Brites Mendes de Albuquerque

Semira Adler Vainsencher
psicóloga e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

 

Brites Mendes de Albuquerque nasceu em Portugal, por volta do início do século XVI, filha de Lopo de Albuquerque e Joana de Bulhão. Pelos mais íntimos, era chamada, também, de Beatriz. Ela se casou com Duarte Coelho Pereira, donatário que comandou a capitania de Pernambuco, em 1554; mas, existem algumas versões sobre a data e o local do matrimônio.

O sogro de Brites - Gonçalo Coelho - era escrivão da fazenda real e capitão-mor da armada que esteve, em 1503, no litoral do Brasil, para reconhecimento do território. Duarte Coelho, antes de desposar Brites, entre 1516 e 1517, participou de viagens ao Oriente, através de uma empresa ultramarina lusa. De acordo com a historiografia, Brites e o esposo desembarcaram no Porto do Marcos, em frente à ilha de Itamaracá, em Pernambuco, em 9 de março de 1535.

Um parêntesis aqui merece ser registrado. Tudo leva a crer que Duarte Coelho Pereira era um cristão-novo (ou marrano), judeu fugido da Inquisição, haja vista seus dois sobrenomes evidenciando tipos de animais e de plantas (Mello, 1979). Os judeus não convertidos ao catolicismo tinham os seus bens confiscados e/ou recebiam a condenação à morte na fogueira, por traição, heresia, bruxaria, ou impureza de sangue. Muitos colonizadores portugueses vieram, como degredados, da Península Ibérica para a América Lusitana, onde o fanatismo católico era um pouco menor, e eles podiam praticar a religião mosaica às escondidas.  

Para colonizar as terras de Pernambuco, com o casal Duarte Coelho e Brites vieram, ainda, familiares e muitas outras pessoas: marinheiros, soldados, artesãos, amigos. Contudo, a ocupação produtiva do território não era tarefa fácil e, não raro, o principal engenho de açúcar (chamado Nossa Senhora da Ajuda e, posteriormente, Forno da Cal), juntamente com a Casa-Grande, as senzalas, as casas dos trabalhadores lusos e suas pequenas povoações, tinham que resistir aos ataques indígenas. O engenho Forno da Cal foi construído pelo casal de donatários e o irmão de Brites, Jerônimo de Albuquerque.

Além da produção de açúcar, os engenhos precisavam funcionar, também, como empresas militares. A capitania de Pernambuco - chamada de Nova Lusitânia - foi uma das mais prósperas, estendendo-se de Itamaracá ao norte de Alagoas.

Duarte Coelho retornou a Lisboa, em agosto de 1554, para prestar esclarecimentos sobre a capitania e, lá, faleceu. Em Portugal, na época, estudavam dois de seus filhos, mas eles não voltaram de imediato ao Brasil. E, quando retornaram, eles pouco ajudaram na administração da propriedade. D. Brites, então, após a morte do marido, teve que assumir o governo da capitania e, para isso, contou com a ajuda de seu irmão (que havia se estabelecido na região, e casado com uma índia chamada Maria do Espírito Santo Arcoverde).

O principal problema enfrentado pelos colonizadores era resistir às investidas dos indígenas. Sem o governador, eles detinham facilmente o avanço dos portugueses, matavam colonos e escravos e destruíam os engenhos. Em 1555, Jerônimo de Albuquerque escreveu uma carta ao rei de Portugal, pedindo ajuda e ressaltando que o pequeno rendimento da capitania não bastava, sequer, para a manutenção de Brites e seus filhos.

De acordo com testemunhos de jesuítas que visitaram a capitania, o real desejo de Brites, ao invés da governança, era o de se dedicar à vida religiosa. Ela queria, em verdade, ter tempo para se dedicar a Deus. Aos seus filhos - Duarte Coelho e Jorge Coelho - coube a sucessão da capitania, em 1560. No entanto, a carta definitiva do rei, confirmando a posse, chegou quase dez anos depois: em fevereiro de 1570. A despeito da confirmação por carta, os dois irmãos regressaram a Portugal. Em 1572, foram incorporados à armada do rei D. Sebastião, que avançava sobre a África, e faleceram na batalha de Alcacer-Quibir, no dia 4 de agosto de 1578.

A capitania de Pernambuco foi a mais desenvolvida do país, com mil colonos e mais de mil escravos. Segundo os registros históricos havia cerca de sessenta e seis engenhos, e estes produziam duzentas mil arrobas de açúcar por ano. Na época, Olinda apresentava uma igreja matriz, diversas capelas e um colégio da Companhia de Jesus. Bem menos desenvolvido era o Recife, com um pequeno povoado, alguns armazéns e uma ermida.

Em 1986, o sociólogo e antropólogo Gilberto Freyre, em um discurso feito por ocasião de sua posse na Academia Pernambucana de Letras, reconheceu a eficiente ação administrativa de Brites Mendes de Albuquerque.

Segundo as fontes históricas, D. Brites governou a capitania até a sua morte. O padre José de Anchieta, em relato aos superiores religiosos, registrou que o falecimento dela ocorreu entre os meses de junho e outubro de 1584. As honras fúnebres, em sua homenagem, foram realizadas pelo bispo D. Antônio Barreiras, no Colégio de Olinda.

Fontes consultadas:

MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação. Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Recife, v. 51, 1979.

MOURA, Hélio Augusto de. Presença judaico-marrana durante a colonização do Brasil. Cadernos de Estudos Sociais, Recife, v. 18, n. 2, p.267-292, jul./dez. 2002.

Poderosamente mulher. Disponível em:

http://poderosamentemulher.blogspot.com/2008/05/mulheres-do-sculo-xvi-brasil.html Acesso em: 6 set. 2009.

RIBEMBOIM, José Alexandre. Senhores de engenho: judeus em Pernambuco colonial (1542-1654). Recife: 20-20 Comunicação e Editora, 1998.

SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade.  Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

VAINSENCHER, Semira Adler. Sinagoga do Recife – Kahal Zur Israel. Disponível em:

http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=317&textCode=1036&date=currentDate Acesso em: 14 set. 2009.

Cemitério judeu nas Américas. Disponível em:

http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=300&textCode=7996&date=currentDate Acesso em: 5 set. 2009.

 

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco
http://semiraadlervainsencher.blogspot.com/