PARTIDA
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
Não, não era com tristeza que vestia a roupa
mais bonita, arrumava o cabelo, o rosto limpo, a expressão leve, quase feliz.
Comprava flores. Mas roubava sempre mais algumas, se houvesse, pelo caminho.
Levava também sementes e ia, a pé, tentando encontrar-lhe a lembrança pelas
ruas, na explosão barulhenta da vida na cidade.
Cruzando os portões, refletia: talvez aquele fosse ainda um dos poucos lugares
onde a terra estivesse realmente viva, dentro da cidade. Apesar de já ter sido
invadido pelos que não tinham onde viver e procuravam abrigo nos túmulos; apesar
da frieza dos mármores e das estátuas suntuosamente ridículas.
Afinal, encontrava-o num canto simples, próximo a um dos muros da rua, quase
sufocado entre os prédios da avenida, mas ainda recebendo sol suficiente para
fazer brotar-lhe as plantinhas.
Sabia das horas, poucas, em que o sol batia sobre ele.
Sabia do cheiro e da consistência da terra, que ela revolvia todos os dias.
Naqueles três metros de terra, plantava flores. E, trabalhando a terra, chegava
quase a sentir, dele, novamente a pele, como tantas vezes na vida a sentira.
Neste dia, subitamente, apercebeu-lhe a ausência.
Aconteceu logo ao aproximar-se das flores. Uma estranha brisa. Uma borboleta
amarela em fuga. A ausência dos pássaros. Nenhum perfume no ar.
Assustada, olhou em torno. Algo mudara. Ele se fora. Não estava mais sob aquela
terra, não mais flutuava entre os galhos das velhas e secas árvores, não mais
brincava se esconder-se entre as estátuas, não mais lhe sopraria as pétalas das
flores.
Ela sentiu frio. Depois se percebeu estranha naquele mundo de pequenas flores e
grandes estátuas e monumentos, mármores e concretos. Suspirou. As mãos penderam
suavemente, o corpo relaxou, os músculos se distenderam, a alma se anuviou.
Subitamente livre, atravessou de volta os portões, sem olhar para trás e pela
última vez.
ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO
![]()