Carmo Vasconcelos

Pág. 16

 

Carle van Loo - Baco e Ariadne

 

SONETOS INGLESES

(2ª pág)

 

Dominação
Carmo Vasconcelos


Não sei de nós dois qual o dominado
quando na mesma cama só um somos
ao se evolar o quente mel dourado
de nossa polpa em já sorvidos gomos.

Tal como o sol atiça a flor no prado,
a força erótica que acesa pomos
no partilhar do amor apaixonado,
vive a atiçar-nos em sensuais assomos.

E ardemos nesse fogo alucinado,
até esquecermos tudo que já fomos,
quando, sedento, teu bico endiabrado
desfolha a rosa e bebe de seus pomos.

Porque se eu tenho a rosa inesgotável,
tu tens o bico ardente de insaciável!

 

Carmo Vasconcelos

 

Happy - End
Carmo Vasconcelos


Deixa-me partilhar do teu Universo,
inda que chão de cardos, incolor,
onde, por seca, a gleba enjeita o verso,
que aborta mudo, à míngua de frescor!

Deixa-me ser gaivota que a esvoaçar
sobre as marés de mágoas que te enfezam,
suportará nas asas teu penar,
que sendo penas tuas, nas suas não pesam!

Deixa-me ir na peugada dos teus passos,
No rasto dessa luz que se fez sombra;
Ser a luz que teus olhos, ora baços,
Ilumina e teus medos desassombra!

Deixa-me ser o epílogo da história!
Da dura luta, o “happy-end” da glória!

 

Carmo Vasconcelos

 

Metade De Mim
Carmo Vasconcelos


A metade de mim é o que hoje vivo:
a pálida laranja, suco gasto,
não mais a sobremesa do repasto,
nem o prévio e gostoso aperitivo.

A minha outra metade é o que inda espero:
o convexo perfeito e sem desnível
no côncavo que sou, apetecível;
o Yang no meu Yin, com mútuo esmero.

Sob a casca que enruga ao tempo austero,
sou polpa que arrefece ao estio que escapa,
e só minha esperança, não farrapa,
aquece os gomos secos que lidero.

A metade de mim é o que hoje vivo,
e minha outra metade é o que inda espero!

 

Carmo Vasconcelos

 

O Segredo
Carmo Vasconcelos


Ancorada na fé guardo um segredo
que jamais ias poder adivinhar...
Tramas desta minh’alma a não cansar
de oculto preservar o hábil enredo!

Só o conhecem os Mestres do meu credo
que, piedosos, escutam minhas preces
a orar-lhes pla ventura que careces,
num milagre dos céus a baixar cedo!

Ora to conto, amor! E to revelo,
para que intuas, como halo transcendente,
esta intenção secreta e penitente
a tirar-te da angústia e pesadelo!

– Aos pés dos Mestres, pus tua amada imagem!
Pra que, na infausta mágoa, te encorajem!

 

Carmo Vasconcelos

 

Reconstruindo Pontes
Carmo Vasconcelos


Derrubem-se as paredes orgulhosas,
erigidas na raiva dos repentes,
triturem-se os tijolos insolentes
e as pedras de arremesso, belicosas!

E desfeitos os muros corrompidos,
reconstruam-se pontes migratórias
que resgatem afectos e memórias,
em águas rancorosas imergidos!

Retome-se a palavra naufragada,
recolham-se os abraços afundados,
desafoguem-se os réus por nós julgados,
e a travessia da paz faz-se alcançada!

Que a morte espreita e surge inesperada,
e o que sabemos dela é quase nada!

 

Carmo Vasconcelos

 

Súplica
Carmo Vasconcelos


Dizei-me, Deus, que vil pecado fiz outrora,
ou concedei-me o raro dom da omnisciência,
para que o saiba e me redima em penitência,
e este sofrer em desamor vá logo embora!

Já fui, me lembro, irreverente e desdenhosa,
e alguns deixei em dor d’amor, por inocência…
Se então soubera o peso ingrato da carência,
eu não estaria hoje, de ofensas pesarosa!

Sei que, ambiciosa, no delírio me afundei...
Eu desejava o ideal! O amor maior do mundo!
E o vi nascer ... mas do meu colo, moribundo,
partiu... E dele escassos beijos desfrutei!

Hoje, suplico-vos, Senhor, vosso perdão!
Não me deixeis neste vazio de coração!

 

Carmo Vasconcelos

 

 

 Para Sebos