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ROMPENDO AMARRAS
POESIA LIVRE
por
Carmo
Vasconcelos
PÁG. 8 DE 9 PÁG.

Reggianini Vittorio
A Interrupção

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PROJECÇÃO
Carmo
Vasconcelos
Meu
amor!
Projecto-me
para ti,
nas
legendas
que
aventuro
em
labaredas
insensatas
de
incontida
excitação,
fogo que
devora
as
sombras
do
bosque
secreto
do meus
medos...
Embriagada
pelos
verdes
cintilantes,
afasto
gnomos e
duendes,
arautos
em
trombetas
de
perigos
iminentes.
Cúmplices,
os
rumores
da noite
segredam-me
o teu
nome,
incitam-me
a
explorar
os
labirínticos
meandros
que
levam à
clareira
onde te
abrigas,
para,
extenuada,
ir
acolher-me
no teu
peito,
contar-te
o meu
sonho
imaginado...
Meu
amor!
Tentas-me
qual
estrela
com o
seu
brilho
inatingível,
como um
desafio
insano à
ordem
instalada...
Sigo o
piar do
mocho
nos seus
aliciantes
recados
que
ousam
falar-me
do teu
amor
oculto
em
brumas...
Busco-te
nas
trilhas
enviesadas
e
perigosas,
mas são
trôpegos
os
passos
na
escuridão
do
caminho,
emaranhadas
as
veredas,
ocultas
as
saídas...
Para
abraçar-te,
meu
amor,
restam-me
apenas
as asas,
rumo à
quimera.
Meu
amor!
Só
voando
posso
alcançar
agora a
magia
desse
encontro,
tomar-te
as mãos,
deslizar
no
mistério
dos teus
olhos,
sorver-te
os
lábios,
pecaminosa
como a
maçã do
paraíso.
Mas é
tudo
sonho,
ilusão e
devaneio!...
Rasgue-se
nos céus
uma
aurora
luminosa
que
cesse o
voo
e traga
ao chão
o êxtase
etéreo
feito
grito
terreno,
a clamar
espírito
e carne,
gesto e
espanto,
na
consumação
do
enlevo
adiado;
corpos e
almas
enlaçados,
gozando
o avesso
do
impossível!
Nesse
instante,
meu
amor,
caberá a
eternidade!
Carmo
Vasconcelos |
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PUDESSE
EU SER …
Carmo
Vasconcelos
Pudesse
eu ser…
A concha
onde
abrigas
pérolas
de
palavras
inúteis...
O cofre
onde
ocultas
jóias de
pensamentos
calados...
A ânfora
onde
derramas
cristais
de
lágrimas
antigas.
Pudesse
eu ser…
Faísca e
fogo
na lenha
húmida
dos teus
olhos...
Sol e
Lua
na
sombra
difusa
do teu
corpo...
Verde e
água
na
aridez
do teu
deserto.
Pudesse
eu
dizer…
Pertenço-te!
Carmo
Vasconcelos |
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QUANDO
TUDO
DORME
Carmo
Vasconcelos
Oh!
Que
noite
enorme
quando
tudo
dorme!
Sento-me
no fundo
de mim…
e o que
ouço?
Que é
mágico o
mundo!
O fel e
o
desgosto
risco do
papel,
afogo
num
poço…
No amor
e no mel
mergulho
o meu
rosto!
Bebo na
raiz
da
árvore
frondosa,
vida e
temperança.
E como
um petiz
furtando
uma
rosa,
aspiro a
inocência,
toco a
adolescência,
verde e
descuidosa…
Retorno
à
criança
que fui…
tão
feliz!
Oh! Que
noite
linda,
que
doçura
infinda,
que
ternos
seus
beijos!
Dos
tempos
da
infância
afago os
desejos,
sorvo-lhe
a
fragrância…
Na noite
sem
escolhos
sou meu
imo
aceite,
e em
terno
deleite
fecham-se-me
os
olhos!
Carmo
Vasconcelos |
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RASGUEI…
Carmo
Vasconcelos
Rasguei
de mim
todas as
névoas…
Nas
vidraças
dos meus
olhos
chove o
néctar
da paz!
E em
madrugadas
de
deleite,
palavras
brancas
como
leite,
molham-me
os
lábios
secos de
degredos!
E em
beijos
sábios,
sugam-me
da boca
volúpias
e
segredos!
E a
língua
alfazema
na noite
lilás,
lambe-me
o poema!
Carmo
Vasconcelos |
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REBELDIA
Carmo
Vasconcelos
Cavaleiro,
toma
tento,
que este
cavalo
tem
vento
pelas
narinas
a
soprar...
Não o
queiras
sufocar!
De seda
são suas
crinas,
não as
prendas
a
esquinas...
Não o
queiras
amarrar!
Que ele
dos
cascos
faz
garras
com que
rebenta
as
amarras...
Não o
queiras
dominar!
Não lhe
ponhas
rédea
curta,
que ele
ao teu
corpo se
furta...
Não o
queiras
segurar!
Nem lhe
coloques
viseiras,
que ele
foge
pelas
ladeiras
não
querendo
saber de
nada…
E veloz,
à
desfilada,
tomado o
freio
nos
dentes,
os seus
quadris
não mais
sentes,
jamais o
podes
montar!
Carmo
Vasconcelos |
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RENÚNCIA
Carmo
Vasconcelos
Já
não te
quero!
Esgotei
meu
tempo
de
borboleta
ébria e
utopista,
obreira
de
pirâmides
de
areia…
Num
holocausto
expiatório,
queimo
as
minhas
asas,
destruo
meu
radar,
e
renuncio
às
alturas
das
pirâmides
da minha
imaginação!
Carmo
Vasconcelos |
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RIO OU
MAR?
Carmo
Vasconcelos
Leito,
grande
leito…
Será de
rio?
Ou de
mar?...
Sem
murmúrios,
sem
sussurros,
onde
repousam
lençóis
mudos,
brancos
de
espuma
de
raivas
quietas…
Lisos,
sem
manchas,
sem
sorrisos...
Mar
Morto!
Leito de
ondas
geladas,
salgadas,
petrificadas...
Mar
Antárctico!
Leito
onde
morrem
noites,
desmaiam
luas e
cios,
para
despertarem
em
bocejos,
gestos
nulos,
desmanchados...
Rio de
Angústias!
Leito de
desespero,
onde
submergem
remos
que
esbracejam,
mordendo
as
rendas
do
desejo...
Rio de
Insónias!
Leito,
grande
leito…
Rio sem
margens!
Alto
mar!
Carmo
Vasconcelos |
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Livro de Visitas
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