Sebo - Benedita Azevedo -2-Crônicas

SEBO LITERÁRIO
Benedita Azevedo
 
CRÔNICAS
página 4




16. SOL DO AMANHECER


Caminhando pela encosta da Serra do Mar, ao lado do Christian, o sol das sete horas, ilumina o topo dos pontos mais elevados, acima da nossa trilha, emoldurados pelas árvores no sopé da serra.
Paramos extasiados pela beleza da manhã, respiramos o ar da montanha misturado ao aroma das folhagens e flores beirando o caminho. Uma gota de suor rola em minha face deixando-nos perceber que o dia seria de calor intenso, mas, ideal para cuidar do jardim e lavar o quintal.
Na volta encontramos pessoas no percurso ao contrário, com o mesmo objetivo, caminhar para manter a forma ou combater as altas taxas reveladas nos exames de rotina. Mas, com este visual, a tarefa nos parece prazerosa e deixa-nos de espírito leve para enfrentar a rotina.
Assim, após a caminhada de uma hora, procurando andar sempre na trilha plana, evitando as opções que tenham subidas, voltamos para casa e o alongamento se faz tirando os matinhos dos canteiros e tomando banho no chuveirão, antes de tomar o café às oito horas, antes de começarmos as tarefas diárias.

Benedita Silva de Azevedo




17. QUE FRAQUEZA?


Ciro e Rose são frutos de uma bela paixão entre o comerciante português, Nunes, e sua funcionária, a moça do interior, Marta, filha de um pequeno empresário, dono de engenho, onde eram fabricados a famosa cachaça “A vencedora”, açúcar mascavo, rapadura, melado de cana e o famoso tijolo de casca de laranja, que, na verdade, era a rapadura acrescida da entrecasca da laranja da terra, muito apreciado na região.
Muito dedicada e competente, Marta galgou em pouco mais de um ano os postos que quase sempre se levam anos para conquistar. Da experiência de três meses como balconista, passou direto para o caixa. O jeito como organizava os mapas para registrar a venda de cada balconista, chamou a atenção do Sr. Nunes, que lhe perguntou onde aprendera aquela maneira prática de fechar a folha? Ela disse que nunca fizera aquilo, mas, concluíra sozinha, que, daquela maneira seu trabalho seria mais rápido ao final do dia, para fechar o caixa.
Para surpresa de todos, passados três meses no caixa, o patrão levou-a para o escritório, lhe ensinou a preencher os livros de entrada e saída de mercadoria, a folha de pagamento e conferir os talões de nota fiscal usados no balcão. Ao final do mês, o contador passava e assinava tudo. Era muito trabalho, mesmo assim, Marta dava conta de tudo. Ela sempre fora muito elétrica, desde pequena, e gastava suas energias nadando no rio de sua cidade natal.
Marta começou a trabalhar em março de 1961, em agosto de 1962, casava-se com o apaixonado patrão. Ela com dezoito anos e ele com trinta e cinco. O sonho de Nunes de ser pai, logo se concretizou, era apaixonado por crianças e vivia lembrando os sobrinhos que ficaram em Portugal. Falava com frequência da Çãozinha, que o chamava de tio Bita. Quase sempre se emocionava ao falar, lembrava ter saído às escondidas, pois se visse a mãe chorando não teria coragem de vir para o Brasil.
O nascimento de Ciro foi um grande presente que receberam, uma festa na vida do casal. Nunes presenteou a esposa com uma pulseira escrava de vinte e duas gramas e meia de ouro dezoito, e, escreveu um cartão como se fora o filho. Um ano e quinze dias depois, receberam o segundo presente, Rose chegava para completar a alegria daquele lar.
Cinco anos depois, aos quarenta anos, as sequelas de uma meningite sofrida aos dezoito, começaram a se manifestar. Primeiro o rim direito, que segundo os médicos, pode ter parado por ocasião da doença, apresentou uma infecção grave e teve de ser suprimido. Aos quarenta e três sofreu um AVC e ficou inválido em consequência do qual faleceu dez anos depois.
Na ocasião do derrame, Ciro tinha sete anos e Rose seis. A situação financeira se complicou. Quando fez nove anos, o sonho do menino era ganhar uma bicicleta caloi para o tamanho dele. Apesar do derrame, o pai estava lúcido e ainda andava; fez questão de comprar a bicicleta para o filho. Na manhã do dia 25 de dezembro, foi aquela euforia. À época moravam em um apartamento de primeiro andar. O menino desceu as escadas com a bicicleta e os pais o seguiram. Era uma rua tranquila de uma cidade pequena e ele estava acostumado a ir para escola sozinho com a irmã. Nunes e Marta subiram. Passados uns quinze minutos, ele chegou suado e subiu para beber água. A mãe perguntou pela bicicleta e ele disse que estava na porta, pois ainda queria andar mais.
Desceu a escada correndo, e pouco depois, voltou chorando, tinham roubado sua sonhada bicicleta. Os pais e os vizinhos saíram procurando nas ruas próximas, tudo em vão. Foi difícil consolá-lo. À época os pais não tinham condições de comprar outra. Ele com os trocados que ganhava, ora da mãe, ora do pai, começou a comprar peças de bicicleta. Cada vez que encontrava uma ficava todo contente. Chegou um momento em que só faltava o quadro e precisava completar o dinheiro para comprar. A situação dos pais estava difícil. Um dia, a mãe que era professora, chegou e ele estava com a bicicleta montada. Ela perguntou com que dinheiro ele comprara a peça? Ele contou que pegara o carrinho de mão, enchera de abacates do quintal e vendera para a vizinhança a cinquenta centavos cada um.
Desde os nove anos, atravessava a rua e ia ao banco pagar as contas para a mãe, que trabalhava os três turnos. Aos catorze, Marta fez uma reforma na casa e foi Ciro quem fez toda a instalação hidráulica. Os últimos dois anos de vida de Nunes, já prostrado, sem poder ficar sentado era o filho quem ajudava a mãe dar banho ao pai. Sem nunca se revoltar.
Quando a mãe comprou seu primeiro carro, depois que o marido adoeceu, Ciro com 15 anos e Rose com 14 acompanhavam a mãe nas aulas de direção e os três aprenderam a dirigir ao mesmo tempo.
Ao dezessete começou a trabalhar de carteira assinada, como assistente de sua professora de Análise Clínica, no colégio onde estudava. Aos dezoito tirou a carteira de motorista e passou a cuidar do carro, fazia a revisão e o mantinha sempre brilhando. Mesmo fazendo tudo que era necessário, tinha muitos amigos e se divertia como qualquer adolescente de sua idade.
Aos vinte e dois anos, resolveu abandonar a faculdade de administração para se casar, pois os pais da namorada iam voltar para sua terra natal; então, ela disse que se voltasse com eles, terminaria o namoro, já que não pretendia ter um namorado morando tão longe. Ele apaixonado, pediu-a em casamento e deixou a faculdade para trabalhar. Hoje, trabalha de segunda a sábado em uma grande firma e está melhor do que muitos colegas que concluíram a graduação.
Onde está a fraqueza deste homem que não tem nenhum vício? E trabalha incessantemente, aceitando todo trabalho extra que lhe é proposto, para que sua família tenha tudo do melhor, muitas vezes, olvidando palavras que o depreciam para manter a harmonia do lar? Fraqueza é roubar, se drogar, praticar todo tipo de corrupção, enganar os outros para se sentir superior, agredir a mulher e os filhos e tantas outras violências que se ver por aí.

 

Benedita Silva de Azevedo




18. A SOLIDÃO DESTRÓI O RELACIONAMENTO


Se olharmos a mesma paisagem na primavera ou no verão nem parece a mesma. Este céu cinzento e as árvores desnudas dão uma sensação de vazio, de nostalgia e abandono, até o gramado aparado no início de abril, permanece inalterado com partes ressecadas. Perdeu o viço, o colorido; as flores e folhagens caíram e foram varridas para os lados. À esquerda, os pés de pau d’água fechando toda a lateral do muro de três metros, plantados com a intenção de nos dar privacidade dos olhares dos visinhos que moram num plano mais alto, cumpriram seu papel. Mas agora, nos deixa ver a construção aqui e ali. O enorme flamboyant que fecha a frente por cima do portão é apenas uma peneira filtrando os raios solares; percebe-se completamente o portão. Até a cadela parece abandonada, perdida no gramado. Os raios mortiços do sol penetram pela alta sebe e filtram uma luminosidade opaca sob o ventinho frio de outonal.
Assim como a paisagem exuberante na primavera e no verão se transforma num deserto no inverno, assim também, o enamoramento de um casal perde seu viço se ações e atitudes não forem compartilhadas com respeito às individualidades de cada um. O afastamento do casal deixando as amizades e a família para atender às exigências de um dos cônjuges pode provocar um isolamento que impedirão a colaboração nas horas de sufoco. É desagradável você só ser procurado quando precisa de algo. O bom e gostoso é ter-se relações de amizades equilibradas para que a sua angústia seja percebida e lhe seja oferecido auxílio espontaneamente.
No isolamento o amor acaba esfriando e o relacionamento pode ser árido tal qual a árvore desnuda que não agasalha nada nem ninguém. Mesmo que se contornem os problemas deve ser necessário esperar outra estação para que a passagem volte a ser verde e aconchegante. Dando o conforto necessário aos que necessitarem de sua sombra.
Portanto, transforme o relacionamento num jardim viçoso e perfumado cheio de rosas, jasmins, antúrios, damas da noite, mas também, aproveite a beleza das marias-sem-vergonha que não exigem tantos cuidados, se adaptam em qualquer ambiente, mesmo nas frestas da calçada embelezando e dando leveza ao ambiente.

 

Benedita Silva de Azevedo




19. A TERRA CONTINUA A GIRAR...


A vida continua, ainda que tenhamos sofrido grades perdas materiais ou até um ente querido. Independente de qualquer situação tem-se de continuar vivendo e dando exemplos de superação. Precisamos pensar positivamente e aceitar as leis da natureza, pois, todos os seres vivos nascem, crescem se reproduzem ou não e morrem.
A vida nos é ofertada a partir do relacionamento de duas pessoas que se amam e resolvem formar sua família baseadas no modelo social que conhecem e herdaram de seus pais. Cada casal cria suas próprias regras, mas, é preciso cuidado para não se isolarem e se afastarem do que é normal e aceitável para seu grupo social e familiar.
Além disso, é importante manter o apoio da família, independente, da situação financeira que por ventura tenham alcançado após o casamento. Há momentos na vida, dependendo da gravidade do que nos tenha atingido, que, de bom grado reformularíamos grande parte do que fizemos e vivemos, só para termos de volta uma situação de liberdade, paz ou a família completa à nossa volta.
Embora saibamos que são premissas da natureza os ciclos da vida, nem sempre entendemos quando há inversão do que consideramos natural. Por exemplo, a partida precoce de tantas crianças e jovens. Doenças incuráveis, acidentes, violências de todas as ordens, tudo foge ao nosso controle e ficamos atordoados quando o fato acontece conosco. Aí nos indagamos, por que comigo? Onde deixei escapar o fio da meada e não percebi o que estava acontecendo com minha filha, meu filho, meu neto, meu pai, minha mãe? É doloroso e só quem passou por um problema igual será capaz de avaliar tal situação.
Entretanto, a misericórdia de Deus, a força de renovação da natureza e a nossa fé nos mostram que tudo na vida é transitório e que nós, seres humanos, acompanhamos o mesmo ritual de qualquer ser vivo. O homem, animal racional, socialmente condicionado às leis civis e religiosas, baseadas em sentimentos variados de crenças, rituais e dogmas cria para si uma proteção que às vezes o deixa inseguro e vulnerável.
Mesmo assim, a vida continua, precisamos manter o equilíbrio, o pensamento de que não poderemos parar no tempo, seja lá o que nos tenha atingido, a terra continua a girar, o sol continuará a surgir e desaparecer todos os dias, as nuvens carregadas desabarão em forma de chuva, nós teremos sono, fome, sede e demais necessidades fisiológicas e um dia também partiremos. Vamos, pois, superar momentos difíceis com o discernimento de que certas coisas não podem ser mudadas.

Benedita Silva de Azevedo
Rio de Janeiro




20. SUSTO DE CARNAVAL


Dia 26 de fevereiro, o Monobloco fecha o Carnaval carioca 2012, desfilando da Candelária à Cinelândia, sob o sol escaldante de mais de trinta e cinco graus. A Rio Branco se transformou numa grande centopéia cujas pernas eram as ruas transversais, vazadouro da multidão comprimida em todo o percurso, onde se reuniram 500 mil foliões, segundo estimativa da Polícia Militar, número recorde do bloco, em relação aos outros anos.
Ao som de sambas tais como, “Fogo e Paixão” de Wando, “Samba, Suor e cerveja” de Caetano, Sambas- enredo, xotes, funk e tantas outras. Os foliões se esbaldaram, durante três horas e meia sob o calor de quase quarenta graus, suavizados com jatos d’água, água mineral, refrigerante e cerveja bebida e despejada na cabeça. Viam-se foliões pendurados em pontos de ônibus, postes e árvores, o que fez o cantor, Pedro Luís, pedir várias vezes que descessem dali. Indiferente a esses detalhes, ao som do tamborim, da cuíca e do agogô, a multidão serpenteia, numa mistura de som e movimento bem sincronizados na despedida do carnaval de rua.
Ao meio dia, decidida a almoçar no Amarelinho, uma comida bem leve, peguei o Christian pelo braço e seguimos em sua direção. Os blocos estavam se aproximando. Eu quis chegar mais perto e andamos ao encontro dos foliões. Num determinado ponto ele queria voltar, amedrontado com a possibilidade de ser engolido pela multidão. Paramos em um ambulante, compramos duas cervejas e voltávamos para almoçar. De repente, não o vi mais a meu lado. Pensei que poderia estar brincando, um costume seu para me assustar. Andei para um lado para o outro e nada. Fui até o Verdinho, a ver se estava por lá. Depois fui até o Amarelinho, será que entendera errado o nome do restaurante? Também não estava naquele restaurante. Dei mais uma volta no meio da multidão olhando detalhadamente para todos os lados, voltei pelo outro lado da praça e nada. Comecei a ficar meio apavorada. Será que fora sequestrado com aquela cara de gringo? A preocupação tomou vulto e cresceu feito um monstro. Eu não deveria tê-lo convidado para ver o bloco. O que fazer agora? Telefonar para minha filha e os netos para pedir ajuda na procura daquele homem que para mim, naquele momento, parecia tão desprotegido!
Fui mais uma vez aos dois restaurantes e nada. A multidão crescia à medida que os blocos iam chagando ao destino. Agora já era muito difícil a locomoção, tive certeza de que não o encontraria e resolvi ir até o apartamento para telefonar e pedir ajuda. Ao me livrar da multidão andei o mais rápido que pude. A distância me parecia maior que de costume; apressei o passo, virei a esquina, cheguei em frente ao prédio, a porta estava fechada. Toquei a campainha, pereceu-me um século até o porteiro abrir. O elevador estava no último andar e não chegava. Meu coração estava aflito, imaginando aquele homem em mil situações de perigo. Desci do elevador andei até o final do corredor e ia pensando se Jane estaria em casa naquele momento... Abri a bolsa e já ia com chave à mão. Abri a porta e quase tive um desmaio ao encontrar o Christian sentado à mesa, comendo um sanduíche de queijo com presunto e suco de uva, na maior tranquilidade.
Desmoronei no sofá e agradeci a Deus por acabar com aquela angustia.

 

Benedita Silva de Azevedo



 

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