O
VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance)
por
Carmo
Vasconcelos
II PARTE
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“Faça-se o que se fizer,
reconstrói-se sempre o monumento à nossa maneira.
Mas já é muito empregar somente pedras autênticas.”
(Marguerite Yourcenar)

Capítulo I
“O Verão de 1962 tinha chegado ao fim, sucedendo-lhe «O Inverno do
meu descontentamento».”
Foi com esta frase que Carmen iniciou para mim o longo relato do seu
“futuro”, ao encetarmos uma nova série de encontros periódicos e
previamente agendados. A partir daqui, poupá-los-ei dos detalhes
desses encontros e até das minhas dissertações históricas,
minimizando ao máximo as minhas observações, pois não quero aliviar,
nem um pouco, o peso que pressinto ter a nova etapa da vida de
Carmen. Ouçamo-la, simplesmente:
– No princípio do ano seguinte, numa manhã de Carnaval – como se de
uma brincadeira do Rei Momo se tratasse – Edgar casou com a sua
companheira da praia. Até esse momento, a minha vaidade esperara uma
insistência de Edgar. Só perante o facto consumado, tive a visão
real do resultado da minha decisão irreflectida – do meu orgulho
desmedido! Algo dentro de mim se desmoronou. Como se por incúria
tivesse perdido uma batalha que, no meu íntimo, sempre considerara
ganha.
Então, já cansada dos jogos de Cupido, deixei rolar o meu namoro com
Jorge. Namoro que se limitava a uma débil conversa de duas horas por
noite, sob o olhar atento de minha mãe que, postada num sofá em
frente de nós, fingia ler o jornal. Só o sono e o cansaço a
obrigavam a cabecear por segundos, retomando de seguida a sua
postura vigilante. Mais um detalhe: durante aquele namoro a três, eu
ainda tinha de manter as mãos ocupadas fazendo “crochet”... As mãos
elaborando a renda, a cabeça tecendo sonhos. Poder-se-ia chamar
aquilo de “namoro”?
Pondo de parte as divergências inevitáveis que, generalizando,
sempre surgem entre dois seres após a posse concretizada, como seria
possível através daquele relacionamento tão pouco íntimo,
conhecerem-se, minimamente, duas pessoas que planeavam viver juntas
o resto da vida? Não posso deixar de reconhecer hoje, quão atilados
são alguns jovens desta geração, que, protelando o casamento,
preferem começar por viver a experiência da vida em comum!
Jorge mostrava-se cada vez mais apaixonado, demasiado, pois o ciúme
começava a ressaltar do seu amor. Teorias correntes na época eram:
“Não há amor sem ciúme” e “Isso passa depois do casamento...” Mas eu
não perfilhava essas opiniões. Desagradava-me aquela sua faceta, que
me fez passar por cenas bem desagradáveis. Além de ciumento,
pareceu-me também desconfiado quando, pela primeira vez em minha
casa, lhe servi uma chávena de café que ele se apressou a trocar
pela minha... Ainda assim, julguei tratar-se de uma brincadeira. O
facto de ele ser pouco falador, atribuí a timidez; o esquivar-se a
abordar livros e autores, julguei dever-se a estar muito absorvido
pelos estudos... Só em carícias era pródigo e nelas afogava as
minhas dúvidas! No entanto, havia nele algo de estranho que a minha
ignorância, à época, não conseguia alcançar, mas, movida pela minha
intuição, tentei romper aquela relação mais do que uma vez, não
conseguindo porém que Jorge desistisse de mim. Então, decidi
enfrentar a ligação até às últimas consequências: o casamento! Seria
a minha libertação – pensava eu. Por outro lado, talvez na prática
se confirmassem as ditas teorias com que os demais tentavam abalar a
minha avisada intuição...
Pena que, além de orgulhosa, irreflectida e ingénua, eu fosse ainda
tão inculta, nomeadamente, quanto às ciências ocultas que regem a
vida humana... A Astrologia, por exemplo, com a importância que lhe
queiramos dar e, para já, como ciência mais acessível, era matéria
virgem para mim. Só muito mais tarde me debrucei sobre ela para
constatar que Jorge era um “taurino” típico, isto é, nascera sob a
influência do signo astrológico de Touro. E Touro, sendo um signo
fixo e de terra, possui algumas características que eu já descrevi
em “Capricórnio” e outras muito próprias. Aliada a uma mente
evoluída, a influência de Touro dará um ser calmo, ponderado, de
vontade forte, perseverante e reflectido. Dadas por Vénus, o seu
planeta regente, possuirá ainda uma doce sensualidade e uma grande
capacidade de amar. Características mais discutíveis mas que também
lhe são inerentes, são: o horror que sente a quaisquer mudanças, a
fixidez das ideias e dos sentimentos, o forte conservadorismo e a
timidez que o faz procurar na “posse” de bens materiais – eu diria,
de pessoas, também – a segurança que lhe falta. Se estes traços
astrológicos (que, reitero, por si só, são apenas tendências) recaem
sobre uma personalidade primária, dão aspectos muito desfavoráveis;
teremos assim: um indivíduo obstinado, rancoroso, desconfiado e
colérico, de sensualidade grosseira, obcecado no amor, intolerante,
instável, inseguro e dotado de pouco tacto e agilidade no que se
refere à vida profissional e social.”
Esta minha dissertação sobre os astros, que a um primeiro olhar
poderá parecer descabida, em face do que irá seguir-se, dará, no
mínimo, que pensar...
Meses depois, num radioso dia de Outubro de 1963, tinha eu vinte e
cinco anos, casei com Jorge. Não pela Igreja; ele era
anti-religioso, senão ateu, e tinha uma profunda aversão pelos
padres. Eu fora criada dentro da religião católica: frequentei a
catequese em menina, fiz a comunhão solene e não faltava à missa dos
domingos – pretexto de todas as raparigas casadoiras para exibirem
os vestidos mais bonitos e trocarem conversas com os rapazes que as
esperavam à saída. Também cumpria anualmente a praxe das
quintas-feiras santas, acompanhando minha mãe nas suas romagens a
sete igrejas, beijando o pé do Senhor dos Passos, todo vestido de
roxo. Alheia eu não podia ser, também, à devoção com que se
colocavam as melhores colchas em todas as janelas da casa no dia em
que passava na nossa rua a comovente Procissão das Velas em honra de
Nossa Senhora. Minha mãe chorava, e eu chorava de vê-la chorar...
Tudo isto não chegou para fazer de mim uma católica convicta e
fanática. O que sempre me moveu foi uma profunda crença numa
poderosa e desconhecida Força Divina, justa e protectora,
independentemente de quaisquer rituais. Por esta razão, não pus
qualquer objecção a um casamento civil. Seria até mais
prudente...
Apesar de menos pomposo, o casamento não deixou de ser uma cerimónia
“comme il faut”. Eu, avessa a praxes comuns, teria preferido um
evento mais discreto e original: um vestido simples, rosa-chá ou
verde-musgo, e um almoço a dois. Mas a minha mãe e o padrinho
fizeram questão: vestido de noiva, véu e grinalda, flor de
laranjeira e o tradicional “copo-d’água”, eram imprescindíveis.
Jorge e os pais foram da mesma opinião. O meu sogro, entendido em
automóveis, tratou até de alugar um carro de noiva cujo modelo eu só
me lembrava de ter visto em filmes: tinha o dobro do comprimento dos
carros normais e a particularidade de os noivos ficarem separados do
motorista por uma divisória de vidro, julgo que à prova de som.
Nesse carro me dirigi ao luxuoso restaurante, cercado de belos
jardins, onde o meu noivo me esperava vestido a rigor nas suas
calças de fantasia e asas de grilo, traje que realçava a sua
elegância. Convidados, muitos, de ambas as partes.
Aí se tinham deslocado também os oficiantes do registo civil que,
numa sala própria, legalizaram a união. Durante a cerimónia, minha
mãe chorava, creio que de felicidade. Casar a filha era para ela o
culminar da sua tarefa de mãe! Eu, movida por ocultas emoções, não
continha as lágrimas, e o ramo de narcisos brancos que me pendia das
mãos tremia tanto que as pétalas se soltavam, cúmplices das minhas
lágrimas...
Carmen fez uma pausa para acender um cigarro. Então, ousei
perguntar:
– Por que chorava, Carmen? Não se sentia feliz?
– O que lhe posso responder com sinceridade, minha amiga, é que
cheguei ao casamento não como a uma meta que eu prioritariamente
ambicionasse, porém, decidida a esquecer o passado, ser feliz e
fazer feliz o meu marido. Contudo, algo inexplicável me fazia
chorar, algo estranho, como uma premonição indefinível...
– Não me diga que a Carmen acredita em premonições, pressentimentos,
essas coisas?
– Como já lhe disse, minha amiga, nessa altura eu não sabia nada!
Agora eu sei que todos nós possuímos, em maior ou menor grau, essas
e outras faculdades. Uns desenvolvem-nas, outros não. Simplesmente,
e salvo raras excepções, desconhecemos todo o nosso potencial. Hoje,
pelo menos, eu teria reconhecido “o aviso”.
– Outras faculdades? Quais, por exemplo, Carmen?
– São inúmeras, minha amiga: Precognição, Poscognição,
Clarividência, Mediunidade, Magnetismo, etc., etc.
– Fale-me delas!
– Não hoje, minha amiga. O mundo da Parapsicologia é muito vasto.
Mas podemos falar disso depois do seu romance terminado. Concorda?
– Combinado! Voltemos então ao seu casamento.
– Atribuí a minha sombra de tristeza à ausência de meu pai e dos
meus irmãos Vítor Manuel e Carlos Alberto. Vítor Manuel, que já
tinha regressado da Índia com a família, tinha partido pouco antes
do meu casamento, dessa vez para Angola. Instalado em Luanda, tinha
chamado o nosso pai, que para lá partira também com os meus
“meios-irmãos”. Daí, a impossibilidade de estarem presentes. Mas,
Carlos Alberto por que não aparecia? Estava em Lisboa, tinha sido
convidado... Recordo-me da alegria com que, finalmente, o vi chegar,
quase ao fim da tarde, porém, ainda a tempo de me abraçar e de me
entregar o seu presente: um bonito saco de viagem para eu levar para
a “lua-de-mel”.
Àquela hora, já a patente felicidade de meu marido e a alegria de
todos os convivas me tinham contagiado. E a ternura com que o meu
sogro me beijou, dizendo: “ Só tinha um filho, agora tenho também
uma filha!”, afastou de mim qualquer laivo de tristeza.
E, já tinha caído a noite quando eu e meu marido abandonamos a festa
para nos dirigirmos a um “apart-hotel”, previamente marcado, que nos
esperava numa aldeia turística não muito longe de Lisboa. Cansados
mas felizes, rumamos assim ao “enfim sós!”.

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