TUDO QUE É BOM DURA O SUFICIENTE PARA SER INESQUECÍVEL
Eu fiquei uma semana em casa; estava precisando resolver
alguns problemas, fazer uns exames de saúde rotineiros. Eu
não entendo por que, quando a gente precisa marcar uma
consulta com um médico, geralmente, eles não têm horário
disponível para nos atender em curto prazo e quando chegamos
ao consultório, a impressão é de que tem pouco movimento.
Será que é para dar mais status?
Enquanto aguardava para ser atendido pela médica
cardiologista, eu aproveitei para ler uma revista que estava
na sala de espera. Uma das matérias publicadas era sobre as
Olimpíadas que se realizaram em Pequim. Achei interessante o
fato de uma das atletas americanas ter ficado irritada
quando ganhou uma medalha de prata, perdendo a de ouro para
uma chinesa. Como parece falso a China conseguir tantas
medalhas! Tudo dá a impressão de falsidade naquele país.
Enquanto a americana não se conformava, a brasileira
explodia de felicidade por conseguir a de bronze com alto
custo e esforço pessoal. Para o atleta brasileiro, jogador
de futebol é exceção, é status se classificar para as finais
das competições. Às vezes, para obter recursos para ir às
Olimpíadas, pede ajuda a parentes e amigos, enquanto o
Comitê Olímpico usa, não sei para que finalidade, o dinheiro
que deveria ser direcionado para eles. Deve ser para pagar
as mordomias da multidão de dirigentes que os acompanham.
Enquanto isso, quando o assunto é futebol, esporte da massa,
uma companhia multinacional brasileira, que não precisa de
propaganda, curiosamente, escreve o seu nome na camisa dos
jogadores de certo clube. Deve ser para ele não afundar em
dívidas, para que os torcedores não deixem de ir aos
estádios para se divertir, porque, se não tiver futebol,
talvez se interessem por estudar e, nesse caso, vão passar a
pensar diferente, os estádios vão esvaziar e a imprensa não
vai vender jornal barato. No outro dia, li um comentário
interessante. Dizia que quando o camarada vai ao estádio de
futebol deixa o cérebro em casa. Eu acho que quem gosta de
assistir e torcer por um monte de homens jogando bola nem
deve ter cérebro. O dinheiro aplicado por essa empresa e por
outras nacionais deveria ser direcionado para esses atletas
que não atraem público pagante. Eles têm de conciliar o
esporte com o estudo e, muitas vezes, com o trabalho. Não é
como jogador de futebol, que, como dizia Nilton Santos, só
faz o que mais gosta, jogar bola, não tem responsabilidade
nenhuma e ainda é pago para isso.
Voltando à revista... Quando virei a página, o rosto de uma
mulher que aparecia numa foto chamou minha atenção. Linda!
Estava ilustrando uma reportagem sobre empreendedorismo. Ela
trabalha numa ONG junto aos índios da Ilha do Bananal. Como
uma mulher bonita daquele jeito pode se envolver com índios
naquele paraíso tupiniquim? Será que ela não tem medo? Viver
entre índios, cobras, jacarés e piranhas - o peixe, é claro.
Pensando bem, linda como ela é, deve ser considerada por
eles como uma deusa, ainda mais se é benfeitora. O nome dela
era Mary.
A secretária me chamou para ser atendido pela médica,
tirando-me dos devaneios. Depois que saí do consultório, fui
numa cafeteria, num shopping, e, em seguida, ao cinema. Há
muito tempo eu não assistia um bom filme. Estava passando um
com a Meg Ryan. Eu adoro aquela mulher! Fez-me lembrar da
Paloma, e me deu uma saudade danada dela. Quando vejo a
fotografia de uma sempre me lembro da outra. Ao chegar a
minha casa, encontrei um bilhete que alguém empurrara por
baixo da porta. Era de um sujeito que dizia estar me
procurando havia alguns dias e que tinha telefonado várias
vezes, mas não me encontrou. De fato, fui conferir a
secretária eletrônica, e estavam lá todos os recados dele.
Eu não tinha reparado. Uma grande coincidência: estavam
querendo que eu fosse para a Ilha do Bananal. Um grupo de
empresários que gostam de fazer programas de aventura estava
precisando de alguém para dirigir a picape deles até Goiás e
depois para Tocantins. Eles pretendiam pescar, parece que
tinham autorização. Fui indicado por um amigo meu que
costuma levá-los quando fazem esse tipo de excursão. Ele
disse que tinha viajado com eles pelo Chile, pela Argentina,
pelo México, para as Guianas, e, também, para a Amazônia e
diversos outros lugares. Dessa vez, ele não poderia ir
porque tinha outro compromisso, então me indicou. Eram seis
amigos empresários. Pagaram-me uma nota pra ficar à
disposição deles durante toda a viagem.
Fomos até um lugar chamado Lagoa da Confusão, em Tocantins.
Lá eles pegaram um barco e foram para a Ilha do Bananal,
para realizarem a diversão deles. Eu fiquei hospedado numa
pousada, esperando que eles voltassem para trazê-los de
volta ao Rio de Janeiro. Na ociosidade, eu ficava longo
tempo batendo papo com o dono da pousada, um índio carajá
chamado Capitichana. Fiquei sabendo das lendas que se contam
no Araguaia: a do boto que leva mulher, a do negrinho que
paira sobre as águas com uma perna só, a do peixinho que
sobe pela uretra de quem se atreve a fazer xixi na água,
penetra na bexiga e vira uma bola e só sai de lá com
intervenção médica. Também aprendi coisas interessantes
sobre os costumes dos índios. Disse-me ele, que os índios,
observadores da natureza, achavam que o homem é que deveria
se enfeitar para despertar o interesse da fêmea. A plumagem
dos machos nas aves, por exemplo, é mais rica e elaborada,
apresentando cores mais variadas e brilhantes. O canto do
macho é, ainda, mais bonito, atraente e envolvente. Esse é o
motivo que faz acreditar que os índios tomaram esses
ensinamentos ao pé da letra e, por isso, em algumas tribos,
somente os homens pintam o seu corpo e se enfeitam com
plumagens.
Enquanto ele me contava as coisas dos índios, eu falava dos
meus causos de caminhoneiro. Ele adorava. Entramos madrugada
adentro conversando. Ele me perguntou se eu queria ir até a
Ilha, pela manhã, na aldeia Carajá, pois tinha uma casinha
lá. Alguns parentes ainda moravam na aldeia, lá na Ilha.
– Você não está fazendo nada mesmo, aproveita pra passear e
conhecer a Ilha. Eles ainda vão demorar e a gente só vai
ficar uns dois dias. Se por acaso eles voltarem antes da
gente, o que é muito difícil, Tuíla, minha mulher, manda me
avisar – ele disse.
– Tá bom, eu não estou fazendo nada mesmo! Pior que ainda
estou ganhando pra isso. Mas eu tenho medo que eles voltem e
digam que eu não cumpri o compromisso. Eu nunca fiz esse
tipo de trabalho antes...
– Eles não vão voltar Rui, pode acreditar. Mas, se
acontecer, eu digo que eu pedi pra você ir comigo, que você
não queria ir, mas eu insisti e você foi só pra me ajudar.
Tá?
Eu fui. Lá eu me dei conta de que estava na maior ilha
fluvial do mundo. O Capitichana, enquanto atravessávamos na
balsa o Rio Javaé, dava aula de geografia e explicou que a
ilha é formada pela bifurcação do Rio Araguaia, que continua
pelo lado esquerdo e recebe o nome de Javaés, aquele em que
nós estávamos pelo lado direito. Araguaia significa rio das
araras na linguagem indígena. Também é chamado de Berô-can
pelos índios carajás, que quer dizer rio Grande.
Ficamos lá na ilha, na sua casinha, eu, ele e mais um
garoto, seu filho. À tardinha nós estávamos deitados em
redes embaixo de uma árvore frondosa, ouvindo o gorjeio de
uma quantidade imensa de pássaros que fazem daquele lugar um
paraíso, um verdadeiro viveiro de aves de todos os tipos,
tamanhos, diversas cores e variados cantos, quando uma jovem
índia muito bonita falou com ele na linguagem carajá. Pelo
que eu entendi, alguém estava passando mal. O Capitichana
levantou da rede e falou:
– Rui, vamos ali na casa da minha irmã. Essa aqui é a Iriqui,
filha dela, o pai é o Morubixaba. A minha irmã está com
muita dor de cabeça, e o posto de saúde está fechado. Vou
ver se eu posso ajudar.
A índia ficou me olhando, com ar de curiosidade.
– Eu tenho uns comprimidos aqui na minha bolsa que eu sempre
trago comigo, vamos dar pra ela, pra ver se melhora – eu
disse.
Chegamos à casa da irmã dele e eu perguntei se tinha café.
Eu disse que gosto de tomar remédio para dor de cabeça com
café, por causa da cafeína, comigo sempre deu certo. Só um
cafezinho, às vezes, basta para mandar a dor embora.
– Aqui na casa da minha irmã não tem café porque índio não
usa, mas eu tenho lá na minha casa, inclusive ia lhe
oferecer na hora que Iriqui chegou. Vou lá buscar, volto num
instante.
Não demorou muito, e ele voltou com o pó e me pediu para
preparar. Iriqui pegou água fervendo, e eu passei o café
pelo coador que Capitichana levou. Logo a fumaça trouxe o
cheirinho gostoso do café quentinho. Levamos para a mãe dela
tomar com o comprimido e depois bebemos um pouquinho. Estava
delicioso, e eu já estava precisando também.
Mais tarde, já estava escurecendo, eu fui tomar banho no
rio. Procurei um lugar mais afastado, entrei na água fria e
me deu um arrepio que percorreu meu corpo todo; afundei na
água até o pescoço para me acostumar à temperatura. Depois
de mais ou menos meia hora, eu saí da água e fui pegar a
toalha. Iriqui estava com ela na mão me esperando. Deu-me a
toalha e ficou olhando eu me enxugar.
– E a tua mãe, como ela está? – eu perguntei.
– Tá melhor – ela disse.
Aí ela tirou a roupa toda, sem cerimônia, entrou na água e
me chamou para entrar também.
– Você está louca menina?! Por que você está fazendo isso? O
que é que o seu tio vai dizer se me vir tomando banho
contigo, assim pelada, sem roupa nenhuma? Vão pensar que eu
estou querendo me aproveitar de você. Eu vou embora antes
que alguém veja.
– Espere, eu vou sair me dê a toalha pra eu me secar.
Eu estendi a toalha, e ela ficou se enxugando vagarosamente.
Ela era muito atraente e estava valorizando o momento de
sedução. Eu virei de costas para ela e comecei a caminhar de
volta para a aldeia. Ela pôs a roupa correndo e veio atrás
de mim ainda com os seios à mostra.
– É melhor você ir na frente, por favor, eu não quero entrar
na aldeia junto contigo. O seu tio é meu amigo e isso pode
trazer problemas pra mim. Imagine se o seu pai pensar que
nós fizemos alguma coisa!
– Você é muito bobo e não entende nada – ela disse, com ar
de contrariedade.
Eu não estava entendendo nada mesmo. Deixei que ela seguisse
na frente e esperei que se adiantasse bastante. Depois fui
para a casa do Capitichana, com muito medo de que algum
índio estivesse escondido no mato e tivesse visto aquela
cena que ela aprontou e pensasse que eu havia feito alguma
coisa com ela.
À noite, ficamos conversando em volta da fogueira construída
sobre um moquém onde estava sendo moqueada uma carne de
caça. Os índios cavam um buraco na areia, forram, cobrem com
pedras, põem a carne dentro e acendem uma fogueira sobre
esse forno até a carne assar. Eu nunca tinha comido assado
tão saboroso. Iriqui ficou me olhando o tempo todo, me
comendo com os olhos. Eu não conseguia olhar para ela, tinha
medo que alguém percebesse. Passei a madrugada praticamente
acordado, eu não consegui dormir direito, não estava
acostumado a dormir em rede e também fiquei pensando na
índia. Ela era muito bonita. Só o medo mesmo me fez resistir
à tentação.
No dia seguinte, logo pela manhã, o pai dela, Morubixaba,
foi falar com Capitichana e veio acompanhado de uma mulher.
Fiquei receoso de que alguém tivesse dito alguma coisa para
ele. Tentei ouvir a conversa, mas não estava entendendo
muito. Iriqui se aproximou de onde eu estava sentado e falou
que tinha sonhado, alguns dias atrás, que alguém, cujo nome
eu não entendi, viria para casar com ela. Sabia que era eu
porque apareci do jeito que ela havia sonhado. Por isso
tinha feito aquilo na praia, quando eu fui tomar banho. Ela
iria se casar comigo mesmo, era a minha mulher, minha
Denaquê . Ficou passando a mão no meu rosto, me olhando com
os olhos de apaixonada. Eu não sabia o que fazer e me
afastei em direção ao rio; e ela foi atrás. Então, voltei e
entrei na casa do Capitichana. Ela não me seguiu,
felizmente. Eu tinha que contar para ele o que estava
acontecendo. Eu já estava querendo ir embora daquele lugar
com medo de morrer espetado na ponta de uma flecha.
Felizmente, eles logo terminaram de conversar e eu vi pela
janela que eles vinham em direção a casa. Estava sentado na
cozinha com uma caneca de café na mão. Quando eles entraram,
eu vi quem era a mulher. Coincidências não acontecem smente
em novelas, também acontecem na vida do Rui Barbosa. Era
ela, a Mary, da revista que eu li na sala de espera do
médico.
– Rui, essa aqui é a Mafledupiqui, ela pertence a uma ONG
que trabalha em favor dos índios daqui da ilha e este é o
Morubixaba, cacique Teçaberaba.
“Pronto, estou frito!” – pensei. “O que essa indiazinha foi
aprontar?”
– Eu nã... – comecei a falar, mas o Capitichana prosseguiu:
– Eles vão levar a mulher dele, minha irmã, pra cidade. Ela
vai para o hospital porque não melhorou. Vamos voltar
também?
– Claro, agora mesmo! Estou pronto! – eu respondi ansioso.
– O Rui é meu amigo. Está hospedado lá na pousada enquanto
uns amigos dele estão aqui na ilha, pescando – disse ele
para os dois.
– Muito prazer – disse, com o sotaque da região –, Mary.
– Rui Barbosa – eu disse, apertando a mão dela, sem
conseguir desviar os olhos de seu rosto bonito.
– Rui Barbosa, um nome de respeito – ela falou, retirando a
mão educadamente.
– Pode me chamar só de Rui – eu respondi, enfiando as mãos
nos bolsos por não saber o que fazer com elas naquele
momento.
O índio a havia chamado de Mafledupiqui. Eu achei o nome
meio esquisito. Ela não parecia estrangeira e disse que se
chamava Mary. Na revista, estava escrito que o nome dela era
Mary, não me lembro do sobrenome. “Será que eu estou
enganado? Não é possível! O rosto é o mesmo...”
Puseram a mãe da Iriqui numa maca, no carro da ONG, e
pegamos a balsa que faz a travessia. Durante a viagem, Mary
ficou afastada falando, ao celular o tempo todo, acho que
era com alguém no hospital ou da ONG. Eu fiquei observando.
Era uma mulher bonita, estava apoiada na mureta da
embarcação. Apesar de aparentar ter aproximadamente 40 anos,
tinha o corpo em forma, curvilíneo, a bunda empinada e
redondinha. Uma morena realmente bonita.
Nós chegamos à Lagoa da Confusão, e ela e o cacique foram
levar a esposa dele para o hospital. Eu e o Capitichana
fomos para a pousada. Já era noite adiantada quando eles
voltaram. A mãe da Iriqui havia ficado internada. A Mary
Mafledupiqui perguntou se tinha uma vaga para ela, naquela
noite; já era muito tarde e não queria voltar para casa
sozinha.
– Claro que tenho, e nem vou cobrar da senhora, pode ficar
sossegada. Está aqui a chave, é do quarto ao lado do Rui –
disse Capitichana.
– Então eu vou tomar um banho e depois eu volto pra lanchar
– ela disse.
– Tá bom dona, bom banho! – disse ele.
“Bom banho?! É a primeira vez que ouço alguém falar isso” –
eu pensei. Na ânsia de agradar, as pessoas falam um monte de
besteiras, sem pensar.
Não demorou muito, ela estava de volta. Sentou-se ao meu
lado na varanda, num banco de três lugares. Estava soprando
uma brisinha fresca, e eu senti o perfume que exalava do seu
corpo, agora sob um vestidinho de tecido leve que realçava
bem as suas formas que, chamavam a minha atenção.
– Relaxou? – eu perguntei.
– Hum, hum! – foi a resposta.
– Você foi entrevistada por uma revista, para uma matéria
sobre empreendedorismo?
– Ah, fui, sim! Você leu?
– Li, sim, achei interessante o seu trabalho. Eu lhe
reconheci assim que a vi lá na ilha. Apesar de ter achado
uma coincidência muito grande. Você não tem medo de se meter
nesses assuntos que, às vezes envolvem muitos interesses?
– Não, apesar de que eu me dedico mais à parte humanitária,
de apoio social, no sentido de manter suas tradições,
facilitar o acesso à saúde, à escola e da manutenção das
tradições indígenas. De orientá-los na comercialização de
seus produtos, do artesanato, das comidas típicas e de
outras coisas. E você, faz o quê?
– Eu sou caminhoneiro, vivo pelas estradas.
– Então, você deve ter histórias interessantes pra contar.
– Estou vivendo uma delas.
– Isso é um galanteio?
– Não tive a intenção, me desculpe.
– Eu gostei, de qualquer forma. Foi uma resposta
inteligente, e eu tenho sentido falta disso.
– De respostas inteligentes?
– E de galanteios também.
– Você é a primeira celebridade que eu conheço.
– Celebridade!
– Apareceu em revista vira celebridade. Ainda mais assim.
– Assim como?
– Bonita.
– Você está me paquerando?
Eu não respondi, somente sorri.
– Você é casada?
– Não, divorciada. Tenho dois filhos, ou melhor, uma filha
de quatorze anos, a Bebel, e um rapaz de dezoito. O que mais
você quer saber? Ah! Tenho quarenta anos e não tenho
namorado. É suficiente pra você?
– Você está me desconcertando.
– Então, se conserta, rapaz, porque eu estou te
paquerando... ou você não percebeu? Você é casado?
– Não, eu também sou divorciado, a minha ex-esposa não
aguentou a minha rotina de viagens, era muito ciumenta. Eu
não tenho filhos.
Ela foi pedir ao Capitichana alguma coisa para lanchar e,
depois de comer, disse que iria se deitar.
– Eu também já estou indo dormir – eu disse.
Paramos em frente à porta do quarto dela e nos beijamos.
– Não quer continuar lá dentro? Está mais quentinho... – ela
perguntou.
Eu aceitei, claro! Então, eu pude constatar que não eram as
roupas que faziam a bundinha ficar empinada e durinha. Era
tudo natural e em ótimo estado, apesar dos 40 anos. Uma
escultura de cerca de um metro e setenta, cabelos longos,
castanho-escuros, caindo em ondas sobre os ombros. Uma
silhueta harmônica e apetitosa. Duas luas monumentais. Tudo
bem ao meu gosto. Uma perfeição de mulher.
Quando ela se deitou ao meu lado e encostou a cabeça no meu
peito, eu perguntei, afagando os seus cabelos:
– Por que eles lhe chamam de Mafledupiqui?
– É porque eles não sabem falar ma fleur de pequi. Quando eu
vim pra cá, tinha um francês que estava me cortejando e ele
só me chamava de ma fleur de pequi. Pequi é um fruto do
cerrado muito utilizado na culinária da região. Eu vivia
fugindo dele, é ecologista, mas é um sujeito muito chato. Os
índios ouviam-no me chamar assim e pensavam que era o meu
nome, eu acho, e pronunciam como entenderam. Assim me tornei
a Mafledupiqui. Gostou da história? A minha ONG também se
chama Flor do Pequi e está sediada lá em Goiânia. Acho que
por isso o francês me chamava assim. E você, desde quando
está na ilha?
– Desde ontem de manhã, por quê?
– Então você é pior do que eu imaginei, não é, garanhão?
– Eu não estou te entendendo.
– Eu vi o enredo com a índia Iriqui, a filha do Morubixaba,
hoje, pela manhã. Cuidado hein, Rui?!
– Já que você tocou no assunto, tem mesmo uma coisa que está
me incomodando. Ontem, estava quase anoitecendo, eu fui
tomar banho no rio. Quando dei conta, ela estava sentada na
praia, me observando. Depois, tirou a roupa toda e queria
ficar na água comigo, dizendo que era minha mulher. Com
muito custo, eu consegui me desvencilhar. Eu nem dormi
direito, preocupado com o acontecido, porque não sei nada
sobre os costumes deles. Fiquei pensando que ela poderia
falar alguma coisa lá na aldeia, me encrencar. Ela disse que
tinha sonhado com um tal de Taí não sei o quê. Que eu era o
seu homem e tinha vindo pra casar com ela. Por isso a gente
podia fazer amor na praia, afinal, ela era a minha mulher, a
minha Denaquê, acho que foi esse o termo que ela usou...
– Ah! Eu já sei o que é Rui! – ela disse. A lenda de
Tahina-can, a estrela Vésper. É assim: no tempo em que a
nação carajá não sabia fazer roça nem plantar milho, nem
ananás, nem mandioca, só vivia do mato, do bicho que matava
e do peixe. Existia um casal que teve duas filhas: Imaherô,
a mais velha, e Denaquê, a mais nova. Num anoitecer de céu
estrelado, Imaherô viu Tahina-can brilhar tão bela e suave
que não se conteve e disse:
– Pai, é tão bonito aquilo! Eu queria possuí-lo pra brincar
com ele.
O pai riu-se do desejo da moça e disse-lhe que Tahina-can
estava tão longe que ninguém poderia alcançá-la. Contudo,
acrescentou:
– Só se ele, te ouvindo, filha, quiser vir.
Então, alta noite, quando todos dormiam, a moça sentiu que
alguém viera colocar-se ao seu lado. Sobressaltada,
interrogou:
– Quem tu és e o que queres de mim?
– Eu sou Tahina-can, ouvi dizer que me querias e vim. Casa
comigo?
Imaherô acordou os pais e acendeu o fogo. Ela viu que
Tahina-can era muito velhinho, de cabelos e barbas brancas
como algodão e pele enrugada. Vendo-o à luz da fogueira,
Imaherô disse:
– Não te quero para meu marido. És feio e velho, eu quero um
moço forte e bonito.
Tahina-can ficou muito triste e pôs-se a chorar.
Então Denaquê, que tinha um coração meigo e bondoso,
compadeceu-se do pobre velhinho e procurou consolá-lo,
dizendo:
– Pai, eu me caso com ele, eu o quero para meu marido.
E o casamento se realizou, com grande alegria para o
velhinho. Depois de casado, Tahina-can disse:
– Careço de trabalhar para te sustentar, Denaquê. Vou fazer
um roçado para plantar coisas boas, que Carajá ainda não
possui nem conhece.
E foi ao Berô-can, o Rio Araguaia, dirigiu-lhe a palavra e,
entrando nele, ficou com as pernas abertas, de maneira que
as águas passavam entre elas. O velhinho curvado para a
corrente, de vez em quando, mergulhava as mãos e apanhava as
boas sementes que iam jogando rio abaixo. Assim, as águas
lhe deram dois atilhos de milho curuca, feixes de maniva de
mandioca, e tudo mais que os Carajás hoje conhecem e
plantam.
Saindo do Berô-can, Tahina-can disse a Denaquê:
– Vou derrubar mato para fazer roçado. Tu, porém, não me vá
me ver no trabalho, fique em casa, cuidando da comida, para
quando eu voltar, cansado e com os braços doloridos, matares
a minha fome e restaurares as minhas forças.
Tahina-can foi, mas demorou tanto que, preocupada, Denaquê
resolveu desobedecer às recomendações dele e foi, de
mansinho, procurá-lo. Para sua surpresa, quem estava lá a
trabalhar era um belo moço, alto, cheio de força e de vida.
Ele tinha no corpo os enfeites e as pinturas que os carajás
ainda hoje usam. Denaquê não se conteve; louca de alegria,
correu para abraçá-lo. Depois o levou consigo para casa,
contente, para mostrar aos seus pais como seu esposo era na
verdade. Foi, então, que Imaherô o desejou também e disse a
Tahina-can:
– Tu és meu marido, pois vieste para mim, e não para Denaquê.
Mas Tahina-can respondeu a ela:
– Só em Denaquê encontrei bastante bondade para ter pena do
pobre velhinho. Agora não te quero, só Denaquê é minha.
Imaherô, de despeito e inveja, soltou um grito, caiu no
chão, e no lugar dela viu-se um urutau, pássaro que ainda
hoje dá um grito triste e tão forte que parece ser uma ave
muito maior. Foi assim que a nação carajá aprendeu com
Tahina-can a plantar o milho, o ananás, a mandioca e outras
coisas boas que antes não conhecia.
– Está aí o seu romance com a indiazinha. Você foi muito
ingênuo, Rui Barbosa. Você não devia ter cedido. Homem é
muito bobo mesmo! Não pode ver mulher dando sopa, de
qualquer raça ou etnia, que vai fundo, não mede as
consequências. Parece que pensa com o pinto.
– Já está com ciúme? A gente ainda nem se conhece direito! –
eu disse.
– Eu não estou brincando, Rui. É sério. Eu sei que não é o
caso, mas, quando isso acontece, muitos homens levam doenças
contagiosas para as tribos. Os índios, apesar de viverem no
meio do mato, já incorporaram alguns costumes dos brancos.
Por isso ela te seduziu, talvez sonhando em sair da ilha.
São poucos os homens bonitos que entram em contato direto
com eles. Você é muito bonzinho, bobinho, sei lá! Deixou-se
seduzir. Poderia arrumar encrenca, pra você, talvez não, mas
pra ela. Imagine se ela engravida de você? Iria ter um filho
sem pai e ficar muito mal na aldeia.
Eu fiquei com cara de idiota. Não sabia o que dizer. Levar
uma bronca daquelas sem ter feito nada. E eu, bobão, ainda
fui fazer gracinha, dizendo que ela estava com ciúme. Fiquei
com vergonha e pedi desculpas pela brincadeira.
– Mary, eu entendo o que você está dizendo e concordo com
tudo. Só que eu não fiz nada com ela, bem que ela tentou.
Tirou a roupa e foi tomar banho no rio peladinha e ficou me
chamando pra fazer amor. Fiquei com medo de arrumar encrenca
e acabar sendo linchado lá na aldeia. Eu sei lá o que eles
iriam fazer se eu me aproveitasse da situação! Ela ficou com
muita raiva porque eu não quis e falou umas coisas que não
entendi. Aí fui embora, e ela foi atrás de mim, botando a
roupa. Eu a mandei ir na frente, e eu fui depois.
– Desculpe-me, Rui. Eu me precipitei, me descontrolei e
fiquei com ciúme sim. Será que eu encontrei um homem que é
uma exceção? Na verdade, eu quis dizer que homem é
aventureiro, gosta de variar: um corpo diferente, beijos
diferentes, sem compromisso...
– Pra ser sincero, acho que não sou exceção coisa nenhuma.
Eu estava era com medo mesmo. E acho que você tem razão
quanto a isso também... sexo sem compromisso, apesar de que
não é só homem que gosta disso.
– É. Também acho que não. Que você é muito ingênuo, também é
verdade, Rui. Uma gracinha de bobão.
Ela me deu um beijo que eu cheguei a ver arco-íris. Que boca
deliciosa ela tinha. Será que é o sabor do pequi? Duas luas
monumentais descansando no meio peito...
Quando despertei, pela manhã, vi, ainda adormecida, a minha
flor do cerrado, e dei-lhe um beijo na boca doce como mel e
cantei feliz como um pássaro ao sol da manhã. Ouvi o
telefone tocar no meu quarto. Chamou uns três minutos
seguidos, depois parou. Quando eu ia me levantar para ir até
lá, começou a tocar o do quarto da Mary. Ela atendeu
deitando-se sobre mim, e eu senti um prazer imenso de ter
uma mulher linda com o corpo inteiramente nu me acariciando.
Era Capitichana ao telefone.
– Dona Mafledupiqui, me desculpe qualquer coisa que eu
incomode. Mas a senhora, por um acaso, sabe do seu Rui?
– Ele deve estar no quarto dele. Eu acordei agora.
– Eu entendo... A senhora me desculpe. Nem sei por que
liguei pro seu quarto.Vou ligar de novo pro quarto dele. É
que os homens chegaram e querem falar com ele.
– Ele deve estar tomando banho – ela disse, fazendo sinal
com a mão para que eu fosse para o meu quarto.
Quando ele desligou, ela falou:
– Rui, vai pro teu quarto agora. Os homens chegaram e querem
falar contigo.
Então, nos beijamos mais uma vez. Eu estava gostando muito
daqueles beijos, daquela boca. Deliciosa sensação. Foi o
nosso último beijo.
Corri para o meu quarto. Quando ele ligou novamente eu
atendi. Os homens estavam querendo as chaves para abrir o
carro e guardar as coisas. Naquela tarde, voltamos para o
Rio. Quando fui me despedir do Capitichana, ele me entregou
um envelope.
– A dona Mafledupiqui me pediu pra entregar isso pro senhor.
Era um envelope que continha uma fotografia com a marca dos
lábios dela feita com batom, onde ela escreveu: “Doces
beijos, sabor jabuticaba. Nunca se esqueça da sua flor do
cerrado”.
Estavam anotados também todos os endereços e telefones onde
eu poderia encontrá-la.