
"Verde é a cor
da minha memória"
Cícero Dias nasceu no dia 5 de março de 1907, no
Engenho Jundiá, no município de Escada, em
Pernambuco. Foi o sétimo, dos onze filhos de Pedro
dos Santos Dias e Maria Gentil de Barros e, ainda,
pelo lado materno, neto do Barão de Contendas. Aos
13 anos de idade, foi para o Rio de Janeiro.
Surpreendendo os seus familiares, decidiu tornar-se
um pintor.
Em 1928, porém, na Cidade Maravilhosa, nenhuma
galeria de arte se interessava por arte moderna.
Neste sentido, a primeira exposição de Cícero - o
mural Eu vi o mundo, que possuía quinze metros de
largura - teve lugar em um hospício: foi o único
espaço disponível que se conseguiu. Três anos
depois, entretanto, ele abriria uma exposição no
Salão de Belas Artes, a convite do pintor Di
Cavalcanti. Rompendo com a escola clássica, as
exposições e trabalhos do artista geravam debates e
escândalos, já que poucos os entendiam. Inclusive,
houve o caso de um homem que, com o auxílio de uma
navalha, tentou destruir as suas obras.
Cícero Dias era amigo de Gilberto Freyre e, com o
antropólogo, relembraria o seu passado de menino
criado em engenho. Por ser simpatizante do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), o artista foi perseguido
em 1937, quando o então Presidente Getúlio Vargas
instalou a ditadura do Estado Novo. E, várias vezes,
ele teve o ateliê invadido por tropas policiais. Por
essa razão, desgostoso com a realidade, o artista
decidiu se mudar para Paris. Nesta cidade, em 1943,
ele se casaria com a francesa Raymonde e teria uma
filha.
Durante a II Guerra Mundial, cabe registrar também
que, por ser brasileiro, depois que o País rompeu
relações diplomáticas com a Alemanha nazista e a
Itália fascista, Cícero foi preso na cidade alemã de
Baden-Baden, juntamente com o escritor João
Guimarães Rosa, que fazia parte do mesmo grupo de
detentos. Felizmente, entretanto, este grupo foi
trocado por espiões nazistas que estavam
encarcerados no Brasil.
Cícero Dias foi o autor do primeiro mural abstrato
da América Latina. O mural, elaborado em 1948, foi
pintado no prédio da Secretaria da Fazenda de
Pernambuco. Apesar de viver tão longe do Recife, os
seus canaviais, casas-grandes, sobrados, bem como o
rio Capibaribe e o mar de Boa Viagem, sempre estavam
presentes no imaginário do pintor. Na década de
1960, ele produziria várias telas com retratos de
mulheres. Depois dessa fase, pintaria flores,
paisagens e personagens diversos.
Em sua primeira fase artística, Cícero Dias
privilegiou aquarelas e óleos, e produziu os
seguintes quadros: Sonho de uma prostituta
(1930-1932), Engenho Noruega (1933), Lavouras
(1933), Porto (1933) e Ladeira de São Francisco
(1933). Durante a segunda fase (1936-1960), onde
prevaleceram a figuração e a abstração, se
destacaram as seguintes obras do artista plástico:
Mulher na janela (1936), Mulher na praia (1944),
Mulher sentada com espelho (1944), Composição sem
título (1948), Exact (1958), Entropie (1959). Por
fim, em sua terceira fase (1960-2000), onde a mulher
era um símbolo constante, ele pintaria a Composição
sem título, em 1986.
Considerado como um dos pioneiros do modernismo no
Brasil, Cícero Dias foi amigo de vários artistas
modernistas, tais como o compositor Heitor
Villa-Lobos, o artista plástico Ismael Nery e o
poeta Murilo Mendes. E, na França, fez amizade com
várias personalidades ilustres, a exemplo dos poetas
André Breton e Paul Eluard, e do pintor Pablo
Picasso, que se encontrava asilado em Paris antes do
fim da Guerra Civil Espanhola. Este último
tornara-se padrinho de sua filha e, junto a ele,
Cícero acompanharia a elaboração do quadro Guernica,
o famoso épico sobre aquela guerra. Além disso,
pode-se dizer que Picasso exerceu uma influência
marcante nos trabalhos do artista pernambucano.
No ano 2000, o pintor esteve no Recife para uma
justa homenagem: a inauguração de uma praça com o
seu nome. Vale lembrar, contudo, que o logradouro
público foi projetado pelo próprio artista. E, em
fevereiro de 2002, ele retornaria ao Recife para o
lançamento do livro Cícero Dias:uma vida pela
pintura, de autoria do jornalista Mário Hélio. Na
ocasião, expôs algumas de suas obras na Galeria
Portal, em São Paulo. Neste mesmo ano, aos 93 anos
de idade, inspirado em sua obra Eu vi o mundo ele
começava no Recife, o artista criaria um trabalho
relevante para o Recife: o piso da Praça do Marco
Zero, uma bela e enorme rosa dos ventos plantada no
centro da cidade.
O artista plástico conservou-se lúcido, saudável e
produtivo até o fim de sua vida. No dia 28 de
janeiro de 2003, aos 95 anos, ele faleceu em sua
casa, na Rue Long Champ, em Paris, onde residia há
quarenta anos. Junto ao pintor, estavam presentes a
esposa, Raymonde, a única filha, Sylvia, e seus dois
netos. Cícero Dias foi sepultado no cemitério de
Montparnasse, na capital francesa.
Fontes consultadas:
CÍCERO Dias. Disponível em:
Acesso em: 6 ago. 2005.
GALERIA. Disponível em: Acesso
em: 6 ago. 2005.
ÍCONES de Pernambuco. Recife: Jornal do
Commercio, Recife, fascículo 2, 2004.
PEREIRA, Marcelo. Modernismo vira a última página.
Jornal do Commercio, Recife, 29 jan. 2003.
Caderno C, p. 1.
PINTOR pernambucano Cícero Dias morre aos 95 anos em
Paris. Folha Online, Recife, 28 jan. 2003.
Disponível em:
. Acesso em: 6 ago.
2005.