OBJETO VOADOR NÃO IDENTIFICADO

 

 

OBJETO VOADOR NÃO IDENTIFICADO


ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO



Quando o menino Janjão percebeu que aqueles calombos em suas costas não se transformariam, como previa e temia, em uma feia corcunda, tratou de esconder bem o seu segredo. Roubou da casa da Candinha, a mais famosa prostituta local, um espelhinho desses de feira e guardou-o num canto da praia, entre umas pedras. Era pra lá que ia, na maré vazante, espiar o desenvolvimento de suas asas.
Janjão sabia que teria problemas incríveis se as outras pessoas soubessem de sua deformidade (ou de sua bênção?). Bobo ele não era. Vira mesmo na TV uma história de um homem com asas, um homem bom, que amava os passarinhos. Por isso não estava tão assustado: ele também seria, um dia, um homem bom.
Na pequena cidade onde vivia, porém, os riscos seriam muito graves para alguém como ele. Seus pais mesmo, não hesitariam em vendê-lo ao primeiro dono de circo mambembe que aparecesse. Afinal, eram sete irmãos e muito pouca comida.
Por estas e outras, guardava o seu difícil segredo.
É bem verdade que o fato de ter consciência de não ser o único ser humano a ter asas (e aqui Janjão reconheceria o valor da TV) fazia com que encarasse com mais naturalidade esta insólita condição. No entanto, como escondê-la dos amigos, das famílias? A mãe, por exemplo. Com esta era o diabo! Vivia a resmungar que aquele menino, debaixo de um sol de melar coco, não tirava nunca o casaco e dera para andar meio torto, encurvado, uma loucura, um disparate, tivesse dinheiro o levaria a um doutor de cabeça.
Para a sorte de Janjão, seus outros seis irmãos e as lidas da casa não deixavam muito tempo para que a mãe se dedicasse ao que ela mesma chamava de esquisitices desse menino.

Certa tarde, porém, quase um ano depois do aparecimento de suas primeiras penas, Janjão percebeu que não mais seria possível esconder o seu segredo. Trocara as penas nas últimas semanas e, afastando-se um pouco do pequeno espelho, tinha visão parcial das grandes proporções que o seu problema vinha assumindo. Percebeu que podia mover com naturalidade as asas, assim como movia os braços. Abriu-as e, voltando à cabeça por sobre os ombros, sentiu o peito inflar-se de orgulho: que belas asas possuíam! Macias como seda, coloridas como o mais belo crepúsculo!
Durou pouco esta alegria. Um problema prático e urgente se apresentava: mesmo amarradas com cordões engenhosamente enrolados pelo tórax, as asas agora constituíam um indisfarçável volume, ainda que sob o mais largo casaco.

Escondido entre as pedras, Janjão pensava. De repente, tivera a triste consciência do que seria sua vida dali em diante. Primeiro, o circo. O repúdio das mulheres, o medo, a estranheza estampada nos olhos, nos rostos de todas as pessoas; os vôos entre os estreitos limites da lona... ele, que mesmo antes da primeira tentativa, já se sentia capaz de dominar grandes, incomensuráveis espaços... E, por fim, talvez mesmo ser exibido naquele programa semanal de televisão, especializado em aberrações. Mas... não, não se sentia uma aberração. Que diabo! Poderia até ser útil um homem capaz de voar. E, examinando as possibilidades práticas da prestação de serviços à comunidade, Janjão concluía que muito parca seria a sua utilidade. Aviões de todos os tipos e tamanhos já tinham sido inventados. Helicópteros. Nem mesmo em caso de incêndio: asas eram altamente inflamáveis. Bolas! Nem pra super herói ele serviria? Seu destino teria que ser mesmo o de coisa rara, atração de circo e TV, para depois certamente virar objeto de estudo em algum laboratório asséptico de cientistas frios e terminar seus dias em algum zoológico infecto e degradante, onde crianças lhe atirariam amendoins, pipocas e outras coisas menos agradáveis. Ah! O que fazer?
Absorto em seus problemas, não percebeu passos que se aproximavam por sobre as pedras. Assustado, despertou de seus pensamentos sob uma torrente de palavras irritadas de mulher:
-- Seu moleque de uma figa! Bem que eu desconfiava que espelhinhos não tinham pernas...
Candinha calou-se de súbito ao perceber as asas de Janjão.
Este, em pânico, pôs-se a chorar baixinho.
Mas a moça, compreendendo rapidamente o drama do garoto, sentou- se ao seu lado e, entre perplexa e maravilhada, ficou longo tempo a acariciar-lhe as penas e a murmurar-lhe palavras de consolo aos ouvidos.
Anoitecia, quando pela primeira vez em sua vida Janjão possuiu uma mulher.

Na pequena cidade, o fato causou indignação. O garoto estava agora a viver na casa das putas, um rancho afastado. A mãe bem que tentou ir até lá, falar com o menino, compreender e perdoar. Mas o pai declarou que não tinha mais filho, Janjão para ele estava morto e pronto.

Assim, amado e protegido pelas moças da casa da Candinha (que já tinham escondido ali toda espécie de homem) Janjão foi vivendo uma vida tranqüila. Ajudava as moças no trabalho doméstico, plantava legumes, verduras, flores e arbustos no quintal, fazia toda a sorte de pequenos consertos e devorava todos os livros que elas conseguissem para ele. Não lhe caiu nas mãos nada sobre homens pássaros, a não ser um antigo relato bíblico. Escondendo-se de todos, passava despercebido e foi facilmente apagado da memória dos que o conheceram.
À noite é que Janjão era feliz!
Enquanto dormiam os comuns mortais e trabalhavam as meninas da Candinha, saía a voar. Fez-se companheiro das estrelas, dos fantasmas e das aves noturnas. Viu outras terras, outras gentes, outros mundos. E, ao amanhecer, voltando para casa, era o mais doce e o mais sábio dos companheiros para aquelas moças de vida solitária e difícil.

Morreu muito jovem, dez anos depois de ter se escondido.
As meninas o enterraram bem debaixo da horta, não sem antes depenarem-lhe as asas para fazer cobertas e travesseiros. Uma delas disse:
-- Morreu moço, coitado. Mas viveu a mais bela das vidas...

Foi assim que o mundo não soube da existência deste homem pássaro e as emissoras de televisão perderam a oportunidade de cobrar fortunas pela transmissão de comerciais em espetáculo tão sensacional. Quanto aos cientistas, certamente pouco perderam. Afinal, a ciência ainda quase nada sabe de poesia.
O único registro que Janjão deixou para a história foi o de certa noite de verão, ser citado num relatório confidencial da FAB como mais um Objeto Voador Não Identificado.
E, pelo que se sabe, nenhuma das crianças nascidas no rancho da Candinha apresenta, até hoje, qualquer tipo de anormalidade física.

 

ISABEL de ALMEIDA VASCONCELLOS CAETANO

 

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