O
VÉRTICE LUMINOSO DA PIRÂMIDE
(Romance)
por
Carmo
Vasconcelos
II PARTE
PÁG. 7 DE
17 PÁG.

Capítulo
VII
Pedro tinha, então, três anos. Era um menino lindo, saudável,
inteligente, curioso e irrequieto. O pai gostava dele, é certo,
mas nunca sabia o que fazer quando algo corria mal. Era sempre a
mãe que o levava a médicos, a vacinas, que o embalava no colo
quando tinha dores, que velava por ele quando tinha febre, lhe
dava os remédios a meio da noite. Era sempre a mãe que o mimava,
lhe ralhava, o ensinava a falar, a fazer jogos, lhe cantava ou
contava histórias para dormir.
Depois da desistência de Zefa, as empregadas não paravam lá em
casa e Carmen já não estava confiante ao deixar o pequeno todo o
dia com elas. Seria melhor mudarem-se para Lisboa, vigiariam o
filho mais de perto. Mas Jorge não se decidia. Tudo o que fosse
mudança de hábitos o assustava. Porém, um dia apanharam um
susto. A nova empregada viera para a escada falar com uma
serviçal vizinha, deixando fechar a porta da casa com o menino
lá dentro. O pequeno, vendo-se sozinho, avançou para uma varanda
que estava aberta e, empoleirado nas grades, chorava de aflição,
olhando a rua. Era um terceiro andar! Acorreu a porteira, foram
buscar a prima Lurdes, e foi esta que, rapidamente, chamou os
bombeiros para que abrissem a porta. Tudo isto, obviamente,
demorou muito mais tempo do que eu a fazer este relato. Só a Mão
Divina evitou que o pior acontecesse. Este perigoso incidente
foi, contudo, decisivo para a mudança da família para Lisboa.
Solucionada esta questão, outra se impunha a Carmen: estava na
hora de Pedro frequentar um Jardim-Escola. Disso falou a seu
marido.
– Outra invenção? – ripostou Jorge. – Sabes bem que quero
comprar um carro! O menino pode ficar com a minha mãe.
Mas ela não era da mesma opinião. A educação de seu filho era
prioritária. Como nunca chegavam a acordo, cada um ia lutando
pelo que desejava. Carmen sempre se valia da concordância de seu
sogro para a realização dos seus projectos – da sua ajuda
também! Então, procurou, informou-se sobre o que havia de melhor
e decidiu-se pelo Jardim-Escola João de Deus. Difícil era
arranjar vaga, mas Carmen acabou por conseguir.
Jorge conseguiu também comprar um carro, embora em segunda mão.
Parecia agora menos infeliz. Com algumas dificuldades, iam
mantendo casa, carro e colégio. E tinham dispensado a empregada.
Época que Carmen retratou mais tarde neste poema, tendo em vista
uma análise alargada à vida particularmente difícil de muitas
mulheres desse tempo.
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MULHER
“Sete fôlegos como os gatos”,
sete vidas tens de ter
numa existência somente.
Não dá pra uma escolher,
todas terás de viver
neste palco em vários actos,
sempre a sorrir e contente,
porque nasceste Mulher!
És a filha, és a esposa,
és a mãe e em ti repousa
toda a canseira do lar.
És pau pra toda a colher,
que não pára de mexer
para a todos agradar.
Não tens tempo de lazer,
porque nasceste Mulher!
Nessa lida, nesse afã,
sais pra rua de manhã
figura quase sem jeito...
Levada ao ombro a sacola,
filho pendurado ao peito,
largado à porta da escola.
Não tens tempo de sofrer,
porque nasceste Mulher!
Já cansada e dolorida,
vais pro trabalho a correr,
sentindo como chicotes
impropérios e dichotes
dos que babam por te ter.
Calas a alma ofendida
sem tempo pra responder,
porque nasceste Mulher!
Voltas a casa à noitinha,
lavas roupa, fazes camas,
e milagres na cozinha.
Cais na cama em gesto louco,
sufocando um grito rouco,
pois teu homem inda quer
que lhe mostres com prazer
por que nasceste Mulher!
E já é de manhãzinha!
Foi-se a Lua sem merecer
que a olhasses um nadinha.
E volta o Sol a nascer,
reprise dos mesmos actos…
Não te podes esquecer!
“Sete fôlegos como os gatos”,
porque nasceste Mulher! |
E porque tinha nascido mulher, Carmen não tinha tempo
para alimentar a poesia que, informe dentro de si, pedia vida.
Mas, a semente existia e, embora maltratada, sobreviveu e
floriu, “no tempo certo”, como ela costuma dizer. Porém, mentiríamos se disséssemos que tudo era mau. Carmen
pegou-se à família de seu marido. Os primos de Jorge com as
respectivas mulheres e filhos eram agora os parentes de que
dispunha. Com eles, podia conviver, rir e brincar, sem que seu
marido levantasse quaisquer problemas. Somente com eles, Jorge
se sentia feliz. Apenas eles, não eram seus “inimigos”. Juntos,
davam grandes passeios, faziam campismo pelos parques do país,
passavam férias em grupo, correram as praias de Espanha. Carmen
descobrira como dar momentos de descanso à sua vida conturbada.
Podia ter exercido represálias, pagar a seu marido na mesma
moeda, repelindo a família dele. Mas Carmen tinha o sentido da
justiça. Uma atitude dessas não seria justa para eles: tão
amigos, tão dedicados, sempre prontos a defendê-la, a chamarem
Jorge à razão, frequentemente testemunhas das suas aloucadas
atitudes. Eu escutava e escrevia. Tinha prometido a mim mesma fazer o
mínimo de interrupções, mas, por vezes, era inevitável: – Perdoe-me, Carmen, mas o seu sentido de justiça não a
contemplava a si mesma! Não sei se eu, nas suas condições, teria
sido tão altruísta... – Engana-se, minha amiga. O meu procedimento não era de todo
altruísta, não era somente para ver o meu marido feliz. Eu
estava também tentando preservar o meu equilíbrio e,
principalmente, o de Pedro. Era a noção de família que eu queria
instilar no meu filho, provê-lo desse suporte tão importante que
eu via estar a ser-lhe roubado. E era esse suporte que eu não
queria arrancar-lhe, que me mantinha agarrada ao casamento. – Mas, Carmen, existem tantas crianças que crescem felizes não
obstante a separação dos pais. A Carmen é disso um exemplo. – Eu sei, minha amiga. Mas também existem muitas crianças e até
adolescentes que nunca se conformam com isso, que enveredam por
caminhos perigosos e nefastos, fazendo dos pais, réus dos seus
maus percursos. Não é verdade? – Também acontece, sim. Não temos “bola de cristal” e qualquer
atitude num sentido ou noutro, é sempre um risco. Aliás, como em
qualquer tomada de atitude. Mas não é, afinal, essa nossa
ignorância do futuro que torna a vida aliciante? – Sem dúvida, minha amiga, sem dúvida! Aliciante para uns, um
inferno para outros... concluiu Carmen. – E para si, Carmen? – Nem uma coisa nem outra. Para mim, cada “hoje” é já futuro. – Pois para mim, Carmen, se quer saber, aliciante no meu futuro
mais próximo, será a conclusão deste romance; um inferno, a
ignorância de hoje, do quanto falta para o terminar... – Lamento muito, mas não sei dizer-lhe o quanto o seu inferno
ainda vai durar... Sabe porquê? Respondo-lhe com um interessante
texto de uma grande amiga, a escritora Madalena Gomes: “A Palavra, que eu amo com tão acrisolado amor, é a aventura por
excelência. Nunca sabemos aonde ela nos levará, que outras
palavras arrastará na sua esteira, se o silêncio... se um livro
inteiro. Qual pequeno seixo, solta-se, ganha vida, só ela
conhece o itinerário. Nós, os escritores, sempre
irremediavelmente secundários no processo da criação
literária.” – Mas é exactamente isso! – Exclamei, emocionada pela beleza e
veracidade do texto. – Então, minha amiga? Ficou menos ansiosa? – Claro! A Carmen sempre detém o poder de me acalmar. Acabámos, rindo. E, eu, grata por levar comigo o meu inferno menos aceso,
despedi-me da minha narradora com dois beijos calorosos e um
tranquilo e conformado: “Até quando quiser, Carmen...”
– Prometo que voltarei breve! – Respondeu-me, com o seu habitual
sorriso


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