A ALMA DA ZEZÉ
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
Por um segundo a alma de Zezé se perdeu. Foi
tudo muito rápido e também muito esquisito. Deitou-se após o almoço, como já se
habituara a fazer naqueles dias de férias, na casa da filha e então teve um
enfarte fulminante e morreu. Até aí nada demais. É o melhor jeito de morrer,
pensava a alma de Zezé. O duro foi saber onde estava.
Se tivesse morrido em sua casa, em S. Paulo, e começasse a subir por aquela
manjadíssima paisagem urbana, tudo bem. Mas morrer naquele faroeste
tupiniquim... Ora essa, hein meu Deus, e agora? Ia dar um trabalhão pra família,
botar o corpo num avião, voltar...
"Avião! --pensou ela-- Pronto! Obrigada meu Deus, agora já sei como voltar."
Assim, a alma de Zezé forçou-se a ir descendo lentamente, com o único objetivo
de localizar o aeroporto e poder seguir o avião que traria seu corpo de volta ao
lar. Ah... ali estava, aquela pista longa, a oeste, só poderia ser o
aeroporto...
Zezé sempre fora uma mulher esperta. Com uma sobrevoadazinha, já descobrira qual
era a aeronave que transportaria seu corpo, pois pode ver na mão de um
funcionário do hangar da VARIG o recibo de transporte de carga e o seu nome na
linha principal. Assim, aboletou-se sobre a asa esquerda do Boeing dizendo-se
intimamente "daqui não saio, daqui ninguém me tira".
Este negocia de morrer não é tão ruim como parece-- refletia a alma de Zezé--
muito embora seja extremamente inquietante um dos primeiros aspectos da morte: o
absoluto silêncio.
A alma de Zezé podia ver tudo, podia deslocar-se pelo espaço com uma mobilidade
e uma rapidez espantosas, mas nada ouvia." Ou a alma não tem ouvidos, ou o som
não existe" -- concluiu Zezé. O fato, porém, é que o silêncio, depois da vida
barulhenta que seu corpo levara, pesava muito.
Bom, pensou Zezé, cá estou eu em cima deste avião. Sem ele, talvez eu nunca
descobrisse o caminho para S. Paulo. Assim, pronta para uma longa espera (Zezé
sabia que sua filha, em cuja casa morrera, ia ter um trabalhão para providenciar
todas as coisas, as malas, vestir os sobrinhos que também estavam lá de
férias...).
"Ah... Eu não queria dar todo este trabalho pra elas...".
Observando, como sempre fizera em vida, o movimento das pessoas pelo aeroporto,
Zezé nem sentiu o tempo passar. De repente, o avião estava para partir. Zezé viu
sua filha.
"Graças a Deus, a menina é forte, providenciou tudo, lá vem ela, digna e bonita
como sempre, puxando pelas mãos os sobrinhos...”.
Neste momento, Zezé sentiu outro desagrado em relação à morte. Até aquele
instante, não se dera conta de que ela própria, Zezé, não estava mais ali...
Sim, para todos aqueles seres que zanzavam pelo aeroporto, ela, Zezé, primeira e
única, era apenas um corpo sem vida, um cadáver, um presunto, algo que viajaria
dentro de uma caixa fechada, num bagageiro de avião...
Não que a Zezé-alma se importasse com isso... Um corpo sem alma é como uma casca
de árvore, já diria o Pequeno Príncipe. Mas o que passou a incomodar, era o fato
de que, sendo apenas alma, teve a súbita e dolorosa consciência de que, além de
não poder ouvir, não poderia mais se comunicar.
A alma de Zezé foi tomada por uma ternura melancólica. De repente, viu-se dentro
do avião, ao lado de uma filha cansada, mas firme. Lembrou-se então, numa fração
de segundo, de todas as suas noites de mãe, todos os seus momentos de
preocupação com aquela menininha que saíra um dia daquela sua barriga e que hoje
era uma mulher feita, realizada, forte.
Zezé sentiu um grande orgulho da filha, dos netos, de toda a sua vida... Uma
coisa grande e forte, uma certeza do dever cumprido...E percebeu mais uma coisa
importante sobre a morte:
Não estava sozinha, em seu silêncio e em sua ternura dolorida... Sentiu outras
mentes no ar e entendeu que, agora, sua alma seria parte destas outras mentes e
que, mais uma vez, poderia saber tudo, decifrar todos os mistérios, entender
todos os Universos...
Então voou.
Que tola fora em pensar que precisaria de um avião... Ela agora era uma alma,
livre, onipresente. Estaria onde a sua consciência o determinasse. E compreendeu
também que, estivesse onde estivesse, seus pensamentos sobreviveriam através dos
pensamentos de todos aqueles que foram tocados pelo seu amor em vida. Lá estava
S. Paulo, lá estava sua casa. Bastava pensar, e lá estava.
Subitamente em paz, a alma de Zezé virou as costas à vida na terra e partiu,
deslizando pelo espaço, brincando com cometas, rumo à existência fora dos
corpos. Então soube que já fizera esta jornada outras vezes, que já vivera e
morrera outras vezes e que seria sempre deste jeito. Seu dever de alma, agora,
era partir. Não se lembrava muito bem para onde, mas sabia que estava a caminho
e que assim estaria até o renascer.
ISABEL
de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
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