SEBO LITERÁRIO

autor

 
 

HUMBERTO VERÍSSIMO SOARES SANTA

 

 

PAPEL AMARROTADO
Humberto Soares Santa


Um passo em frente e é tempo de futuro.
Dou mais um passo e saio do presente
Saltando do passado para a frente,
Seguindo passo a passo rumo ao escuro.

Sigo pra um final que não procuro.
Não quero mas avanço lentamente
Como a sombra... que acaba de repente
Logo que o Sol se esconde atrás do muro.

Vou perdendo a memória das memórias
Que reencontro a pairar por todo o lado !...
Alegrias!... pesares !... Muitas histórias

São sonhos !... Ilusões do meu passado.
Algumas tão pequenas !... são as glórias
Que guardo num papel amarrotado !

Cotovia-Portugal

 

 

 

PEREGRINO DO TEMPO
Humberto Soares Santa


Por que locais Sem-Fim andei perdido ?
Que terras de Israel já visitei ?
Que rios e desertos já amei ?
Que Palestina vi, ao ter nascido ?

Por que negreiro outrora fui vendido ?
Que "jihades" e cruzadas aturei ?
Que lugares ditos Santos, visitei ?
Em que túmulos de lama fui metido ?

Fui apóstolo de quem ?... Diz-me Senhor !
Com quem vivi nos tempos ancestrais ?
Fui seguidor do ódio ou do amor ?

Que homem sou ?... Pra onde me levais ?
Pra retornar ao mundo sofredor,
Por favor, não me deixes nascer mais !

Cotovia-Portugal

 

 

 

QUEIXUME
Humberto Soares santa


Ouço vozes... sussurros... nostalgias,
Prantos d’alma !... murmúrios de uma vida,
Sopros desta saudade indefinida
Que acompanha e devora os meus dias.

Meu corpo arrefeceu, as mãos estão frias.
No espelho tenho a face mais sofrida.
O rosto perdeu cor... barba crescida.
A alma vai chorando em agonias.

Lá fora chove. Em mim entra a tristeza !...
Nesta melancolia, o mundo esqueço.
Deus !... retirai de mim esta incerteza.

Se me afasto de mim... reapareço !
A alma que voou, hoje está presa.
Quando fujo de mim, em mim tropeço !

Cotovia-Portugal

 

 

 

SILÊNCIOS
Humberto Soares Santa


Regressam os silêncios já passados!...
Catacumbas romanas!... teologia !...
Preces !... odor da morte!... agonia
De véus cobrindo rostos já velados.

Os césares vão voltando, esses malvados
Filhos de falsos deuses!... vilania!
Os homens viram monstros !... Quem diria
Ver, Nero e Calígula, regressados.

Nas arenas do ódio, os gladiadores,
Derramam o seu sangue inocente
Por um regresso ao sangue de outras eras.

Espártaco !... Vês ?!... Voltaram os teus senhores !...
Cristo !... Olha !... Teu mundo está doente :
Há gritos de crianças junto às feras !

Cotovia-Portugal

 

 

 

TERRA QUEIMADA
Humberto Soares Santa


As línguas sobem ao céu,
Há cheiro a terra queimada
O demónio apareceu
Dentro da mata cerrada.

Diabos atiçam brasas.
E os homens num reboliço,
Defendem as suas casas
Das pragas do seu sumiço.

Que fazeis aqui malditos
Senhores da besta danada ?
Não vedes o povo aos gritos
E as mulheres em debandada ?

Já não há aves e os ninhos
De negro foram pintados,
Mataram os verdes pinhos !...
Não há melros nos silvados !

É negra toda a verdura
Toda a paisagem mudou...
País !... Onde é a ternura ?
Mundo !... Diz-me aonde vou !..


Que é dos sonhos ?... Que é da vida ?
Nas terras do meu país ?
No hoje a fé está perdida
E o amanhã nada diz !...

 

 

 

VEGETANDO
Humberto Soares Santa


Estão folhas a cair em muitos lados
No sítio onde passeia a solidão !...
Os velhos, nas bengalas pendurados,
Vão arrastando os pés, que muito inchados,
Não sabem muito bem pra onde vão.

Há mendigos que dormem nos relvados
Cobertos com farrapos e cartões.
Os homens, tristes e desocupados,
Olham para o vazio, acabrunhados,
Perdidos no vazio das ilusões !...

Parecem vegetais ali plantados !....
Vegeta tanta gente que eu às tantas,
Ao vê-los como ramos desfolhados,
Sem esperança, infelizes, maltratados,
Duvido se são gente... se são plantas !

Cotovia-Portugal

 

 

 

 

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