Sebo - MÔNICA SERRA SILVEIRA

SEBO LITERÁRIO

autor


 
 
MÔNICA SERRA SILVEIRA
 
 
Mônica Serra Silveira nasceu em Fortaleza, no Ceará, em 10 de julho de 1960. Formada em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Já publicou 11 livros, sendo 3 de contos (Eu Conto, Eu Conto 2 e O Prêmio); 3 de poesia (Janela, Quatro Estações e Versos de Amor) e a Antologia do Papo Literário. Participou também das antologias Do Amor, Música e Poesia; Cadernos de Poesia; Valores Literários do Brasil; Premio Ideal Clube de Literatura; Estações da Palavra; Contos Fantásticos - O Cravo Roxo do Diabo e Segundo Pensamento.
É membro da Academia Feminina de Letras e da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. Atualmente, é editora e repórter do Programa Papo Literário da TVC, atuando também na edição do Jornal da TVC e programa Crônicas do Ceará, da mesma emissora.
 
 


 
CONTOS
 
 
 
TEM UMA MADONA NA MINHA CAMA
 
- Alô!
Silêncio. Expectativa. Após alguns segundos de suspense a voz reponde por trás do aparelho telefônico.
- Alô!
- Sim, pode falar!
- Sou eu, o Pietro.
- E aí, cara?Você não vem trabalhar hoje?
Um novo silêncio se fez.
- Aconteceu algo inesperado...
O telefone cessou de emitir som abruptamente.
- Alô!Alô!Alô!
Ao mesmo tempo, todos no escritório se voltaram para Joel.
- Acho que aconteceu alguma coisa com o Pietro...
Olhos arregalados aguardavam uma explicação.
- Estava agora com ele no telefone e de repente a ligação foi interrompida, sem explicação.
- Minha nossa! Você acha...
- Joel estava gostando de ser pela primeira vez o centro das atenções no escritório. 
- Bem, eu...
- Foi seqüestro?
- Já sei, ganhou na mega sena!
- Viu um E.T?
Joel tonto com as insinuações. Isso, aquilo,isso aquilo! Joel não queria decepcionar a expectativa dos colegas. Algo incrível teria que ter acontecido.
- Vai fala logo, Joel!
- Ele não sabe de nada...nem deve ter conseguido falar com o Pietro.
Joel viu as atenções fugirem da direção dele. Decididamente não queria perder esse momento de celebridade.
- Quem disse que eu não falei com Pietro...
Novamente os olhares procuram por Joel.
- Você falou mesmo com Pietro? Então conta o que aconteceu.
- Joel baixa a cabeça. Dá um suspiro e faz silêncio.
- E aí, desembucha!
- Não posso.
Um coro de lamentações ecoa pela sala.
- Prometi ao Pietro que não falaria pra ninguém.
Rebuliço geral. Os funcionário correm em direção a Joel com veemência.
- Ah, não Joel! Você começou agora vai ter que falar...
- Não posso, eu prometi.
O suspense é interrompido com a chegada de Antero, o diretor da empresa, acompanhado de uma equipe de reportagem. O fato mais inusitado ainda, rouba a atenção dos funcionários.
- Mas o que é isso? Que folga é essa? Então eu chego aqui no escritório e encontro essa bagunça!
O diretor se volta para a equipe de reportagem aflito.
- Por favor, desculpem! A gente não pode deixar a empresa um minuto só e acontece dessas coisas...
Aos poucos os funcionários foram ocupando seus lugares nas mesas.
- Muito bonito! Chego aqui com uma equipe de reportagem para mostrar o bom desempenho da nossa empresa para uma série empresarial de TV e encontro tudo no maior abandono!
- Não, chefia! Não é nada disso que está parecendo.
Indiferente as broncas e desculpas, a equipe de reportagem vai se arrumando para a gravação.
- Ah, não é o que parece? E o que é então?
- Aconteceu algo extraordinário com o Joel.
- Repórter e cinegrafista se entreolham no mais legítimo faro jornalístico.
- Pois é, o Joel ia contar agora pra gente. Uma coisa bombástica. Conta Joel.
Joel fica pálido como uma folha de papel A4. A coisa mudara de figura. Agora a responsabilidade era muito maior. O que iria a inventar?
- Então, Joel, o que aconteceu com o Pietro?
- Vai, Gerson, Liga a câmera. Não vamos perder esse furo.
- Já tá na mão, Roberto. Tô gravando tudo.
Sem saber o que fazer, Joel desmaia. Foi a única forma que encontrou para fugir as explicações que não podia dar. Em polvorosa todos correram para acudir.
- Tragam um copo d'água.
- Olha, ele tem uma revista na mão.
- É a foto da Madona!
- É isso!
- A Madona está no apartamento do Pietro.
Em poucos minutos a turma toda estava na portaria do prédio onde mora Pietro.
- Queremos ir ao apartamento do Pietro.
- Sinto muito, mas tenho ordens para não deixar ninguém subir. O apartamento está de quarentena.
- Ouviram isso? Tem gato nessa tuba.
Mais e mais pessoas foram se juntando em frente ao prédio. A equipe de reportagem registrava tudo sem parar. O repórter faz um flash para um informativo extra. 
- É neste prédio que possivelmente se encontra neste momento a pop star Madona. Ela estaria hospedada clandestinamente no apartamento do senhor Pietro Siena. Voltamos logo mais com outras informações.
A notícia se espalha rápido como uma bala. Uma multidão se forma no local. Pietro abre a janela para o saber o que está acontecendo e engole seco. Nunca vira tanta gente junta em frente a casa dele.
- Madona mia!
Na calçada, um surdo-mudo contratado para ler os lábios de quem aparecer na janela, observa de binóculo.
- Ele está falando Madona mia.
A multidão se agita.
- Madona!Madona!Madona!Eu vim aqui só pra te ver!Madona!Madona!Madona!
A gritaria era ouvida à distância. Assustado, Pietro chama a equipe de reportagem até o apartamento dele. De termômetro na boca, uma caixa de lenço de papel na mão, semblante abatido, Pietro abre a porta.
- E aí, aonde ela está?
- Quem?
- Madona!
- Madona aqui só se for nome de virose, meu amigo. Vocês podem dizer lá em baixo que estou na cama com Madona, a virose mais forte desse mundo.
 
 
 
 
 
O PRÍNCIPE
 
 
- Emília, onde  é  que  você  andava, menina? Um  membro da família  real  Leconiana  acabou  de  chegar  à  cidade  e  você  tem  que  ir com urgência para o consulado e  fazer  uma  matéria. Ele  veio  com intuito de  aproximar  o  país  dele  com  o  nosso  estado, um  intercâmbio  econômico  e  cultural. Você  é  a única que  fala  Leconiano  aqui  no  jornal. Corra  para  lá.
- Mas...
- Mas  o  quê ?
- Eu  não lembro  mais  nada  desse  idioma, faz  anos  que  não pratico.
- Se  vira!
Na  verdade, Emília  nunca  falou  leconiano, só  colocou  essa  habilidade  na  ficha  para  ter  uma  vantagem  na  hora  de  conseguir  a  vaga  no  emprego. Agora,  estava  numa  boa  enrascada. Por  sorte,  nessas  ocasiões  sempre  há  um  tradutor. Era  um  amigo  dela, que  não  poupou  gozações  ao  saber  do  drama  da  repórter.
- Isso  é  o  que  dá  mentir  para  o  chefe... Não  se  aflija, seu  amigo  está  aqui  para  lhe  salvar. O  que  deseja  saber?
- O  que  o  príncipe  veio  realmente  fazer  aqui  na  cidade?
- Oficialmente intercâmbio. Ele vai oferecer algumas bolsas de estudo, em diferentes áreas na universidade da Lecônia. Vai conhecer algumas fábricas  locais, visitar  uma  feira  de  produtos  regionais. E  se  divertir  um  pouco, é  claro.
- Dudu,  você  poderia  me  apresentar  ao  príncipe?
- Claro  que  sim,  venha  comigo. Quando  disser  o  seu  nome  faça  uma  reverência  com  a  cabeça.
O  príncipe  era  um  sessentão bonito, de olhos azuis e gelados. Expressão  severa. Mas  não  se  esquivou  de  passar  todas  as  informações  solicitadas  por  Emília.
- Dudu,  pergunte   a  ele  qual  a  principal  riqueza  da  Lecônia.
O  príncipe  respondeu  a  Dudu, que  a  Lecônia  tem  vários  minérios  e   produz  o  melhor  caviar  do  mundo, mas a maior riqueza do país era seu povo.
- Eu  pensei  que  a  Rússia  produzisse  o  melhor  caviar  do  mundo, Dudu.
- Bem,  eu  estou  apenas  traduzindo  o  que  o  príncipe  disse.
Emília  também  perguntou sobre os costumes da Lecônia. O visitante  real  respondeu  que  lá  as  pessoas  casam  tarde, porque  antes  de  escolher a  noiva, o rapaz  precisa  conhecer  todas  as  pretendentes  disponíveis  na  região. Freqüenta  a  casa  de  cada  uma  delas  por  uma  semana. Leva  presentes  e  dorme  uma  noite  com  cada  uma  das  moças, na  mesma   cama.
- Dorme? Quer dizer mantêm  relações íntimas antes de casar? E como fica  o  controle  de  natalidade?
- O  príncipe  explicou  que  o  rapaz  dorme  com  a  jovem  sem  manter  relações  sexuais. Estas, ele só as  tem com  aquela  mulher, que escolher  para  esposa. Com  as  pretendentes,  o  rapaz  passa  uma  noite  para  conhecer  a  intimidade  da  convivência  e  não  se  surpreender, caso  venham  a  viver  com  ela  pelo  resto  da  vida.
Enquanto falava sobre os costumes de seu país, o príncipe não deixava  transparecer  qualquer  emoção  ou  sentimento  mais  forte. Tudo era  comunicado  com  muita  seriedade, como  se  tratasse  de  um  assunto  decisivo  para  a  Pátria.
Emília  saiu da entrevista  com a sensação de  missão cumprida. A matéria  foi  divulgada,  com  a  foto  do  príncipe  numa  pose  elegante,  distinta,  em  seu  traje  oficial.
Quando  pensou  ter  se  despedido definitivamente do mundo leconiano, dez  dias  depois, Emília  foi  surpreendida  com  um  telefone  da  parte  daquela  Monarquia.
- Sua Alteza, o  príncipe Bertold  deseja  agendar  um  encontro  com  a  senhora. Pede  que  marque  a  hora  e  o  local.
Emília  ficou  sem  palavras  por  alguns  segundos. Não  sabia  o  que  dizer. Nem  sabia  falar  leconiano...
- O  príncipe  adiantou  o  assunto?
- Não, senhora. Mas  me   ordenou  que  levasse  a  resposta  ainda  hoje.
Emília  ficou  a  imaginar   que  assunto  seria  tratado  no  encontro. Teria  sido ofensiva  na  reportagem? E  se  o  príncipe  quisesse  puní-la  de alguma  forma? Será que o emprego dela corria perigo? Não,  se  quisesse  mesmo  uma  represália,  o  príncipe  não  precisaria  se  encontrar  com  ela.  Decidiu  deixar  o  pessimismo  de  lado  e  tentou  ser  otimista. Quem  sabe, ele  teria  gostado  da  matéria  e  quisesse  simplesmente  de  agradecer   pessoalmente?
- Está  certo. Amanhã  estarei  no  Museu  Municipal  fazendo  uma matéria. Terei  prazer  em  encontrá-lo  na  entrada  principal, às  dez  da  manhã.
No  horário  pontualmente  marcado,  o  príncipe  Bertold  chegou  ao  local  com  uma  caixinha  dourada  nas mãos. Emília, mantendo o costume  da  terra, chegou  atrasada,   pedindo  desculpas.
- Tudo  bem.
- Tudo  bem? O  senhor  aprendeu  a  falar  o  meu  idioma?
- Um  pouca.
O  assistente  ao  lado  do príncipe  se  apressou  em  explicar  que  sua  alteza  fez  um  curso  intensivo  de português. Queria  falar  diretamente  com  a  jornalista.
- Eu  desejar  conhecer  Emília  um  semana, como  é  costume  na  Lecônia.
Emília  percebeu  que  o  príncipe  a  cortejava. Mais  uma  vez  não  sabia  o  que  dizer. Afinal,  que  mulher  nesse  mundo  recusaria  a  corte  de  um  príncipe  de  verdade? Além  disso, uma  semana   passaria  rápido.
E  assim  foi. O  príncipe  vinha  de  avião da  Lecônia  para  jantar  com  Emília. Era  uma  missão extra-oficial. Bertold  viajava  incógnito, sem  avisar  a  ninguém. Emília  tinha  que  manter  sigilo. A cada  novo  encontro, o  príncipe  trazia  um  presente. Às  vezes,  rosas  para  a  mãe  ou  um  vinho  para  o  pai  de  Emília, que  estavam  empolgadíssimos  com  o  relacionamento   real.
O  príncipe  era  atraente, com  suas  maneiras  finas, galanteios. Mas  não havia  o  mesmo  entusiasmo  por  parte  de Emília. Numa dessas noites, os  dois  foram passear  na  praia. Os  pés  de  Emília  ficaram  sujos  de areia  e  o  príncipe  fez  questão  de  comprar  ali  mesmo  um  sapato  novo  para  a  dama. Parecia  conto  de  fadas. Bertold,  no  entanto, era  bem  mais  velho. A  barreia  do  idioma, a  falta  de  afinidades,  pesaram   muito  naquelas   circunstâncias.
Chegara  por  fim  o dia  em  que, segundo  o  costume  leconiano, Emília  e  Bertold  teriam  que  passar  a  noite  juntos. A  jornalista   não  sabia  como  explicaria isso  em  casa. Mas  aquela  seria  uma  experiência  excitante  e  irresistível. Por  trás  de  tudo,  havia  a   curiosidade   jornalística. O  príncipe  reservou  uma  suíte  presidencial, onde  tinha  até  lareira. Jantaram  ao  som de  violinos. Comeram  caviar da  Lecônia.
Em  certo  momento, Bertold  fez  sinal  para  que  todos  saíssem  e  ficou  a  sós  com  Emília. 
- Não tema. Só dormiremos um ao lado do outro, nada mais.
- Sinto muito, não posso continuar. Não me sinto à vontade...
O  príncipe  entendeu, que  a  tradição da intimidade não se concretizaria naquela  noite. Emília,  certamente,  não  seria  a  tão  esperada   princesa  da  Lecônia.

 
 

 
O COMETA
 
Há  décadas, um  cometa  não  se  aproximava  da  terra,  a  ponto de  se  tornar  visível,  a  olho  nu   pelos  habitantes  do  planeta.  É um fato extraordinário, especialmente para  o  meio  científico,  que atribuía  ao  fato  uma  grande  importância. A  imprensa, evidentemente,   estava  a  postos  para  registrar  o  fenômeno.
Na  véspera  da  aparição do  cometa, a  grande  interrogação  ainda  era  em  relação à  pronúncia  correta  do  nome  daquele  aguardado corpo  celeste. Chamava-se  Hale-Bopp.  Pois é,  um nome nada comum. Só após  a produção do jornal fazer uma consulta a  uma professora  de  inglês,  veio a conclusão de que a pronúncia  correta  era  Rêil-Bóp.  Alfredo  ficou  empolgado  em saber  que  iria  fazer a  reportagem  sobre  a  passagem  do  cometa.  Quando  criança, sempre  fora  apaixonado por astronomia. Adorava  conhecer  coisas  do  espaço, as galáxias, os   planetas, as   estrelas   e   todos   os  outros astros. Ainda  alcançou  o  tempo,  em  que  era  possível  olhar  para  o  céu  e  ver  as estrelas,  como  um  manto  luminoso.  Hoje,  ninguém  mais  via as  estrelas  com  tanta  nitidez  quanto  antes, a  não  ser  com  o  auxílio  de  lunetas.  Logo  lhe  veio  à  cabeça  o  poema  de  Olavo  Bilac: “Ora, direi  ouvir estrelas...”  Concluiu  que  certamente,  houve  uma  época, em  que  se  ouvia  estrelas. Época  em  que  a  natureza  falava  mais  alto  ao  coração  dos  homens.  Sim, o  universo  deve  continuar  cantando  para  todos, contudo  não  é  mais  ouvido. O  que  se  escuta  mesmo  é  o  motor  dos  automóveis  nas  ruas, os  tiroteios  nas  favelas, o  barulho  das  britadeiras  nas  obras, o  toque  dos  celulares, o  som  da  programação  da  tv, os  alto-falantes  a  avisarem  sobre  alguma  promoção  de  loja.  Já  não  se  ouve  mais  as  ondas  do  mar, o  canto  dos  pássaros, o  chocalhar das folhas  com  o  vento. Foi  por  isso que  a  passagem  do  cometa  emocionou  Alfredo. Era  um  momento  único, mas  nem  todos  se  davam  conta. 
Dizem   que  repórter  deve  ser  neutro e  objetivo,  afim  de  transmitir  os  fatos  como  são, crua e friamente. E  como  então, descrever  a  emoção   sem  sentir  essa  emoção? Neutro, sim. Frio, não. Objetivo,  sim. Sem  graça,  não. A interpretação  dos  fatos, passa  pelas   emoções. Quem  não lembra  da  transmissão  ao  vivo  do  incêndio do Zepelin? O  repórter  fez  com  que  o  público  sentisse   exatamente  toda  a  tragédia  daquele  instante. Não  se  tratava  de  dramatizar  tudo, colocar  empolgação  e  terror  onde  não  existe. Mas  sim,  de  ter  o  bom  senso de  retratar  o  que  se  observa  com  fidelidade. E  onde  houver  emoção,  colocar  emoção.  Passado  o  impacto  inicial, o  repórter  deve  tomar  as  rédeas  do que acontece  e  descrever  com  clareza, sem  se  repetir  demais as narrações ou   sem  fazer  julgamentos  precipitados.
Passou  pela  cabeça  de  Alfredo  a  espetacular  cobertura  do  dia  em  que  o  homem  pisou  pela  primeira  vez  na  lua. Era  apenas um  menino,  quando  assistiu  pela  tv,  em  preto  e  branco,  Armstrong,  Andrews  e  Collins  naquela  missão  histórica.  Chegaram  a  dizer  que  tudo  não  passava  de  uma  farsa,  uma  montagem  bem  feita  dos  norte-americanos.  Alfredo  se  recusava  a  acreditar  nisso.  Seus  olhos  brilhavam  diante  daquelas  cenas. O  pai  dele  comprara  até  uma  edição  especial  de  uma  revista, que trazia  um  disco  com  a  gravação  de  toda  a  cobertura. Agora,   Alfredo  estava  diante  de  outra   situação   envolvendo  o  espaço.
Era  29  de  abril  de  1997. Emissoras do Rio de Janeiro e São Paulo  se interessaram  pela  reportagem. Era  preciso  caprichar  na  produção. Uma   entrevista   foi  marcada   com  um  astrônomo  conhecido  na   cidade, o Dr. Pamplona, que  se  dispôs  a  acompanhar  a  passagem  do  cometa  com  a  equipe  da  tv.  A  princípio,  a  cobertura  seria  ao  vivo, dependendo  das  condições  de  visibilidade.  Mas  depois,  ficou  decidido  que  a  matéria  seria  feita  no início  da  noite. E  depois  de  editada,  enviada  para  as  emissoras  de  rede. O  Jornal  iria   ao  ar  por  volta  das  vinte  e  duas  horas.  Não  havia  tempo  a  perder. Alfredo  correu  com  a  equipe  para o observatório. Chegou  cedo  para  esperar  o  acontecimento.  Antes,  o  Dr.  Pamplona  já  havia  colhido algumas  imagens  em vídeo do  Hale-Bopp  em VHS, que  foram  depois  trans-codificadas   para  o  sistema  Betacam  da  tv.  Parecia que  estava  adivinhando, porque,  enquanto  a   equipe  de  reportagem   aguardava, o  cometa  cismou   em  se  esconder  por  trás  das  nuvens. Por  mais  que  eles  torcessem,  o  cometa  não  se  deixava  ver. Era  como  se  estivesse   brincando   de  esconde-esconde. E  a  matéria, como  ficaria? O  nervosismo  começou  a  tomar  conta  da  equipe. O  tempo  passava  e  o  cometa  no  máximo  surgia  bem  discretamente,  quase   imperceptível. O  negócio  foi  descrever  o  que  acontecia  naquele  momento. A  ansiedade  para  ver  o  astro  da  noite. O  mistério  por  trás  das  nuvens. A  decepção   do  astrônomo.
Reportagem   nem  sempre  é  o  que  acontece,  mas  também  o  que  não  acontece.
Felizmente,  puderam  ser  mostradas  as  imagens  colhidas  antes, em VHS.  Eram 
imagens  emocionantes. A  cauda  do  cometa  não  era  tão  grande  como  se  pensava, mas  de  qualquer  modo  aquela  era  sem  dúvida  uma  visão  única.  Espetacular.  Fantástica.
A  equipe  voltou   para  a   tv. A  reportagem  foi  Editada  e  enviada    para  São  Paulo  e  Rio. Acabou sendo  manchete  e  chamada  de  bloco  nos   telejornais  do  país.
Alfredo  assistiu  o  que  produziram , em  rede  nacional. E  se   sentiu  ainda  mais  feliz,  depois   de  receber  os  elogios  daqueles  que  viram  a  reportagem  no  ar,  se  dizendo  surpresos  em   saber,  que    tudo  havia   sido  feito   por  uma   equipe  local.

 
 

POEMAS
 
AS TUAS MÃOS

As tuas mãos de mansinho
Desenham em mim carinhos
Conhecem os meus caminhos
Me embriagam de puro vinho

As tuas mãos vigorosas
Em mim, são tão poderosas
Criam uma situação perigosa
E eu viro pétala de rosa

As tuas mãos fazem atalhos
Descobrem meus atos falhos
Entram nos meus armários
E vencida eu me atrapalho

Ai, essas tuas mãos ...

São mesmo uma infinda arte
Entrando nas minhas partes
Rápido meu coração bate
Estou condenada a amar-te

 
 
BORBOLETA


Me enchi de alegria
Ao ver aquele vôo trêmulo
Pintando o espaço azul
Com suas asas de arco-íris

Ah, quantas saudades de mim senti!

Como se fosse criança
Quis correr...
Perseguir as asinhas de seda
Mas controlei meu impulso
E só as segui com os olhos
O quanto pude...

Bailava livre
A borboleta inocente
Efêmera criatura
Sem pensar na morte
Sem ligar pra sorte

Plena de vida
Borboleta bonita
Um suave existir
Felicidade infinita

 

 
MENDIGA


Sou mendiga, de coração vazio
À espera de tuas migalhas
Só um leve roçar de pernas
Um toque de mãos distraído
Um choque de olhar desviado

Sou pobre, pobre de marré deci
Poderia ser rica de outros afetos
Acumular fartos e apertados abraços
Mas não quero a fortuna sem você

Um olharzinho, pelo amor de Deus!
Um sorrisinho, pelo amor Deus!
Um só carinho, pelo amor de Deus!

 

 
O FIM DO MUNDO

Se o mundo acabasse amanhã
Levaria um céu anil do Brasil
Um amarelo brasa
Do pôr do sol
Um arco íris de flores
E uma sinfonia de pássaros

Se o mundo acabasse amanhã
Levaria árabes e israelitas
Barbáries e Fantasias
Miséria e tecnologia

Se o mundo acabasse amanhã
Muitas saudades eu sentiria
E pensando em ti
Com amor, eu partiria

 

EVOLUÇÃO

Comunicando, comunicando...
mega luzes, cambio
Sim, queremos aprender com vocês
Ainda somos muito atrasados
Aqui ainda existe dinheiro
Todos correm atrás dele
Fazem qualquer coisa por ele
O capital está acima do sentimento
Acima de qualquer sofrimento
O capital é o senhor dos escravos
A corrente dos bravos
Vale mais que a própria vida
Cambio final.
 
 

AMY

Ai que dó!
De quem partiu tão só
Cercada de tanta gente
De quem tem tanto talento
E só na droga vê alento
Ai que dó!
De quem canta a vida
Mas se encontra tão perdida
Troca a glória e o sucesso
Por cocaína e bebida
Ai que dó!
De ver ídolos partindo
Tantos já se foram
Tão jovens vão sumindo
Descanse em paz Amy!

 

 
BRASIL

Só você tem esse sorriso tropical
De quem se banha ao sol
E mira o azul do céu
Só você brinca de um jeito com a vida
Sem medo de suas feridas
Buscando um gosto de mel
Só você estende mãos generosas
Seus bosques cheiros de rosas
Aos visitantes que chegam
Só você acolhe todos os deuses
Todas as raças e saberes
Só você Brasil
Me faz independente
Filha dessa Pátria amada
com seus pesares e prazeres.

 

 
ESSÊNCIA

Obrigada, meu amor,
Corajoso amor
Delicado amor
Inexplicável amor

Obrigada por penetrar
Suavemente em minha pele
Arrepiando meu corpo
Assim sempre se revele
A sua essência sublime

Obrigada, meu amor,
Iluminado amor
Divino amor transcendental
Por me abrir o peito
Meu doce amor perfeito
Exorcizando o mal.

 

 
O QUANTO EU TE AMO

Se tu enxergasses o quanto eu te amo
Veria uma tempestade no meu peito
Sentiria o fogo ardendo na minha pele
E um arrepio escalando a minha espinha

Se tu enxergasses o quanto eu te amo
Saberia que eu buscaria as estrelas pra te dar
Que desmontaria toda com simples toque teu
E que me iluminaria com o teu doce olhar

Se tu enxergasses o quanto eu te amo
Riria do meu desespero em te ter
Da minha ânsia em respirar teu ar
Da minha obsessão em beijar tua boca

 

 
SER POETA

Ser poeta
É ser arrepio na pele
A cada rajada de vento
A cada bailado de corpo
A cada luz em movimento

Ser poeta
É ser torto
Estranho ser absorto
Que mergulha no outro
Que navega sem porto

Ser poeta
É ser vulcão explodindo
É ser energia fluindo
É ser sonho real
É ser amor sem igual

 

LIVROS PUBLICADOS
 
Eu Conto (contos) 1985 -;- Rainha da Ambição (romance) 1986 -;- Janela (poesia) 1988 -;- Eu Conto 2 (contos) 1992 -;- Quatro estações (poesia)  1995 -;-Versos de Amor (poesia) 1998 -;- Sombra do Passado (romance) 2003 -;- O Menino do Coração de Pedra (Literatura Infantil)  2004 -;-  O Premio (conto) 2006 -;- As Aventuras de Tacim e do rei Jeremias (Literatura Infantojuvenil) 2008 -;- Antologia do Papo Literário (coletânia) 2009.
Podem ser adquiridos através do e-mail
monicawebsilveira@gmail.com
 
 

 

 
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