SEBO LITERÁRIO

 

 

Isabel Cristina Silva Vargas

 

 

 
 
CRÓNICAS
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Raio x social
Isabel C. S. Vargas


A violência e a insegurança são características da sociedade atual, não só nos grandes centros urbanos como em cidades de porte médio.
Constatam-se episódios de violência gratuita no âmbito familiar, escolar, na comunidade em geral, nas periferias mais empobrecidas e até nas zonas mais distantes como na zona rural.
Verifica-se intolerância, preconceito, discriminação, banalização da violência contra a mulher, crianças e idosos retratados na mídia.
A delinqüência juvenil já atinge camadas de idade muito inferiores às que atingiam antigamente, tanto que se intensificam discussões sobre redução da maioridade penal.
O que fazer para tentar inverter este quadro caótico de destruição da família, desrespeito aos seres humanos, às minorias, de destruição do meio ambiente, da falta de responsabilidade social de alguns segmentos da economia, de ausência de políticas públicas mais eficientes para resolver os problemas de saúde, de erradicação do analfabetismo, do trabalho infantil, de acesso dos jovens ao mercado de trabalho, da garantia de um trabalho digno para todo cidadão, para a valorização e inserção dos idosos na sociedade, para possibilidade de acesso à escola pública por aqueles que estão à margem da educação, tanto jovens quanto adultos? Pois não vejo saída a não ser através da educação, mais precisamente da Educação em Direitos Humanos desde a mais tenra idade, para que se modifiquem mentalidades, se valorize mais o ser humano, independente do seu aspecto físico, da cor de sua pele, da religião que professe, da sua ideologia política, opção sexual ou condição sócio-econômica. É educação para a tolerância e aceitação da diversidade.
Tem que haver, sobretudo, coerência entre a concepção individual e a prática diária, quer no âmbito da família, no ambiente profissional e nas relações sociais. É importante preparar gestores, professores, servidores para que se invista a curto, médio e longo prazo na reversão do quadro de exclusão senão como será o futuro das famílias à margem do consumo, da escola e dos bens materiais mínimos para a garantia de uma sobrevivência digna e não humilhante ou ultrajante como de muitos que convivem com animais na disputa diária por um resto de alimento. Que futuro teremos se não mudarmos totalmente os paradigmas de uma infância e adolescência que convivem em um ambiente que banalizou a violência, a morte, a corrupção, a destruição dos valores morais e éticos, que são sustentáculos de uma sociedade organizada.
É necessário persistir na transmissão, vivência, e incorporação de princípios básicos para o exercício de uma cidadania plena e preservação da liberdade, proporcionando a cada um, desde cedo a livre manifestação de sua opinião, sem que para isto seja necessário violência, confronto e desordens, que podem servir de pretexto para a instauração de meios cerceadores desta liberdade, usados em tempos não muito distantes e que ainda hoje, em algumas situações parecem institucionalizados na medida em que se mascaram situações, distorcem-se fatos, subestimando a inteligência e compreensão do cidadão comum. Comum mas não simplório ou ingênuo.
Esta educação a que me refiro passa pela reafirmação de valores transmitidos inicialmente na família, reforçados na educação formal, na convivência social, além do reconhecimento de sua significativa importância para a valorização do ser humano, aceitação das diversidades e formação integral das futuras gerações que necessitamos seja capaz de restabelecer na sociedade a equidade, a justiça e a paz.

 

Reconquista de si mesmo
Isabel C.S.Vargas


A partir de uma correspondência recebida, na qual a pessoa falava sobre as pessoas que sofrem de solidão afetiva, surgiu-me a idéia de escrever sobre isto, sempre com o intuito de ajudar às pessoas.
Não sabia como começar. Como em outras ocasiões, durante minha caminhada recordei-me de um fato: Certa ocasião, há mais de dois anos, assisti uma entrevista de uma pessoa que escrevera um livro relatando sua experiência de vida.
Ela conseguira emagrecer 61k, sem cirurgias, só com tratamento. Estava muito bem, mantendo-se saudável já há cinco anos.Na época, pensei, que se ela tinha conseguido aquele feito eu também poderia conseguir. O que a fizera obter aquele resultado não era o fato de ter posses, de ser rica, mas algo dentro dela a levara a lutar pelo que desejava.
Ela acreditara em si mesma, em sua força, em seu potencial.
Aquilo me ajudou e iniciei minha empreitada pessoal. Busquei força, fé, coragem, determinação dentro de mim.Recuperei minha auto-estima, acreditei em mim.
Vejo que a baixa auto-estima ou a ausência dela é um dos fatores que podem levar as pessoas ao desânimo, à solidão, pois elas não se julgam merecedoras de sentimentos bons, de afeto, de atenção, nem de si mesmas, quanto mais das outras pessoas. Então, o primeiro passo é acreditar que todos tem condições de se desenvolverem, enfrentar dificuldades, realizar suas potencialidades, concretizar seus sonhos, superar seus medos, inseguranças e estabelecer relações pessoais satisfatórias, enriquecedoras , prazerosas, superando a depressão.
Ter sentimentos negativos faz parte da vida, mas isto não pode nem deve ser uma constante, nem podemos sucumbir a eles, deixar que dominem nossa mente, e nos torne pessoas engessadas, sem possibilidade de movimento e de ascensão.
É preciso desenvolver o respeito por si mesmo, atender às próprias necessidades, sem que isto implique em egoísmo, nem em infringir os limites ou direitos alheios, mas reconhecer os próprios limites e valores, buscando sempre o aperfeiçoamento como ser humano. Isto ocorre depois de um reconhecimento interior.Com o interior sereno, torna-se fácil buscar o que está fora de si mesmo.Como diz C.G.Jung, “Quem olha para dentro acorda.”
icsvargas@gmail.com

 

 
 

Simplesmente mulher
Isabel C. S. Vargas


Desejo falar sobre a mulher, inspirada numa cena do cotidiano. Vi uma feirante, em cima de um caminhão, esforçando-se para soltar a lona de sua barraca, em final de feira, sábado à tarde. Era de idade madura, traços orientais e delicados. Ao vê-la logo me ocorreu como deveria ser extensa sua jornada. Acordar de madrugada, adquirir os produtos no atacado, carregar, armar a barraca no local habitual, atender a clientela, certamente de forma atenciosa. Após o encerramento todo o trabalho de novo até chegar a casa e descansar. Sem medo de errar, umas 10 horas consecutivas de trabalho.
Desde o massacre de Nova Iorque em 08 de março de 1857 data que depois foi convencionada de se comemorar o Dia Internacional da Mulher até a presente data muita mudanças e conquistas ocorreram.
É incontestável a presença marcante das mulheres em todos os segmentos produtivos da sociedade quer como profissionais liberais ou como colaboradoras nas mais diversas atividades, não só naquelas tidas como específicas pata mulheres, pois estas já desbravaram caminhos, abriram oportunidades para todas as que as seguiram.
A família e a sociedade mudaram com o trabalho da mulher, com sua ascensão profissional, o que inclui na bagagem uma dupla jornada e muitas vezes uma boa dose de culpa por sair de casa e deixar os filhos entregue a familiares ou a terceiros.
Ao escrever, desta vez desejo fazê-lo para aquelas que ainda não conseguiram se libertar de uma carga culturalmente muito pesada, que as massacra e mantém, via de regra, na mesma situação daquelas que as geraram, sem ter havido modificação na escala social, pelo que ainda hoje não vêem diante de si perspectivas de mudança.
Penso naquelas que ainda permanecem analfabetas e que por isto mesmo passam ao largo da inclusão social, nas sem trabalho, naquelas que, mesmo tendo escolaridade que lhes permitiriam prover seu sustento, não o fazem, por falta de oportunidades nesta sociedade extremamente competitiva e excludente; naquelas que permanecem sob o jugo de pais ou maridos que não permitem que elas trabalhem por preconceito, ignorância, discriminação ou simples insegurança.
Aplaudo nesta data, aquelas que trabalhando em atividades consideradas subalternas, sem maior grau de escolaridade também conseguem desempenhar múltiplos papéis, manter suas respectivas famílias, formar filhos em universidades, sem terem as compensações que aquelas de postos mais altos têm, como oportunidades de lazer variadas, viagens de férias em praias, atividades culturais, pois os parcos recursos que dispõem são para o sustento de filhos, pais idosos, marido enfermo além de outros familiares não enfermos, mas excluídos do segmento produtivo.
Este texto é para a senhora da feira, para a do cafezinho, da faxina, para a cozinheira, para a que trabalha de gari, para a dona de casa e outras tantas, como a comerciaria, a manicure, a florista, a ambulante, tão mulheres quanto às demais e que levam uma vida aparentemente sem glamour, levantando às seis horas da manhã fazendo um trabalho sempre igual.
A sociedade é uma engrenagem (que pode ser cruel) que necessita de todas as peças para funcionar, portanto, todas investidas de valor.
Não seria justo esquecer daquelas que mesmo sob a vigência da Lei Maria da Penha continuam a ser agredidas.
É importante que o círculo de exclusão seja rompido e que aquelas inseridas naquele segmento da sociedade sem oportunidades, quer pelo fator econômico, social, cultural por questões relativas à etnia ao gênero, ao credo ou diversidade sexual consigam acesso a melhores condições não só de sobrevivência, mas de vida digna que possam romper os paradigmas determinantes desta condição, de modo que seus filhos não repitam este estigma e sejam portadores de novas esperanças e de um novo futuro.

 
 

Sinais da modernidade
Isabel C. S. Vargas


Na época atual tudo se processa de uma maneira muito rápida. Os meios de comunicação transformaram o mundo em uma aldeia na qual se sabe instantaneamente os acontecimentos do outro lado do planeta. As novidades surgem e logo são suplantadas por outras numa grande velocidade. Tudo é imediato, consumível, descartável.
As relações humanas também foram extremamente influenciadas pela modernidade. Os relacionamentos parecem efêmeros.
Muitos jovens casam com a perspectiva de separação, se não der certo. Ambos são facilmente assimilados e possíveis de acontecerem sem traumas. É evidente que são casos fáceis de serem encontrados, porém não é possível generalizar.
Os sentimentos passaram a ter esta característica de transitoriedade, como qualquer objeto de consumo. Fugaz. Descartável. Facilmente substituído.
Parece que todos estão numa eterna busca por algo novo, atual.
Assim é a regra do jogo. Se não agem assim estão por fora, desatualizados.
Se um jovem (e até os não tão jovens, os mais maduros, diria) lesse um livro como O Amor nos tempos do cólera de G. G. Márquez não chegaria ao término e certamente o acharia uma loucura. Numa época de relacionamentos tão instantâneos, alguém permanecer amando outra pessoa por mais de cinqüenta anos, para só então ficarem juntos, pode parecer coisa de doido, ou ficção já que a realidade é de muito desamor e violência.
Hoje a vida, as relações mudaram muito em comparação às décadas passadas. Como em qualquer situação, se ganha em alguns aspectos, perde-se em outros.
Pode ocorrer que a mudança, em algumas situações seja apenas quanto à apresentação, à forma, ao aspecto exterior, sendo a essência mantida.
A época atual caracteriza-se pelo “amor urgente”. Todos têm pressa e um pouco de medo, como se o trem fosse passar e temessem nele não embarcar. Tudo é executado com à imagem de uma estrela cadente. Surge inesperadamente, causa um encantamento momentâneo e logo se desfaz, vira um nada, sem perspectiva e sem futuro. Dá até para duvidar se realmente aconteceu.
É necessário perceber que os sentimentos precisam de solo fértil e tempo para desabrocharem e se desenvolverem. A semente mal plantada pode não vingar. É uma promessa que não se concretiza.
É necessário paciência, observação, tempo para se conhecer, tempo para amar, pois só se ama aquilo que se conhece se admira e / ou que tem o poder de “encantar e seduzir”.
Concluindo as manifestações do amor e a maneira como a relação se processa podem estar diferentes, mas parece que a busca desenfreada pelo amor, pela companhia, pela felicidade é a mesma.
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Livro de Visitas

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