O PIOR CEGO É
AQUELE QUE NÃO QUER VER
Vinha descendo para o Rio, depois de descarregar o caminhão em
Montes Claros, cidade de Minas Gerais. Estava livre porque tinha
programado pegar uma carga em Sete Lagoas. Deveriam ser umas quatro
horas da tarde, e o sol batendo em cheio na cabine dava uma
sonolência danada. Estava ouvindo músicas country, que nessas horas
soam muito agradáveis aos ouvidos, e me sentia mais tranquilo que
água de poço. De repente, avistei, logo à frente, quatro caminhões
parados. Quando me aproximei, vi que eram de um circo, um deles
tinha quebrado um dos eixos da roda. O dono do circo me perguntou se
eu podia levar a carga que estava no caminhão defeituoso enquanto o
motorista e mais um ajudante ficariam esperando pelo socorro
mecânico. Eles tinham de chegar logo à cidade para montar o circo,
“tempo é dinheiro”– disse ele –, e ainda tinha o prejuízo pelo
conserto do caminhão.
Eu aceitei o negócio, e a carga foi toda transferida para o meu
caminhão. Levei também a mulher que vivia com o motorista do veículo
avariado. Notei que ele não ficou muito satisfeito com o fato de ela
seguir comigo enquanto ele ficaria com o caminhão, provavelmente até
o dia seguinte. Seguimos em comboio para o local onde seria
instalado o circo.
– Oi, meu nome é Vanessa... e o seu? – ela apresentou-se assim que
subiu à boleia.
– O meu é Rui Barbosa, mas pode me chamar só de Rui.
Ela me falou, pelo caminho que a maioria das pessoas que vivia no
circo trabalhava no espetáculo. Ela fazia um número de equilibrismo.
Contou que era anunciada como se tivesse vindo da Romênia: “E,
agora, para encher os olhos de vocês, o Gran Circo traz a lindíssima
e escultural equilibrista, diretamente da Romênia, a maravilhosa
Vanessa!” – imitou o locutor, fazendo os gestos próprios. Cá para
nós, era um pedaço de mulher! Para ninguém botar defeito. Mais
bonita que capa da Playboy. Quando chegamos, era noite, e já estavam
lá todos os demais componentes e a parafernália, um monte de
trailers e bugigangas, baús, etc.
O dono do circo perguntou se eu poderia ficar até o dia seguinte
para descarregar o caminhão porque estavam todos muito cansados. Eu
concordei, até porque só tinha que estar em Sete Lagoas na
segunda-feira.
– Então, vamos lá, ao meu trailer, que eu vou passar um cafezinho
pra gente, e aproveitar pra fazer um lanche, você quer? Deve estar
com fome... – ela ofereceu.
– Se eu dissesse que não queria, a minha barriga não iria se
conformar e na certa não ia permitir que eu dormisse. Então, eu
aceito! – eu disse.
O trailer da Vanessa tinha chegado antes. Era um maquiador amigo
dela que o dirigia quando eles se mudavam porque ela tinha de viajar
no mesmo caminhão que o namorado ciumento. Confirmei o que o olhar
dele anunciou quando o maquiador falou ao ouvido dela, mas com a
intenção de que eu ouvisse:
– O bofe não deve ter gostado nadinha desse teu passeio. Já estou
com pena de você, amiga! Ele deve ter ficado mais angustiado que
barata de perna pra cima. Você é que deve ter adorado! – disse, me
olhando com o rabo do olho.
– Ah, Tequinho, para com isso! Tá me deixando encabulada! O que o
Rui vai pensar de mim? Não liga, não, Rui, esse danadinho é assim
mesmo, vive fazendo pilhéria comigo. Vai cuidar da tua vida vai!
Amanhã, a gente se fala – disse para o maquiador.
Depois que ele saiu, ela disse:
– O nome dele é Técio, mas ele detesta esse nome, então todo mundo o
chama de Tequinho. Ele não gosta do Rodolfo, o meu namorado, diz que
ele é violento e bruto e que eu não sou mulher pra ele. Vive me
dizendo pra eu dar o fora nele, mas eu acho que é um pouquinho de
ciúme, apesar de o Tequinho ser homossexual. Acho que deu pra
reparar, né?
– Eu percebi, sim.
– O Rodolfo é ciumento mesmo. Às vezes, eu até penso em seguir os
conselhos do Tequinho, mas eu vou dando tempo ao tempo. Quando eu
não suportar mais, dou fim ao relacionamento.
– Sendo assim, acho melhor eu sair daqui e ir pro meu caminhão, não
quero causar problemas. Senti que ele não gostou muito de ter que
ficar lá na estrada e devocê ter vindo comigo – eu disse.
– Ué! Foi o seu Franco quem mandou, ele é o patrão. Além do mais, a
gente só está lanchando e a porta do trailer está aberta. Todo mundo
aqui do circo sabe que eu namoro ele e que eu não ia fazer nada com
um homem que conheci agora, assim, de forma escancarada, embora eu
ache que a maioria, assim como o Tequinho, torce pra que isso
aconteça, quer dizer... Que eu encontre outro cara.
Ela levantou-se da cadeira onde estava sentada com as pernas
esticadas e foi adicionar mais um pouquinho de água fervente da
chaleira que ainda estava sobre o fogo, no fogão. O cheiro do café
fresquinho sendo coado àquela hora só fez aumentar a minha fome.
Olhei para o meu relógio digital: “22:40 WE”. Fui até o caminhão,
apanhar umas frutas que sempre tenho para as ocasiões de aperto, e
quando voltei ela já estava sentada, preparando uns sanduíches. Fui
até a pia, lavei as frutas e perguntei se tinha um prato.
– Pode pegar aí no armário, embaixo da pia – foi a resposta.
– Você gosta de peras e maçãs? – perguntei.
– Gosto mais de peras, mas pra falar a verdade, tem muito tempo que
eu não como uma. Tenho comido mais é banana mesmo.
– Então, se quiser, pode comer as duas peras, eu fico com as maçãs.
Tenho bananas no caminhão, mas não trouxe porque acho que é um
alimento muito pesado a esta hora da noite.
– Não. Eu vou comer uma pera e uma maçã, você come as outras duas –
ela retrucou.
– Então, tá, assim seja – eu concordei.
– Não demora, o Tequinho vai aparecer aqui atraído pelo cheirinho de
café.
– Ainda bem que é só o Tequinho! – eu disse, rindo.
– Você ficou encucado com a história do Rodolfo, não é? Não vai
acontecer nada. É provável que você tenha até ido embora quando ele
voltar. Não está me comprometendo em hipótese nenhuma. Nós somos
somente namorados. Você sabe como é a vida na comunidade do circo? É
como uma família ampliada, temos que viver aqui em união. Por isso,
se surge um encrenqueiro o seu Franco acaba mandando ele embora.
Não pode haver desarmonia, nós precisamos uns dos outros aqui fora
do capitel e lá no picadeiro, principalmente lá. Não podemos falhar.
Entende o que a discórdia pode provocar? Imagine se um de nós fica
com raiva de outro por qualquer motivo e resolve prejudicá-lo...
Pode pôr todo o espetáculo a perder.
É por isso que o seu Franco está sempre de olho nisso. Ele não gosta
que os casais, principalmente os artistas, como eu, se unam com
objetivo de constituir família. As mulheres engravidam, ficam longo
tempo sem trabalhar, e ele tem que pôr alguém no lugar. Geralmente
tem que contratar outra artista, gerando mais despesa para o circo.
Depois tem as crianças. Não é responsabilidade dele, mas ele gosta
que elas estudem, até porque acaba sendo filho do circo e
participando da trupe, mas é sempre melhor evitar. Eu acho que ele
está certo, considerando o aspecto nômade da nossa atividade,
seguindo em caravana pelo Brasil afora. A nossa vida é relativamente
dura, apesar de alimentar o sonho nostálgico do aventureiro, dos
poetas, de quem deseja uma vida diferente...
–... A vida no circo não é nada fácil. É necessário superar todos os
problemas. Quando as cortinas se abrem, o sorriso tem que estar
estampado na cara. A cada dia, um novo público, e depois, outras
cidades. E não pense que é só isso. Além das apresentações durante a
semana, temos que estar sempre ensaiando, sempre e sempre. Apesar de
ser um mundo de sonhos, os artistas e os demais integrantes do circo
são pessoas comuns, que trabalham arduamente, mas que vão às
compras, saem à noite para aproveitar e fazer novas amizades.
Ligações que nem sempre perduram porque, pela movimentação frequente
é difícil um relacionamento duradouro. Mas a gente pode contar uns
com os outros, e o bom entrosamento é imprescindível, pois é o que
nos torna uma grande família. Isso mesmo, como numa família.
Intrigas acontecem, mas como passamos todos os dias juntos, é
necessário que tudo isso seja superado ou evitado...
–... Aqui só tem um casal que tem filho, eles não são artistas,
trabalham fazendo outras coisas. Ela lava, passa e ensina o filho a
ler, escrever e contar, pelo menos. Depois eles têm que dar um
jeito, a não ser que eles queiram que a criança viva sempre no
circo. Mas até quando o circo vai viver? O pai trabalha como
operário, montando e desmontando cenários, é vendedor de doces e tem
outros afazeres, porque o circo precisa funcionar com poucas
pessoas, e acaba que cada um tem várias atividades, até eu e os
outros artistas. É o mesmo caso do Rodolfo, ele é motorista, mas
também ajuda na montagem de cenários e outras coisas. Pra ser
sincera, eu sei que o seu Franco não está muito satisfeito com ele,
justamente por causa do seu temperamento, dessas cenas de ciúme que
provocam mal-estar. Também tenho medo de que isso acabe me
prejudicando. Fico com ele por ficar. Não vou dizer que não gosto
dele, a gente se dá bem, mas esse ciúme me dá medo. Ai dele se
encostar a mão em mim! Vai embora no ato. Isso eu sei, e não vou
ligar, se acontecer. Quem sabe, eu até encontre um motorista
melhor...
“Caramba! Por essa eu não esperava. Em poucos minutos aprendi muito
sobre circo... E essa garota parece que tem a cabeça no lugar. É
bastante inteligente e perspicaz” – pensei, tamborilando com os
dedos no tampo da mesa.
– Estou surpreso, completamente abismado com essa lição que você me
deu. Você aprendeu tudo isso vivendo aqui nesse ambiente? – eu
perguntei.
– Claro que não, Rui! Estudei Sociologia e depois resolvi entrar em
uma escola de circo só para praticar atividade física. Acabei me
apaixonando e decidi viver uma vida diferente daquela que meu pai me
oferecia até falecer. Minha mãe já tinha morrido, e eu ainda era
adolescente. Larguei tudo. Meus irmãos ainda moram lá em Santa
Catarina.
“E eu que pensava que sabia tudo por conta das minhas andanças por
esse Brasil afora! Acabei de conhecer a segurança, sobrenome
sensatez em pessoa” – acho que pensei alto.
Pouco depois Tequinho chegou à porta e foi entrando, elétrico.
– E aí, tudo certo? Já se conheceram? Não estou interrompendo nada?
– e continuou – Olha aqui, ó! – mostrou para Vanessa os dedos
cruzados. – Estou torcendo pra acontecer alguma coisa. Você bem sabe
o quê. Esse café tá cheirando lá fora, me chamando. Eu só tava dando
um tempinho...
– Não interrompeu nada, seu bobo. Eu é que pensei que você já
estivesse dormindo – ela disse.
– Que pena! Mas eu só vou tomar um golinho de café e vou dormir
mesmo. Estou podre de cansado. Você vai ficar pra estreia? –
perguntou para mim.
– Acho que não. Assim que terminarem de descarregar o caminhão, vou
dar o fora.
– Ah! Que pena! Não vai ver a nossa estrelinha apresentando o show
dela? Um espetáculo! Você tinha que ver, é tão emocionante! Fico até
com inveja! Essa coisa linda, lá em cima, se equilibrando nos
cilindros, o corpão perfeito, exuberante, todo mundo babando,
principalmente os homens. Só você vendo a cara que aquele grosso
faz. Ai, amiguinha, eu não me conformo! Você, não! Um dia ainda vou
lhe ver muito feliz, longe dele, e estou sentindo que isso não vai
demorar muito. Mas agora vou mesmo, até amanhã.
Deu um beijo no rosto da Vanessa e saiu.
Eu falei para ela:
– Também vou dormir.
Ajudei a lavar a louça, e nos despedimos.
– Até amanhã, gostei muito de conhecer você – eu falei.
– Eu também, Rui. Boa noite! – ela disse.
No dia seguinte, terminaram de descarregar o caminhão e o dono do
circo perguntou se eu não queria ficar para ver a estreia.
– Sabe, seu Franco, eu bem que queria ficar, mas tenho outro
compromisso... Ah! Tá bom. Pensando melhor, vou ficar, sim. Tô até
gostando desse negócio de circo, pelo menos os palhaços aqui são
autênticos, não é mesmo?
Ele riu e falou:
– Espero que depois de amanhã a gente possa fazer a estreia.
– Até depois de amanhã, eu espero. Se passar disso, vou ter que ir
embora.
Acabei de falar, e o namorado da Vanessa chegou com o caminhão e foi
falar com o seu Franco no escritório.
Mais tarde, todos o ouviram uma discussão entre ele e a Vanessa. Eu,
constrangido, fui dar uma volta pela cidade.
Voltei para a área do circo, era bem tarde. O Tequinho estava me
esperando e veio logo falar comigo:
– A coisa foi feia! – ele disse.
E me contou tudo:
– O grosso chegou a chamá-la de vagabunda. Ouviu ela falar pra ele
que não tinha feito nada, mas que se arrependeu. “Deveria ter
feito... Pelo menos, parece que é muito melhor que você...” Com
certeza, estavam falando a seu respeito. E disse que não queria mais
nada com ele, que estava tudo terminado.
Contou, também, que o Rodolfo havia saído do trailer batendo a
porta, vermelho igual a um pimentão, e deu de cara com o seu Franco,
que já estava lá só esperando ele sair.
– Não deu outra, falou pra ele arrumar as coisas e passar no
escritório. Mandou ele embora.
O trailer dela estava escuro e, no dia seguinte, em decorrência da
azáfama da montagem, eu não tinha o que fazer. Então, fiquei
ajudando, ora um, ora outro, e o tempo passou rápido. Os artistas,
inclusive Vanessa, ensaiaram quase o dia inteiro. À noite, fui falar
com ela. Fomos a uma lanchonete e ficamos conversando. Pedi
desculpas e disse que soube do acontecido pelo Tequinho. Segundo
ele, parecia que eu tinha sido o pivô de tudo. Ela disse para eu não
me preocupar, porque achava até bom tudo aquilo ter acontecido,
servira para abreviar uma relação nada saudável. Falou, também, que
fora ótimo ter me conhecido. Acrescentou que eu havia aparecido em
boa hora.
Finalmente, aconteceu a estreia. Realmente valeu a pena ter esperado
para ver o espetáculo. Vanessa tinha dito para eu ficar bem pertinho
do picadeiro para ver melhor. Foi muito divertido. Os palhaços deram
um show de graça e alegria. As crianças aplaudiam e gritavam com uma
satisfação contagiante. Depois vieram os contorcionistas, os
malabaristas e os acrobatas. Eu já conhecia todos. Conversei com
eles enquanto eram gente comum. Ali, no picadeiro eram diferentes,
faziam o espetáculo. Por último, ela, Vanessa, apresentada do mesmo
jeito que me havia contado. Fiquei babando, confesso. Ela, ali,
estava muito mais bonita, uma deusa. O cara deve ter sido muito
idiota para perder uma mulher daquelas... Estava linda,
equilibrando-se em cima de um púlpito, uma sacerdotisa. Então me
lembrei de uma frase que vi escrita no para-choque de um caminhão
que se adequava perfeitamente ao momento: “Mulher é igual a circo,
por debaixo do pano é que está o espetáculo.” Cinco cilindros, uns
em pé e outros deitados, e ela exuberante lá em cima. No fim abre os
braços e distribui beijos para a platéia. “Vi um especial para mim
ou foi impressão?”
Depois da apresentação, tudo começou a ser recolhido e ela veio até
onde eu estava conversando com o Tequinho e disse:
– Então, valeu a pena ter esperado?
– Ô! Se valeu! Você estava linda, parabéns! Tequinho não exagerou.
– Vamos tomar um café? – ela convidou.
– Lá no seu trailer? – eu perguntei.
– É, lá no meu trailer. Tem café no seu caminhão?
– Não, não tenho café, só peras e maçãs. Vamos, então tomar o café.
– Desta vez, eu não vou – disse o Tequinho.
No dia seguinte, bem cedo, eu parti. Ela ainda estava dormindo.
Tequinho veio correndo quando eu ia saindo.
– Vai embora sem se despedir da gente? – ele perguntou.
– Pensei que vocês estivessem dormindo. Eu me despedi dela, ontem à
noite.
– Não, não estamos. Ela não quis vir pra não dar motivos para
fofocas, mas está morrendo de vontade... Deve estar olhando pela
fresta da janela, se eu a conheço. Ela pediu pra eu lhe entregar
isto.
Deu-me uma foto da Vanessa durante uma apresentação. No verso, além
do seu número de celular, estava escrito: “Pra você não esquecer que
a vida é um palco e nós somos os atores. Quando quiser, ligue para
saber onde estamos e venha tomar um cafezinho. Vou ficar esperando.
Traga as peras. Beijos, Vanessa.”
