Quando o Carlos e o
Sérgio se preparavam para dormir, ao abrirem as respetivas camas,
verificaram que os lençóis estavam cheios de açúcar.
- Quem foi a “simpática e querida” amiga que fez este grande
disparate? – Perguntava o Carlos incessantemente a suas colegas.
Enquanto o Sérgio, mais calmo e perdido de riso lhe ia dizendo:
- Deixa isso pra lá. Já sabes que a mulher brasileira é vingativa.
Ahahahah! Mas o Carlos não estava a achar piada nenhuma. Para mais,
a sempre gozona Sarita, para o chatear mais ia-lhe dizendo que fora
a gatita Sari quem pôs o açúcar nas camas. A Irene, também perdida
de riso interpelou a gatita:
-Sari, então é coisa que se faça aos nossos queridos amigos?
A gatita olhava como muito admirada para todos como que dizendo: -
Amigos, eu não quero confusões. Se vou dizer quem foi, ainda me
cortam os bigodes – e imaginem uma gata sem bigodes.
Só a Clara é que estava muito calada, sentada a um canto, como
comprometida.
– Foste tu, Clara! – Acusou o Carlos.
A nossa amiga toda importante e com o nariz no ar, foi-lhe dizendo:
- Tu és maluco e nem sabes que és. Está calado e cala-te! Vai dormir
ou então, mata-te e vai morrer longe!
Naquela noite, todos dormiram com mais ou menos açúcar.
Manhã cedo, a Maria Nascimento, a Arlete e Gladis começaram a
acordar (tentar) a toda a turma:
- Despachem-se, pois temos dois helicópteros à nossa espera.
Ao ouvir esta boa nova, todos se levantaram. A Clara, nessa noite
tinha dormido com a pasta dos dentes, cremes e perfume, dentro dos
cobertores o que mereceu um reparo do Sérgio:
- Olha que dormiste muito bem acompanhada!
A Clara tinha a cara toda pintada com uns riscos, do género “pintura
guerreira” – até lhe ficava até bastante bem, e todo o mundo se riu.
A Arlete perguntou-lhe se ela tinha vindo da Amazónia. A Sarita
protestou que tinham mudado seu champô com o da gata; ficou tudo
entre gata e dona, mas esta, ficou desparasitada...
Quando chegámos à praia, já os dois helicópteros nos esperavam. Como
foram conseguidos, era um enigma que quase todos não sabiam. O
Carlos tentou adivinhar:
- Meus amigos, alguém quis honrar a presença de um “ilustríssimo”
visitante do Rio de Janeiro – que sou eu! Só tenho um reparo a
fazer: Falta uma passadeira vermelha para eu passar! Mas, eu como
pessoa magnânima, perdoo este esquecimento.
A boa-disposição era total. Todos muito alegre embarcaram nos
helicópteros para destino (s) desconhecidos. Já no ar, rumámos para
a esquerda, atravessámos a Baía de Guanabara para os lados de
Niterói, depois Maricá, Saquarema, vimos à direita Arraial do Cabo e
por fim Cabo Frio. Aterrámos no heliporto oficial, na altura do
Posto 2 da Praia do Forte, no centro de um bonito complexo de
jardins com bancos, árvores, bem iluminado à noite e que tem também
uma casa onde funciona a Assistência a Turistas. Deste heliporto,
inaugurado há cerca de 4 anos, saem helicópteros para voos
panorâmicos de turismo e também para acidentados. Foi com enorme e
agradável surpresa que vimos o nosso amigo Francisco Simões e sua
simpatiquíssima esposa à nossa espera (como souberam?) junto a uma
mesa amovível com cervejas fresquinhas e água de coco (uma delícia).
Os ancestrais do Carlos e o Francisco, são da mesma terra (Salreu /
Albergaria-a-Velha / Aveiro / Portugal). Depois o Francisco convidou
o grupo a visitar o Forte de São Mateus, inaugurado em 1620 (durante
o domínio Filipino (Espanha). Situado no alto de um penedo, na
extremidade esquerda da Praia do Forte, feito de pedra e cal. Foi
construído para impedir que barcos ingleses, franceses e holandeses
viessem buscar o pau-brasil. nossa visita tinha de ser género
“relâmpago” pois tínhamos muito a visitar e era o nosso último dia.
Este nosso amigo foi de grande utilidade e um guia conhecedor:
- Meus amigos, Cabo Frio, localiza-se na baixada litorânea, a
sudeste do estado do Rio de Janeiro. Limita-se, ao norte, com
Casimiro de Abreu; ao sul Arraial do cabo; e a oeste, com Araruama e
São Pedro d’Aldeia; e a leste, com o Oceano Atlântico e Búzios. Tem
imensas belezas naturais como: enseadas, ilhas e dunas. Possui um
patrimônio histórico que inclui forte, conventos, sambaquis, ruínas
de antigas fortificações; vestígios de lutas e disputas pelo domínio
da terra, que remontam ao tempo em que aqui viviam os índios
tupinambás. Consta dos livros e assentamos de História que o
navegador Américo Vespúcio, no ano de 1504, ao passar cá ao largo
pelo mar, teria feito esta declaração a um dos seus subordinados
imediatos: “Se existe o Paraíso na Terra, ele certamente não está
muito longe desta região”. É uma verdade histórica e uma verdade
real.
É em Cabo Frio que a Lagoa de Araruama (que banha quatro municípios)
alimenta-se e renova-se de água do mar, através do seu cordão
umbilical: o Canal do Itajuru, onde o pôr-do-sol é um espetáculo a
não perder! E visto lá do Morro da Guia é de provocar poemas dos
mais lindos. Ao longo do Canal, bem mais para dentro da cidade,
existe uma estátua encravada nas águas. O povo a chama de “Estátua
do Anjo Caído”, isto porque o referido monumento manteve-se por
muitos anos, saído das águas, meio tombado, do género da Torre de
Piza. Presentemente já está na posição correta, mas o nome não
mudou. Ao lado da estátua localiza-se um local cheio de árvores
altas, algumas com imensas raízes a sair das águas. Será como um
pântano, e é chamado o “Recanto das Garças”. Ao fim da tarde, as
aves vêm de todos os para dormir nas árvores. É um espetáculo
magnífico, quase indiscritível que já tive oportunidade de o filmar
para um dos meus vídeos. Pela manhã, bem cedinho, lá retornam as
garças ao trabalho, sumindo-se no horizonte. A parte do Canal de
Itajuru onde se vê bonitas mansões, chama-se bairro da Ogiva. Do
outro lado do Canal, há o Morro do Telégrafo, e o acesso ao topo é
feito por estrada. É mais alto que o da Guia, avista-se uma linda
panorâmica, mas não tem infraestruturas. Desde do ano passado,
existe à entrada da Cidade, uma grade placa que é parte de uma das
mais lindas letras de música de Vinicius e Jobim :”Para você eu
guardei o lugar mais bonito”.
Não posso deixar de falar na Biblioteca Pública Municipal Walter
Nogueira, que foi o seu idealizador e cuja inauguração foi em 1964.
Há quatro anos está instalada numa linda casa, perto do Canal, que é
uma verdadeira obra de arte da arquitetura da época. A Prefeitura
comprou a casa mantendo as linhas de estilo, e colocou lá um recanto
de Cultura – que é magnífico! Em Setembro / Outubro do ano transato
fiz lá uma exposição pioneira: 20 “fotos artesanais” (estilo por mim
criado há mais de vinte cinco ano) e 20 poesias. A diretora atual é
a D. Norma Regina da Silva Santos, muito boa pessoa e muito
competente. Mas mudando de assunto: A pesca e o sal foram e são
ainda importantes fontes econômicas, imprimindo sua marca na cultura
local, através do artesanato de expressões idiomáticas peculiares,
músicas e danças. A pesca, na orla da lagoa e do canal, foi o
principal motivo de formação de núcleos populacionais, como os
bairros da passagem, São Bento, gamboa e praia do Siqueira. O sal,
inicialmente coletado nos depósitos naturais na orla da lagoa, teve
sua extração aperfeiçoada por técnicas portuguesas, que deram origem
às atuais salinas. O nosso competente guia foi nos mostrar de
seguida as dunas: - “Dois conjuntos distintos, que estão
localizados, um na Praia do Peró e o outro na estrada que liga cabo
frio à Arraial do Cabo. São verdadeiras montanhas e vales, mutáveis,
formadas pelas areias da região, ocupando grandes áreas. A mais
famosa destas dunas é a Dama Branca, a mais extensa e elevada do
conjunto e, de seu topo, avista-se o Oceano Atlântico, as cidades de
Cabo frio, Arraial do Cabo e a Lagoa de Araruama, com seus típicos
cataventos. Estas famosas dunas trazem muitos turistas que preferem
visitá-las ao pôr-do-sol. As dunas de Cabo Frio são muito procuradas
por cineastas para filmagens de comerciais, filmes e mini – séries
da tv. Mas meus amigos – continuou o Francisco Simões – Para quem
está curtindo o sol de Cabo Frio, fazer um passeio de barco pelas
Ilhas do Breu e do Japonês, na Lagoa de Araruama, e as oceânicas:
Pargos, dos Capões, Comprida, Redonda, Dois Irmãos e do Papagaio – é
um verdadeiro sonho para pessoas bem acordadas! Já falámos do Canal
do Itajuru, que fica situado no centro da cidade e que liga a Lagoa
de Araruama ao Atlântico. Tem 6 Km navegáveis, o canal possui em
suas margens, belas residências, ancoradouro público, o mercado de
peixe, clubes de iatismo e lazer e o cais das traineiras. Em seu
interior fica a Ilha do japonês. Já a caminho do heliporto, o
Francisco Simões foi-nos dizendo que no Inverno passado fez uma
poesia, inspirada de ter visto na praia uma cadela a perseguir um
cão que ... não estava afim. Ela insistiu até que conseguiu o que
queria: “A Natureza no cio / perpetua a essência, o amor”:
“PRIMAVERANDO:
“O sol inaugura mais um dia. / Colheita da manhã não vivida, /
Põe-se tudo onde adejava o nada, Do eclipse dos sonhos emerge a
vida.
O azul se deita no mar, / A paz voejando com a brisa, / Uma vela
balisa o horizonte / Berço do infinito, limiar.
A magia floresce e se ateia, / Ocultos desejos se entreolham, / O
branco sonha moreno, se bronzeia, / Corpos se secam, sombras se
molham.
Encontros e desencontros / Contam-se na areia molhada, / Lento o mar
se aproxima, lê / E apaga as páginas viradas.
O Forte vigia a história, / Sentinela posta do passado / Guardando
p’ro futuro a memória / E p´ro tempo o aprendizado.
Sol, praia, mar, o evolar das gaivotas, / As lorotas dos pescadores
/ Suas façanhas, seus amores, / A rede, a escuna, alguém de pileque,
/ A vida na tuna, o vento moleque / Sempre a brincar com as dunas.
Primavera em Cabo Frio / Celebração de luz e de cor / Enquanto a
natureza no cio / Perpétua a essência, o amor”.
No final, o Carlos, por graça, nos disse:
-Só eu, é que nunca tive uma cadelinha a perseguir-me e a fazer
propostas pouco honestas. Que infelicidade. Todos se riram e a
Sarita não resistiu e perguntou-lhe:
- Mas, finalmente, tu és cão ou gato? Olha que a Sari não gosta nada
que digas isso!
A nossa visita relâmpago a Cabo Frio tinha terminado. Ainda a
caminho do transporte, o Sérgio perguntou ao Carlos:
- Carlos, diz cá pra gente: por acaso sabias o que era um
helicóptero?
Este, fazendo um ar muito inocente, retorquiu-lhe:
- Cá o rapaz nã shabia nã o qui era um “halicóptro”. Shó shavia que
era achim um coisa que tinha uma “abentoínha” pro chima e na
tracheira…
A gargalhada foi geral. Despedimo-nos do Francisco e da Zezé com a
promessa de um dia voltar-mos, nem que seja em sonho.
Já a bordo, a “chefa” Irene mandou o comandante rumar até ANGRA
DOS REIS. Fizemos a viagem em sentido inverso, direitos a Niterói,
Rio de Janeiro, Itacuruçá, Mangaratiba e Angra dos Reis. Muito
elegante com o seu fato cor de mel e camisa de tom esverdeado, para
adiantar tempo, começou a falar-nos de Angra dos Reis, que teria
sido descoberta em 6 de Janeiro de 1502, pelo navegador português
André Gonçalves.
– Galera, antes, Angra dos Reis era habitada pelos índios da tribo
dos Guianás. Os colonizadores, filhos do Capitão-Mor da Capitania de
São Vicente, chegaram em 1556 e se fixaram no local hoje conhecido
por Vila Velha. Embora tenha havido vários conflitos com os índios
Guianás, Vila Velha prosperou e em 1593, foi elevada à categoria de
Paróquia, sob a invocação dos Santos Reis Magos. Tornou-se Vila em
1608, quando recebeu o nome de Vila dos Reis Magos da Ilha Grande.
Em 1617, o assassinato do pároco (padre) determinou a mudança do
núcleo para onde atualmente se encontra a cidade, a fim de que fosse
designado outro pároco para atender a população. No dia 16 de
Fevereiro de 1626, foi iniciada a construção da nova Igreja Matriz,
cuja realização se verificou em 1750, ou seja, cento e vinte e
quatro anos depois. Com a Proclamação da Independência do Brasil, a
região assumiu lugar de destaque na então Província do Rio de
Janeiro, e, em 28 de Março de 1835, a Vila de Nossa Senhora da
Conceição da Ilha Grande foi elevada à categoria de Cidade, com o
nome de Angra dos Reis.
Todo o mundo estava preso nas sábias palavras da Irene Serra, que
continuou:
- Neste Município, destacam-se igrejas, conventos, antigos prédios
de arquitetura do século XlX. São dignas de serem vistas as Ruínas
do Engenho Central do Bracuhy, e, também o Núcleo Histórico da Vila
Mambucaba. A reserva indígena está localizada no meio da Mata
Atlântica, em Bracuhy e tem apenas uma população de aproximadamente
300 habitantes, localizada numa área de 2.500 há, localizada perto
do Pico do Frade, a 600 metros de altitude, onde se encontra a
Cachoeira do Bracuhy, que é o limite do Parque Nacional da Bocaina.
Em Angra dos Reis existe uma infinidade de ilhas, ilhotas, baías e
enseadas.
O Carlos, sem perder pitada do que a Irene nos foi explicando, e
para não ficar caladinho, tentou “meter ferrinhos”:
- Quem havia de dizer que uma médica, psicóloga e coordenadora do
site Rio Total, sabia tanto de História!.
A Irene, sem perder a sua fina postura, e nem se dignando olhar para
este nosso amigo, foi-lhe dizendo:
- Talvez este meu “apetite” para a História, seja contágio de um
português amigo…
Toda a gente compreendeu o remoque – só o Carlos é que parece não
ter compreendido.
Entretanto chegámos. Já com os pés em terra, e nesta visita
relâmpago, a nossa simpática guia foi-nos dizendo:
-Como estão vendo, a Serra do Mar fica muito perto do litoral.
Podemos observar o seu relevo bastante recortado, com grande
incidência de enseadas, pontões e manguezais, surgindo, por isso
mesmo, grande número de paradisíacas ilhas, ilhotas e lages
espalhadas pela Baía da Ilha Grande.
Como sempre, para não ficar calado, o Carlos colocou à Irene a
seguinte questão:
- Querida amiga Irene (nome de minha santa mãe), nós viemos de
helicóptero, mas quem quiser vir de carro, que alternativas tem?.
A Irene sorriu, pensou um pouco antes de responder:
- Olha Carlos, partindo de São Paulo, temos várias alternativas:
Pela Via Dutra (BR 116), na altura da cidade de Barra Mansa toma-se
a estrada RJ – 155, que passa por Rio Claro e Lídice. De Barra Mansa
a Rio – Santos (BR –101) são 80 Km e daí até Angra dos Reis são mais
15 Km. Pode-se também seguir pela Via Dutra até São José dos Campos
e descer pela Rodovia dos Tamoios até Caraguatabuba e daí tomar a
Rio – Santos, sentido norte, passando por Ubatuba e Parati (que
vamos visitar de seguida). Se a viagem for feita através de ônibus
normal de corrida, há dois ônibus diários que saem da Rodovia Tiête,
com cerca de 6 horas e 30 minutos de duração.
Todos concordaram que a Irene é uma mulher surpreendente.
Mas a viagem tinha de continuar e a próxima paragem seria Parati ...
Antes de entrarmos para a aeronave, a Maria Nascimento e a Clara
Rio, ambas também maravilhosamente vestidas, avisaram a turma que
neste percurso eram as guias “oficiais”. O Sérgio sorriu com o seu
ar de gozão, aproximou-se do Carlos e segredou-lhe alto:
- Amigo Carlos o que será a associação advogada / arquiteta?
Este nosso amigo pensou um pouco e logo disparou:
- Sérgio, será como uma associação jurídica bem arquitetada! Pobre
dos arguidos, que somos nós.
Coincidência, ou talvez não, estas amigas ao sentarem-se na cadeira,
notaram (e que de maneira) que tinham pisado com o traseiro, cada
uma delas, um pionés! Aaiiiiiiiii!. Logo o escorpião da Clara se
revoltou:
- Vou vingar-meeeee, dos “engraçadinhos.
Mais calma, a Maria Nascimento só avisou que ia organizar um
processo – crime. O Carlos, dissimuladamente olhou para o Sérgio,
perguntando-lhe:
- Amigo, são estas “amigas” que vão pilotar?
O Sérgio compreendeu e, sorrindo respondeu-lhe.
– Não!
O Carlos, voltando-se “inocentemente” para o outro lado, murmurou:
- Graças a Deus!
Já no ar, A Maria Nascimento levantou-se e, com ar de uma advogada
que vai interrogar o réu, começou a sua preleção:
- Parati, antigamente, escrevia-se com “y”. Fica situada no Estado
do Rio de Janeiro, a 226 Km da Capital. A melhor opção (bem, a
melhor opção seria vocês tomarem atenção). Como ia a dizer, a melhor
opção para lá chegar e a BR-101, que é a via Rio – Santos, de onde
se tem uma visão simplesmente fantástica do seu litoral. Eu disse
“visão maravilhosa” mas não me referia ao Carlos nem ao Sérgio. A
cidade, apesar de muito pequena conta com inúmeras pousadas bem
localizadas nas ruas do Centro Histórico, quase todas em imóveis
seculares que ainda guardam as características do Brasil Colónia. E,
por isso mesmo, o Centro Histórico conserva até hoje as marcas do
período colonial quando a cidade era um importante porto em que era
feita a rota do ouro extraído principalmente de Minas Gerais. Não se
esqueçam que Parati foi considerada “Patrimônio Cultural da
Humanidade” pela UNESCO. Urbanizada pelos maçons que nela se
instalaram no séc. XVlll, Parati, guarda em suas ruas e casas a
simbologia maçónica, cujo encarregado de organizar a construção das
casas, bem como o traçado das ruas e praças era denominado de “O
Arruador”. Mantendo-se a tradição, em quase todas as esquinas das
ruas da cidade, é encontrado o símbolo Maçónico que já referimos, em
homenagem aos seus urbanizadores, dando à cidade uma fisionomia
diferente de todas as demais cidades brasileiras. O triângulo
formado pelas “ruas tortas” (o Carlos está ali a dizer que em
Portugal são chamadas “ruas direitas” que são muito tortas). Mas
continuando: além de caracterizar o símbolo Maçónico, foi
arquitetado de molde que pudesse ser distribuído equitativamente o
sol entre as casas ali existentes. Isto significa que nenhuma casa
ali construída poderia receber ou beneficiar de maior quantidade do
calor solar. O Triângulo Maçónico é formado por três pilares de
pedra lavrada construídos nas esquinas que compõem as chamadas “ruas
tortas”. Os quase cem anos de esquecimento e isolamento, foram
responsáveis pela conservação histórica de Parati. Os casarões do
período colonial dão beleza e charme às ruas da cidade. Cercando a
bela região de Parati, existem 30 praias, 65 ilhas e uma faixa de
Mata Atlântica com cacheiras e outras preciosidades. E como já
estamos a chegar, vou deixar a restante matéria para a nossa
queridíssima amiga Clara Rio.
Fomos logo até ao Bairro Histórico e fizemos uma pausa no Café
Parati. Excecionalmente, aquela hora estava uma orquestra a tocar
jazz. A Clara Rio, como que sonhando dentro do seu vestido branco,
foi dizendo:
- Que bom seria dormir um sono tranquilo, misturando sonhos do
presente com imagens do passado.
O Carlos acercou-se dela segredando-lhe:
- Eu cá preferia sonhar (acordado) com a realidade presente.
– Olha, Querido, bateste na porta errada. Esta noite não vais
dormir: só se for no avião que te vai devolver à tua terra!
Todos se riram, embora, já com uma certa nostalgia de o amigo que
dentro de algumas horas regressaria a Portugal. Embora chato, era
divertido e não ofendia ninguém. Mas estava na hora da Clara
dissecar a matéria que tinha preparada:
- Foi pena nós não termos vindo de carro, pois só assim podíamos
admirar a mudança de paisagem no litoral, com aquele mar azul imenso
que refresca o calor dos dias de verão, só de olhar. Vale a pena
olhar também, uns 40 minutos depois passar por Angra dos Reis, um
pouco abaixo do nível da estrada, a pequena Vila de Mambucaba.
Depois, com a alma mais leve, chegar aqui a Parati, cujo nome
encontra origem no topônimo “Paratii”, que em Tupi quer dizer algo
como “peixe da família das tainhas”, um peixe típico da região (que
o Carlos está a dizer que existe em Portugal mas quase todas a saber
a petróleo) mas também serve para sintetizar a acolhida da cidade a
quem chega a esta cidade que foi criada como vila no início do séc.
XVll e elevada a cidade na primeira metade do XlX. Chegando, é se
deixar envolver pelo ambiente, pela alvura do casario e sobrados
coloniais e pela beleza simples das igrejas Matriz de Nossa Senhora
dos Remédios (tendo sido a sua primeira construção em 1646, foi de
taipa, a segunda, em pedra, cal e óleo de baleia, terminou em 1712 e
a terceira e última terminou em 1873, em estilo neoclássico. Guarda
belas imagens e a Pinacoteca Antônio Marino Gouveia), a igreja de
Santa Rita dos Prados, que hoje funciona como Museu de Arte Sacra
(construída pela Irmandade de Santa Rita dos Pardos Libertos. Sua
arquitetura apresenta um barroco – rococó. Nela também se encontra o
cemitério da referida Irmandade), igreja Nossa Senhora do Rosário
(construída em 1725 pelos escravos. Tem três andares que são
dedicados a Nossa Senhora do Rosário, São João Batista e São
Benedito. Possui a mais importante talha das igrejas de Parati),
Forte Defensor Perpétuo (Localizado no Morro do Forte, onde nasceu o
povoado que originou a cidade em 1703. Em 1822 passou por uma
reforma e recebeu o nome em homenagem a D. Pedro l. Tombado e
restaurado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, guarda também o Museu de Artes e Tradições Populares de
Parati). Uma nota à margem: Desde 1992, Parati é Área de Proteção
Ambiental, sendo proibida a extração predatória de crustáceos,
moluscos e outras espécies marinhas. A faixa de Mata Atlântica
possui grande variedade de orquídeas, bromélias e árvores de grande
porte, como jararandá, peroba e cedro. Dentre as espécies animais,
encontramos tamanduá, raposa, veado, paca, quati e diversos
pássaros. Nesta área também existem várias cachoeiras, como Tobogã,
da Toca da Ingraça e Pedra Branca. A Área de Proteção Ambiental de
Cairuçu, às margens do Rio Mateus Nunes, se sua nascente até à foz,
oferece oportunidade de observar a pescaria artesanal, pois aí os
caiçaras têm permissão para pescar com redes à maneira dos índios
guaianases, antigos moradores da região. Quem quer conhecer Parati
tem de colocar na bagagem tênis e sapatos leves, pois o chão do
Bairro Histórico ainda remanesce o piso em pé-de-moleque de tempos
remotos. É obrigatório percorrer todo este bairro, delimitado por
grossas correntes. Entrar nas igrejas, nas pousadas, nas lojas e até
nas casas, só para conhecer tudo. O povo é hospitaleiro e pacato,
apesar da agitação turística que aumenta bastante nos meses de
férias. Cenário de filmes como “Dona Flor e seus Dois Maridos”, a
cidade recebe turistas o ano inteiro e ainda é residência permanente
de muitos pescadores, embora muitas casas pertençam hoje a moradores
do eixo Rio – São Paulo e a estrangeiros que não resistiram ao
encanto do lugar e adotaram Parati como lar. As praias da cidade são
bonitas mas muito cheias, e há praias lindas nas cercanias, como
Parati – Mirim e Trindade, com pouca gente e umas barraquinhas onde
dá para comer peixe fresquinho (que a Gladinha adora), e talvez
beber água de coco. À noite, é deslumbrante observar o casario à luz
de lampiões. Agora, meus amigos, vamos dar uma voltinha pela cidade
e depois voltar para a Cidade Maravilhosa, onde nos espera o poeta
Jorge Tannuri. O passeio foi curto mas muito elucidativo das belezas
naturais e seus monumentos de Parati. Regressámos e fomos direitos
ao Leme (geograficamente tem o exato significado do dicionário
náutico, pois é um dos extremos da Praia de Copacabana, de onde se
comandava a antiga defesa contra possíveis incursões marítimas ao
núcleo da Baía de Guanabara). O nosso poeta já nos esperava e, com
uma surpresa para o Carlos. Começou por convidar toda a turma a
sentar-se na areia em volta dele, e, solenemente (ou melhor, o mais
solenemente possível), começou:
- Amigo Carlos, tenho o prazer de o saudar neste seu último dia no
Rio. Sei que você adora esta Cidade Maravilhosa, particularmente,
Copacabana (conta a lenda que um dia um pescador trouxe uma imagem
de Nossa Senhora de Copacabana de uma antiga colónia onde se situa
hoje, a Bolívia. Este país tem uma cidade também chamada Copacabana.
Segundo consta, na época foi erguida uma ermida para a Nossa Senhora
de Copacabana, onde, por necessidade de protecão para a Cidade do
Rio de Janeiro, foi construído o Forte de Copacabana, a fim de que
fosse evitado qualquer ataque por navios estrangeiros. Anos depois
foi erguida a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, na Rua Hilário
de Gouveia, em frente à Praça Serzedo Corrêa). Tenho o prazer de lhe
dedicar este soneto que vou dizer, escrito em Setembro de 1998, e
que se refere a Copacabana:
“Copacabana, tradição, século vinte, / O seu turismo já fez fama no
planeta, / Os seus deslumbres simbolizam a ninfeta / De formas raras
e há um pintor que sempre a pinte.
A natureza deu-lhe a praia mais completa, / Nas suas areias se
celebra o ano seguinte, / Seus reveillons têm artifícios de
requinte, / A doce vida nos seus dons se locupleta”
Tantos hotéis, tantas estrelas consteladas, E o plenilúnio que
ilumina as madrugadas, / Trazem fulgor ao desvaneio mais romântico.
Numa canção já lhe chamaram “princesinha” / Mas nos meus versos tem
o porte de rainha / E imperatriz do nosso sedutor Atlântico”
A ovação foi enorme – todos gostaram do soneto do Tannuri.
Entretanto, apareceram o Luíz Carlos e o Humberto. Todos rumámos
para a Barra da Tijuca, onde num restaurante em Barra de Guaratiba,
nos foi apresentada uma deliciosa caldeirada frutos do mar,
encomendada gentilmente pela Maria Nascimento. Enquanto esperávamos
pelo jantar, o Jorge Tannuri brindou-nos com outro belo soneto,
escrito em Março de 1986: “Barra da Tijuca”:
“No fim do último túnel uma luz brilhante, / Um Sol que faz as cores
parecerem sonho, / O céu azul e branco e a serra verdejante / Não
deixam que um mortal consiga ser tristonho.
Gaivotas que voejam como um grupo errante, / Do mar para a floresta
num vai e vem risonho / Vão ver a flor silvestre e o odor
inebriante/ Que a brisa traz-me à mente em versos que componho.
Na praia areias claras a perder de vista, / Mulheres seminuas de
fundir a cuca, / Com corpos majestosos de invejar artista,
Que tornam-nos um bando de gente maluca, / E põem no pensamento a
idéia surrealista: / Viver sem se ausentar da Barra da Tijuca”
Mais uma vez foi um êxito! O jantar decorreu em ambiente de grande
alegria. Dali fomos até ao Videokê “Biruta” da Vera Loyola, onde a
voz e a simpatia da Gladis fez furar, e não só entre os grupo.
Voltámos depois a Copacabana para que o Carlos pudesse dar o “último
olhar”.
– Carlos – exclamou o Tannuri – Acompanhando teu olhar como a
despedir-se destas grandes belezas fluminenses, vou dedicar-te um
soneto que escrevi em Setembro de 1998, “Sempre Cidade Maravilhosa:
“O Corcovado é uma montanha – monumento, / O Redentor nos sinaliza a
luz divina, / A Cascatinha da Tijuca, cristalina, / A Mata
Atlântica, frescor no sentimento,
O Pão de Açúcar, outra imagem que a retina / Grava na mente, com
tenaz deslumbramento, / Lindas visões que lá de cima são o portento
/ E aqui de baixo quando as vemos nos fascina.
Este é o meu Rio de Janeiro sempre belo, / Ora imponente, ira
boêmio, ora singelo, / Sempre atração para os cariocas e turistas.
É uma cidade que rebrilha cor – de – rosa, / Que sempre foi, sempre
será maravilhosa / Nas nossas lides, nossas mentes, nossas vistas!”
O Sol já tinha nascido e a hora do embarque do Carlos aproximava-se
rapidamente (desesperadamente para o Carlos). Passámos pela casa do
simpático casal Luíz / Irene, em Ipanema (Que em Tupi – Guarani,
quer dizer “Água Ruim”, não no sentido lato, mas porque os índios
não podiam tomar banho nem pescar por causa das fortes ondas, daí a
denominação “Água Ruim”) onde nos foi oferecido um café. Vimos ao
longe Leblon (nome originado em homenagem ao francês Charles Leblon,
proprietário de uma das chácaras que existiram no hoje bairro. Uma
dessas chácaras era a dos Quilombos que, entre outras utilidades,
servia de esconderijo para os escravos. Com o desaparecimento das
chácaras e o surgimento do bairro, foi-lhe dado o nome de Leblon).
Depois voltámos ao nosso apartamento para buscar as nossas coisas. À
saída tivemos a visitar do senhorio que nos esperava, talvez com
certo receio de esquecimento da nossa parte, da renda...
A caminho do Aeroporto António Carlos Jobim todos cantaram a
conhecida de
André Filho: “Cidade Maravilhosa”
“Cidade Maravilhosa / cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa /
coração do meu Brasil (bis)
Berço do samba e das lindas canções / que vivem n´alma da gente / és
o altar dos nossos corações / que cantam alegremente !
Cidade Maravilhosa / cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa /
coração do meu Brasil (bis)
Jardim florido de amor e saudade / Terra que todos seduz ... / que
Deus te cubra de felicidade / ninho de sonho e de luz !
Cidade Maravilhosa / cheia de encantos mil / Cidade Maravilhosa /
coração do meu Brasil (bis)
Chegados à enorme gare do aeroporto, logo começaram a ouvir pelos
altifalantes:
- “Senhores passageiros do voo nº -- para Lisboa, é favor
dirigirem-se à manga de embarque pois o avião vai levantar dentro de
minutos”
Na despedida vieram as lágrimas, os abraços, os desejos de boa
viagem e de tudo do melhor. E um regresso em breve. Enquanto o
Carlos se dirigia para a manga, todos começaram a cantar:
“O Rio, tem menos encanto / Na hora, da despedida ...
O Rio, tem menos encanto / Na hora , da despedida ... (coro)
Mas eu hei-de cá voltar / Para ver a minha amada !
O Rio, tem menos encanto / Na hora, da despedida ... (coro)
Lá-rá-lá-lá-lá ... ... “
O Rio, tem menos encanto / Na hora, da despedida ... ... “ (coro)
Já perto das escadas que subiam para o avião, ouviu-se um enorme
alarido. Ao voltar-se, o Carlos viu a gatita Sari fugindo a todos
que a queriam apanhar, mas ela não se deixou apanhar. Junto ao nosso
amigo, saltou-lhe para o pescoço, abraçou-o e lambeu-lhe o rosto.
Depois saltou para o chão correndo para junto de sua dona que a
esperava na gare...
F I M
Como já tenho dito, eu não conheço o Rio de Janeiro. Este trabalho é
pura ficção, de personagens e situações aqui expressas. Foi feito
após aturadas pesquisas e 12 postais do Rio de Janeiro, alguns já
muito antigos.
Os meus cumprimentos e agradecimentos a todos os estimados Leitores
e Amigos.
(Posteriormente, tive o prazer de conhecer o Rio de Janeiro, por
gentileza de Maria Nascimento Santos Carvalho)
CARLOS LEITE RIBEIRO - Marinha Grande - PORTUGAL
leiteribeiro@mail.telepac.pt (e.mail antigo ) moderno
carlosleiteribeiro@sapo.pt
http://www.riototal.com.br/leiteribeiro/ http://www.terravista.pt/baiagatas/2172/
(há anos que já não existe)
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