Bragança Paulista, recebemos Entrelinhas, bonito álbum de trovas. Mais uma demonstração do seu reconhecido talento. Gratos pelo precioso  presente.
 

Humorísticas
 
 
Pobre titia, ao comprar
uma vassoura, é indagada:
– Será preciso embrulhar,
ou já vai nela montada?
Amália Max – Ponta Grossa
 
O pobre já não agüenta,
porque sempre, na hora “H”,
quando ele vem com a pimenta,
ela esconde o vatapá.
João Costa – Saquarema
 
O cafuné deles dois,
na rede, foi arretado...
E, nove meses depois,
batizou-se o resultado...
João Freire Filho – Rio
 
Se o teu noivado vai mal,
é claro que isso me importa:
goteira no teu quintal
é "chuva na minha horta"!
José Ouverney – Pinda
 
Menininha no quintal,
tadinha, brincando só,
faz algo que lhe faz mal:
cata cocô de cocó...
Osvaldo Reis – Maringá
 
Meu pai, comprando fiado,
que tem palavra provou...
Prometeu ao ser cobrado:
“Eu não pago!” – e não pagou!
Pedro Ornellas – São Paulo
 
Contra a vontade do amado,
nada faça... e se conforme.
Dizia o velho ditado:
"Quando um não quer... o outro dorme".
Renata Paccola – São Paulo
 
Ao vir “de fogo” recua
gritando, após a topada:
– Que faz um poste na rua
às duas da madrugada?!
Therezinha Brisolla – São Paulo
 
 

Líricas e filosóficas
 

A natureza protesta
sempre que alguém a maltrata.
– Se matas uma floresta,
vem o deserto e te mata!
A. A. de Assis – Maringá
 
Após causar desencantos
e nos fazer peregrinos,
a seca faz chover prantos
nos olhos dos nordestinos...
Ademar Macedo – Natal
 
Duas taças, vinho tinto
- Cordier Collection Privée -
Na penumbra do recinto,
sozinhos, eu e você.
A.M.A. Sardenberg – São Fidélis
 
Velhice é um tempo que encerra
saudades e desenganos;
por isso é que Deus, na terra,
só viveu trinta e três anos.
Antônio Roberto – Campos
 
Embora nos cause mágoa,
a lágrima é um grande bem.
– Nada fazemos sem água,
e é dela que tudo vem!
Antonio Facci – Maringá
 
Olhemos os jardineiros,
que, com tanta devoção,
cuidam bem dos seus canteiros,
ajoelhados no chão!
Arlene Lima – Maringá
 
Na união que nos alcança
não há nada que destrua
a verdadeira aliança
que é minha mão sobre a tua!
Arlindo T. Hagen – B. Horizonte
 
Olhando o sol na vidraça
e o balançar das palmeiras,
invejo a aragem que passa,
indo afagar as roseiras.
Carmen Pio – Porto Alegre
 
A tristeza hoje veio
com vontade de ficar...
Oh! alegria, eu receio
que ela queira demorar.
Cidinha Frigeri – Londrina
 
Senhor, neste amanhecer,
louvo a tua criação:
da aurora ao entardecer,
eu te encontro em meu irmão!
Cônego Telles – Maringá
 
Mesmo tachado de antigo,
ainda espalho esperança
ao mundo sincero e amigo
do coração da criança.
Dari Pereira – Maringá
 
Tinha portas de poesia
e janelas de luar
essa morada que um dia
deixou meu amor entrar.
Delcy Canalles – Porto Alegre
 
Não sei mais o que é que eu faço
com você longe de mim:
coração não tem espaço
pra tanta saudade assim...
Déspina Perusso – São Jerônimo
 
Eu ergo a taça a brindar
a noite que o quarto invade
e, no cristal do luar,
bebo o vinho da saudade!
Domitilla B. Beltrame – São Paulo
 
Quando a injustiça se expande
e usurpa do povo o ganho,
país nenhum se faz grande,
não importa o seu tamanho!...
Edmar Japiassú Maia – Rio
 
“O que é o amor?”, me perguntas,
e, em coro, os anjos entoam:
“São duas pessoas juntas
que se amam e se perdoam!”
Eduardo A.O. Toledo – Pouso Alegre
 
O meu viver enfadonho,
só de amarguras composto,
põe as rugas do meu sonho
sobre as rugas do meu rosto!
Gislaine Canales – B. Camboriú
 
Quando a lembrança revolve
os baús da tenra idade
e o meu passado devolve,
eu faço um brinde à saudade.
Jaime Pina da Silveira – São Paulo
 
O beijo, quando silente,
(o chamado beijo mudo)
entra profundo na gente
e em pouco tempo diz tudo!
Joamir Medeiros – Natal
 
É qual nuvem passageira,
a tristeza que me alcança:
tanto mais passa ligeira,
quanto mais sopra a esperança...
José Fabiano – B. Horizonte
 
Do prego à nave espacial,
tudo passa pela idéia.
Constrói-se o Taj-Mahal,
escreve-se a Odisséia.
José Marins – Curitiba
 
A trova, quando termina
em perfeita construção,
é uma casa pequenina,
com requintes de mansão!
José Messias Braz – Juiz de Fora
 
Todo erudito senhor
deve evitar arrogância,
pois ninguém é tão doutor
sem nenhuma ignorância.
Lairton T. de Andrade – Pinhalão
 
Quem quer amor duradouro,
alegria e não adeus,
deve guardar um tesouro:
a parceria com Deus.
Maria Eliana Palma – Maringá
 
A natureza, ao querer
das torturas nos livrar,
não sabe se defender.
mas é mestra em se vingar.
Maria Ignez Pereira – Moji Guaçu
 
Fito o espelho... e o que constato?
– Rugas... tristezas... enfim,
o verdadeiro retrato
do que a vida fez de mim!
Maria Madalena Ferreira – Magé
 
Tanta ternura mostrando,
teus olhos – juro por Deus –
são mil promessas bailando
na valsa do nosso adeus...
Milton Nunes Loureiro – Niterói
 
Caprichoso, o meu destino,
de mansinho, sem alarde,
feito um travesso menino,
mostrou-me o amor... e era tarde!...
Nádia Huguenin – N. Friburgo
 
Confortado em minha cama,
longe do mundo infernal,
nem me lembro de quem clama
por cama, até de jornal!
Nilton Manoel – Ribeirão Preto
 
Velhice não é desgosto,
e muita gente se esquece
que mesmo num velho rosto
ternura não envelhece!
Neide R. Portugal – Bandeirantes
 
La Samba viene de lejos
y la bailo en mi Brasil
emisaria de cortejos
al compás del tamboril.
Nora Lanzieri – Buenos Aires
 
Sangra a terra, quando arada:
fica frágil, tão exposta...
Mesmo sofrendo calada,
com seus frutos dá a resposta.
Olga Agulhon – Maringá
 
Encontrei com a saudade
solitária, mas tão bela,
e sem medo, sem vaidade...
eu beijei as tranças dela.
Sarah Rodrigues – Belém
 
Por ser mera ingenuidade
o motivo do teu erro,
fiz da solidão saudade,
mas do perdão fiz desterro.
Walneide F. Guedes – Curitiba
 
Brinco no seu penteado
e coloco em desmazelo
o anel encaracolado
que modela o seu cabelo...
Vanda Alves da Silva – Curitiba
 
Lá na serra, bem plantada,
casinhola de bambu.
Longe mia onça pintada,
perto o cantar do nhambu!
Vidal Idony Stockler – Curitiba
 
 

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Catedral-Basílica de Nossa Senhora da Glória – Maringá - Brasil

Música: Maringá * (Joubert de Carvalho)

Formatação e Arte: Iara Melo