Capítulo X
Passada uma semana, o correio trouxe-me, inesperadamente, uma carta
de Carmen. Sobressaltei-me. O que teria acontecido?
Atabalhoadamente, rasguei o envelope. Li a missiva com olhos
rápidos. Fiquei mais tranquila; mais feliz, também!
A carta começava assim:
“Estimada amiga,
Neste lazer em que o tempo sobra, dei comigo a pensar em si e no
quanto lhe deve ser penosa a enormidade dos dias sem material para
trabalhar o seu romance. Vieram-me então à ideia outras férias,
férias da minha juventude, que me lembrei de lhe relatar.”
Fiquei animada. Material para o meu romance era, sem dúvida, do que
eu estava a precisar para preencher o meu vazio.
Seguiam-se páginas simples e despretensiosas, que li avidamente.
Depois, contagiada pelo entusiasmo juvenil que emanavam, apressei-me
a romanceá-las:
Carmen teria à volta de dezoito anos e seu irmão Eduardo, catorze.
António, sempre preocupado com a saúde da família, especialmente com
a do filho, que aos oito anos tinha sofrido uma pleurisia, pensou
mandar a família para “ares”. Teriam que escolher uma localidade não
muito longe de Lisboa, para que ele pudesse visitá-los no dia da sua
folga semanal. António nunca tirava férias. Naquele tempo, gozar
férias era sinónimo de prejuízo económico, pois, não só não existia
o subsídio de férias, como, não trabalhando, o seu salário baixaria
substancialmente. A família iria sem ele! O sítio, ainda
dubitativo.
Acontece que na mesma época (corria o ano de 1956), era usual as
famílias citadinas, de médios recursos, terem uma “lavadeira” a quem
entregavam as roupas brancas para serem lavadas nos rios e coradas
ao Sol.
As lavadeiras vinham de vários pontos dos arredores. Mulheres de
idade indefinível, vestidas de preto, saias compridas tocando as
botinas, e deixando ver, num ou noutro movimento mais descuidado,
saiotes interiores tão brancos como a roupa lavada que saía das suas
mãos. Lenços franjados que escondiam carrapitos e aventais bordados,
eram o seu luxo.
Chegavam pontualmente a meio da semana, amontoadas aos magotes em
camionetas de caixa aberta, onde se acomodavam por entre as trouxas
de roupa.
Uma destas mulheres, já idosa, servia a casa de Carmen. Chamavam-lhe
“tia Amélia”. Subia a escada, um segundo andar, afogueada, de trouxa
à cabeça. Trouxa arreada, Diolinda mandava-a entrar para a cozinha,
oferecia-lhe um copo de água, uma caneca de café. A “tia Amélia”
vinha de Lousa, localidade campesina situada a cerca de trinta
quilómetros de Lisboa e famosa pelos seus bons ares. Aí se
encontrava instalado, no alto de um pico, um sanatório onde se
recuperavam pessoas fracas dos pulmões. Entre dois dedos de conversa
e uns goles de café, a “tia Amélia” ia desfiando como muitos
lisboetas alugavam casas na sua terra para passarem férias, e como a
ela também lhe daria jeito alugar a sua – era viúva, alojar-se-ia
temporariamente em casa da filha casada.
Foi deste modo que Carmen, Diolinda e Eduardo, e uma cadela que
tinham à data, partiram de camioneta e foram veranear para Lousa.
Carmen, um pouco contrariada. Era muito citadina. Deixar Lisboa, a
Baixa, as tertúlias de café, pareceu-lhe insuportável. Mais
insuportável ainda, deixar de ver Edgar, mesmo que fosse apenas por
um mês.
A casa da “tia Amélia” ficava num lugar alto, ao término de uma
subida íngreme que a separava da povoação. Em frente, um pinhal
cerradíssimo. A construção era típica. Casa de pedra, baixa, ampla,
janelas pequenas. Exteriormente, muito negra; por dentro, aclarada
pela cal que cobria as paredes. Humilde, mas muito limpa. A cozinha
era a divisão maior, que dava directamente para a rua. Numa mesa
comprida, feita de tábuas de madeira escurecida pelo tempo, à qual
se agregavam os bancos corridos, eram tomadas as refeições. Nos
quartos pequenos e rectangulares, camas de ferro, antigas – umas,
pretas, outras, brancas – eram alindadas por almofadões e dobras de
lençóis alvíssimos, a sobrepor mantas de retalhos coloridos. A um
canto, o lavatório a condizer com a cama, encimado por um espelho
minúsculo e manchado. O telhado, de telha vã, deixava entrar os
raios de sol mal despontavam manhã cedo, e de noite dava passagem ao
luar que inundava de azul a alvura das paredes e das camas. Havia
ainda a casa de banho, improvisada numa divisão exígua, mas da qual
a “tia Amélia” muito se orgulhava, por serem raras no
povoado.
À chegada, a primeira impressão de Carmen foi de decepção. Tudo
muito escuro, muito tosco! Afigurou-se-lhe estar fora da
civilização. Porém, de natureza adaptável, rapidamente se integrou
no ambiente. Arranjou os seus cantinhos: sítio para os livros e para
a sua roupa. Depois, como era seu hábito, começou a explorar as
redondezas. Com um chapéu de palha de abas largas a cobrir-lhe os
longos cabelos negros, um livro debaixo do braço, partia à
descoberta. Eduardo acompanhava-a e “Índia”, a cadela, seguia-os.
O pinhal próximo foi o primeiro alvo. A princípio, pareceu-lhe
monótono, todo igual na sua vegetação. Todavia, a pouco e pouco
foi-lhe descobrindo os encantos: os carreirinhos ladeados de amoras
que ia apanhando e comendo, as flores silvestres com que compunha
ramalhetes para alegrar a mesa da cozinha, as pinhas que se
entretinha a esvaziar.
Eduardo apanhava ramos secos que atirava longe, para a “Índia”
buscar. A cadela corria, voltando de seguida com eles na boca e a
cauda a abanar de contente. Às vezes, o seu travesso irmão
desaparecia-lhe da vista, e Carmen tinha de o procurar, não fosse
ele perder-se. Frequentemente, encontrava-o escondido por detrás de
uma árvore, bem debaixo do seu nariz, somente para a arreliar.
Quando, já cansados, encontravam uma larga clareira, Eduardo
sentava-se num couto de pinheiro partindo e comendo pinhões; Carmen
acomodava-se naquele chão de caruma seca, mergulhava na leitura e
esquecia a sua saudade de Edgar com quem apenas trocava postais e
cartas. Numa delas, Carmen, com a concordância de sua mãe, convidou
o jovem e os pais a fazerem-lhes uma visita. Edgar, agora com vinte
e um anos e já com carro próprio, facilmente faria a deslocação.
A resposta não se fez esperar. Iriam no próximo domingo.
Com que ansiedade Carmen esperou aquele dia! O tempo que
habitualmente corria veloz, andava agora a passo de caracol... Mas,
como todos os domingos, aquele domingo também chegou.
Foi um dia inesquecível. A “tia Amélia” levou um grande cesto de
figos, envoltos em folhas de parreira para se conservarem frescos, e
deu uma mãozinha no arrumo da casa. Diolinda preparou um belo almoço
e Carmen ajudou a mãe a fazer um bolo e uma sobremesa, tarefas a que
usualmente se furtava.
Todos acharam o local pitoresco e repousante. Durante o almoço,
muito apreciado, conversaram e riram animadamente. Porém, os dois
jovens ansiavam por ter uns minutos a sós.
– Agora que já almoçámos, podemos ir dar uma volta pelo pinhal? –
Perguntaram, quase ao mesmo tempo.
– Está muito calor! – Respondeu Diolinda, tentando evitar que eles
escapassem da sua alçada.
– Vão, vão! – Anuíram os pais de Edgar. Nós ficaremos aqui a
descansar.
Diolinda, não querendo parecer indelicada, não teve outro remédio
senão concordar. No entanto, acrescentou:
– Mas o Eduardo vai convosco! E não se demorem!
E lá foram os três, isto é, os quatro, pois a “Índia” sempre seguia
os donos.
Foi uma tarde maravilhosa!
Carmen nunca esqueceu aquele cheiro – uma mistura de resina e flores
silvestres – a ternura daquela caminhada, de mãos dadas com o seu
amor, o braço dele enlaçando-lhe a cintura, os beijos furtivos
trocados às escondidas de Eduardo. E como os seus corações batiam,
como lhes transpiravam as mãos!
Edgar também deve ter gostado, porque voltou uma vez, outra e mais
outra, até que as férias acabaram!
O que posso extrair mais da carta de Carmen? Que durante esse mês os
dois irmãos fizeram amigos entre os outros jovens veraneantes? Que
se juntavam em grupos e tomavam banho nos tanques de rega das
herdades dos amigos, como se o fizessem nas mais sofisticada das
piscinas? Que, feitos alpinistas, trepavam às encostas do Cabeço de
Montachique? Ou que, entre esses amiguinhos de Verão, Carmen fez
mais dois apaixonados, cujos nomes já nem recorda?...
Nada disto me parece relevante!
O que me impressionou mesmo nesta narrativa estival de Carmen, tão
“à propos”, foi a sua nítida memória das imagens, cores, cheiros e
sensações... E, principalmente, a candura, a ingenuidade, a força do
seu primeiro amor! Como se tudo isso se lhe tivesse colado à pele,
para sempre!
