SEBO LITERÁRIO

Contos

autor

Mario Rezende
 
 

 

 

TUDO QUE É BOM DURA O SUFICIENTE PARA SER INESQUECÍVEL



Eu fiquei uma semana em casa; estava precisando resolver alguns problemas, fazer uns exames de saúde rotineiros. Eu não entendo por que, quando a gente precisa marcar uma consulta com um médico, geralmente, eles não têm horário disponível para nos atender em curto prazo e quando chegamos ao consultório, a impressão é de que tem pouco movimento. Será que é para dar mais status?
Enquanto aguardava para ser atendido pela médica cardiologista, eu aproveitei para ler uma revista que estava na sala de espera. Uma das matérias publicadas era sobre as Olimpíadas que se realizaram em Pequim. Achei interessante o fato de uma das atletas americanas ter ficado irritada quando ganhou uma medalha de prata, perdendo a de ouro para uma chinesa. Como parece falso a China conseguir tantas medalhas! Tudo dá a impressão de falsidade naquele país. Enquanto a americana não se conformava, a brasileira explodia de felicidade por conseguir a de bronze com alto custo e esforço pessoal. Para o atleta brasileiro, jogador de futebol é exceção, é status se classificar para as finais das competições. Às vezes, para obter recursos para ir às Olimpíadas, pede ajuda a parentes e amigos, enquanto o Comitê Olímpico usa, não sei para que finalidade, o dinheiro que deveria ser direcionado para eles. Deve ser para pagar as mordomias da multidão de dirigentes que os acompanham. Enquanto isso, quando o assunto é futebol, esporte da massa, uma companhia multinacional brasileira, que não precisa de propaganda, curiosamente, escreve o seu nome na camisa dos jogadores de certo clube. Deve ser para ele não afundar em dívidas, para que os torcedores não deixem de ir aos estádios para se divertir, porque, se não tiver futebol, talvez se interessem por estudar e, nesse caso, vão passar a pensar diferente, os estádios vão esvaziar e a imprensa não vai vender jornal barato. No outro dia, li um comentário interessante. Dizia que quando o camarada vai ao estádio de futebol deixa o cérebro em casa. Eu acho que quem gosta de assistir e torcer por um monte de homens jogando bola nem deve ter cérebro. O dinheiro aplicado por essa empresa e por outras nacionais deveria ser direcionado para esses atletas que não atraem público pagante. Eles têm de conciliar o esporte com o estudo e, muitas vezes, com o trabalho. Não é como jogador de futebol, que, como dizia Nilton Santos, só faz o que mais gosta, jogar bola, não tem responsabilidade nenhuma e ainda é pago para isso.
Voltando à revista... Quando virei a página, o rosto de uma mulher que aparecia numa foto chamou minha atenção. Linda! Estava ilustrando uma reportagem sobre empreendedorismo. Ela trabalha numa ONG junto aos índios da Ilha do Bananal. Como uma mulher bonita daquele jeito pode se envolver com índios naquele paraíso tupiniquim? Será que ela não tem medo? Viver entre índios, cobras, jacarés e piranhas - o peixe, é claro. Pensando bem, linda como ela é, deve ser considerada por eles como uma deusa, ainda mais se é benfeitora. O nome dela era Mary.
A secretária me chamou para ser atendido pela médica, tirando-me dos devaneios. Depois que saí do consultório, fui numa cafeteria, num shopping, e, em seguida, ao cinema. Há muito tempo eu não assistia um bom filme. Estava passando um com a Meg Ryan. Eu adoro aquela mulher! Fez-me lembrar da Paloma, e me deu uma saudade danada dela. Quando vejo a fotografia de uma sempre me lembro da outra. Ao chegar a minha casa, encontrei um bilhete que alguém empurrara por baixo da porta. Era de um sujeito que dizia estar me procurando havia alguns dias e que tinha telefonado várias vezes, mas não me encontrou. De fato, fui conferir a secretária eletrônica, e estavam lá todos os recados dele. Eu não tinha reparado. Uma grande coincidência: estavam querendo que eu fosse para a Ilha do Bananal. Um grupo de empresários que gostam de fazer programas de aventura estava precisando de alguém para dirigir a picape deles até Goiás e depois para Tocantins. Eles pretendiam pescar, parece que tinham autorização. Fui indicado por um amigo meu que costuma levá-los quando fazem esse tipo de excursão. Ele disse que tinha viajado com eles pelo Chile, pela Argentina, pelo México, para as Guianas, e, também, para a Amazônia e diversos outros lugares. Dessa vez, ele não poderia ir porque tinha outro compromisso, então me indicou. Eram seis amigos empresários. Pagaram-me uma nota pra ficar à disposição deles durante toda a viagem.
Fomos até um lugar chamado Lagoa da Confusão, em Tocantins. Lá eles pegaram um barco e foram para a Ilha do Bananal, para realizarem a diversão deles. Eu fiquei hospedado numa pousada, esperando que eles voltassem para trazê-los de volta ao Rio de Janeiro. Na ociosidade, eu ficava longo tempo batendo papo com o dono da pousada, um índio carajá chamado Capitichana. Fiquei sabendo das lendas que se contam no Araguaia: a do boto que leva mulher, a do negrinho que paira sobre as águas com uma perna só, a do peixinho que sobe pela uretra de quem se atreve a fazer xixi na água, penetra na bexiga e vira uma bola e só sai de lá com intervenção médica. Também aprendi coisas interessantes sobre os costumes dos índios. Disse-me ele, que os índios, observadores da natureza, achavam que o homem é que deveria se enfeitar para despertar o interesse da fêmea. A plumagem dos machos nas aves, por exemplo, é mais rica e elaborada, apresentando cores mais variadas e brilhantes. O canto do macho é, ainda, mais bonito, atraente e envolvente. Esse é o motivo que faz acreditar que os índios tomaram esses ensinamentos ao pé da letra e, por isso, em algumas tribos, somente os homens pintam o seu corpo e se enfeitam com plumagens.
Enquanto ele me contava as coisas dos índios, eu falava dos meus causos de caminhoneiro. Ele adorava. Entramos madrugada adentro conversando. Ele me perguntou se eu queria ir até a Ilha, pela manhã, na aldeia Carajá, pois tinha uma casinha lá. Alguns parentes ainda moravam na aldeia, lá na Ilha.
– Você não está fazendo nada mesmo, aproveita pra passear e conhecer a Ilha. Eles ainda vão demorar e a gente só vai ficar uns dois dias. Se por acaso eles voltarem antes da gente, o que é muito difícil, Tuíla, minha mulher, manda me avisar – ele disse.
– Tá bom, eu não estou fazendo nada mesmo! Pior que ainda estou ganhando pra isso. Mas eu tenho medo que eles voltem e digam que eu não cumpri o compromisso. Eu nunca fiz esse tipo de trabalho antes...
– Eles não vão voltar Rui, pode acreditar. Mas, se acontecer, eu digo que eu pedi pra você ir comigo, que você não queria ir, mas eu insisti e você foi só pra me ajudar. Tá?
Eu fui. Lá eu me dei conta de que estava na maior ilha fluvial do mundo. O Capitichana, enquanto atravessávamos na balsa o Rio Javaé, dava aula de geografia e explicou que a ilha é formada pela bifurcação do Rio Araguaia, que continua pelo lado esquerdo e recebe o nome de Javaés, aquele em que nós estávamos pelo lado direito. Araguaia significa rio das araras na linguagem indígena. Também é chamado de Berô-can pelos índios carajás, que quer dizer rio Grande.
Ficamos lá na ilha, na sua casinha, eu, ele e mais um garoto, seu filho. À tardinha nós estávamos deitados em redes embaixo de uma árvore frondosa, ouvindo o gorjeio de uma quantidade imensa de pássaros que fazem daquele lugar um paraíso, um verdadeiro viveiro de aves de todos os tipos, tamanhos, diversas cores e variados cantos, quando uma jovem índia muito bonita falou com ele na linguagem carajá. Pelo que eu entendi, alguém estava passando mal. O Capitichana levantou da rede e falou:
– Rui, vamos ali na casa da minha irmã. Essa aqui é a Iriqui, filha dela, o pai é o Morubixaba. A minha irmã está com muita dor de cabeça, e o posto de saúde está fechado. Vou ver se eu posso ajudar.
A índia ficou me olhando, com ar de curiosidade.
– Eu tenho uns comprimidos aqui na minha bolsa que eu sempre trago comigo, vamos dar pra ela, pra ver se melhora – eu disse.
Chegamos à casa da irmã dele e eu perguntei se tinha café. Eu disse que gosto de tomar remédio para dor de cabeça com café, por causa da cafeína, comigo sempre deu certo. Só um cafezinho, às vezes, basta para mandar a dor embora.
– Aqui na casa da minha irmã não tem café porque índio não usa, mas eu tenho lá na minha casa, inclusive ia lhe oferecer na hora que Iriqui chegou. Vou lá buscar, volto num instante.
Não demorou muito, e ele voltou com o pó e me pediu para preparar. Iriqui pegou água fervendo, e eu passei o café pelo coador que Capitichana levou. Logo a fumaça trouxe o cheirinho gostoso do café quentinho. Levamos para a mãe dela tomar com o comprimido e depois bebemos um pouquinho. Estava delicioso, e eu já estava precisando também.
Mais tarde, já estava escurecendo, eu fui tomar banho no rio. Procurei um lugar mais afastado, entrei na água fria e me deu um arrepio que percorreu meu corpo todo; afundei na água até o pescoço para me acostumar à temperatura. Depois de mais ou menos meia hora, eu saí da água e fui pegar a toalha. Iriqui estava com ela na mão me esperando. Deu-me a toalha e ficou olhando eu me enxugar.
– E a tua mãe, como ela está? – eu perguntei.
– Tá melhor – ela disse.
Aí ela tirou a roupa toda, sem cerimônia, entrou na água e me chamou para entrar também.
– Você está louca menina?! Por que você está fazendo isso? O que é que o seu tio vai dizer se me vir tomando banho contigo, assim pelada, sem roupa nenhuma? Vão pensar que eu estou querendo me aproveitar de você. Eu vou embora antes que alguém veja.
– Espere, eu vou sair me dê a toalha pra eu me secar.
Eu estendi a toalha, e ela ficou se enxugando vagarosamente. Ela era muito atraente e estava valorizando o momento de sedução. Eu virei de costas para ela e comecei a caminhar de volta para a aldeia. Ela pôs a roupa correndo e veio atrás de mim ainda com os seios à mostra.
– É melhor você ir na frente, por favor, eu não quero entrar na aldeia junto contigo. O seu tio é meu amigo e isso pode trazer problemas pra mim. Imagine se o seu pai pensar que nós fizemos alguma coisa!
– Você é muito bobo e não entende nada – ela disse, com ar de contrariedade.
Eu não estava entendendo nada mesmo. Deixei que ela seguisse na frente e esperei que se adiantasse bastante. Depois fui para a casa do Capitichana, com muito medo de que algum índio estivesse escondido no mato e tivesse visto aquela cena que ela aprontou e pensasse que eu havia feito alguma coisa com ela.
À noite, ficamos conversando em volta da fogueira construída sobre um moquém onde estava sendo moqueada uma carne de caça. Os índios cavam um buraco na areia, forram, cobrem com pedras, põem a carne dentro e acendem uma fogueira sobre esse forno até a carne assar. Eu nunca tinha comido assado tão saboroso. Iriqui ficou me olhando o tempo todo, me comendo com os olhos. Eu não conseguia olhar para ela, tinha medo que alguém percebesse. Passei a madrugada praticamente acordado, eu não consegui dormir direito, não estava acostumado a dormir em rede e também fiquei pensando na índia. Ela era muito bonita. Só o medo mesmo me fez resistir à tentação.
No dia seguinte, logo pela manhã, o pai dela, Morubixaba, foi falar com Capitichana e veio acompanhado de uma mulher. Fiquei receoso de que alguém tivesse dito alguma coisa para ele. Tentei ouvir a conversa, mas não estava entendendo muito. Iriqui se aproximou de onde eu estava sentado e falou que tinha sonhado, alguns dias atrás, que alguém, cujo nome eu não entendi, viria para casar com ela. Sabia que era eu porque apareci do jeito que ela havia sonhado. Por isso tinha feito aquilo na praia, quando eu fui tomar banho. Ela iria se casar comigo mesmo, era a minha mulher, minha Denaquê . Ficou passando a mão no meu rosto, me olhando com os olhos de apaixonada. Eu não sabia o que fazer e me afastei em direção ao rio; e ela foi atrás. Então, voltei e entrei na casa do Capitichana. Ela não me seguiu, felizmente. Eu tinha que contar para ele o que estava acontecendo. Eu já estava querendo ir embora daquele lugar com medo de morrer espetado na ponta de uma flecha.
Felizmente, eles logo terminaram de conversar e eu vi pela janela que eles vinham em direção a casa. Estava sentado na cozinha com uma caneca de café na mão. Quando eles entraram, eu vi quem era a mulher. Coincidências não acontecem smente em novelas, também acontecem na vida do Rui Barbosa. Era ela, a Mary, da revista que eu li na sala de espera do médico.
– Rui, essa aqui é a Mafledupiqui, ela pertence a uma ONG que trabalha em favor dos índios daqui da ilha e este é o Morubixaba, cacique Teçaberaba.
“Pronto, estou frito!” – pensei. “O que essa indiazinha foi aprontar?”
– Eu nã... – comecei a falar, mas o Capitichana prosseguiu:
– Eles vão levar a mulher dele, minha irmã, pra cidade. Ela vai para o hospital porque não melhorou. Vamos voltar também?
– Claro, agora mesmo! Estou pronto! – eu respondi ansioso.
– O Rui é meu amigo. Está hospedado lá na pousada enquanto uns amigos dele estão aqui na ilha, pescando – disse ele para os dois.
– Muito prazer – disse, com o sotaque da região –, Mary.
– Rui Barbosa – eu disse, apertando a mão dela, sem conseguir desviar os olhos de seu rosto bonito.
– Rui Barbosa, um nome de respeito – ela falou, retirando a mão educadamente.
– Pode me chamar só de Rui – eu respondi, enfiando as mãos nos bolsos por não saber o que fazer com elas naquele momento.
O índio a havia chamado de Mafledupiqui. Eu achei o nome meio esquisito. Ela não parecia estrangeira e disse que se chamava Mary. Na revista, estava escrito que o nome dela era Mary, não me lembro do sobrenome. “Será que eu estou enganado? Não é possível! O rosto é o mesmo...”
Puseram a mãe da Iriqui numa maca, no carro da ONG, e pegamos a balsa que faz a travessia. Durante a viagem, Mary ficou afastada falando, ao celular o tempo todo, acho que era com alguém no hospital ou da ONG. Eu fiquei observando. Era uma mulher bonita, estava apoiada na mureta da embarcação. Apesar de aparentar ter aproximadamente 40 anos, tinha o corpo em forma, curvilíneo, a bunda empinada e redondinha. Uma morena realmente bonita.
Nós chegamos à Lagoa da Confusão, e ela e o cacique foram levar a esposa dele para o hospital. Eu e o Capitichana fomos para a pousada. Já era noite adiantada quando eles voltaram. A mãe da Iriqui havia ficado internada. A Mary Mafledupiqui perguntou se tinha uma vaga para ela, naquela noite; já era muito tarde e não queria voltar para casa sozinha.
– Claro que tenho, e nem vou cobrar da senhora, pode ficar sossegada. Está aqui a chave, é do quarto ao lado do Rui – disse Capitichana.
– Então eu vou tomar um banho e depois eu volto pra lanchar – ela disse.
– Tá bom dona, bom banho! – disse ele.
“Bom banho?! É a primeira vez que ouço alguém falar isso” – eu pensei. Na ânsia de agradar, as pessoas falam um monte de besteiras, sem pensar.
Não demorou muito, ela estava de volta. Sentou-se ao meu lado na varanda, num banco de três lugares. Estava soprando uma brisinha fresca, e eu senti o perfume que exalava do seu corpo, agora sob um vestidinho de tecido leve que realçava bem as suas formas que, chamavam a minha atenção.
– Relaxou? – eu perguntei.
– Hum, hum! – foi a resposta.
– Você foi entrevistada por uma revista, para uma matéria sobre empreendedorismo?
– Ah, fui, sim! Você leu?
– Li, sim, achei interessante o seu trabalho. Eu lhe reconheci assim que a vi lá na ilha. Apesar de ter achado uma coincidência muito grande. Você não tem medo de se meter nesses assuntos que, às vezes envolvem muitos interesses?
– Não, apesar de que eu me dedico mais à parte humanitária, de apoio social, no sentido de manter suas tradições, facilitar o acesso à saúde, à escola e da manutenção das tradições indígenas. De orientá-los na comercialização de seus produtos, do artesanato, das comidas típicas e de outras coisas. E você, faz o quê?
– Eu sou caminhoneiro, vivo pelas estradas.
– Então, você deve ter histórias interessantes pra contar.
– Estou vivendo uma delas.
– Isso é um galanteio?
– Não tive a intenção, me desculpe.
– Eu gostei, de qualquer forma. Foi uma resposta inteligente, e eu tenho sentido falta disso.
– De respostas inteligentes?
– E de galanteios também.
– Você é a primeira celebridade que eu conheço.
– Celebridade!
– Apareceu em revista vira celebridade. Ainda mais assim.
– Assim como?
– Bonita.
– Você está me paquerando?
Eu não respondi, somente sorri.
– Você é casada?
– Não, divorciada. Tenho dois filhos, ou melhor, uma filha de quatorze anos, a Bebel, e um rapaz de dezoito. O que mais você quer saber? Ah! Tenho quarenta anos e não tenho namorado. É suficiente pra você?
– Você está me desconcertando.
– Então, se conserta, rapaz, porque eu estou te paquerando... ou você não percebeu? Você é casado?
– Não, eu também sou divorciado, a minha ex-esposa não aguentou a minha rotina de viagens, era muito ciumenta. Eu não tenho filhos.
Ela foi pedir ao Capitichana alguma coisa para lanchar e, depois de comer, disse que iria se deitar.
– Eu também já estou indo dormir – eu disse.
Paramos em frente à porta do quarto dela e nos beijamos.
– Não quer continuar lá dentro? Está mais quentinho... – ela perguntou.
Eu aceitei, claro! Então, eu pude constatar que não eram as roupas que faziam a bundinha ficar empinada e durinha. Era tudo natural e em ótimo estado, apesar dos 40 anos. Uma escultura de cerca de um metro e setenta, cabelos longos, castanho-escuros, caindo em ondas sobre os ombros. Uma silhueta harmônica e apetitosa. Duas luas monumentais. Tudo bem ao meu gosto. Uma perfeição de mulher.
Quando ela se deitou ao meu lado e encostou a cabeça no meu peito, eu perguntei, afagando os seus cabelos:
– Por que eles lhe chamam de Mafledupiqui?
– É porque eles não sabem falar ma fleur de pequi. Quando eu vim pra cá, tinha um francês que estava me cortejando e ele só me chamava de ma fleur de pequi. Pequi é um fruto do cerrado muito utilizado na culinária da região. Eu vivia fugindo dele, é ecologista, mas é um sujeito muito chato. Os índios ouviam-no me chamar assim e pensavam que era o meu nome, eu acho, e pronunciam como entenderam. Assim me tornei a Mafledupiqui. Gostou da história? A minha ONG também se chama Flor do Pequi e está sediada lá em Goiânia. Acho que por isso o francês me chamava assim. E você, desde quando está na ilha?
– Desde ontem de manhã, por quê?
– Então você é pior do que eu imaginei, não é, garanhão?
– Eu não estou te entendendo.
– Eu vi o enredo com a índia Iriqui, a filha do Morubixaba, hoje, pela manhã. Cuidado hein, Rui?!
– Já que você tocou no assunto, tem mesmo uma coisa que está me incomodando. Ontem, estava quase anoitecendo, eu fui tomar banho no rio. Quando dei conta, ela estava sentada na praia, me observando. Depois, tirou a roupa toda e queria ficar na água comigo, dizendo que era minha mulher. Com muito custo, eu consegui me desvencilhar. Eu nem dormi direito, preocupado com o acontecido, porque não sei nada sobre os costumes deles. Fiquei pensando que ela poderia falar alguma coisa lá na aldeia, me encrencar. Ela disse que tinha sonhado com um tal de Taí não sei o quê. Que eu era o seu homem e tinha vindo pra casar com ela. Por isso a gente podia fazer amor na praia, afinal, ela era a minha mulher, a minha Denaquê, acho que foi esse o termo que ela usou...
– Ah! Eu já sei o que é Rui! – ela disse. A lenda de Tahina-can, a estrela Vésper. É assim: no tempo em que a nação carajá não sabia fazer roça nem plantar milho, nem ananás, nem mandioca, só vivia do mato, do bicho que matava e do peixe. Existia um casal que teve duas filhas: Imaherô, a mais velha, e Denaquê, a mais nova. Num anoitecer de céu estrelado, Imaherô viu Tahina-can brilhar tão bela e suave que não se conteve e disse:
– Pai, é tão bonito aquilo! Eu queria possuí-lo pra brincar com ele.
O pai riu-se do desejo da moça e disse-lhe que Tahina-can estava tão longe que ninguém poderia alcançá-la. Contudo, acrescentou:
– Só se ele, te ouvindo, filha, quiser vir.
Então, alta noite, quando todos dormiam, a moça sentiu que alguém viera colocar-se ao seu lado. Sobressaltada, interrogou:
– Quem tu és e o que queres de mim?
– Eu sou Tahina-can, ouvi dizer que me querias e vim. Casa comigo?
Imaherô acordou os pais e acendeu o fogo. Ela viu que Tahina-can era muito velhinho, de cabelos e barbas brancas como algodão e pele enrugada. Vendo-o à luz da fogueira, Imaherô disse:
– Não te quero para meu marido. És feio e velho, eu quero um moço forte e bonito.
Tahina-can ficou muito triste e pôs-se a chorar.
Então Denaquê, que tinha um coração meigo e bondoso, compadeceu-se do pobre velhinho e procurou consolá-lo, dizendo:
– Pai, eu me caso com ele, eu o quero para meu marido.
E o casamento se realizou, com grande alegria para o velhinho. Depois de casado, Tahina-can disse:
– Careço de trabalhar para te sustentar, Denaquê. Vou fazer um roçado para plantar coisas boas, que Carajá ainda não possui nem conhece.
E foi ao Berô-can, o Rio Araguaia, dirigiu-lhe a palavra e, entrando nele, ficou com as pernas abertas, de maneira que as águas passavam entre elas. O velhinho curvado para a corrente, de vez em quando, mergulhava as mãos e apanhava as boas sementes que iam jogando rio abaixo. Assim, as águas lhe deram dois atilhos de milho curuca, feixes de maniva de mandioca, e tudo mais que os Carajás hoje conhecem e plantam.
Saindo do Berô-can, Tahina-can disse a Denaquê:
– Vou derrubar mato para fazer roçado. Tu, porém, não me vá me ver no trabalho, fique em casa, cuidando da comida, para quando eu voltar, cansado e com os braços doloridos, matares a minha fome e restaurares as minhas forças.
Tahina-can foi, mas demorou tanto que, preocupada, Denaquê resolveu desobedecer às recomendações dele e foi, de mansinho, procurá-lo. Para sua surpresa, quem estava lá a trabalhar era um belo moço, alto, cheio de força e de vida. Ele tinha no corpo os enfeites e as pinturas que os carajás ainda hoje usam. Denaquê não se conteve; louca de alegria, correu para abraçá-lo. Depois o levou consigo para casa, contente, para mostrar aos seus pais como seu esposo era na verdade. Foi, então, que Imaherô o desejou também e disse a Tahina-can:
– Tu és meu marido, pois vieste para mim, e não para Denaquê.
Mas Tahina-can respondeu a ela:
– Só em Denaquê encontrei bastante bondade para ter pena do pobre velhinho. Agora não te quero, só Denaquê é minha.
Imaherô, de despeito e inveja, soltou um grito, caiu no chão, e no lugar dela viu-se um urutau, pássaro que ainda hoje dá um grito triste e tão forte que parece ser uma ave muito maior. Foi assim que a nação carajá aprendeu com Tahina-can a plantar o milho, o ananás, a mandioca e outras coisas boas que antes não conhecia.
– Está aí o seu romance com a indiazinha. Você foi muito ingênuo, Rui Barbosa. Você não devia ter cedido. Homem é muito bobo mesmo! Não pode ver mulher dando sopa, de qualquer raça ou etnia, que vai fundo, não mede as consequências. Parece que pensa com o pinto.
– Já está com ciúme? A gente ainda nem se conhece direito! – eu disse.
– Eu não estou brincando, Rui. É sério. Eu sei que não é o caso, mas, quando isso acontece, muitos homens levam doenças contagiosas para as tribos. Os índios, apesar de viverem no meio do mato, já incorporaram alguns costumes dos brancos. Por isso ela te seduziu, talvez sonhando em sair da ilha. São poucos os homens bonitos que entram em contato direto com eles. Você é muito bonzinho, bobinho, sei lá! Deixou-se seduzir. Poderia arrumar encrenca, pra você, talvez não, mas pra ela. Imagine se ela engravida de você? Iria ter um filho sem pai e ficar muito mal na aldeia.
Eu fiquei com cara de idiota. Não sabia o que dizer. Levar uma bronca daquelas sem ter feito nada. E eu, bobão, ainda fui fazer gracinha, dizendo que ela estava com ciúme. Fiquei com vergonha e pedi desculpas pela brincadeira.
– Mary, eu entendo o que você está dizendo e concordo com tudo. Só que eu não fiz nada com ela, bem que ela tentou. Tirou a roupa e foi tomar banho no rio peladinha e ficou me chamando pra fazer amor. Fiquei com medo de arrumar encrenca e acabar sendo linchado lá na aldeia. Eu sei lá o que eles iriam fazer se eu me aproveitasse da situação! Ela ficou com muita raiva porque eu não quis e falou umas coisas que não entendi. Aí fui embora, e ela foi atrás de mim, botando a roupa. Eu a mandei ir na frente, e eu fui depois.
– Desculpe-me, Rui. Eu me precipitei, me descontrolei e fiquei com ciúme sim. Será que eu encontrei um homem que é uma exceção? Na verdade, eu quis dizer que homem é aventureiro, gosta de variar: um corpo diferente, beijos diferentes, sem compromisso...
– Pra ser sincero, acho que não sou exceção coisa nenhuma. Eu estava era com medo mesmo. E acho que você tem razão quanto a isso também... sexo sem compromisso, apesar de que não é só homem que gosta disso.
– É. Também acho que não. Que você é muito ingênuo, também é verdade, Rui. Uma gracinha de bobão.
Ela me deu um beijo que eu cheguei a ver arco-íris. Que boca deliciosa ela tinha. Será que é o sabor do pequi? Duas luas monumentais descansando no meio peito...
Quando despertei, pela manhã, vi, ainda adormecida, a minha flor do cerrado, e dei-lhe um beijo na boca doce como mel e cantei feliz como um pássaro ao sol da manhã. Ouvi o telefone tocar no meu quarto. Chamou uns três minutos seguidos, depois parou. Quando eu ia me levantar para ir até lá, começou a tocar o do quarto da Mary. Ela atendeu deitando-se sobre mim, e eu senti um prazer imenso de ter uma mulher linda com o corpo inteiramente nu me acariciando. Era Capitichana ao telefone.
– Dona Mafledupiqui, me desculpe qualquer coisa que eu incomode. Mas a senhora, por um acaso, sabe do seu Rui?
– Ele deve estar no quarto dele. Eu acordei agora.
– Eu entendo... A senhora me desculpe. Nem sei por que liguei pro seu quarto.Vou ligar de novo pro quarto dele. É que os homens chegaram e querem falar com ele.
– Ele deve estar tomando banho – ela disse, fazendo sinal com a mão para que eu fosse para o meu quarto.
Quando ele desligou, ela falou:
– Rui, vai pro teu quarto agora. Os homens chegaram e querem falar contigo.
Então, nos beijamos mais uma vez. Eu estava gostando muito daqueles beijos, daquela boca. Deliciosa sensação. Foi o nosso último beijo.
Corri para o meu quarto. Quando ele ligou novamente eu atendi. Os homens estavam querendo as chaves para abrir o carro e guardar as coisas. Naquela tarde, voltamos para o Rio. Quando fui me despedir do Capitichana, ele me entregou um envelope.
– A dona Mafledupiqui me pediu pra entregar isso pro senhor.
Era um envelope que continha uma fotografia com a marca dos lábios dela feita com batom, onde ela escreveu: “Doces beijos, sabor jabuticaba. Nunca se esqueça da sua flor do cerrado”.
Estavam anotados também todos os endereços e telefones onde eu poderia encontrá-la.

 

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