SEBO LITERÁRIO

 

 

António José Barradas Barroso

(Tiago)
 

 

 
 
Alentejo...
... minha saudade
 
SONETOS
 
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O ribeiro
António Barroso


Com meu pai, eu ia pelo carreiro
Colhendo espargo verde bem carnudo
E depois, já nas margens do ribeiro,
As beldroegas que cobriam tudo.

Meu pai, meu bom amigo, meu parceiro,
Olhava para mim, sorrindo, mudo,
Deixava que, a correr, fosse o primeiro
A refrescar-me na água, meio desnudo.

No regresso, colhiam-se agriões
E ervas para mezinhas e pomadas,
Um cacho ou outro de uvas lá da vinha.

A chegada era cheia de emoções,
Que o cheiro de iguarias cozinhadas,
Trazia a de um bom caldo de galinha.

António Barroso

 
 

A casa do pão
António Barroso


Casa do forno, era a casa do pão
E o lume feito de lenha escolhida,
Fermento guardado de outra sessão
E a bênção da cruz na massa tendida.

Todo o trabalho se fazia à mão
E, dali, brotava a força da vida,
No forno aquecido ao lume canção
No pão que surgia na pá estendida.

E o parto esperado, de manhã cedo,
Saía do forno quente, em sossego,
Cantando salmos de puro louvor.

Da crosta castanha, linda, macia,
Soltavam-se os cheiros que o forno trazia
No pão benzido por Nosso Senhor.

António Barroso

 
 

A figueira
António Barroso


Aquela figueira lançando, no espaço,
Ramos frondosos furando a distância,
Criaram, em mim, um eterno laço
Que liga a velhice aos tempos de infância.

Quedava-me, atento, em cada pedaço,
E o figo surgia em tal abundância,
Que até fazia esquecer o cansaço
Duma aventura com tanta importância.

O tronco robusto, os ramos possantes,
Lembram aqueles tempos tão distantes
De menino rebelde, aventureiro,

Momento de saudade que, assim, trouxe
O sabor desse figo doce, doce,
Como outro não há no mundo inteiro.

António Barroso

 
 

 O banho
António Barroso


Naquelas tardes quentes de verão,
Lá no monte onde o meu avô morava,
A sombra da figueira não chegava
P’ra acalmar esse calor de aflição.

Mas o que se encontrava, mesmo à mão,
Era o tanque onde a roupa se lavava,
No qual eu, p´ra refrescar, me colocava,
Na doçura de tão boa sensação.

O tanque, pouco fundo, era comprido,
Porém todos os dias era enchido
De água vinda do poço em aqueduto,

Quando se abria uma pequena porta,
A água brotava p´ra regar uma horta
Linda e ornada de árvores de fruto.

António Barroso

 
 

Os sinos da minha terra
António Barroso


Quando os sinos se erguiam, imponentes
Do seu alto refúgio, o campanário,
Abriam sempre num toque diário
Chamando, p’ra missa, todos os crentes.

Mas se, fora dessa hora, em dias quentes,
Badalavam em ritmo extraordinário,
Chamavam o bombeiro voluntário
Para, heróico, apagar chamas ardentes.

Os toques a finados davam pena,
Mas outros já chamavam p´ra novena
E, até largar a corda, o sacristão

Pensava ser maestro duma orquestra,
Actuando, soberbo, numa festa,
Num eterno e permanente dlim, dlão…

António Barroso

 

Livro de Visitas

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