Sebo - Angelino Pereira- O mistério da pobreza

SEBO LITERÁRIO

autor

 
 
Angelino Pereira
 

 

O mistério da pobreza
(continuação)



Chegaram à misericórdia, ainda cedo. A senhora professora mora na rua que liga ao Sameiro.
Havia um lanche à sua espera... E depois de mais alguns vivas na presença da senhora professora, ela recebeu o cordeiro. Agradeceu a oferta e serviu muitos bolos a todas as crianças.
O Manél comeu coisas que nunca tinha visto e regressou a casa muito feliz.
A sua aldeia tem coisas muito bonitas!
Depois, à noite, a mãe do Manél perguntou-me como tudo havia corrido. E ele contou-lhe tudo com muita emoção. A mãe dele comungou da sua felicidade. Não tivera dinheiro para lhe dar mas gostou de ver o seu filho feliz! Foi a primeira e única vez que o Manél conviveu com tantos amigos fora da escola. Divertiu-se imenso! A sua brincadeira preferida era a realização de pequenas procissões.
Construía um andor em madeira, onde colocava uma imagem de um santo, habitualmente da Nossa Senhora; depois convidava os seus amigos mais próximos para realizar uma procissão à volta do nosso lugar. Entoavam cantos religiosos, durante um curto itinerário, que selecionavam para fazer de conta que um de deles era padre. Havia um certo fascínio ou encanto em tudo que se relacionava com o divino, religião.
Como dizia a D. Idalina, quando não arranjava outra explicação: “é um mistério!”
De tal maneira estava entusiasmado que disse a sua mãe:
- Eu quero ser padre! E sua mãe olhou para ele e disse-lhe:
- Tu queres mesmo ser padre?
- Quero! Respondeu o rapaz decidido.
Então, a mãe do Manél foi falar com o padre da freguesia:
- Senhor Abade, o meu filho quer ser padre. O miúdo organiza procissões nas suas brincadeiras de infância e até pensa que viu a Nossa Senhora.
- Olhe Carolina, isso não basta! Disse o padre.
- Não basta porquê, senhor Abade? Então o rapaz é tão devoto à Nossa Senhora!
- Não basta porque é muito pobre!
- Então um pobre não pode ser padre?!
- Não é isso. É necessário que consigas arranjar um enxoval para o moço entrar no seminário: uns tantos pares de cuecas, de camisolas, de calças e muito mais... Até roupa de cama o miúdo terá que levar. Como vês, não é nada fácil!
A mãe do Manél chegou a casa muito espantada e disse-lhe:
- Padre não serás mais, isso é assunto de ricos!
Mas ele soube mais tarde que o seu colega de procissão, o António Mota, esse conseguiu!
Os pais do Mota, embora não fossem donos da terra, eram lavradores remediados. Deram muitas vezes de comer à família do Manél; por isso, tinham o suficiente para comprar o dito enxoval, que o filho levara para o seminário.
Um dia o menino Mota despediu-se dos seus colegas e partiu para Porto.
No final do ano letivo, ao terminar a terceira classe, foi dar-lhe um abraço e disse:
- Adeus amigo, vou para o seminário. Vou estudar para padre. E o Manél decidiu:
“Acabaram as procissões.” E desfez o andor que tinha construído; levou a imagem da Senhora para casa e não voltou a fazer de conta que era padre!
Seu pai, um dia chegou a casa e disse para a mãe do rapaz:
- Já ando cansado destas viagens do Porto para Penafiel e vice-versa! Uma vez que temos três filhos no Porto, vamos começar a arranjar maneira de mudar tudo para perto do meu trabalho!
Ao ouvir aquela conversa o Manél saltou de alegria! E logo pensou que iria concretizar-se o seu grande sonho! “Vou viver para a grande cidade!” Pensou. “Mas a minha aldeia!?” Sentiu logo saudades, mesmo antes de partir. “Dizem que as cidades têm muita luz! Então já não vou assustar mais as raparigas nas noites escuras! Gosto tanto de as ver correr assustadas à noite, quando regressam a casa das novenas!
O Manél arranjava uma cabaça, que colhia nos campos vizinhos; retirava-lhe o miolo, através de uma abertura feita longitudinalmente, cortada em jeito de tampa; do lado contrário fazia cortes que levavam ao desenho duma caveira; na boca espetava palitos que pareciam dentes. Depois e, dado o aspeto de caveira, metia-lhe uma vela de cera que arranjava na igreja. Instalava a obra num silvado escuro, junto ao caminho, por onde passavam as raparigas. E quando estavam já próximas acendia a vela e escondia-se.
Parecia um fantasma que aterrorizava quem passava desprevenido. As raparigas corriam a grande velocidade. Só paravam em casa!
Os rapazes divertiam-se bastante com essa brincadeira! E o Manél pensava:
- “Quando for para a cidade iluminada, tudo isto se acaba!”
Sua mãe recebeu uma carta do marido pai que dizia: “mulher esta semana não posso ir a casa, prepara todos os nossos haveres; na próxima semana levo uma camioneta para fazer a mudança. Vem tudo para o Porto.”
Ele tinha acabado de fazer a terceira classe e a comunhão solene.
Na festa de S. Salvador fizera um grande discurso. Não foi para o seminário mas foi o melhor da catequese para a comunhão solene.
O senhor Abade disse-lhe:
- O melhor aluno da catequese vai fazer um discurso, durante a cerimónia da comunhão solene, sobre a vida de S. Tarcísio. E ele esforçou-se e foi o melhor! Como prémio o senhor abade deu-lhe duas folhas A4 para decorar completamente.
No dia da cerimónia, vestido com um fato de fazenda e calçado pela primeira vez com uns sapatos, tudo oferecido pelos seus padrinhos de batismo; subiu para uma cadeira e contou toda a história que lhe haviam obrigado a decorar.
- “Que bem fala o rapaz! Ouviu alguém que comentava enquanto ele se dirigia para o lugar.
Aquela procissão, a valer, na festa de S. Salvador foi a festa da sua despedida da freguesia de Novelas; ao rio Sousa, aos campos verdes de cereais, aos pomares onde saciava a sua fome, à bicharada que ele alimentava com o seu trabalho, à Dona Idalina com o seu quintal à espera da mão-de-obra infantil e os seus tachos para ele rapar, à festa do cordeirinho, às suas paixões de infância. Enfim, à sua linda aldeia!

Chegou ao Porto.
Seu pai não tinha casa que desse para albergar quatro pessoas. Vivia num quarto onde dormia e cozinhava.
Era nesse quarto onde sua mãe passava os dias quando ia para essa cidade fazer o tratamento à barriga.
Embora houvesse o desejo de seu pai acabar com as viagens para Novelas, todavia não tinha condições, em Rio Tinto para receber a família. Valeu-se de sua irmã para remediar naqueles próximos dias até que estudasse melhor solução.
Sua tia paterna deitou-nos juntamente com as primas. Mas a situação não era nada agradável para toda a família, apesar da inocência de crianças na virgindade de uma aldeia do interior.
Duas raparigas com onze e oito anos, respetivamente, e dois rapazes com dez e oito anos, deitados na mesma cama, não era com certeza nada confortável para a família de todos..
Apesar de deitados os rapazes virados para os pés e raparigas viradas para a cabeceira, é sempre uma situação desagradável que exige melhor e rápida solução.
A mãe do Manél procurou junto duma família amiga ajuda. Foi então que arranjou uma cave onde o seu proprietário fazia arrecadação. Os rapazes, que haviam chegado à cidade grande passaram então a dormir naquela cave horrorosa, com um cheiro insuportável a mofo. Foram integrados na comunidade local e passaram a ir às aulas na escola do Bairro.
À noite, bem cedo, quase ao sol-pôr tinham que descer as escadas de madeira para aquela cave mal cheirosa e fazer companhia aos ratos. E o Manél tantas vezes sonhara com a grande cidade, na esperança de melhor vida, com mais conforto e comida e afinal sentia já saudades da sua aldeia!
Que lindo era o seu quarto dividido por cortinados de chita às flores! E disse à mãe:
- Mãe, acho que estou a ficar doente, devido à falta de oxigénio durante a noite. O alçapão que dá para a cave está fechado durante o dia, só se abre à noite quando lá chegamos. Cheira tanto a podre!
- Está bem filho, aguenta mais algum tempo, estamos à espera de uma casa que prometeram ao teu pai.
Passados mais alguns meses finalmente a situação melhorou, a casa prometida foi dada devoluta e a família lá se reuniu na mudança. E ele viu:
"É uma cave não tanto malcheirosa como a arrecadação onde temos dormido. Esta cave tem divisões com tabuinhas que até parece a casa da mariquinhas! Mas tem porta com entrada de luz natural. Assim, já areja durante o dia!"
Mas a mãe do Manél trabalhava agora na atividade doméstica, ali mesmo junto à porta em casa de pasto. E a vida parecia que melhorava. Sobrava muita comida no restaurante onde a mãe do Manél trabalhava e fazia a abundância na casa da família do menino pobre.
Acabada a instrução primária, feita a quarta classe, seu pai disse-lhe:
- Quem quer comer tem que trabalhar.
Com onze anos, o Manél pegou no jornal diário, desfolhou as páginas dos anúncios, e procurou emprego.
Chegou finalmente a hora de ser marçano, como havia sonhado em dias de miséria na sua aldeia.
Agora na mercearia iria ter sempre comida à descrição, como sempre sonhou.
Chamou seu pai à presença dos seus patrões para acertar o preço do seu trabalho. E o pai disse aos novos tutores:
- Vistam o rapaz e deem-lhe de comer e não precisam de pagar mais nada.
Nunca mais teve privações na alimentação mas agravara-se a exploração do trabalho infantil.
Na sua aldeia trabalhava para o seu sustento. Na grande cidade começava a verdadeira exploração.
Na sua aldeia ajudava nas tarefas do campo, na alimentação da bicharada doméstica, no contacto direto com a natureza. Ali, na cidade grande, não há natureza nem naturalidade. Tal como dizia a D. Idalina, quando não arranjava outra explicação, “Isto é um mistério!”
Que força tem uma criança para desvendar o mistério da sua pobreza?!

 

Fim

 

  

 

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