SEBO LITERÁRIO

 

 

António José Barradas Barroso

(Tiago)
 

 

 
 
Alentejo...
... minha saudade
 
SONETOS
 
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A monda
António Barroso


Lá vão elas, unidas, bem juntinhas,
Com a saia apertada sobre a meia,
Contando as novidades duma aldeia
Onde, cada uma delas, é vizinha.

Colhem, com prazer, as ervas daninhas,
Que a planície de trigo está bem cheia,
Na frescura do dia que as enleia,
Soltam suas canções, suas modinhas.

Pelo ar, ainda soam tais cantares,
Quando voltam, no fim, para seus lares,
P´ra junto da família que as espera.

Num dia de trabalho e ganha pão,
Há brasas espalhadas pelo chão
Porque ainda está fresca a primavera.

António Barroso

 
 

O Cauteleiro
António Barroso


- É o mil trezentos e cinquenta e sete –
E o cauteleiro segue, apregoando
As cautelas que, a todos, vai mostrando,
Fixadas nos botões do seu colete.

Na cabeça, com pala, usa um barrete
Que o protege do sol que está queimando
P’ra, com arte e magia, ir desvendando,
Ao povo, a sorte grande que promete.

Andava, pelas rua, todo o dia,
Que a fortuna bem pouco lhe sorria
Em troca de pregões tão enfadonhos.

Corria, aqui e além, sempre a cantar,
No seu costumeiro apregoar,
Ele era um mercador de lindos sonhos.

António Barroso

 
 

O Pregoeiro
António Barroso


Correndo, toda a rua, o santo dia,
Pregoeiro faz uso do pulmão,
Para dizer, em forte vozeirão,
A encomenda que toda a gente ouvia.

E posta-se, parado, em sintonia
C’o as ordens recebidas do patrão,
Seja pequena ou grande a multidão,
Debita anúncios como poesia.

Não há frio, nem há calor que o vença,
O pagamento é pouco, mal compensa
O esforço dispendido o dia inteiro.

Fecha o capote, seu bom agasalho,
Considera acabado o seu trabalho
E, então, regressa a casa, o pregoeiro.

António Barroso

 
 

O Ferrador
António Barroso


Avental de carneira protegendo
Toda a azáfama, todo o seu labor,
Lá ia, trabalhando, o ferrador,
Calçando os animais que iam trazendo.

Com turquês, ia os cravos desfazendo,
Depois, com o formão ao seu dispor,
Ele alisava o casco, sem dar dor,
Co’a nova ferradura protegendo.

Se a velha ferradura é talismã,
Ela é, p’ra o ferrador, no seu afã,
Um pedaço de ferro, coisa morta.

Se houvesse, no mito, uma só verdade,
Ferrador, nadava em felicidade
Com tanta ferradura atrás da porta.

António Barroso

 
 

Os amola-tesouras
António Barroso


Andavam nas pequenas bicicletas
Prodígio duma grande arrumação,
Com toda a ferramenta ali à mão,
Onde nada faltava, eram completas.

E tocavam, nas gaitas, cançonetas
Aprendidas na antiga tradição,
Afiavam, com toda a perfeição
E, em guarda chuvas. punham as varetas.

Pelas ruas, com todos os vagares,
Colavam, com agrafes, alguidares,
Faziam obras de arte, de alquimia.

Agora, não me sai mais da lembrança
Meu tempo de menino, de criança,
Em que amola-tesouras inda havia.

António Barroso

 

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