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SEBO LITERÁRIO
VERSO E PROSA
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Um pouco de cor
J.R.Cônsoli
Eu quero pra mim a irresponsabilidade das crianças, a liberdade dos pássaros que voam e cantam, mesmo sabendo do risco que correm frente aos caçadores.
Quero o mundo pintado com nuanças coloridas, quero sons de insetos e gorjear de passarinhos, silêncio de florestas e madrugadas, paisagens de horizontes rubros e cordilheiras altas.
Quero a vida leve, macia, acolchoada de ternuras, atapetada de contentamentos.
Quero acariciar as flores com mãos de fadas, tocar de mansinho a relva que cresce nos prados, admirar a passagem efêmera das borboletas e o ágil esvoaçar dos colibris.
Não quero a sisuda sensatez dos adultos, quero a irreverente imprudência dos jovens.
Quero a vida tecida com finos fios, com suavidade de afetos, com cores vivas de entusiasmo e alegria.
Quero romper meus limites... Cantar, dançar, sorrir, e se for preciso chorar, nessa intensa busca de sabores.
Vou enfrentar todos os desafios, experimentar todas as alegrias e tristezas, encontros, separações, sucessos e fracassos, pois disso é feita a existência.
Vou pintar minha casa de azul para confundir-se com o céu, vestir-me de branco como as nuvens, pois também sou passageiro do tempo.
Vou imitar as flores... Enfeitar-me com gotas de orvalho e receber o sol do amanhecer sorrindo e de braços abertos.
À noite, quando a lua estiver cheia e brilhante, refletindo numa poça d´água, vou mergulhar para encontrá-la e contar-lhe todos os meus segredos.
Das estrelas quero poeira luminescente para enfeitar-me, do sol quero luz forte para iluminar meus erros e fragilidades.
Vou brincar de esconde-esconde com o cachorro, mesmo sabendo que ele me encontrará facilmente, aprender com ele o muito que tem para ensinar-me e que me foi negado pelas escolas dos homens. E, quando não mais existirem desafios, mergulharei no oceano de onde vim para atender a novos chamados.
J.R.Cônsoli
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Nossas Cortinas
J.R.Cônsoli
No nosso quarto as cortinas soltas,
Pelo sopro do vento acometidas...
São alvas, claras, brumas esmaecidas,
Ondas marinhas quando estão revoltas.
São brancas nuvens de vapor tecidas,
Que livres vagam pelo espaço... Envoltas
Por ternos raios de luar contidas,
Frente à janela de tramelas soltas.
Numa visão além da transparência,
No fundo escuro de uma noite densa,
Estrelas brilham na paisagem extensa!
E desce dos umbrais dessa janela,
Como se véus de luz na aparência,
Uma cascata iluminada e bela.
J.R.Cônsoli
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Soneto da Casualidade
J.R.Cônsoli
Quem eu seria, caso eu não fosse?
Talvez a sombra do que eu nada fora,
Quem sabe o alento que não tomou posse,
Por ser a posse pouco duradoura.
Seria o nada, a rejeição do tudo?
Acaso o tudo com o vazio do nada?
Seria a fala na boca do mudo?
Quiçá a curva da encruzilhada!
Nessa dúvida atroz que virou norma,
Eu Não sou treva nem tampouco luz,
Talvez a sombra COM UMA OUTRA FORMA!
Sou do universo a experiência vã...
onde um iLUSÓRIO pixel me conduz,
Em busca dos fantasmas do amanhã.
J.R.Cônsoli
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Ternuras
J.R.Cônsoli
Que belos tempos os da adolescência,
Que aparecem nas telas do passado,
Teu vulto vem e foge com freqüência,
Deixa o sorriso solto, imaculado.
Foram anos de luz, de sóis incríveis!
Nos quais amamos com inocência pura,
Porquanto amantes ternos e sensíveis,
Sem nada pra impedir nossa loucura.
Hoje te vejo em tudo - nos lugares...
Na janela do quarto, na cortina,
No farfalhar da brisa vespertina.
A noite chega, sem pedir, me abraça,
Eu sinto tua presença nos meus ares,
Então beijo teus lábios na vidraça.
J.R.Cônsoli
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Reminiscências
J.R.Cônsoli
Ah, que duras saudades... As flores esparramadas pelo chão como tapetes multicoloridos, nesse início de primavera, refletem ternamente o meu sentir... Um vazio silencioso que me lembra o caminhar inexorável do tempo, que passa, passa, e eu somente posso vislumbrá-lo na distância. Às vezes alguns sons musicais, algumas vozes ecoam longinquas, outras vezes, latidos dos meus amigos que se foram e que marcaram minha vida. As nuvens brancas, como grandes velas enfunadas deslizam no azul do céu, modificando suas formas a cada instante, como sombras, fumaças de ilusões que os anos apagaram. As folhas das árvores, tocadas pelo vento manso, balançam levemente num movimento que lembram um constante adeus. Ah, que doce amargura esse viver contemplativo de momentos que passaram e que não voltam mais, tempos vividos, sim, mas não na sua total plenitude.
J.R.Cônsoli
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Testamento
J.R.Cônsoli
Vou fazer um testamento,
doar com desprendimento,
os bens que a vida me deu...
pode parecer loucura,
para alguns até bravura,
desfazer-me do que é meu.
O meu céu de luz e sol,
e as cores do arrebol,
vou deixar aos passarinhos...
dôo os campos e os morros,
e o meu respeito aos cachorros,
que são os meus irmãozinhos.
Com os peixes ficam as águas,
para humanidade, as mágoas,
pro céu vai a eternidade...
o vento leva-me os sonhos,
carrega os dias risonhos,
e guarda a minha verdade.
A minha saudade enfim,
que sempre zombou de mim,
vou deixá-la pras estrelas...
durante uma noite clara,
vão brilhar com uma luz rara,
então poderei revê-las.
Vou transferir a poesia
às brancas nuvens do dia,
ao límpido céu de abril...
do mar, vou doar as ondas,
também as praias redondas,
tantas e iguais, ninguém viu.
Do jardim concedo as flores,
e os pássaros cantores,
às mãos da mãe natureza...
as manhãs ensolaradas,
o entardecer, madrugadas,
não vou doar... com certeza.
Ao mundo fica minha sombra,
que o sol desenhou na alfombra,
num passo de pouca luz...
Fiz tantas coisas miúdas,
que me esqueci das graúdas,
que aos grandes feitos conduz.
Deixo o meu abacateiro,
ao sabiá seresteiro,
que me alegra o quintal...
o seu cantar mavioso,
de menestrel talentoso,
vou levar no meu bornal.
O meu canteiro de flores,
os pés de rosas, os odores,
vou deixar a céu aberto...
que fiquem ao sabor do vento,
tomando sol ao relento,
com os passarinhos por perto.
Deixarei as alegrias,
das manhãs ternas e frias,
com a luz do sol pra enfeitá-las...
as noites enluaradas,
o silêncio, as madrugadas,
oh, que vontade levá-las!
Deixo a amizade invulgar,
que é rara de se encontrar,
aos meus amigos diletos...
são tantos e tão gentis,
que vou chamar os colibris,
pra me ajudar no projeto.
A minha fase de outono,
essa vai ficar sem dono,
pra ninguém se entristecer...
são dias sós, de saudades,
contestações e verdades,
não vale a pena sofrer...
E quando chegar a hora,
vou partir levando embora,
mais coisas junto comigo:
lembranças da minha amada,
e as brincadeiras levadas,
dos meus pequenos amigos.
J.R.Cônsoli
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