Carmo Vasconcelos

 

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Doce Repouso - Pino

 

SONETOS DECASSÍLABOS

( 6ª pág. )

 

 

Novos Rumos
Carmo Vasconcelos


Vão-se os anos correndo, oh, vida breve!
Vai-se o tempo encurtando sem surpresa,
e nos ventos de tanta ligeireza,
esvai-se o alento d’alma em passo leve.

Tantos anseios e sonhos que já teve…
Hoje, lagos de pranto, são represa;
águas aprisionadas na incerteza
do rumo que o destino lhes prescreve.

Que se abram as comportas, que de vez
haja brilhos de sol para enxugar
a dor molhada que a alegria desfez…

E que venha, a seu tempo, a luz da fresta
para a morada eterna se alcançar…
Morada onde mais nada nos molesta!


Carmo Vasconcelos

 

O Meu País
Carmo Vasconcelos


Amo estas margens onde o mar se deita
e onde espargi de mel a tenra infância,
terra cujo perfume me deleita,
e a cor aos olhos meus é cintilância.

Quero alçar-me às colinas da memória,
aos castelos de sonho que a bordejam,
ser pedra, testemunha de ida glória,
sal eterno das ondas que a cortejam.

Para ver cada flor do seu jardim
renascer num futuro promissor,
de seiva colorida ao tom do amor.

E cada coração ter do jasmim
a alva cor da igualdade fraternal,
a levantar do chão meu Portugal!


Carmo Vasconcelos

 

O Poeta, A Lua, E O Sonho
Carmo Vasconcelos


Há como estranho e mago sortilégio
nesse azulado-argênteo que nos banha;
na iridescente esfera que emaranha
em nós as tentações de um amor régio.

Tal uma inundação imensa, alquímica,
nosso convés alague até o mais íntimo,
torna ao redor de nós, tudo em pó ínfimo,
pra somente exaltar a lunar mímica!

Ela é que dissemina essa ilusão,
na sombra projectada contra o chão,
dos sonhos que em quimeras alto esvoaçam!

Mas, quando oculta a aluada feiticeira,
o poeta sonhador logo se abeira
dos raios de sol doirado que já o enlaçam!


Carmo Vasconcelos

 

O Sorriso E O Olhar
Carmo Vasconcelos


Só comparável à luz de um sorriso
é o brilho de um olhar que nos trespassa,
e que nossa alma, com fulgor, devassa
como um farol de abrigo assaz preciso.

Para que pouse em mim teu meigo olhar,
de tudo faço, até finjo a mendiga,
pra que, iludida, a sorte não desdiga
a dádiva de nele me abrigar.

E aos pés dessa pousada que idealizo,
em ternos versos, eu prostro-me e rezo
p'la esmola desse olhar cálido e aceso.

Só quando aberta a franja dos teus cílios,
olhos nos meus, se fazem os concílios,
e irrompe de meus lábios o sorriso!


Carmo Vasconcelos

 

O Verso Puro
(A Florbela Espanca)
Carmo Vasconcelos


Como arrancar do peito o sentimento,
calcá-lo aos pés, tornado pó disforme,
fazê-lo assim volátil como o vento,
como se mero grão - se explode enorme?

Como à paixão dizer que se conforme,
na pauta dar ao “Sol” um mudo alento,
roubar ao rouxinol enquanto dorme,
seu canto - se é clarim de encantamento?

Como entendo, Florbela, o teu tormento,
a mágoa que te assalta o coração,
quando à poesia te entregas com paixão…

Buscas no verso puro o lenimento…
– Quem dera eu não esbarrasse nesse muro,
E pudesse ofertar-te o verso puro!


Carmo Vasconcelos

 

Odores
Carmo Vasconcelos


Esparge o teu poema estranho odor!
Mistura de tabaco e maresia,
fragrância de alfazema e malvasia,
sutil aroma e delicada cor.

Emergem dele lágrimas de dor,
sem gritos, quais gaivotas beira-rio
cedem tréguas às penas e ao resfrio,
de alma amornada em fumos e langor.

Traz-me também veleiros, sal e mosto,
quentes areias dessa Ilha dos Amores,
já vencidos os crus Adamastores!

E há rugas escavadas no seu rosto,
que longe de espelharem o sol-posto,
luzem rubras auroras de idas dores!


Carmo Vasconcelos

 

 

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