SEBO LITERÁRIO
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Até que um dia, a mãe começara a sofrer da
barriga... O Manél ouviu dizer que ela tivera muitos abortos que
lhe deixaram marcas físicas.
Então o pai do Manél arranjou-lhe uma consulta de ginecologia,
na cidade do Porto. E a mãe do rapaz, depois de algumas viagens
à cidade Invicta, para exames médicos, é obrigada a fazer um
tratamento prolongado que exige a sua presença diária naquela
cidade.
Ficaram duas crianças (oito e seis anos) entregues ao seu
destino.
Durante o dia, depois da escola, regressavam às tarefas diárias:
alguns animais domésticos continuavam em casa à espera de
alimentação; um porco cego que lhes fora oferecido tornara-se
tão dócil e meigo que só lhe faltava falar. Ouvia a voz dos
rapazes e vinha ao seu chamamento. Por tino, corria atrás dos
rapazes!
As galinhas comiam farelo amassado com couves e os coelhos
esperavam a erva que o Manél segava pelos campos.
Se o tempo ainda sobrasse, os dois irmãos iam até casa do senhor
Mota, executavam algumas tarefas e comiam o caldo, na casa do
lavrador.
À noite regressavam juntos a casa e ficam sós. E algum medo se
instalava neles.
Se alguém os quisesse assustar não seria difícil! Mas talvez não
fosse possível tal acontecer, numa aldeia onde todos se estimam.
Chegara o carnaval e mãe do Manél ficava no Porto por períodos
mais longos. E já se haviam passado oito dias sem ela voltar a
casa.
Naquela quadra especial aproveitara alguém da freguesia, que
fazia habitualmente viagem diária para Novelas e, enviou um
quilo de “boches” “miúdos” de boi para lhes melhorar o prato
nesse dia especial.
Naquele dia, por volta das onze horas ouviu-se gritos de
desgraça lá para os lados da estação. Os rapazes correram, como
muita gente, para saber o que havia acontecido.
Foi junto à passagem de nível da estação de comboios de Novelas,
um automóvel embateu numa menina de seis anos, matando-a contra
as grades da cancela.
Visto o resultado do acidente, regressaram a casa para cozinhar
os boches, mas grande foi o seu espanto, sobre a trempe, na
lareira, estava uma grande travessa de barro contendo grande
quantidade de comida: cozido à portuguesa, rojões e sarrabulho.
O Sr. Mota havia feito a matança do porco em vésperas do
carnaval e, neste dia abundara a refeição das duas crianças numa
verdadeira festa da comida.
- "Que Deus lhe dê o céu, jamais vi tanta comida e tão boa!"
Disse o Manél.
De tarde os dois irmãos “órfãos” passeavam a freguesia na
direção da Ponte para observar os jogos de carnaval, nas
fantasias e disfarces dos mascarados. E ouviram-se vozes de
solidariedade:
- Oh! Manel vem cá! Olha lá, já almoçaste?
- Já sim senhora. Respondia o Manél.
- Anda cá, vem comer...
Mais adiante, outro convite e mais outro convite...
- "Por favor, não me obriguem mais a comer, eu vou morrer de
tanto comer!" Dizia o Manél.
Era a aldeia do Manél dos anos cinquenta!..
Que terra linda de encanto! A solidariedade, o amor entre as
pessoas, a fraternidade entre os homens. Todos se conheciam,
todos se ajudavam.
Que lindo, o rio sousa de amieiros e choupos, de searas que o
povo mondara, de pão que Deus abundara.
Essa terra é um paraíso, até os pobres alcançam o céu. E pensou:
"Deus gosta de nós!"
Um dia, no primeiro ano de morada no lugar a Igreja Velha, o
Manél foi à missa das seis e meia, como era habitual aos
domingos. Era uma daquelas manhãs de inverno, frio e ainda
escuro.
Tinha feito a primeira comunhão, à relativamente pouco tempo e,
naquela missa voltou a comungar.
Regressava a casa a correr, feliz por mais uma vez ter recebido
o Senhor.
Ao chegar ao cruzeiro, quando virava para a direita e, se
preparava para descer em direção ao cemitério, olhou para aquela
parede que tinha uma argola fixa, que servira outrora talvez
para prender o gado cavalgar, talvez o burro do moleiro. E
olhando, viu algo fantástico e logo parou para confirmar! Ele
estava a ver a imagem da Nossa Senhora de Fátima. De mãos postas
a olhar para ele, como quem diz: "Vem até mim!"
O menino pobre ficou por alguns minutos estupefacto, paralisado.
"Que coisa maravilhosa!". E pensou.
"Como é possível a Senhora estar aqui!?"
De repente, deu a correr ribanceira abaixo, em direção a casa,
para que alguém viesse confirmar se ele estava mesmo a ver!
A irmã do Manél, que estava em casa naquele dia, foi com ele a
correr mas, ao chegar ao local, chamou-lhe mentiroso! O que ele
dissera não pudera provar!
Não pudera mostrar o que vira.
Olharam fixamente os dois: examinaram e apalparam a parede, mas
nada!
- Mentiroso! Disse a irmã do Manél. - Pensas que a Nossa Senhora
aparecia a um mafarrico como tu?
A Dona Idalina, a catequista do rapaz, também soube da visão que
ele contou e achou também que era impossível a Senhora aparecer
logo a ele; na sua opinião havia crianças mais merecedoras desse
privilégio divino.
Quando os homens pensam mais do que Deus, julgam pior que o
diabo!
-"A Dona Idalina se calhar não gosta de mim e, porque não gosta,
acha que a Senhora é da mesma opinião." Pensou o menino pobre.
A Dona Idalina tinha dupla função no contacto com as crianças
daquela idade. Era catequista e regente-diretora na escola de
Novelas.
Junto à escola existe uma casa que parece fazer parte do mesmo
património do Estado. Essa casa, tem à sua volta um quintal onde
a catequista fazia as suas sementeiras.
A Dona Idalina mobilizava as crianças que na sua opinião se
portavam mal e, como castigo, distribuía-lhes tarefas na
agricultura.
A quantidade de afazeres que o Manél tem em sua casa, não lhe
permite obedecer à D. Idalina.
A bicharada que tem para alimentar, a lenha que tem que buscar
nos montes vizinhos para confecionar as suas refeições, a
responsabilidade obrigatória para tomar conta do seu irmão mais
novo. É muito trabalho para uma criança de nove anos!
A D. Idalina era demais prepotente para entender estas coisas!
Lá porque deixa o rapaz rapar o tacho do arroz na cantina e o
obriga a lavar a louça, entende que ele ainda deve trabalhar no
seu quintal!
Sempre que ele se escapa às tarefas impostas, já sabe que no dia
seguinte vai levar um bom puxão de orelhas. E fica com as ditas
a arder e a fumegar de vermelhas durante algumas horas! Mas que
pode ele fazer para evitar isto? O Manél tem tanto trabalho em
sua casa para fazer!
A D. Idalina não gosta dele e, pronto!
Talvez pelo seu sofrimento, a Senhora Se tenha lembrado dele.
Talvez a Senhora lhe quisesse dizer: "Tem paciência, sofre que
eu velo por ti!"
A ganância dos homens é cega, não enxerga a razão!
Deus dará do seu Reino aos pobres, aos humildes, aos enjeitados
na terra. E o Manél sabe que Deus gosta dele! Mas um dia, ele
desafiou a catequista:
- Oh! D. Idalina, como é que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo,
ao mesmo tempo? Perguntou o Manél, inesperadamente à sua
catequista. E ela atrapalhadamente respondeu:
- É um mistério!
Outra vez, ele perguntou-lhe:
- Como explica que Nossa Senhora ao conceber um filho tenha
continuado Virgem? E a catequista respondeu-lhe:
- É um Mistério!
A catequista e regente, arrumava sempre a questão com a palavra
"Mistério" e, não admitia mais conversa sobre o assunto. Tudo
estava consumado numa obediência cega sem oposição!
Pobre materialmente não quer dizer pobre de espírito. Pobre não
tem que ser burro!
Com estas perguntas e “desobediência”, à Dona Idalina, jamais
aceitaria que o menino moreno e pobre pudesse ver a Nossa
Senhora!
O sonho não é privilégio único dos ricos mas antes alimento de
vida dos pobres!
O menino pobre sonha melhor vida na grande cidade.
Seus irmãos mais velhos já por lá andavam e contavam maravilhas!
São marçanos. Têm muita comida por perto! E ele pensava:
-“Se um dia for para a cidade, vou também para marçano. Não vou
mais rapar o tacho, nem lavar a louça!”
Estavam no mês de junho. E os meninos da aldeia já andam a fazer
o peditório, lá na escola, para comprar o cordeiro para oferecer
à senhora professora. E o Manél pensou:
-“Não sei se minha mãe vai poder dar algum dinheiro. Somos tão
pobres!” Mas chegou a casa e disse:
- Mãe dá-me cinco escudos para levar para a escola.
- Filho como pode dar-te o dinheiro de dois dias de um trabalho
duro ao sol? Sabes como sofro, quando me levas a comida?
- Sei mãe, mas eu gostava tanto de ir com os outros meninos
levar o carneirinho à senhora professora!
- Eu sei, a senhora professora saberá entender porque não podes
ir!
O Manél sabia que sua mãe não podia dar-lhe os cinco escudos. E
portanto tinha que resolver o problema doutra forma. E pensou:
“Já sei! Tenho uma ideia! Vou fazer um peditório na minha
aldeia. As pessoas gostam de mim!”
Começou pelo Sr. Mota. E foi falar com a esposa do lavrador.
Contou toda a verdade. A senhora que é muito boa, tem muita pena
dos pobres. E a D. Isabel disse-lhe:
- Entendo a tua vontade, toma lá 2$50, vê se arranjas o resto.
Se não conseguires volta cá.
- Muito obrigado. Respondeu e acrescentou: - Agora vou à esposa
do Sr. Silva da Igreja
- Toma cuidado, vê se o marido não está, ele é muito mau!
- Eu sei! Disse o Manél tremendo de medo.
Ele sabia que o Sr. Silva não gostava de crianças. Talvez fosse
porque nunca foi pai!
O Sr. Silva é o homem dos mais ricos da freguesia. Tem a melhor
casa do lugar. É um homem muito esquisito, muito estranho. Nuna
soube decifrar o enigma da sua figura!
Tem aspeto de pessoa muito mau. Já tinha ouvido a sua mulher
contar à sua mãe o medo que ela tem do marido. Mas a esposa
daquele homem de aspeto rude é muito respeitada no lugar. É
muito boa. Foi essa senhora quem deu o porco cego à mãe do Manél.
Saíra-lhe numa ninhada de sete porcos.
Enfermeira de profissão, não pratica tal atividade por ciúme do
marido. Faz algum trabalho de enfermagem às escondidas, quando o
marido se ausenta. Foi o que acontecera dias antes, quando o
menino pobre foi levado pela mãe à sua presença banhado em
sangue!
O Manél sempre construía os meus próprios brinquedos. A sua mãe
não tem dinheiro para lhe comprar seja o que for, para além da
pobre comida para seu sustento. Então, um dia pensou fazer uma
gancheta com uma roda de chapa, aproveitada na tampa de uma lata
velha. Precisava, para o efeito, de uma vara de madeira o mais
direita possível. Procurou, procurou e, por fim encontrou numa
estaca de videira.
Na simplicidade de criança, começou a desligar a estaca da sua
amarração à videira. De repente sentiu um batimento violento na
testa, com forte ardência que quase o levava ao desmaio.
Levantou a cabeça um pouco para cima. Olhou em direção ao céu e,
sob uma mancha vermelha de sangue que cobria o seu rosto, ainda
vi o assassino de tal atrocidade. Era o Sr. Silva!
Aterrorizado, correu, correu sem parar até casa antes que as
forças lhe faltassem e fosse apanhado pelo carrasco.
Já coberto de sangue, sua mãe gritou de aflição ao mesmo tempo
que perguntava como tal lhe havia acontecido. E enquanto mãe lhe
lavava a ferida na água que caía no fontanário, ele foi
explicando como tudo acontecera.
Depois de descoberto o ferimento, a mãe do menino apercebera-se
da gravidade. Com um pano sobre o golpe levou-o até a casa do
Sr. Silva.
O assassino não estava em casa, continuava a passear os seus
terrenos. E a esposa, enfermeira, ficou escandalizada ao saber
do sucedido. Prontificou-se a reparar, dentro do que lhe era
possível, todos os estragos levados a cabo pelo seu marido, que
ela própria temia!
O Manél ficou então a receber curativo diário em casa da boa
senhora. Mas sempre atento aos passos do Sr. Silva para saber
quando ele saia, para passear nos seus campos. E quando visse o
Silva sair, dirigia-me imediatamente a sua casa para receber o
curativo da sua mulher.
Essa amizade que existia entre a mãe do Manél e a dita senhora,
bem como, a sua ligação pelos primeiros socorros, deu-lhe a
confiança necessária e oportunidade para lhe fazer mais um
pedido.Contou à senhora enfermeira a sua necessidade de obter
2$50 para completar a oferta para o cordeiro e prontamente
recebeu a respetiva importância.
A vontade de pagar as maldades do seu marido transformara-se,
para o menino pobre, no gozo de alguns favores. E no sábado
seguinte chegava o dia grande. Os meninos da mesma classe vão a
Penafiel levar o carneirinho à senhora professora.
Às nove horas da manhã. Todos os meninos e meninas do mesmo ano
escolar vão a casa da sua professora. Embora as crianças sejam
apartadas pelo sexo, durante as aulas e recreio, todavia
pertencem à mesma professora.
Foi preciso angariar setecentos e oitenta escudos para comprar o
cordeiro. Mas o cordeiro está tão bonito! Não é grande mas é uma
beleza. Está enfeitadinho com fitinhas de seda.
O mais forte dos meninos carrega com ele ao pescoço, encaixado
nos ombros. Os restantes pegam nas várias fitas que vão ligar ao
animal.
As patas do bicho estão amarradas aos pares, por isso o cordeiro
vai quieto.
O carneirinho é uma gracinha. Está tão amoroso!
Tão branco, tão branco que parece ter chegado do polo norte!
Então dá-se a partida. O Manél coloca-se junto à menina da sua
preferência, a sua primeira e grande paixão. O seu primeiro amor
de infância. Ela veste de branco como o cordeiro!
A candura, a inocência, a pureza mais transparente da natureza
humana, reunida num quadro de inimaginável aguarela pintado no
mais celeste divinal.
Igreja, Ponte, Bujanda, cidade adentro; numa festa de cantares
em vozes finas e melodiosas que encantam quando passam:
- Viva a senhora professora! Viva!
- Viva a nossa escola! Viva!
- Viva a Nossa diretora! Viva!
- Vivam os nossos pais! Viva!
- A senhora professora sabe muito e muito bem; os meninos gostam
dela e vão levar-lhe o que têm.
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Cordeirinho pequenino com lacinhos, ficam bem vai aos ombros do menino de Novelas e mais além. |
- Viva a senhora professora! Viva!
