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SEBO LITERÁRIO
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Isabel Cristina Silva Vargas |
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CONTOS
Pág. 6 de 7
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Olha
o
trem...
Mais
um
dia
estava
começando.
Uma
jornada
de
trabalho
findando.
Estava
cansado.
A
noite
fora
longa.
Maio
é um
mês
que
o
frio
e a
umidade
da
região
já
começam
a
formar
denso
nevoeiro.
Não
gosto
de
nevoeiro.
Encobre
tudo
ao
redor.
O
céu,
as
estrelas,
a
lua
e
até
os
pensamentos.
O
cérebro
parece
que
esvazia,
o
barulho
da
máquina
vai
tomando
conta
e
nos
hipnotizando.
Aí
complica.
Não
dá
para
dormir.
Como
deixar
40
vagões
carregadinhos
de
cimento,
madeira,
cerâmica,
mais
os
tanques
de
combustível
ser
guiado
por
um
quase
moribundo?
Era
assim
que
me
sentia
quando
o
sono
chegava
e
não
podia
deixar
que
ele
se
instalasse.
Sempre
fui
um
bom
maquinista.
Atento,
pulso
firme,
responsável,
cordial
com
os
colegas
na
companhia.
Afinal,
era
um
bom
emprego.
Federal,
com
regalias,
boa
aposentadoria.
E
ela
já
se
aproximava.
Contava
os
meses
que
faltavam
para
chegar
e
ser
a
companheira
de
lazer,
nas
pescarias,
nas
viagens
sem
preocupações
para
o
resto
da
vida.
Estes
pensamentos
até
me
deixava
mais
esperto,
apesar
da
sonolência
que
permanecia.
Já
estava
próximo
da
penúltima
estação.
Mais
um
cruzamento
e já
estaria
lá.
No
tempo
dos
passageiros
ali
pegava
muitos
estudantes
que
iam
estudar
na
cidade.
Levantavam
muito
cedo
os
coitadinhos.
Tinha
até
criança
de
seus
13
anos
que
iam
até
a
estação
em
Pelotas
e
depois
caminhavam
até
o
colégio
em
diferentes
pontos
da
cidade.
Atualmente,
o
que
ocorria,
de
vez
em
quando,
embora
fosse
proibido,
era
dar
uma
carona
para
alguém
conhecido
que
se
empoleirava
junto
na
cabine.
Hoje,
para
tirar
o
sono,
bem
podia
ter
sido
um
desses
dias.
O
trem
estava
se
aproximando
da
casa
de
pedra
junto
aos
trilhos,
bem
no
cruzamento.
Ali
estava
ela.
O
apito!
Devia
ter
apitado
antes.
Não
podia
vacilar.
Está
certo,
era
cedo.
Não
havia
movimento
no
cruzamento
esta
hora,
mas
o
sinal
é
obrigatório.
As
árvores
nas
proximidades
dos
trilhos
atrapalham
a
visão
dos
que
passam
naquele
ponto.
Gostava
de
cumprir
à
risca
as
regras
de
segurança.
Devia
apitar
bem
antes
para
sinalizar
que
se
aproximava.
Na
próxima
jornada
tomaria
mais
cuidado.
Iria
levar
mais
café.
Um
rádio
de
pilha,
embora
gostasse
do
papo
interior
desenvolvido
na
cadência
do
trem.
Era
como
se a
máquina
colocasse
seus
pensamentos
no
rumo
certo.
Nos
trilhos,
como
se
costuma
falar.
Desta
vez,
porém
foi
diferente.
Os
pensamentos
saíram
dos
trilhos.
Só
foi
possível
perceber
quando
arrastava
metros
à
frente,
o
carro
que
não
ouviu
o
apito
do
trem
e
atravessou
os
trilhos...
Isabel
Vargas
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Penitência
Clarinda é uma
mulher bonita.
Deve ter uns
quarenta e
poucos anos.
Estatura
mediana, corpo
bem feito, nem
gorda ou magra,
curvilínea,
cabelos bem
curtinhos, pele
morena do sol,
que ela apanha
em sua caminhada
diária, por todo
lugar, a
qualquer hora,
geralmente na
área central da
cidade.
A boca sempre
pintada. Único
indício de sua
vaidade. Anda
sempre
arrumadinha.
Quem a vê
circulando pelas
ruas da cidade
não imagina que
tenha alguma
aflição a lhe
atormentar a
alma. Sua face é
tranquila..
Talvez possam
imaginá-la uma
aspirante a
atleta em fase
de treinamento
intenso, pois
anda sempre pelo
meio da rua.
Também pode ser
que precise se
exercitar
bastante por
questões de
saúde. Na
calçada ninguém
a vê nunca.
Seu vai-vem
diário tem
algumas paradas
com hora e local
certo. Nas
igrejas,
centrais e em
horários de
missa.
Chega um pouco
mais cedo. Ali
ela começa os
preparativos.Não
são muitos, mas
significativos.
Mostram respeito
na indumentária,
devoção na face.
Se está de
bermudas, veste
uma saia
discreta ou uma
calça longa. Ali
mesmo, na frente
do templo..
Antes do início
da missa ela
coloca um véu
branco que lhe
cobre a cabeça,
desce pelos
ombros e cai até
o joelho. Segura
o véu com as
mãos que juntas
próximo ao peito
completam o
visual da Maria
que ela carrega
dentro de si e
expande no olhar
em cada reza,
canto ou ato
penitencial. No
ofertório a
oferenda é o
sofrimento
diário para ver
se tira de cima
dos ombros um
pouco da dor que
leva consigo
desde que sua
linda menina de
cabelos negros,
cheios de cachos
que lhe caíam
nas costas foi
atropelada por
um motorista
bêbado que subiu
na calçada. É
ela que Clarinda
coloca nos
braços da Virgem
toda vez que se
ajoelha lá na
frente do altar
e estende os
braços
fervorosamente.
Isabel
Vargas |
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Percepção
Fui passar o
final de semana
fora. O mais
interessante de
tudo: sozinha.
Precisava
respirar.
Sentia-me
sufocada com
tanta exigência
por parte dos
que me cercam.
Nunca tinha
feito isto.
Estava feliz e
temerosa. Como
me sairia? Seria
uma pequena
prova do que é
viver só. Queria
sentir o
gostinho da
liberdade. Ou da
solidão.
Não seria mais
do que um final
de semana.
Almocei no
restaurante que
me pareceu
satisfatório.
Bonito, boa
clientela, as
pessoas falando
discretamente.
Não gosto de
pessoas falando
alto nem
gesticulando em
excesso.
Procurei uma
mesa de canto,
com boa
visibilidade
para o
restaurante e
para a rua, que
eu podia ver
através da
grande janela.
O almoço se
desenrolava
tranquilamente.
Depois iria
caminhar para
rever a cidade
que me encanta.
Lojas, cinemas,
galerias, teatro
estavam
incluídos em meu
roteiro de final
de semana. A
ordem não
importava.
Queria
aproveitar tudo.
Meu desejo
secreto:
redescobrir meus
gostos,
recuperar
recordações de
outrora,
reencontrar a
jovem de 20 anos
atrás. Quem sabe
resgatar sonhos
que se perderam.
Algo inusitado
aconteceu.
Na mesa à minha
direita percebi
alguém que
parecia
familiar. Não
lembrava quem
era, se
personagem de um
livro ou de um
filme. Talvez
ambos.Era
bonita, com ar
requintado,
gestos comedidos
e sorriso
controlado. O
olhar era
distante, como
de quem sonha.
O homem ao lado,
cortês, amável,
solícito, não
deixava espaço
para ela
respirar, viver,
desenvolver-se.
Dava-me a idéia
de um cão a
lamber seu dono.
Era como se
adivinhasse o
que ela iria
fazer e se
antecipava.
Atitude
castradora.
Soterrada em
meio a tanta
gentileza ela
parecia
sentir-se livre
nos pensamentos.
O garçom
dirigiu-se a ele
como Dr. Carlos.
Ele tratava a
esposa pelo
nome: Emma.
Descobri quem
eram. Não
conseguia
acreditar
naquela
materialização.
Eu devia estar
doente.
Parecia uma cena
real.
Tive vontade de
me dirigir a
eles. Perguntar
a ela inúmeras
coisas. Se me
respondesse
talvez suas
respostas me
auxiliassem, mas
também poderia
desaparecer.
Isabel
Vargas |
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Percepções
Bia
era
uma
criança
linda.
Cabelos
dourados
que
os
dias
cinzentos
não
tiravam
o
brilho.
Nos
olhos
via-se
o
céu,
mesmo
que
em
meio
às
mais
barulhentas
trovoadas.
Ela
era
o
próprio
trovão.
Sempre
alegre,
inquieta
e
inventando
histórias.
Não
aceitava
palavra
dada,
principalmente
se
fosse
um
não.
Autoridade
para
ela
era
coisa
para
contestar.
Nada
a
assustava.
A
imaginação
excessiva
equilibrava
a
falta
de
brinquedos,
de
bens
materiais.
Por
ser
imaginação
não
tinha
limites.
Nem
para
pensar
coisas
boas
e
outras
não
tão
boas.
As
travessuras
eram
o
que
dava
alegria
a
sua
vida.
Um
pouco
mais
tarde
as
fugas
da
aula,
Depois
fumar
escondido.
O
escondido
dava
mais
encanto
e
sabor.
Mesmo
as
coisas
mais
banais
necessitavam
ter
um
acessório
diferente.
Deixavam
de
ser
banais
para
terem
aspecto
de
aventura.
Só
que
ela
criava
tanto
que
essas
invenções
a
faziam
sofrer,
pois
não
sabia
o
limite
entre
ficção
e
realidade.
Mas
adianta
dizer
para
alguém
que
as
coisas
não
são
exatamente
como
ela
imagina,
como
criou
ou
como
sentiu?
Essas
percepções
marcam
a
alma
e
dificilmente
alguém
de
fora
conseguirá
transformar
essas
recordações,
senão
quem
as
criou.
Há
ocasiões
que
marcam
também
o
físico.
E aí
é
mais
difícil
alterar.
Quando
pequena
teve
varíola.
Doença
séria.
Perigosa.
Precisava
ser
comunicada
à
autoridade
sanitária
da
cidade.
Resultado:
Isolamento.
Distância
da
família.
Não
importava
se
criança
ou
adulto.
Era
questão
de
saúde
pública.
O
médico
da
família-
naquela
época
tinha
isso,
mesmo
que
não
houvesse
dinheiro
para
pagar
na
hora-
ficou
penalizado
com
a
situação
da
criança
e da
família
por
quem
nutria
afeição.
Então
ordenou:
-
Que
ninguém
saiba
disso.
Isolamento
em
casa.
Só
uma
pessoa
para
atendê-la.
Afastamento
total
de
outras
crianças.
Outro
conselho:
-
Escondam
os
espelhos.
Geralmente,
o
aspecto
ficava
muito
feio.
A
criança
poderia
se
assustar
com
a
própria
aparência.
Outro
detalhe
importante.
Não
poderiam
deixar
que
ela
coçasse
as
bolhas
ou
arrancasse
as
cascas.
Causariam
lesões.
Que
caíssem
ao
natural.
Assim
foi
feito.
Todos
entenderam.
Menos
ela.
Decorridos
mais
de
quarenta
anos,
surpreende
a
todos,
em
uma
conversa,
ao
dizer
que
fora
abandonada
por
todos
na
infância,
na
época
da
enfermidade
e
que
um
requinte
de
crueldade
da
família
fora
deixar
espelhos
guardados
na
gaveta
do
quarto.
Quando
ela
os
achou,
não
conseguia
se
reconhecer
naquele
espelho,
pela
deformação
(temporária),
mas
que
para
ela
durou
uma
vida
inteira.
As
explicações
gerais
não
a
convenceram.
Quando
se
olha
no
espelho,
as
marcas
estão
lá
para
reforçar
que
tudo
que
sentira
era
muito
real.
Isabel
Vargas |
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Relação
fatal
Floriano
considerava-se
uma
pessoa
afortunada.
Conseguira
muitas
bênçãos
na
vida.
Assim
ele
se
referia
às
realizações
pessoais-afetivas
ou
profissionais.
Nascera
em
família
humilde
com
muitos
filhos
e
firmes
orientações
sobre
dever,
honra,
dignidade
e
respeito.
Foi
sobre
estes
pilares
que
alicerçou
sua
vida.
Casou,
teve
filhos,
educou-os
com
os
mesmos
preceitos
que
lhe
foram
passados
pelos
pais.
Era
construtor.
Orgulhava-se
de
sua
profissão.
Com
as
sólidas
bases
que
edificou
sua
trajetória
de
vida
também
erguia
as
casas
que
para
ele
significam
mais
do
que
uma
simples
moradia,
mas
a
materialização
dos
sonhos
de
muitas
pessoas,
em
cujos
espaços
eram
fortificados
laços
de
amor,
respeito,
solidariedade.
Lares
onde
desejava
que
as
pessoas
fossem
felizes.
Ele
mesmo
erguera
o
seu
onde
foi
possível
ver
os
filhos
crescerem
com
saúde,
tornarem-se
adultos.
Orgulhava-se
dos
filhos
e
das
profissões
escolhidas.
As
duas
filhas
professoras,
o
filho,
advogado.
Aos
sessenta
anos
ficara
viúvo.
Um
câncer
roubou-lhe
a
esposa
deixando
só,
após
um
período
de
intenso
sofrimento.
Acreditava
que
sua
vida
havia
chegado
ao
fim,
que
seu
ciclo
estava
completo
e
nenhuma
novidade
aconteceria.
Com
essa
convicção
seguia
sua
rotina
diária,
e
como
era
muito
religioso,
sempre
agradecendo
pela
vida
e
por
tudo
que
havia
conquistado
e
até
pelos
maus
momentos,
ciente
de
que
a
vida
apresenta
diversas
facetas.
Próximo
de
completar
70
anos
conheceu
uma
pessoa.
Uma
mulher
de
40
anos,
solteira.
Não
lhe
havia
passado
na
cabeça
a
idéia
de
tornar
a
casar-se.
Com
o
incentivo
de
familiares
foi
procurá-la
e em
menos
de
um
ano
estavam
casados
No
civil
e no
religioso.
Senta-se
revigorado.
Passou
a
interessar-se
pela
vida.
Viajavam,
tiravam
férias
no
Uruguai
a
cada
final
de
ano.
Visitavam
sua
filha
que
morava
em
outra
cidade,
passavam
temporadas
fora
de
casa.
Passara
a
ter
medo
da
rotina.
Sentia-se
feliz.
Todos
haviam
aprovado
sua
decisão.
Tinham
uma
relação
familiar
sólida.
Para
ela,
que
já
se
julgava
condenada
à
solidão
para
o
resto
de
sua
vida,
encontrá-lo
tinha
sido
uma
grande
sorte.
Podia
desfrutar
de
prazeres
que
sua
condição
financeira
na
permitia,
pois
trabalhava
como
balconista
para
sustentar
a si
e a
mãe
velha
e
doente.
Viveram
juntos
por
dez
anos.
Ela
ficou
viúva
aos
cinqüenta,
quando
o
coração
octogenário
de
Floriano
não
resistiu
ao
esforço
de
uma
noite
de
amor.
Ele
morreu
feliz,
ela
viveu
o
resto
de
sua
vida
lamentando
a
falta
dele.
Isabel
Vargas |
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Livro de Visitas

Para
pág.
7 |
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