DOIS IRMÃOS (bairro, Recife)
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Como grande parte dos
bairros do Recife, Dois Irmãos foi também um engenho
importante. Na primeira metade do século XIX, essas terras
pertenciam ao engenho Apipucos, cujos proprietários eram os
irmãos Antônio Lins Caldas e Tomás Lins Caldas, apelidados,
respectivamente de Capitão Coló e Seu Toné. Como eles
demonstravam muito amor um pelo outro, e viviam sempre em
harmonia, chamavam a propriedade de Engenho dos Dois Irmãos.
Era um engenho bem moderno, movido pela força hidráulica das
águas do rio Apipucos.
O último elo da existência desse engenho advém das notícias
da Revolução Praieira: o sexto batalhão de caçadores, que
acampou a 30 de novembro de 1848, sob o comando do major
João Guilherme de Bruce; e desalojou a força dos
revolucionários liberais ou praieiros, que se refugiara no
engenho dos Dois Irmãos. Não podendo a força revolucionária
resistir ao choque da tropa cede o campo e bate em retirada,
tomando a direção de Pedra Mole.
O trecho denominado Pedra Mole é o mesmo que, atualmente, se
conhece como Horto Florestal de Dois Irmãos ou Jardim
Zoo-Botânico de Dois Irmãos. Há alguns séculos, porém, havia
na localidade uma reduzida povoação e um lago volumoso,
conhecido como Lago da Prata.
Por que o lago possuía esse nome?
Registra a história que, no final do século XVI, uma rica
senhora de engenho (das terras de Camaragibe e, também, de
Apipucos chamada Branca Dias, foi denunciada por crime de
judaísmo, perante o Tribunal do Santo Ofício. Intimada com
ordem de prisão, Branca Dias atirou toda a sua rica baixela
de prata no açude (ou lago) das proximidades. A baixela era
tão preciosa, dizia a lenda corrente, que fizeram as águas
do açude mudar de cor: elas ficaram claras e límpidas como a
prata. Daí, o nome atribuído ao lago.
Cabe explicar, agora, a parte verossímil dessa história. A
senhora Branca Dias realmente viveu no Recife e era uma
senhora de engenho muito rica. Acusada de seguir a religião
judaica, ela foi presa pelos inquisidores, levada para
Portugal, condenada pelo Tribunal do Santo Ofício, e
queimada viva na fogueira da Santa Inquisição.
Por ter recebido uma condenação tão cruel, Branca Dias caiu
na piedade popular e o açude situado em seu engenho ficou
conhecido como Lago de Prata ou Riacho da Prata.
No ano de 1847, começou a funcionar em Dois Irmãos a
Companhia do Beberibe (já extinta). Aproveitando o manancial
do rio Apipucos e do Lago da Prata, a Companhia passou a
fornecer água potável e encanada para toda a cidade. Ela
funcionava nas duas residências dos seus antigos
proprietários (os irmãos Lins Caldas), que foram reformadas
para a instalação da usina.
Em Dois Irmãos, encontra-se o jardim da Praça Farias Neves,
com várias palmeiras, jambeiros, pés de mulungu, pau-brasil,
gramado, arbustos e outras árvores, e que foi projetado pelo
paisagista Burle Marx.
Existe um prédio na praça, construído em 1887, onde funciona
a atual Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa).
Nesse mesmo lugar, em 1838, funcionou a Companhia Beberibe
(de abastecimento de água).
Perto da praça encontra-se, também, uma importante empresa,
responsável pela fabricação de uma extensa variedade de
produtos e remédios e emprego de mão-de-obra local: o
Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe).
Mais adiante, na rua Dom Manuel de Medeiros, observa-se uma
construção moderna, em forma de arco, tendo à sua frente um
campo de futebol: é a Universidade Federal Rural de
Pernambuco. As suas Faculdades de Agronomia e Veterinária
foram fundadas em 1913, bem como os cursos de Engenharia de
Pesca, Zootecnia, e outros. Entre os pavilhões dessa
Universidade, bem como atrás deles, encontram-se blocos de
cimento, contendo placas de bronze, onde os formandos
homenageiam algumas espécies de árvores:
Prosopis justiflora (algaroba) Engenheiros Agrônomos, 1965;
Cocos nucifera L. (coqueiro) Engenheiros Agrônomos, 1966;
Licania rígida (oiticica) Engenheiros Agrônomos, 1969;
Anacardium occidentale L. (cajueiro) Engenheiros Agrônomos,
1969;
Durante o governo do general Dantas Barreto, em 1916, o
Jardim Zoo-Botânico de Dois Irmãos foi inaugurado em plena
Mata Atlântica, nas terras de Pedra Mole e do Riacho da
Prata. Próximo à entrada do Horto, inaugurou-se, em 1973, o
Museu de Ciências Naturais, que contém mais de 2.000 peças
sobre os mamíferos, répteis, artrópodes, insetos, aves,
conchas, minerais e fósseis.
À esquerda de quem entra no Jardim, passando o Museu de
Ciências Naturais, é possível observar uma estátua
imponente: o vendedor de pirulitos, feita em 1957 pelo
escultor pernambucano Abelardo da Hora.
Além de várias espécies de mamíferos, aves e répteis, no
Jardim Zoo-Botânico de Dois Irmãos encontram-se "pedalinhos"
(para as pessoas se locomoverem pelo açude), charretes
(puxadas a jumento) e um trenzinho, para levar crianças e
adultos por todo o Horto, bem como restaurante e
lanchonetes.
Presentemente, o Jardim representa um dos importantes pontos
turísticos da cidade do Recife, e sua gestão está entregue à
Empresa Pernambucana de Turismo – Empetur (Empetur).
Fontes consultadas:
CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros.
Recife: Câmara Municipal do Recife, 1998.
COSTA, F. A. Pereira da. Arredores do Recife.
Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981.
FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife: estátuas e bustos,
igrejas e prédios, lápides, placas e inscrições históricas
do Recife. Recife: Secretaria de Educação e Cultura,
1977.
GALVÃO, Sebastião de Vasconcellos. Diccionario
chorografico, histórico e estatístico de Pernambuco.
Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908. 4 v.
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos.
Recife: Fundação Guararapes, 1970.