SEBO LITERÁRIO

autor

 
 
Angelino Pereira


 


O mistério da pobreza




- Manel! Anda comer o caldo.
- Já vou! Ainda estou a chegar, carregado como venho, grande fome tenho! O caldo! Qual caldo qual quê, toucinho, ninguém vê! Umas couves mal lavadas, que em vez de segadas, foram esfarrapadas. De azeite cegou, arroz quase não tem mas, mesmo assim faz-me bem!
Criança cresce porque Deus favorece. Na bênção de quem não tem, o horizonte vislumbra além. Família pobre de haveres, em Novelas, feliz cresceu.
Podia ser um canto, uma cantiga, para embalar o menino que cresce com muito carinho. Mas o Manel não tem tempo para receber uma carícia sequer de alguém. Pai tem, mas não vem!
O pai, do menino que cresce nesta aldeia de pé descalço, está longe. Está na cidade grande, à procura do sustento da família. Cinco filhos, é muita boca a pedir pão!
Os ordenados são tão pequenos, nem dão para o pai regressar a casa todos os dias! Fica na cidade grande. Chega na quarta-feira, no comboio de madrugada mas, tem apenas um dia de folga. Para estar a horas no trabalho, ainda antes que o dia termine, volta para o Porto.
Em Chaves nasceu o Manél mas, em toda a sua Novelas cresceu, embora isento de mazelas, não achou chave para a sua pobreza material; ma o povo da sua infância sempre apoiou a criança!
No tempo do Manél, havia amor e solidariedade, amizade de verdade... Pobre não deixava de ser mas, todos conheciam o menino moreno.
A sua lide diária era demasiado pesada para tão tenra idade. - "Temos que sobreviver". Dizia o pai do Manél que não ganhava o suficiente." E reforçava: "Mas, como vos quero honrados... Então temos que nos virar..."
A mãe do menino andava ao jornal. Vende jornal? Não, a mãe trabalha ao dia. Quer dizer, por cada dia que presta um serviço o patrão paga-lhe um preço.
São 2$50, a seco, não é muito mas, dá para pagar a renda à senhoria! Se a mãe trabalhar vinte dias por mês, são 50$00, ainda sobram dez escudos.
O Manél come na escola mas tem que levar a comida antes à mãe! À pressa, coze algumas batatas com couves que irão com certeza calar o estômago durante várias horas. Convém até ficar um pouco duras, mais tempo demorará a sua digestão.
O pai trabalha na cidade grande. Julgo que lá não há tanta pobreza. "Talvez um dia, quando for maior, vou também para lá trabalhar, numa casa mais abastada" - pensava o menino pobre.
A mãe do Manél deixara a casa onde e ele nascera., porque cortou relações de amizade com a senhoria e, viver zangada com alguém, é vida que não serve à espontaneidade da D. Carolina.
Junto aos moinhos da ponte é bom viver. De verão é mais fresco!
Uma das tarefas do Manél tornara-se mais leve. A fonte onde vai buscar a água está mais próxima e, para dar banho, vai diretamente ao rio que passa ali mesmo juntinho. Que bem cheira o rio sousa nas manhãs de verão. E o Manél Pensou: "Se algumas horas sobrar das minhas tarefas diárias, vou arranjar um tempinho para pescar.
Ah! Se eu tivesse sorte na pesca, melhorava com certeza a ementa num dia destes. Que grande surpresa fazia a minha mãe, quando lhe fosse levar as habituais batatas cozidas! Vou tentar. Amanhã vou faltar à escola. Vou arranjar um pau, uma linha..." E lembrou-se:
- "E o anzol? Ah! Já sei, tenho na caixa de cartão dois tostões que recebi do sapateiro que mora ao nosso lado, quando lhe fui fazer uma entrega de sapatos à D. Teresa."
A D. Teresa gostava muito do Manél. A sua neta andava com ele na catequese. E o Manél pensou:
-" É tão bonita! Fico minutos seguidos a olhar para a Celeste; até já pensei casar com ela! Mas, a Celeste é rica, não vai gostar do menino pobre."
A D. Teresa era boa cliente das pinhas que a família do Manuel apanhava nas matas vizinhas.
Uma das principais tarefas do Manél, destaca-se a recolha de pinhas que a família retirava nos pinheiros das matas mais próximas. Era um combustível muito procurado na década de cinquenta. Os mais abastados tinham fogões a lenha, onde queimavam as pinhas como ponto de inflamação, para outro tipo de lenha... Atear o fogo por esse processo é mais fácil.
A D. Teresa sempre ajuda o Manél a descarregar o saco, umas calças velhas amarradas nas pernas e cinta, bem atestadas de sementes de pinheiro. As pernas, das calças, encaixam no pescoço do rapaz, tornando-se mais fácil o transporte de meio cento.
A 2$50 o cento, a família do Manél conseguia reunir mais 1$25. (um escudo e vinte e cinco centavos).
Bem! Mas naquele dia já todos tinham saído. A mãe já havia ido trabalhar. E o Manél pensou:
- "Vou buscar o anzol." E foi à drogaria.
- Oh! Sr. Joaquim dê-me cá um anzol.
- Para quê Manél? Para pescar, com certeza.
- Menino vê lá se te picas. Olha que entrar, é num instante. Sair é bem mais difícil!
- Está bem, eu já vi o meu irmão a pescar.
Pegou no anzol e correu para o rio sousa. - Adeus Sr. Joaquim.
"Eh! Tanto peixe, ali no fundo! Deus queira que saia um a tempo de o levar à minha mãe." Pensou o menino pobre.
Lançou a linha com a minhoca pendurada no anzol, carne para peixe. E pensou:
-" Se aparecer um peixe dos pobres com fome, vai pegar no isco e, eu vou fazer refeição de rico!"
- Oh! Mãe do céu, dá peixe à minha mãe. E gritou:
- Eh! Milagre! Pegou! Tenho peixe na cana!
Puxou com a força de sete anos. O Divino ajudou! E exclamou:
- O peixe é muito grande! Tem para aí meio quilo! Ena! Grande peixe!
Com muita luta e força, quase partira o pau que suporta o anzol, mas puxou o "animal" para terra.
Ele salta com as barbatanas a dar a dar! Quase que se escapa de novo para o rio... Atirou-se para cima do bicho! E zás!
- Tão boa refeição não posso deixar fugir!
Dominado o peixe, já quase a não respirar, já podia levá-lo para casa. E pensou:
-"Como hei de cozinhá-lo para o levar à minha mãe?" E disse para si mesmo:
- Vou cozer as batatas, como habitualmente e frito o peixe.
A garrafa tem tão pouco azeite! Então pensa:
- "Chega, se não ficar frito fica assado!"
Um bocado de sal e lá colocou o peixe no tacho...
São onze e meia e a mãe precisa de comer ao meio dia, portanto, tem que andar lestro.
- Oh! Mãe já cheguei.
- Anda filho, o patrão só dá uma hora para comer.
- Toma mãe as batatas do costume.
- Mas cheira a outra coisa! Um peixe! Como conseguiste isto?
- Pesquei para ti.
- Tu?
- Sim eu!
- Mas eu não quero que andes junto ao rio. Meu Deus, se tu caías para o rio! Disse a mãe do Manél imaginando a desgraça que podia ter acontecido.
- Oh! Filho eu não quero peixe, prefiro somente as batatas, mas antes saber que nada te acontece! Lembras-te daquele dia que ias afogar junto aos moinhos!?
- Oh! Mãe desculpa, eu só queria fazer-te uma surpresa, para não comeres só batatas com couves!
- Obrigada filho, mas que adianta ganhar um peixe com o risco de te perder? Não voltes ao rio.
- Está bem mãe. Prometeu o rapaz.
A mãe do Manél não gostou, mas o filho vi o quanto lhe estava a saber aquele peixe! E ela, mesmo assim foi tirando aquelas fevras para o filho, enquanto chuchava aquelas espinhas sofregamente!
Aquela chamada de atenção fez o rapaz recordar o que já havia acontecido naquele rio traiçoeiro. O Manél lembrava-se daquele dia: Seu irmão, quatro anos mais velho, nadava naquela presa, junto aos moinhos da ponte, enquanto o Manél e o irmão mais novo, atravessavam a levada que liga as duas margens, para verem o mais velho a nadar.
De repente, um deles escorregou, arrastando consigo o outro.
Caíram as duas crianças ao remoinho daquelas águas, que apontavam para as condutas, que faziam o movimento das hélices, que moviam as mós, para a trituração do milho, que transformava em farinha.
Seu irmão, que nadava, alertado pelo bater aflito e desesperado das duas crianças nas águas, e apercebendo-se que os pequenos estavam em direção à morte... nadou na sua força máxima e conseguiu ainda atravessar as suas pernas junto à entrada do canal, até que barrasse a passagem deles.
Quando bateram nas suas pernas, arrastados pelas águas, então o irmão mais velho gritou por socorro, antes que a torrente fosse superior às suas forças.
Assim puderam, naquele impulso de chamamento à vida saíram ilesos, quando a morte já os esperava.
Este episódio ficou marcado na memória da mãe do Manél e, fazia a sua vida ansiosa, quando pensava na aproximação do filho ao rio.
O Manél ao ver a ansiedade estampada no rosto da mãe, prometeu-lhe que não voltaria ao rio sem ela. E percebeu que a surpresa não lhe trouxera felicidade, mas antes apreensão.
Alguns dias depois, seus pais resolveram mudar a sua residência para outro lugar, dentro da mesma freguesia. Saíram então da Ponte e foram para o lugar da Igreja Velha.
A nova velha casa continuava a ser térrea e ampla, sem quartos, dividida por cortinados que resultava no mesmo efeito.
Dos cinco irmãos, os três mais velhos, já haviam partido para a cidade grande.
Por lá, naquela aldeia de poucos ricos e muitos pobres, ficaram três pessoas na melhor casa de sempre.
A nova vizinhança já os conhecia. Quase toda a gente se conhecia nessa Novelas dos anos cinquenta.
Deixaram de morar junto ao rio mas ficaram muito perto do fontanário.
Ali tinham a água mesmo junto à porta, o fontanário quase fazia parede com a cozinha e, o tanque mesmo ali para a mãe do Manél lavar a roupa.
"A mãe anda tão cansada. Trabalha tanto!" Pensou o menino pobre.
O rio sousa passa agora mais longe, a cerca de quatrocentos metros. Há quatro lavradores abastados à volta na nova - velha - casa onde mãe pode trabalhar.
O Sr. Mota já os convidou. “Sempre que possam venham cá para casa. Os miúdos também podem ser aproveitados, no tempo da poda apanham as lenhas. Há sempre que fazer na lavoura e, sempre vos espera, no mínimo, uma boa malga de caldo com broa. Nesta casa há sempre que comer”
A mãe do Manél agradeceu a gentileza e todos passaram a viver como uma família. Cresciam juntos, em família e com amizade.

 
 
 

  

 

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