Sebo - GLÓRIA MARREIROS - PROSA 

PROSA

 

 QUANDO CHOVE À NOITE
 

      Quando chove à noite, os caminhos ficam mais escorregadios e os arbustos gotejam, num poema a Deus, enquanto o céu continua nos seus eternos afazeres; os pássaros acordam mais silenciosos sobre as árvores pesadas pelas gotas cristalinas; a ribeira alonga-se e forma pequenos lagos sobre o solo argiloso, onde as crianças brincam lançando à água graciosos barcos feitos com velho papel de jornal.
      Quando chove à noite, a fragrância da terra evola-se e intensifica-se, alegremente, como um sopro dos deuses, sobre a fruta e as bagas silvestres que sugam a seiva dos ramos, acariciadas pelas verdejantes folhas primaveris que as protejem, em segredo, preparando-as para o súbito e intenso clarão do seu maduro escarlate.
      Quando chove à noite, a erva que atapeta as encostas dos montes torna-se mais verdejante e as gotas de água que repousam no seu regaço parecem olhos verdes que se espelham na memória das memórias apagadas e definhadas pelas marcas do tempo; as sementes deixam o seu ensimesmamento, silencioso, e emergem do húmus que as alimentou no seu sono hibernal.
       Quando chove à noite, a vegetação torna-se mais intensa, aromática e luxuriante, ganhando um significado especial e uma qualidade mítica que se desprende dos reflexos prateados da Lua Cheia a bater nos cascalhos vermelhos e xistosos do nosso corpo e nas folhas de ácer das nossas almas.
      Quando chove à noite, a caravana dos nossos pensamentos fica menos cinzenta, torna-se mais clara e leve; os eixos da vida desenferrujam e deixam de lamuriar sob o peso do amontoado de bagagens que carregamos, sempre com a esperança de encontrarmos um acampamento seguro onde a pirâmide dos nossos sonhos se erga, num luminoso  clarão,  desafiando  as  estrelas  do  firmamento  que  se  escondem   perante   a inebriante madrugada que leva, para muito longe, pesadelos semiesquecidos de noites sequiosas onde os sonhos sucumbem à míngua de convicções e de palavras, perfumadas de almíscar, que os enraízem, ao menos, numa crença de alternativa...
      Quando chove à noite, os amores-perfeitos da poesia erguem o olhar sobre as rosas silvestres e entrelaçam-se nas ervilhas-de-cheiro que matizam as orlas dos canteiros; a espessa veia do romance atravessa a essência espiritual do ramo do nosso ego, debruça-se, solicitamente, e enxerta-o com o abrolho da esperança. Depois, asperge-lhe uma resina aromática para que a junção cicatrize e possa brotar a energia renovadora da confiança.
      Quando chove à noite, a madrugada é mais límpida e fecunda; o fumo branco que sai das chaminés serpenteia o céu num feitiço mágico e num intenso louvor à Natureza; a alma canta um hino hilariante; a estação dos velhos êxitos, sintonizada em carruagens passadas, acorda perante o silêncio da máquina da inovação.
      Quando chove à noite, os rostos adquirem uma serenidade que ultrapassa todas as fronteiras, porque a consciência fica mais cristalina e opta por ver os aspetos mais positivos da vida, fazendo-nos acreditar em nós próprios e fazendo-nos tomar consciência  das necessidades do próximo. A noite vibra com as canções das mães a embalar os seus filhos. As vozes dos homens, no seu idioma campestre, ecoam em trinados e murmúrios. Estes sons mágicos e estas palavras perfumadas, marcam o ritmo das horas e são a música do campo vinda da fragrância, lilás, elevada pela brisa.
      Quando  as urzes e as giestas enfeitam as almas mais áridas; a vegetação trepa e floresce sobre as sebes, já gastas, da vida; quando as rosas vermelhas roçam o chão tingindo-o com o rubro das suas pétalas; quando a memória do ontem se transforma em promessa para o amanhã; quando transmitimos ao nosso semelhante palavras com a fragrância das plantas e poções medicinais e  com essências de puro amor;  quando  acendemos  os  círios da alma  para rezarmos uma  oração perfumada de paz... é sempre: quando chove à noite!...

 

 

 
                                                                                                            
QUANDO O SONHO SE DEIXA FECHAR NA PALMA DA MÃO...

 

A sonhar, vive-se mais!
      Os sonhos vêm de longe, dos espaços de vertigem, iluminados da sua branca fascinação. Como velas do presépio, brilham na estrada da imaginação. O sol repete-se e o mundo canta-os com  uma força absurda, com a inocência irresistível que quase nos faz chorar.
      Unidos ao universo intangível do sonho, somos verdadeiramente mais livres. Tocamos o sobrenatural e dispomo-nos a fazer tudo o que a nossa timidez humana nos impede. Encontramos matéria para preencher o espaço opaco do vazio.
      O sonho, às vezes, pode ser comparado ao pó acabado de varrer. Espalha-se na nossa alma e, escreve-se, sobre ele, com o dedo do coração, misteriosos hieróglifos na superfície da nossa mente. Porque é na mente que se aloja a nossa perceção do tempo e da vida.
      O sonho é como uma densa floresta da memória que se agarra ao céu da nossa alma. Possui, também, um elemento de fantasia, daí que a pessoa que o habita, lutando com aquilo em que quer ou não transformar a sua forma de viver, passa em revista um conjunto de possibilidades futuras como se já as tivesse vivido.
      O sonho esconde-se nos recessos da memória e da fantasia, inventando linhas multicores que se agarram às entranhas da nossa alma. Só ele permite alimentar a  esperança  e  acreditar  que  se  pode  fazer coisas  certas  na  vida, por impossíveis que pareçam. É como os raios oblíquos do sol nascente penetrando  através  de uma  grande  janela  aberta, iluminando  a  riqueza  do silêncio e da reflexão. É como uma brisa que refresca o ar abrasador de um dia de Estio, e traz lufadas de magia, fazendo agitar as palmeiras que batem  as  palmas, recortando, nítidas, o céu dos nossos pensamentos.
      O sonho é a evidência da nossa imagem. Aparição que nos torna invencíveis na procura. É a fascinação; o refúgio de um calor de se estar bem, de apenas ficar olhando o futuro como se este fosse um corpo palpável. É a procura de um terno colo de mãe, de uma alegria perdida. O sonho não é de nunca! É uma necessidade de preencher os espaços vagos, com o que há de único na hora.
      O sonho quando se funde no ser humano é a glória e o desafio que não morre. Emerge de dentro de todas as noites do mundo! Pode parecer, por vezes, uma alegria solitária e triste, mas com a força do que é grande na vida, porque tem o dom de transformar a pessoa num dia feliz e cor-de-rosa, fresco como uma verdade tranquila. As árvores e os passeios da imaginação douram-se de resplendor como o amanhecer de um dia primaveril. Os sentimentos sentem-se tocados por um halo de alegria aguda, como o aroma de uma música que se recorda. Há feixes de sol atados com pecúlios de esperança, a inundar de luz as tardes que pareciam mais cinzentas. À noite, a lua desce, muito bisbilhoteira, e entra pela vidraça da alma, derramando os seus coágulos gelatinosos e prateados.
      O sonho quando se instala faz-nos descobrir que vivemos. Projeta-se em nós como uma fulguração sem princípio nem fim. Modifica o nosso viver quotidiano e implanta, na janela da nossa desilusão, cortinas de esperança.  
      Nascem no céu estrelas, que não esperamos, e entram connosco no nosso sono. É como se o mundo da nossa imaginação visse nascer um novo Messias.
      Quando o sonho se deixa fechar na palma da nossa mão, as águas da vastidão do nosso ser, purificam-se no seu todo e cintilam como um diamante no dedo marmorizado de uma princesa. Ficamos aéreos, numa levitação universal, transfigurados de paz. A pálpebra  que protege a ilusão desce sobre o silêncio da esperança. Aniquilamos o amontoado confuso da memória e pousamos a cabeça no cântico de um  triunfo absoluto e invencível, arauto duma alvorada que se prolonga e se efetiva numa alegria mística, que se solta em desejos tímidos mas fiéis, numa comunhão balsâmica que invade de volúpia, santa, o cais da nossa imaginação.
      O sonho agarra-se a nós, ou somos nós que o agarramos?... É muito subjetivo. O sonho é um misterioso encantamento que se transfigura no espaço do nosso ser. Há jogos de reflexos que multiplicam o brilho da nossa mente. É belo. Magnífico. É como um raio de sol num vitral colorido. Ficamos envoltos numa poalha luminosa; numa revelação que nos deslumbra, que nos suspende e nos esvazia de todo o peso que acumulamos. Sentimos o aviso de uma palavra aureada de pureza, de esperança, como se fosse a anunciação de uma nova estrela a nascer por trás das nuvens.
      Quando o sonho se agarra ao nosso âmago, escreve dentro de nós sublimes cartas, que o correio da nossa imaginação expele para o exterior, para o mundo que nos rodeia. É como que o despertar do alarme que nos faz erguer da monotonia, para o recomeço de uma vida nova, preenchida com emoções místicas e com esperança na ressurreição de outros sonhos, outrora perdidos, como Verónica esperou a ressurreição de Cristo, olhando o sudário onde limpou o Seu rosto. 
      Para concluir este ensaio, apraz-me dizer que o sonho transcende o efémero; que está para além das formas; que dá alma e sentido às coisas e aparece em qualquer momento; gera poesia  e,  às vezes,  fecha a comunicação
com as realidades tangíveis. É uma luz que vem do íntimo, sem ela não poderíamos adivinhar as almas das coisas; não cantariam os motivos simples e eternos, a inocência das crianças, o mistério dos mares e das pedras; não seríamos capazes de ter esperança num mundo melhor. Só agarrados ao sonho, ou deixando que o sonho se agarre a nós, é que regressamos ao tempo da nossa infância. Ficamos a ser anjos e humanos, mais próximos da terra e do céu, porque o homem é um desvio para fora de si mesmo e de todas as coisas terrestres e celestes, para um NADA que ele enche de fantasias e quimeras, criando um novo espaço constelado; um espaço presente e agente, até ao plano extremo da consciência onde se desenha o EU.
O sonho é um longo abraço, quente, que nos sufoca de ternura.

 

 

 

                                                                    
Tratamento do Adágio Popular: MUITA PALHA E POUCO GRÃO


Título: ADÁGIO INVERTIDO


Muita palha, e pouco grão.


    Quando reflito sobre este adágio, vejo, na minha memória, rostos que se confundem uns com os outros, e, todavia, todos nítidos e distantes. Vejo a serra onde vivi. Lugares que vão e vêm como que transportados por um tornado. (Já lá vão mais de cinquenta anos).
    Lembro-me das risadas de troça que a Micaela fazia quando a Maria chegava à escola com uma saia feita com o cotim que havia sobrado das calças do irmão. Outras vezes trazia um vestido de riscado, muito puído que, possivelmente, devia ter pertencido à irmã mais velha.
    A Micaela exibia bonitos vestidos que contrastavam com a humildade das crianças que frequentavam a escola. Depois, era vê-la altiva e trocista. Os seus sorrisos irónicos transformavam-se num pó invisível e áspero como greda de giz, e metia-se, até, pelos recantos mais protegidos da minha mente.
    De qualquer forma eram distintos os vestidos que ela usava, com cabeções de gourgouran bordados a ponto-pé-de-flor. As golas de organdi ainda hoje esvoaçam na poeira dos meus anos. Os sapatos de verniz tinham o brilho febril e arrebatador das tardes estivais.
    Este ano encontrei a Maria, por coincidência do destino, na estância termal onde costumo ir tratar as minhas mui conceituadas artrites. Foi uma enorme alegria voltar a ver, depois de tantos anos, a minha amiga de escola. Apesar das dificuldades conseguiu estudar e, hoje, desfruta da sua bem merecida reforma de professora. Além de dar apoio gratuito a crianças desprotegidas.
    Falámos da Micaela e da sua ostentação de outros tempos. Era só palha – disse a Maria. Os vestidos eram-lhe dados pela senhora da casa onde a mãe trabalhava. Aquela fantasia e a falta de humildade levou-a por caminhos pouco dignos. Não sabe da filha e os netos estão no lar onde eu dou assistência.
    A Maria falou-me do que sofreu e do que lutou. Disse, ainda, que os traumas sofridos em criança, levaram-na a dedicar-se às crianças desprotegidas.
    E, eu, meditando na vida da Maria, atrevo-me a inverter o adágio: Muito grão, e pouca palha.

 

 

 

                    

                   

Tratamento do Adágio Popular: Quem tem medo, compra um cão!
 

Título: Quem tinha medo era o cão!
 

   O Zé Cantigas tinha mais de cinquenta anos. Vivia sozinho. A sua casa ficava situada num ermo lugar, onde não havia vizinhança. Depois de uns latagões lhe terem roubado uns quantos euros que tinha debaixo do colchão, começou a não se sentir seguro sozinho. Seria medo? Pensou em comprar um cão…
   Nos fim do mês de Julho, foi à cidade tirar uma chapa, aos pulmões, que o médico do Centro de Saúde lhe passara. Sentia-se doente e um pouco medroso. Tinha de resolver o assunto do cão, só que o dinheiro não abundava. Às vezes, havia pessoas que ofereciam cães, quando as cadelas pariam, mas até isso escasseava.
   Deambulava pela cidade, ao fim da tarde, quando reparou que um cão se abeirava dele. Aquilo é que era um cão! Apesar da aparente magreza, notava-se que devia ser de raça. Era grande e com o pelo bonito e farto, até tinha uma coleira. Surgia-lhe, ali, a oportunidade de ter um bom cão sem o comprar. O animal estava sozinho, parecia perdido…
   Chegou a casa com o cão. Deu-lhe comida. O bicho parecia que nunca mais se saciava. Depois, deitou-se aos pés do novo dono, como se nunca mais se quisesse desapegar dele.
   Havia, ali, mistério! O cão andava sempre atrás dele, parecia que tinha medo de ficar sozinho… O Zé Cantigas queria fazer a sua vida, descansado, ir para todo o lado, confiante de que o cão lhe guardava a casa, mas nada disso acontecia! O animal era um medroso desgraçado! Muito assustadiço, e nem amarrado ficava sozinho.
   Resolveu voltar à cidade e deixar o cão por lá. O bicho devia ter saudades dos antigos donos. Talvez tivesse ido à rua fazer as necessidades e se tivesse perdido. Tinha feito mal em ter trazido o cão.
   - Mãe! Mãe! O nosso cão vai com aquele homem!
   - Cala-te, Tininha! Abandonámo-lo quando fomos de férias, agora não quero mais empecilhos!
   Zé Cantigas nunca mais deixou o cão sozinho. E compreendeu que, afinal, quem tinha medo era o cão!
                   

 

 

 
 


Tratamento do Adágio Popular: Mais vale morte que má sorte.
 

Título: AFINAL, TEVE MUITA SORTE!

 

    Passava os dias a dizer:
    - Que pouca sorte a minha. Isto não é vida. É bem melhor morrer.
    Na verdade, ele já tivera uma boa vida. Fora Diretor numa firma bem conceituada. O ordenado era razoável. Ia duas vezes por ano de férias com os filhos e a mulher, sem contar com outros passeios. Mudava de carro sempre que lhe apetecia. E deu, sem dificuldade, cursos superiores aos filhos. Era verdade que trabalhava muito e tinha muitas responsabilidades, mas compensava.
    A sorte mudou. Virou-se contra ele. A firma faliu. De um momento para o outro ficou no desemprego. Era um homem novo para estar sem trabalho, mas, por outro lado, achavam-no velho para um novo emprego. E a reforma ainda estava longe…
    Ele continuava a dizer:
    - Que pouca sorte a minha. Isto não é vida. É bem melhor morrer.
    Não era homem para estar parado. Arranjou um trabalho, mas muito diferente do que tivera. Trabalhava durante a noite, a vigiar um parque de diversões. Mas continuava a dizer:
    - Que pouca sorte a minha. Isto não é vida. É bem melhor morrer.
    A tragédia aconteceu, naquela noite. Foi assaltado, amarrado, amordaçado e maltratado até quase à morte. Esteve em agonia durante cinco horas, até ser encontrado.
    Na cama do hospital, imobilizado, com duas farturas na coluna, já depois de ter sido submetido a duas complicadas cirurgias, olhava para a fotografia do neto, com um sorriso que lhe chegava de orelha a orelha e dizia:
    - Que grande sorte que tive, que grande sorte que tive! Faltou pouco para ter morrido.

                                                              

Glória Marreiros

 

 

para Índice Geral                para Sebo-Autores