Carmo Vasconcelos

 

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Leda e o cisne - Leonardo da Vinci - 1510

 

SONETOS ALEXANDRINOS

( 1ª pág. )

 

 

A Bailarina
Carmo Vasconcelos


Ela é do sonho a maga fada, a Melusina,
a que requebra, se contorce, a que se esgarça,
p’ra ser no palco a fulgurante serpentina
que sobe aos cumes e de arco-íris se disfarça.

Nela há silêncios, paz serena, olhar de garça,
surdos rumores de algodão e musselina,
quiçá de um vate a suavidade de uma esparsa,
ou de Pierrot segredo e beijo a Columbina.

Oculta mora em toda a diva bailarina
uma alma eleita pelos céus encomendada
de neste chão terreno alçar aura divina.

Trouxe do Além as asas de anjo e de vestal,
na fronte a luz da divindade reencarnada,
e nos alados pés, a sina de imortal!


Carmo Vasconcelos

 

Aceitação
Carmo Vasconcelos


Nova estação de perda está se aproximando,
neste caudal de dor que enfrento pela vida,
vendo, desta árvore, ramadas se finando,
e eu já sem lágrimas na fonte ressequida…

Já foram tantas estações por mim passadas,
de luto e dor, a marginar minhas areias,
que hoje navego amolecida nas levadas,
enrodilhada na algidez das duras teias.

Mas me exercito no labor do desapego,
ao receber, de mente calma, essas marés,
premonitoras do meu próximo desterro.

Que inda é difícil de aceitar a transição,
jamais o nego… Mas proclamo, pelo invés,
que o doce bálsamo provém da aceitação!


Carmo Vasconcelos

 

Beijos
Carmo Vasconcelos


Qual a mulher que negaria ser adorada
com tal fervor nos lautos beijos ofertados,
são de poeta, certamente à idolatrada
deusa que encarna os seus desejos mais ousados.

São beijos raros que explodiram transformados
de um verso amante, num soprar de musa alada,
que a pena em êxtase, nos dedos desvairados
não segurou, levando o gesto à boca augada.

E na ansiedade do poeta em seu dilema,
a inspiração transborda em forma de beijar,
pondo em seus beijos toda a força de um poema.

Vingado assim da ágil palavra fugidia,
extrai dos lábios o poeta a melhor gema,
misto de beijos de paixão com poesia!


Carmo Vasconcelos

 

Brilhos e Fetiches
Carmo Vasconcelos


Não quis tentar-te com meus trajes sedutores,
pintar a tez com a pomada dos enganos,
nem dar aos olhos coloridos turbadores,
sujar meus lábios de carmins, quiçá, profanos.

Nem do perfume preferido me espargi,
p’ra não dopar-te num aroma afrodisíaco,
símil a mim mesma, segura, me vesti,
só meu profundo amor luzia, paradisíaco.

Nua de disfarces, a minh’alma te mostrei,
para que amasses, não o frasco mas a essência,
o néctar, sem a falsidade da aparência!

Brilho e fetiches de coquete resguardei,
p’ra nossos íntimos momentos mais ousados,
que ambos queremos numa alcova de pecados!


Carmo Vasconcelos

 

Dúvida
Carmo Vasconcelos


Hoje, falido amor, fizeste-me chorar!
lágrimas quentes que sabemos não mereces,
e pra calá-las solto aos deuses minhas preces
pra que a memória se desfaça ao recordar.

São negras vagas, espumadas de ousadia,
lamas imersas, vindo ao cimo sem premissas,
jangadas velhas, invasivas, metediças,
a perturbarem o meu mar de calmaria!

E nesse pranto, amargo sal, me recrimino
pla inconcebível e incurável desrazão
deste meu doido e vulnerável coração...

E entre pesar e contrição eu congemino...
Se o que mais dói, silente, e gera mor sofrer,
é minha mágoa, ou teu remorso a te doer?...


Carmo Vasconcelos

 

Imitação do Amor
Carmo Vasconcelos

“Crescei e multiplicai-vos”
(Bíblia - Gen. 1.28)


Por que endeusar suposto amor feito inconcreto,
quando distante, sem carícia, beijo ou mão,
não satisfaz o nosso amante coração?
Se na lonjura morre o amor por incompleto?...

Manter, assim, a imitação de um vero afecto,
ausente o pele-a-pele, erótica emoção,
é demitir-se da sensual lei da atracção
que nos conduz ao verdadeiro par dilecto.

É caminhar em vão na fosca irrealidade,
que a carne não se compadece em divindade
nem santifica a condição de seus apelos...

Requer a nossa humanidade, firmar elos
gratificantes d'alma e corpo, em dualidade,
que a Lei de Deus desdiz o amor em castidade!


Carmo Vasconcelos

 

 

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