"TRANSCENDÊNCIA"

ISABEL PAKES

 

 

POESIA

 

 

 

Albert Anker

 

 

 

A sós

 


Estendo-me diante de ti
acolhida no leito das tuas mãos serenas.
Neste momento não quero ser apenas poemas,
quero ser também parte da tua essência.
 
Quero transpor a vidraça dos teus olhos,
mergulhar no rio das tuas veias
e percorrer-te ponta a ponta,
levada pelas ondas das tuas emoções,
flutuar no teu pensamento
e repousar depois,
na alcova do teu peito.
 
E mesmo que não possa
perdurar-me em tua memória,
eu cantarei a glória de estar a sós contigo
por alguns instantes,
no aconchego do teu coração.

 

Isabel Pakes

 

 

Venha comigo


Venha comigo.
Acomode-se nas asas destes versos sonhadores,
libere seus pensamentos cotidianos
- que se evadam pelas entrelinhas -
e desaperte o cinto do seu coração.
Vamos voar! Voar!
Provar do vento o sabor natural da liberdade!
Singrar o azul... Pairar no ar.
Esculpir nas nuvens sorrisos de crianças
e deixá-los ir céu afora...
E possa a inocência derramar-se sobre os homens.
 
Voar! Singrar o azul, desfrutar da paz absoluta!
E quando o dia se for, adentrar o portal da noite
e acender as luminárias da Via-Láctea.
Flutuar junto a poeira dos astros e colher estrelas,
miríades de estrelas e agrupá-las num imenso coração -
- Constelação do Amor - Signo da Terra!
Depois, na euforia desse feito criador, bailar!
Bailar com as luzes, bailar!
Bailar no éter, bailar!
Bailar... Bailar... Vertiginosamente!
E, cadentes, nos incandescer para não despertar...

Isabel Pakes

 

 

Se você quiser...


Se você quiser,
eu desenho risos nos seus lábios
e salpico estrelas nos seus olhos.
 
Se você quiser,
eu deponho flores em suas mãos
e acendo luzes no seu pensamento.
 
Se você quiser,
eu faço festas dentro do seu peito
e embriago de amor o seu coração.
Bailar... Bailar... Vertiginosamente!
E, cadentes, nos incandescer para não despertar...

Isabel Pakes

 

 

 

Entrelaces


Eu vi a moça na janela,
desbotada, estática,
como que parada no tempo,
como se num retrato antigo.
E ouvi do outro lado da rua
um trinado de pássaros
musicar uma árvore.
 
A moça tinha o rosto apático
e olhos escuros e frios e opacos,
como se condutores telúricos,
vazassem abismos.
Tentando um alento
armei meu sorriso e lhe disse:
- Bom dia!
Ela desconversou.
Alegou mau humor, fadiga, fastio...
Funesta!
 
A árvore era linda!
Amante da vida,
proliferava raízes e folhas e folhas
e folhas;
frondosa abria-se aos céus!
Não dava flores nem frutos,
mas dava... pássaros!
Precursores da primavera.
 
Apiedei-me da moça, eu juro!
mas mudei de calçada
e abracei a árvore.

Isabel Pakes

 

 

 

Um sem fim


O tempo traça em meu rosto o seu percurso,
circundante, acentuando os sulcos,
colhendo noites e replantando dias,
sorvendo o orvalho e absorvendo os raios...
Dentro do espelho me agastando.
 
Porém, porquanto em mim
registre o seu transcurso,
guardo-me eterna em sua razão
e entremeando crepúsculos e auroras,
trespasso o espelho
e me refaço - caminho de transmigração.
 
Que o tempo em mim é um
sem fim.

Isabel Pakes

 

 

 

Às tardes


Às tardes, o horizonte pintado de sol poente
é o porto onde ancoram meus olhos,
barcos de esperanças.
 
As nuvens franjadas de ouro, súditas fiéis,
reverenciam o grande rei que é posto.
A primeira estrela aparece prenunciando o luto.
Pesaroso o céu se despe de sua veste azul.
A luz se ausenta.
O dia é morto. Mais um...
 
Meus olhos, nascidos pranteadores,
envolvidos nesse rito, fazem água.
Náufragos crepusculares, retornam a mim vazios,
porém ávidos de uma nova razão...
 
E tudo recomeça.
Lá se vão estes barcos contumazes
navegar por entre estrelas,
içar dos sonhos o novo amanhecer.

Isabel Pakes

 

 

 

Apatia


A noite me viu tão triste que chorou estrelas...
E enviou-me a brisa que me sussurrasse um acalanto,
adormecesse em mim tanto quebranto, tanto desejo de não ser...
(Tanta querença e este desencanto!)
 
Mas o meu ego, surdo e cego, recoberto por escamas,
dessas que a alma tece para abafar as chamas, custava serenar.
 
Então veio a alvorada!
Adiantou-se em sua hora em meus cuidados,
beijou-me a boca, a fronte, os pés...
Que a luz viesse dissipar-me as brumas,
se infiltrasse em minhas amarguras e me sanasse, enfim.
Minúsculos sóis se pontilharam, às dezenas,
na transparência das gotas orvalhadas e em mim... em mim, nada!
(Tanto ardor e este frio!)
 
E me encontraram as Onze-Horas ainda recolhida ao desconforto.
Essas florinhas tímidas se me abriram com uma humildade santa
que quase, quase me alentaram,
não fosse em mim a dor maior que a fé, neste instante.
(Tanto néctar e este acre!)
 
Tanta vida e esta apatia!
Aonde foi a seiva que me vicejava e o mel que me adocicava?
Aonde foi você?

Isabel Pakes

 

 

Ascensão


Do horizonte remoto
o ser - cravado - observa
e, serenamente, aguarda
o supremo sopro cósmico.
 
Restam poucas pedras.
Já os fiéis se aproximam.
Luminárias às mãos se identificam
e se multiplicam ao largo do grande templo
que a seu tempo se conclui.
E à dispersão da noite, se possibilitam
ascender os degraus para o imenso portal!
 
A escadaria é íngreme, eles sobem...
 O patamar estreito, eles avançam, eles alcançam...
Eles crêem! E, na escalada, um a um, se agigantam!

Isabel Pakes

 

 

Descarte


Li o teu poema mais recente, sequiosamente!
Cuidava que seria para sempre a tua musa
e vaidosa me encontrar, como de costume,
envolta às carícias de teus versos.
Li com o coração aos pulos, sofregamente
e ao fim...
Salgou-me o riso inda latente o pranto inesperado.
Mas não pude, em meu orgulho,
admitir-me em meios aos teus descartes,
mesmo porque (pensei)
não poderias arquivar-me em teu passado,
simplesmente.
Não a mim, que do amor te preparei a melhor mesa
e ambrosias te servi. Não a mim...
Tranquilizei-me à mão desse argumento
e como quem sai a procurar algo perdido
reli o teu poema, desta vez com mais vagar.
Vasculhei-o palavra por palavra buscando qualquer coisa,
qualquer coisa, mesmo que de leve me lembrasse
e ao fim...
Ao fim se me rompeu o riso represado
num espocar ruidoso e convulsivo.
De um modo bem discreto, quase escondido,
meu nome desfiado iniciava
cada verso que compõe o teu poema,
onde me enalteceste como jamais me pensaria.
Porém nada disseste do amor, nem da saudade,
num jeito bem sutil de me dizer adeus.

Isabel Pakes

 

 

 

Aonde vai


- Aonde vai, menino?
- Aonde me leva o sonho.
 
- Aonde vai, rapaz?
- Aonde me leva a ilusão.
 
- Aonde vai, senhor?
- Aonde me leva o destino?
 
- Aonde vai, vovô?
- Pegar carona no sonho do menino.

Isabel Pakes

 

 

 

Poema de amor intenso


Amas-me tanto, Senhor!
Puseste nas alturas a extensão da tua grandeza
e banhaste os meus olhos com as luzes das estrelas
para que eu possa me extasiar ao contemplar tua beleza!
 
Amas-me tanto, Senhor!
Sobre a terra deixaste transbordar o cálice da tua providência
e fertilizaste o meu espírito nos princípios da fé
para que eu possa me abastar do Pão sem temores de carência!
 
Amas-me tanto, Senhor!
Concedeste-me o dom da Vida.
Tomaste-me por teu filho e herdeiro dos teus astros,
das tuas águas, das tuas flores...
E para consumar o teu amor por mim
ofereceste em holocausto o teu melhor cordeiro!
 
Amas-me tanto, Senhor!
Dentro da minha pequenez me constituíste grande e forte
quanto a tua imagem e semelhança.
E tudo o que esperas de mim é tão pouco!
Apenas que eu me guarde simples aos teus olhos, tua eterna criança!
 
Amas-me tanto, Senhor!
Quantas vezes tenho te agastado com lamúrias infundadas
sem que te apartes de mim...
Quantas vezes tenho te contristado, apresentando-me fraca diante de ti
e mesmo assim me reconfortas e me reconduzes à caminhada!
 
Amas-me tanto, Senhor!
Que eu me perco em meus anseios de muito te louvar.
E sinto-me impotente na busca de palavras
que retratem fielmente a minha inspiração.
Por mais que eu me desdobre em pensamento
não consigo me alcançar no infinito da minha gratidão!

Isabel Pakes

 

 

 

Qualquer dia


Qualquer dia destes
eu vou me vestir de brisa
e brincar nas ondas
dos teus cabelos.
 
Qualquer dia destes
eu vou me vestir de riso
e me embalar na rede
da tua boca.
 
Qualquer dia destes
eu vou me vestir de brilho
e refletir no espelho
dos seus olhos.
 
Qualquer dia destes
eu vou me vestir de amor
e me guardar no cofre
do teu coração.

Isabel Pakes

 

 

 

Poeta



Teu ego a descoberto,
teus sentimentos, tuas emoções,
tuas alegrias literalmente expostas,
tua saudade rimando à Auroras, Amélias e Marias...
teus desabafos, teus apelos, teus cuidados,
teu coração pulsando cá do teu lado de fora - tuas agonias,
tua morte de cada dia, tua alma exteriorizada,
teu inferno, teu céu, tua vida tanta vezes renascida,
teus êxtases, teus sonhos, teus delírios...
Teu ser em minhas mãos - tua poesia!
 
Teu demônio me tentando
teus pecados me pervertendo
teu anjo me guardando
teu amor me absolvendo
tua sina me encantando
tua arte me seduzindo
tua essência escorrendo em mim
pelas entrelinhas
minha alma se entregando à tua estesia
tuas musas fecundando as minhas
meus versos vindo à luz...
Meu ser em tuas mãos!

Isabel Pakes

 

 

 

Saudade


Vives de sugar-me a essência.
Vives de estancar-me o riso.
Vives de me envelhecer.
 
Saudade!
 
Parasita voraz crescendo dentro em mim,
corroendo-me.
Eco de lembranças retumbando em minha mente,
entorpecendo-me.
Veneno fluindo lentamente em minhas veias,
mortificando-me.
 
Saudade!

Isabel Pakes

 

 

 

Gari de estrelas


 
O Sol, gari de estrelas e amantes,
varreu a noite pela madrugada.
Espanou carícias, recolheu amores,
levou Morfeu dos braços da amada.
 
Passou o dia austero, inclemente,
a espreitar lembranças e saudade.
Desfez promessas, desmentiu as juras
e demorou-se prolongando a tarde.
 
Mas o cansaço o alcança e o domina.
Torna-o morno... fraco... sonolento.
Depois o arrasta horizonte além.
O céu muda de cor nesse momento!
 
E Vênus, esplendorosa alcoviteira,
por sobre os ombros do horizonte espia:
- O Sol já dorme - sussurrando avisa.
Volta, Morfeu, que terminou o dia!

Isabel Pakes

 

 

 

Transmutação


Vi esgarçarem-se os véus e a névoa dissipar-se...
E no espocar das lágrimas, meu sonho vi
como num flash
dimensionar-se aqui, magnífico e palpável:
meu mundo modificado, impregnado de amor!
E tudo estava nele! E só o esprecto de mim...
 
Foi um estado novo que experimentei, atônita!
A dor parindo o riso...!
E ao grito surdo de minh'alma em êxtase
ruíram-se as muralhas à volta do meu ser.
 
Sou livre, agora! Posso ir-me.
Devo tomar no sonho o lugar
onde o sonhar a mim tem projetado.
Os despojos do que fui...
Que deles se ocupem aqueles que ainda dormem.
Nada mais são que pó e ao pó devem tornar.
 
Vou dar-me à vida! Soprar-me...
Transmutar o eu em mim.
Tornar verdade o que sonhei, aqui
onde todos estão, só eu que não...
...estava.

Isabel Pakes

 

 

 

Viverás


Viverás para sempre,
perpetuado em mim,
que o meu amor
é transcendente à vida.
Assim, quando eu dormir
na minha noite infinda,
em mim tu viverás ainda!

Isabel Pakes

 

 

 

Flamas azuis


Emerso das sombras
à força do lume
o sólido imenso se avulta
majestático!
 
Hermético,
geometricamente plantado
como a levar a terra a contatar no espaço
as emissões celestiais,
em meio a amplidão do deserto
onde os fantasmas se inibem
e se aquietam os sons.
 
Ao fundo, o negro da noite se acentua
e o azul fosforesce no contraste.
São flamas azuis lhe coroando o ápice,
como se lá dentro se guardasse
o espírito do mundo.
Admirável archote!
 
Colossal pira pétrea e angular
que os séculos olham, arranham
e... passam,
porquanto perdure...
porquanto perdurem as impressões do artista
neste quadro em que me enquadro,
buscando decifrar...

Isabel Pakes

 

 

 

O pobre


Sem escrúpulos, no claro do dia,
ele sai pelas ruas assuntando cabeças.
Enquanto elas idealizam, ele trama.
E à hora dos justos, enquanto repousam,
o velho morcego motiva sua insônia
à luz das idéias - delas.
E no domingo veste a lã,
lustra o latão da auréola
e vai à igreja articular seu perdão.
Certo de si, o hipócrita,
infla o peito de vanglórias
e a si mesmo aplaude.
Pensa burlar a divina consciência,
acredita mesmo que pode,
o pobre pseudo-ser.

Isabel Pakes

 

 

 

Eclipse


Você veio
ardente
como o sol!
 
Eu,
branda
como a lua!
 
E nos encontramos.
 
Irônica ilusão!
 
Foi um eclipse.
Só isso!

Isabel Pakes

 

 

 

Transcendência


Mergulho o olhar no fundo do espelho
e me guardo dentro dele,
que eu mesma não me possa divisar.
 
Cristalizo a minha imagem
deixo pesar essa âncora...
que eu me ausente, mas não deixe o lugar.
 
Abro minhas imensas asas,
espano o pó dos pés
e saio de mim,
diluindo-me no tempo e no espaço.
 
Leve - mais que a pluma,
livre - mais que o ar,
experimento o meu vôo e gosto!
 
Ensaio um bailado novo sobre minha sombra fria
e rio-me de sua impotência ante a mudez dos meus passos.
 
Fortaleço-me no que quero!
Liberta que estou
das tramas da carne e dos ossos,
tudo alcanço. Tudo posso!
 
Visualizo teus pensamentos e vou buscar-te.
Emaranho-me nas espirais dos teus devaneios
e te arrasto além dos limites da tua imaginação,
onde o silêncio absoluto é a expressão mais forte da palavra
e o sentimento mais oculto se extravasa em comoção!
 
É quando tu te despes dos teus zelos e pecados
e te entregas a mim, com toda a nudez do teu eu eterno.
 
É quando te descobres SANTO
e eu te reconheço HOMEM!
e me apresso em aparar-te o pranto.
Porque preciso do sal das tuas lágrimas
com que temperar o meu depois...
 
Depois. Quando emergir do espelho...

Isabel Pakes

 

 

 

Às candeias do amanhã


Ausente do meu toque, feito um anjo ou feito um bruxo,
me olhas do alto da lua, me beijas através da brisa
e nas rosas que admiras me mandas lembranças tuas.
Pareces estar vibrando em tudo quanto me envolve,
até nos livros que leio, como se teus mensageiros,
contam-me histórias de amor iguais à tua e a minha.
 
E isso não te bastando, interceptas meus pensamentos,
seduzes meus argumentos e, de pronto,
te colocas porta adentro dos meus sonhos.
De tal forma te embrenhas em minha mente
que não há como fugir dos teus enleios e nem tenho eu por quê.
Se às vezes me exasperas pelo ontem que adiaste,
outras vezes me comoves, muito, profundamente,
quando feito a canção que mais gosto,
vens, manso e cativo, aninhar-te no meu peito.
 
Alheio ao tempo e à distância
por onde vou me alcanças trespassando dimensões,
alongando os teus sentidos aos menores dos meus gestos,
guardando-me em calmaria, às candeias do amanhã,
em noite de turbilhão.
 
Se és um anjo ou um bruxo, não sei.
Se me guardas ou me enfeitiças, não sei.
Talvez em mim só preserves o alento em cuja sombra repousas.
Mas estás aí, é o que importa!
Estás aí e me ouves devotado
e sem que te apercebas, minha alma embevecida
por um breve instante me escapa para abraçar-se à tua.

Isabel Pakes

 

 

 

Anjos na Terra


Eu sei de um anjo. Eu sei de muitos anjos!
Não desses de belas faces e olhares plácidos
que povoam as páginas dos livros sacros
e as abóbadas das catedrais. Não desses.
Anjos de verdade, que posso tocar e sentir.
Anjos que, corporeamente, me livram do mal
da vaidade, do orgulho, da ambição...
Que me dizem do quanto sou feliz
com o que tenho e o que sou.
Anjos que trazem as asas atadas
e caminham a passos lentos e difíceis,
pelas barrancas que ladeiam o caminho por que vou,
a fim de que eu possa passar livremente e sem demoras.
E que se mostram a mim, sem reservas,
para que eu possa me pensar e dizer:- Obrigada, Deus,
por me conceder os meios com que exercitar o amor.
Anjos. Anjos do Senhor, na terra.
 
Estes anjos que sei,
trazem o céu dentro de si.
Às vezes, são como crianças grandes,
mas sempre puros como os pequeninos.
Jamais se abrem às ilusões do mundo.
Não vivem senão à vontade do Pai.
 
E pensar que, um dia, eu me julguei perfeita...
Eu! Que sempre fui tão vulnerável às tentações
e preciso deles como escoras
para suster minha pretensa evolução.
 
Estes anjos de que falo, existem por aí,
em todas as partes do planeta
e para reconhecê-los nem preciso aguçar minha visão.
São tão evidentes e tanto se parecem
nos rostos, nos gestos, na autenticidade do carinho,
no jeito excepcional de amar!
A quem de coração de entender, ou não.

Isabel Pakes

 

 

 

Amor, substantivo concreto


Você é o amor feito criança!
Amor substantivo concreto
que tomo nos braços,
afago, aperto...
 
Quando olho pra você
esqueço-me em sua serenidade
sentindo-me alongar
no estado do meu ser.
 
E deixo-me ficar assim, agigantada!
Abandonada à sua angelical figura.
É tão doce esta paz de que me inundo
que me custa acreditar que o céu
é além divisas deste mundo.
 
É quando minha alma transparece
e minha voz te adormece
feito canção de ninar.

Isabel Pakes

 

 

 

Sobras de amor


Há sobras de amor
rolando pelos cantos das casas inférteis
enquanto crianças, órfãos de afeto,
se abortam pelas sarjetas.
 
Não, isto não é poesia,
apenas um pensamento,
um desconforto da alma
num ter que viver terreno.
Igual quando vejo laranjas
apodrecendo nas árvores,
enquanto um espantalho mesquinho
afugenta os sanhaços.

Isabel Pakes

 

 

 

Cerquilho - Cidade menina


Quando passeio meus olhos por tuas ruas e praças
tuas rosas me saúdam e fico orgulhosa de ti!
Lembro-me de que nasceste de um humilde vilarejo
onde abrigavas tropeiros que na calidez do teu colo
descansavam seus quebrantos...
 
Lembro-me dos estrangeiros, audaciosos lavradores
chegados na Estação, trazendo de além-mar
nada mais que garra e força, nada mais que amor e fé
e tuas terras verdejaram, vestindo-as de cafezais!
 
Lembro-me dos saber adentrando tuas portas;
tua primeira professora, teus primeiros aprendizes,
teu burburinho infantil no velho grupo escolar!
 
Lembro-me do teu grito quando a dor te estilhaçou,
do teu pranto, do teu luto, das tuas flores soterradas...
E de como renasceste, como a hera entre as ruínas,
tímida, assustada, mas ansiosa por viver!
 
Quantas lágrimas te banharam! Quanto suor te regou!
Mãos de aço, incansáveis, te soergueram das cinzas
e te fizeram mais forte, mais vigorosa ainda!
 
Lembro-me de como creceste vitoriosa!
Do verde-cana mesclando-se ao verde-cor do café...
Das tuas indústrias ativando suas rodas
para nunca mais parar.
 
Lembro-me dos teus filhos, trabalhadores devotos
que honram teu padroeiro, teu amado São José!
Dos teus filhos cujos braços sempre abertos
acolhem quem te procura buscando o teu amparo
e cujas mãos se entrelaçam, unificados na prece,
entoando louvor e glória à providência dos céus!
 
Lembro-me da tua bandeira que baila com a brisa,
toda vaidosa ostentando os frutos do teu trabalho,
margeando de azul anil as páginas da tua história!
Ah... Minha cidade menina!
 
Tão robusta, mas menina. Radiante, graciosa!
Exalas essência de rosas e provocas dentro em mim
algo que não explico, porque não sei definir.
Só sei que estou orgulhosa, muito orgulhosa de ti!

Isabel Pakes

 

 

 

Cerquilho - Cidade menina II


Remodelam a cidade.
Derribam-se as minhas saudades-
- lugares meus da infância, da mocidade...
Santuários onde algum dia,
cheia de fé, rezando as minhas esperanças,
fiei quimeras e amoldei meu íntimo,
(entulhos agora) demovem-se do tempo,
desaparecem...
 
Fico triste. Choro...
Porém, num processo mágico,
talvez por maternal instinto,
as lágrimas que verto converto em seiva
para vitalizar meus novos ideais.
 
E a cidade se afigura sorridente!
Assume ares diferentes
qual menina adolescente preocupada em se enfeitar.
Diante dos meus olhos cada vez se faz mais bela
e, vaidosa, sempre cheirando à rosas,
ainda mais me envolve, ainda mais me seduz!
E mais ainda me induz
a me orgulhar sempre dela!

Isabel Pakes

 

 

 

Minha eternidade


Conduze-me ao teu infinito!
Deixa-me romper-te
como o sol rompe a noite.
Eu quero afugentar os teus temores,
teus pesares, tuas dores...
Eu quero iluminar-te em larga aurora
num eterno amanhecer!
Quero-te claro como o dia,
sem segredos, inteiro!
Quero-te na plenitude do teu ser.
 
Conduze-me ao teu infinito!
Deixa-me lançar-me em tua vida
como uma aeronave no espaço etéreo.
Eu quero desvendar os teus mistérios,
descobrir-te como um novo mundo
e exilar-me em ti, confiar-me a ti,
compor contigo uma unidade,
esquecer-me em teu amor
como se fosse a minha eternidade!

Isabel Pakes

 

 

 

É preciso


É preciso, antes do replante, revolver a terra;
retalhar raízes que, irreverentes, se torceram,
se tramaram... perderam-se das origens;
demover as ervas que, daninhas, se embrenharam nos trigais.
 
Que a seiva retorne ao seio.
Que vicejem as espigas
e se multiplique o pão!
 
É preciso alentar a terra;
lancetar as chagas, remover as pedras, dar vazão às lavas...
Dissolver as nuvens, destilar as águas, saciar-lhe a sede.
Que se refrigere!
 
Que essa febre cesse,
essa dor se aquiete,
que se cicatrize!
 
É preciso temperar a terra,
afastar as sombras, dar passagem à luz
que se lhe adentre no cansado ventre
e o restabeleça do desconforto da nossa inconsequência.
Que outra vez fecundo possa germinar a paz!
 
Sobretudo, é preciso cultivar a fé e preservar virtudes,
até que, preparada a seara, venha o lavrador
selecionar as mudas.

Isabel Pakes

 

 

 

Bom tempo


Acendi o sol dentro de mim
hoje de manhãzinha,
depois da chuva que passou
e levou os meus entulhos
com as folhas mortas,
na enxurrada.

Isabel Pakes

 

 

 

Revivescência


 Deixa refluir o vento...
Depois, quando no limiar da hora
for se desintegrando a noite
aos primeiros raios da esperada aurora,
há de a tempestade amainar-se
e se fazer bom tempo!
 
E há de brilhar o sol
como se, do eterno, na manhã primaz!
 
E soprará a brisa,
renascerão as flores,
revoarão os pássaros...
Toda a natureza se pontuará de luz!
 
E na memória,
nada a se lembrar do que foi mal passado,
nenhum resquício.
Porque aos ares da bonança
profundamente se alteram
as sementes dos abrolhos.
 
Tudo será novo,
como no despertar do sétimo dia!
 
E haverá calma e doçura...
a quem de boa vontade.

Isabel Pakes

 

 

 

Existe um lugar...


Existe um lugar de encantamento em que desperto
sempre que o cansaço terreno carrega comigo
para as profundezas do sono.
Azul! Muito o azul é o céu e o sol translúcido lampeja
dourando a VIDA - única e inesgotável,
na limpidez das águas fluindo
tangendo a tudo e a todos, equiparando-os.
Lá não existe o outro. Todos são um!
As terras estendendo-se em verdes a perder de vista
têm o aspecto de um vasto tapete macio e sedoso
em que se pode caminhar milhas sem se sentir os pés.
Essas terras não germinam ervas daninhas
e as flores que delas brotam são intensamente perfumadas,
que o ar tem o gosto do néctar.
Lá, em se respirando se alimenta!
Os animais são literalmente livres. Não temem os homens.
Antes, se harmonizam com eles,
num contínuo processo de decantação da vida.
É que os homens de lá vivem com serenidade.
São sábios nos costumes.
Não abrem feridas na terra, não envenenam o ar, não sangram as águas.
São em verdade o que são. Não o que a vaidade os levaria a ostentar.
Não se medem pela força ou pela cor da pele
ou pelo grau de conhecimento. São plenamente o que são: Humanos.
Reconhecem-se semelhantes na capacidade de sentir e de amar,
semelhantes na luz que emanam,
porque se respeitam filhos do mesmo Pai.
E as crianças, todas saudáveis recendem à alegria!
Lá, nesse lugar, onde a paz é uma constante,
tudo causa a impressão nítida de transparência
e, quando anoitece, uma infinidade de estrelas multicoloridas
e um luar resplandecente, de beleza incomum,
asseguram-me que não erro em minha visão.
Quando chego lá, levada pelo abandono de minha consciência,
pareço levitar tal a leveza que assumo,
ao mesmo tempo, fortalecida, pela energia que concentro.
E quando volto de lá, à revelia de meu íntimo,
só um pensamento me ocorre: VIVER!
Viver intensamente a ESPERANÇA
e nunca, nunca permitir que as agruras deste tempo
demovam de mim a fé em, um dia, despertar
nesse mundo bem melhor!

Isabel Pakes

 

 

 

Prece


Senhor, dá-me do pão,
o alimento para o corpo.
Sobretudo, dá-me do Pão,
o alimento para o espírito.
E dá-me em abundância
porque meu espírito não se farta.

Isabel Pakes

 

 

 

 

LIVRO DE VISITAS