|
Pequeno Preâmbulo
Introdutório
O poema ou poemas que irei
ler reportam-se à fase mística de Fernando Pessoa, mais
propriamente à fase Rosicruciana, fase em que o poeta
estudou e aprofundou toda ou quase toda a literatura que
existia acerca da história dos RosaCruzes; primeiro, um
movimento, depois, uma fraternidade, e finalmente uma Ordem,
que vieram para realizar o sopro e anseio do Universo:
“Homem, conhece-te a ti mesmo e vive em harmonia e amor.”
Bem patente desse profundo interesse de Pessoa é a
literatura encontrada na sua biblioteca e os seus escritos
sobre o assunto.
Desde muito jovem, Pessoa se
interessou pelo mistério e pela metafísica, como o
testemunham poemas intitulados “Metempsicose”, “O Círculo” e
“Nirvana”, ou fragmentos de ensaios, numa precocidade que ia
já de encontro à sua tese
“o génio é um iniciado de
nascença”, mas
contudo, será com a idade que ao receber mais conhecimentos
e ao despertar a sua consciência, conseguirá desvendar
algumas dessas interrogações misteriosas.
Já numa carta de 1915,
dirigida ao seu malogrado amigo Mário de Sá Carneiro, Pessoa
escreve a propósito dos livros teosóficos que fora convidado
a traduzir: “O carácter extraordinariamente vasto desta
religião filosofia; a noção de força de domínio, de
conhecimento superior extra-humano que ressumam as obras
teosóficas, perturbaram-me muito. Assim como a leitura de um
livro inglês sobre “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa Cruz.”
A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade
real me hante.” (sic)
|
 |
|
The
Rosicrucians
Their Rites and Mysteries
(Cambridge
Library Collection - Spiritualism and Esoteric
Knowledge)
By Hargrave Jennings
Hargrave Jennings (Author)
Para ler, clique nesta imagem:
 |
Será este primeiro livro de
Hargrave Jennings – “Os Ritos e os Mistérios dos Rosa
Cruz”, que tanto o impressionou, que fará a sua primeira
ligação com a Tradição hermética rosicruciana. A Tradição
Rosacruz, nascida no século XIV com Christian Rosenkreutz, é
um dos elos da continuidade de investigadores da natureza
material e sensível do Universo, que chegou até aos nossos
tempos e da qual Fernando Pessoa faz parte.
Como dizia Fernando Pessoa:
“Na época das novas
descobertas a fazerem-se no interior da alma,
inúmeros destes
escritos Rosicrucianos serão veros desafios à audácia e ao
ardor de conhecimento dos mais receptivos e maduros que
poderão assim aprofundar a Rosea Cruz.”
E será nos apontamentos e meditações dos símbolos da Ordem
(a Cruz, a Rosa e a Rosa Cruz) que Pessoa mostrará mais
beleza e originalidade.
|
 |
|
Símbolo
Rosacruz |
|
Vamos
ouvir:
(Poema datado de 6/2/1934)
|
|
Porque
choras de que existe
A terra e o que a terra tem?
Tudo nosso – mal ou bem –
É fictício e só persiste
Porque a alma aqui é ninguém.
Não chores! Tudo é o nada
Onde os astros luzes são.
Tudo é lei e confusão.
Toma este mundo por strada
E vai como os santos vão.
Levantado de onde lavra
O inferno em que somos réus
Sob o silêncio dos céus,
Encontrarás a Palavra,
O Nome interno de Deus.
E, além da dupla unidade
Do que em dois sexos mistura
A ventura e a desventura,
O sonho e a realidade,
Serás quem já não procura.
Porque, limpo do Universo,
Em Christo nosso Senhor,
Por sua verdade e amor,
Reunirás o disperso
E a Cruz abrirá em Flor. |

O poema seguinte, que nos
aparece dividido em três partes – como uma trilogia de
sonetos – é inspirado numa descrição do Túmulo de Christian
Rosencreutz 1) constante da “Fama Fraternitatis”, primeiro
manifesto público da ou sobre a Fraternidade Rosacruz.
1)- Vide no final,
complemento sobre CRC, acrescentado pela autora em
19/8/2012.
|
 |
|
Fama Fraternitatis
(manifesto) |
|
I
Quando,
despertos deste sono, a vida,
Soubermos o que somos, e o que foi
Essa queda até Corpo, essa descida
Até à noite que nos a Alma obstrui,
Conheceremos pois toda a escondida
Verdade do que é tudo que há ou flui?
Não: nem na Alma livre é conhecida...
Nem Deus, que nos criou, em Si a inclui.
Deus é o Homem de outro Deus maior:
Adam Supremo, também teve Queda;
Também, como foi nosso Criador,
Foi criado, e a Verdade lhe morreu...
De além o Abismo, Spirito Seu, Lha veda;
Aquém não a há no Mundo, Corpo Seu.
II
Mas antes era o Verbo, aqui perdido
Quando a Infinita Luz, já apagada,
Do Caos, chão do Ser, foi levantada
Em Sombra, e o Verbo ausente escurecido.
Mas se a Alma sente a sua forma errada,
Em si, que é Sombra, vê enfim luzido
O Verbo deste mundo, humano e ungido,
Rosa Perfeita, em Deus crucificada.
Então, senhores do limiar dos Céus,
Podemos ir buscar além de Deus
Segredo do Mestre e o Bem profundo;
Mas só de aqui, mas já de nós, despertos,
No sangue atual de Cristo enfim, libertos
Do a Deus que morre a geração do Mundo.
III
Ah, mas aqui, onde irreais erramos,
Dormimos o que somos, e a verdade,
Inda que enfim em sonhos a vejamos,
Vêmo-la, porque em sonho, em falsidade.
Sombras buscando corpos, se os achamos
Como sentir a sua realidade?
Com mãos de sombra. Sombras, que tocamos?
Nosso toque é ausência e vacuidade.
Quem desta Alma fechada nos liberta?
Sem ver, ouvimos para além da sala
De ser: mas como, aqui, a porta aberta?
Calmo na falsa morte a nós exposto,
O Livro ocluso contra o peito posto,
Nosso Pai Rosaeacruz conhece e cala. |

13/06/2000
Carmo Vasconcelos
Ensaio publicado em:
http://carmovasconcelosf.spaces.live.com
http://www.youblisher.com/p/110954-A-Fase-Mistica-de-Fernando-Pessoa/
http://circulodograal.com/site2/index.php?option=com_content&view=article&id=80&Itemid=31

Complemento a este
trabalho, elaborado pela autora
em 19 de Agosto, 2012:
A ORDEM ROSACRUZ
“A nível dos mundos
suprafísicos, existem sete Escolas de Mistérios Menores e
cinco Escolas de Mistérios Maiores, agrupadas em torno do
Libertador. Cada escola iniciática emite a sua própria
nota-chave e quando o aspirante à vida superior encontra
aquela com a qual está em uníssono, vê as suas portas
abrirem-se, quaisquer que sejam as dificuldades e obstáculos
que possam haver.
A Ordem Rosacruz é uma das
escolas de Mistérios Menores, de índole ocidentalista, e é
simbolicamente referida como sendo constituída por doze mais
um Irmãos, todos eles detentores da mais elevada Iniciação.
A sua missão é elevar espiritualmente o ser humano através
do desenvolvimento harmonioso da via ocultista e da via
mística, para o que exerce a sua acção quer nos planos
espirituais, quer no físico.
Sete Irmãos vêm ao mundo
material sempre que as circunstâncias o requeiram,
aparecendo como pessoas vulgares, exercendo profissões ou
actividades vulgares, nada havendo que os distinga dos
outros homens a não ser um comportamento exemplar e uma
inteligência e cultura acima do normal. Actuam nos seus
corpos visíveis e invisíveis, mas nunca influenciam quem
quer que seja contra a sua vontade ou os seus desejos;
limitam-se a fortalecer o Bem onde o encontram.
Cinco Irmãos nunca
abandonam o Templo da Rosa Cruz, uma construção etérica,
invisível, portanto, e que envolve uma casa física, tipo
senhorial, situada numa região da Boémia. Estes Irmãos,
embora possuam corpos físicos, executam o seu trabalho nos
mundos espirituais.
O Décimo Terceiro está
oculto do mundo externo pelos Doze Irmãos, tal como doze
esferas são as necessárias para cobrir e ocultar uma décima
terceira. É o Chefe da Ordem e adoptou o nome simbólico de
Cristão Rosacruz, ou, como é mais vulgarmente citado,
Christian Rosenkreuz. É o elo de ligação com o Conselho
Superior Central, constituído pelos Hierofantes dos
Mistérios Maiores.
Estão ligados à Ordem
Rosacruz diversos homens e mulheres que levam uma vida
normal mas que foram iniciados num grau mais ou menos
elevado por um dos Irmãos, e que continuam a ser por ele
instruídos; são os Irmãos Leigos, assim chamados para os
distinguir dos outros que, por esta razão, se denominam
Irmãos Maiores.”

Christian Rosenkreuz
Uma breve história
|
 |
|
Representação alegórica
do Pai C.R.C.
-
JAKnapp
- |
"Muitos esforços tem
sido feitos para interpretar o simbolismo da alegorica
história do Pai C.R.C. contada na segunda parte da Fama
Fraternitatis. Seu caracter insofismavelmente mítico guarda
os mais profundos mistérios dos Rosacruzes. O Pai C.R.C. não
deve ser considerado apenas como uma personalidade, mas
também como a personificação de um poder ou princípio da
natureza. Tal prática de utilização de um indivíduo para
personificar os trabalhos do poder divino era frequentemente
utilizada pelos antigos. A lenda Maçonica de Hiram Abiff, o
mito Caldaico de Ishtar, a alegoria Grega de Bacus, e a
lenda Egípcia de Osiris são todos exemplos deste tipo de
simbolismo. Todo o mistério do Rosacrucianismo pode ser
esclarecido pela alegoria do Pai C.R.C. quando propriamente
interpretado. Os Rosacruzes são uma organização de iniciados
e adeptos, cujos membros - os antigos livros declaram -
habitam os subúrbios do Céu."
(Manly P. Hall in The Secret Teachings of All Ages.)

Christian Rosenkreuz,
nome simbólico do fundador da Ordem Rosacruz, nasceu em
1378, na Turíngia, Alemanha, no seio da família aristocrata
Von Roesgen Germelshausen.
A Europa conhecia,
então, os horrores das perseguições religiosas que se
seguiram à sangrenta cruzada contra os Albigenses. Em 1382,
as tropas papais cercaram a residência senhorial dos
Germelshausen, considerados hereges por se constar terem
sido iniciados nos antigos mistérios germânicos. A
resistência oferecida não foi suficiente para deter os
sitiantes, que acabaram por conquistar o castelo, massacrar,
com requintes de crueldade, todos os seus habitantes, mesmo
os servos mais humildes, e destruir todas as construções,
não deixando pedra sobre pedra.
Porém, o jovem Christian
conseguiu escapar, graças ao seu preceptor, um monge que
pertencia a um mosteiro situado nas proximidades e onde
havia alguns religiosos que, em segredo, seguiam os ideais
cátaros; profundo conhecedor da região, o monge iludiu a
vigilância dos sitiantes e pôde levar o seu pequeno pupilo
para o mosteiro, onde ficou em segurança.
Foi, pois, num ambiente
monástico, austero e duro, que Christian foi criado e pôde
desenvolver as suas extraordinárias faculdades, alcançando
uma cultura brilhante em todos os domínios, nomeadamente no
da filosofia, religião, línguas e literatura clássicas e
ciências da natureza. À sua volta formou-se um pequeno grupo
de quatro monges, incluindo o seu mestre, que prometeram
fazer uma peregrinação ao Santo Sepulcro.
Assim, em 1393,
Christian e os seus companheiros partiram para a Terra
Santa, viajando separadamente para não despertar a
curiosidade dos atentos e desconfiados agentes da poderosa
Inquisição. Em Chipre, o companheiro de Christian faleceu e
o jovem, apesar dos seus quinze anos, prosseguiu a viagem
sozinho em direcção a Damasco, de onde tencionava partir
para Jerusalém. O cansaço, porém, obrigou-o a prolongar a
sua estadia nesta cidade, onde conquistou o favor dos turcos
com os seus conhecimentos médicos. Tendo ouvido falar dos
sábios de Damcar, optou por se dirigir a esta cidade, onde
foi acolhido, não como um estrangeiro, mas como alguém há
muito esperado e de quem se sabia o nome. Aqui, onde
permaneceu de 1394 a 1397, Christian aperfeiçoou o seu
conhecimento da língua árabe, tendo traduzido para latim o
Livro M , e estudou física e matemática.
Atravessando o golfo
Arábico, chegou ao Egipto e daqui prosseguiu para Fez, onde
contactou os elementais, ou espíritos da natureza, que lhe
confiaram muitos dos seus segredos. Dois anos depois partiu
para Espanha, onde contactou os Alumbrados, ou Iluminados,
os quais, embora perfilhassem a mesma ideologia dos
primitivos cristãos, acharam os seus pontos de vista
excessivamente avançados, pelo que se escusaram a
prestar-lhe o apoio necessário ao cumprimento da sua missão.
Christian decidiu,
então, regressar ao seu velho mosteiro da Turíngia, onde
encontrou os outros três monges que tinham iniciado a
peregrinação à Terra Santa, com os quais estabeleceu o
primeiro núcleo da futura Ordem Rosacruz. O trabalho, porém,
era excessivo, nomeadamente o da cura de doentes, pelo que
houve que escolher novos membros até serem 13, número que
jamais poderia ser ultrapassado. Entretanto, Christian e os
seus companheiros erigiram o Templo do Espírito Santo, uma
construção etérea, acessível, apenas, aos iniciados, situado
não muito longe do velho castelo onde nascera.
Em 1459 Christian
atingiu a cristificação, e em 1484 faleceu.
|
 |
|
Abrindo o Túmulo de
Christian Rosenkreutz
- J. Augustus Knapp
- |
O seu túmulo,
descoberto, apenas, em 1604, era uma estranha construção
abobadada, com sete lados, cada um com oito pés de altura e
sete de comprimento, iluminada por um sol feito segundo o
verdadeiro astro. O acesso fazia-se por uma porta secreta,
em cujo topo, curiosamente, se lia "Eu me abrirei dentro
de 120 anos". No centro erguia-se um altar cilíndrico
com um círculo a servir de bordadura.
O centro luminoso do
teto era dividido em triângulos, as paredes subdivididas em
dez campos quadrangulares e o chão subdividido em
triângulos. Cada parede ocultava uma porta que escondia um
cofre onde se encontravam diversos objectos, nomeadamente os
livros, espelhos de múltiplas propriedades, campainhas,
lâmpadas acesas, etc.
O altar escondia uma
espessa placa de cobre; ao ser levantada, revelou o corpo de
Christian Rosenkreuz perfeitamente intacto e sem o menor
vestígio de decomposição, repousando sobre um leito e
segurando na mão um pequeno livro, em pergaminho e letras de
ouro, o livro T, depois da Bíblia, o nosso tesouro mais
precioso.

As suas encarnações
|
 |
|
O Cavaleiro Polonês
- Pintura de Reembrandt, 1655
-
|
Esse é o
retrato do Grande Mestre Rosacruz, o Conde de St. German,
que segundo Max Heindel foi uma das últimas encarnações de
Christian Rosenkreutz, fundador da Escola de Mistérios do
Ocidente, A Verdadeira, Eterna e Invisível Ordem Rosacruz.
A primeira encarnação conhecida foi como Hiram Abiff, o célebre
artífice do Templo de Salomão e que a lenda maçónica
diz ter sido o seu verdadeiro construtor; a segunda
foi como Lázaro, o homem de Betânia que Cristo ressuscitou.
Tendo em vista a sua missão, esteve reencarnado no século XIII
durante um curto espaço de tempo, a fim de ser preparado
pelo Colégio dos Doze Sábios, um misterioso repositório de
toda a sabedoria do passado e de toda a ciência do seu
tempo, a que Goethe faz uma velada alusão em "Die
Geheimnisse".
Depois da criação da Ordem Rosacruz, esteve encarnado algumas
vezes, a última das quais nos meados do século XIX,
princípios do XX, como um Rákóczy, da velha família
aristocrata da Hungria.”
(Fonte: Centro
Rosacruz Max Heindel, (Minde - Portugal )
Carmo Vasconcelos
19/08/2012
 |