MARIA JOÃO BRITO DE SOUSA

SEBO LITERÁRIO

 ARTE E POESIA

Página 7 de  7 páginas

 

O Pequeno  Mundo Dos Criadores De Afectos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SONETO IMPUBLICÁVEL

Maria João Brito de Sousa

 

Aperta o cerco, amigo, aperta o cerco
Da segurança pouco solidária
De que dependo sendo solitária,
Em que me ganho, amigo, em que me perco…

Se entendem que um poema é mero esterco
Que lhes perturba orgulho e pituitária,
É porque vão temendo a Pasionária
Que possa erguer-se em mim, quando me acerco…

Antes calar o verso! Antes morrer!
Grita o poema, mesmo antes de o ser,
Empunhando as palavras com que o escrevo...
Antes deixar, meus versos, de vos ver
Do que viver da esmola de escrever
Soneto que não pague o que vos devo…

Maria João Brito de Sousa – 18.06.2012 -22.29h

 

 

 

 

 

SONETO MAIS OU MENOS DISTORCIDO

Maria João Brito de Sousa

 

Como escrevo um soneto distorcido,
Sem eixo com que possa defini-lo,
Sem forma com que possa distingui-lo
Da prosa mais jocosa ou sem sentido?

Discorro sem que tenha prevenido
O formato, a razão… é só senti-lo
E vêm de enxurrada, ousando um estilo,
Os versos que lhe servem de vestido!

Mas se o corpo me pede algum descanso,
Se a mente me vagueia no remanso
Que o cansaço geral me vai trazendo,

Nem versos, nem canções, nem mesmo ideias…
Só este mar, correndo-me nas veias,
Responde às tais questões que nunca entendo…
 
Maria João Brito de Sousa – 11.06.2012 – 17.11h

 

 

 

 

 

 

 

SONETO PARA SAUDAR A MARÉ ALTA

Maria João Brito de Sousa

 

Por quanto tempo eu não escrevi, poema,
Teu negro nome neste azul sem mar?
Por quanto tempo, azul, sem te explicar,
Deixei que repousasse a minha pena?
 
Mas, nesta noite, acesa, a lua acena
Ao poema que em mim quis habitar
E redescubro o vértice lunar
Da velha esfera branca, acesa e plena
 
Há restos dessa luz sobre os meus dedos
Na descrição dos íntimos segredos
Dessa alquimia muda e sem origem
 
Que, sem cuidar de dúvidas, nem medos,
Movendo o imenso mar, esconde os rochedos
Do momento insondável da vertigem…
  
Maria João Brito de Sousa – 15.09.2011 – 21.28h 
In PEQUENAS UTOPIAS – Corpos Editora 2012

 

 

 

 

 

 

SONETO SOBRE TELA

Maria João Brito de Sousa

 

Perscruto estas palavras que burilo
Com olhos de embotado bisturi
Já meio gasto de medir-se aqui,
D`ir-se encontrando nisto e mais naquilo,
 
Mas nunca farta, reproduzo ao quilo
Exactamente as coisas que senti
Só pr`afirmar-vos que vos não menti,
Nem nunca poderia permiti-lo...
 
Agora as letras vão cedendo espaço
À cor das pinceladas do meu traço
E o poema, a sorrir, condescendente,
 
Exibe a cor das tintas que desfaço
Sobre os godés deste soneto escasso
Pr`a tela que se preze... ou se apresente...
  
Maria João Brito de Sousa - 12.05.2012 - 12.18h

 

 

 

 

 

 

UM LEITO NA FLORESTA

Maria João Brito de Sousa

 

Nesta quase-cidade adormecida
Onde os prédios, de pálpebras cerradas,
Choram gatos em cio, cumprindo a vida
Em muito ocasionais águas-furtadas,

Mora um estranho silêncio que, à partida,
Me embebeda em luares e madrugadas
Mas, depois, me interpela: - “Alma perdida,
Porque sonhas Floresta, olhando estradas?

Porque te deténs tu sobre o cimento
Quando um choupo te espera, já sedento,
Estendendo-te os seus ramos desfolhados?

Porque te deténs tu, porque não corres?
Numa noite qualquer, deténs-te e morres
Sem que alcances meus braços já cansados…”
 
Maria João Brito de Sousa – 22.10.2010 – 19.03h

 

 

 

 

 

 

UM SORRISO POR PORTUGAL

Maria João Brito de Sousa

 

Sorrio por esta terra que deu vida
À poesia que enche as minhas veias
Onde esta alma marítima e rendida
Se me transmuta em espuma sobre areias
 
Sorrio por este mar, pela partida,
Pela insurgência destas marés cheias
Que, inevitavelmente, dão guarida
Às naus que em mim renascem como ideias
 
Sorrio por este céu de azul vestido,
Por cada rio de prata a desaguar
No estuário de sal que lhe é devido
 
Por este manto de ouro e de luar,
Por quanto dele em mim fizer sentido
No que eu, sorrindo assim, puder criar…
  
Maria João Brito de Sousa – 10.08.2011 – 12.15h

 

 

 

 

 

 

UMA TAREFA LENTA

Maria João Brito de Sousa

 

Não tenho tempo, irmãos, que o Tempo voa…
Quem vê na Poesia distracção,
Não é Poeta e nunca foi senão
Mais um que por aí verseja à toa…
 
Lá longe, muito ao longe, o verso ecoa,
Aproxima-se mais, pede atenção
E eu sei que não lhe posso dizer não
Quando, vindo de longe, em mim ressoa…
 
Flutua e vai pousar… eu fico atenta
Esperando esse exactíssimo momento
Em que possa captá-lo e dar-lhe voz.
 
Pode a tarefa parecer-vos lenta
Mas esta simbiose exige tempo
Mesmo que o Tempo, assim, fuja de nós…

Maria João Brito de Sousa – Março 2010

 

 

Livro de visitas