IGREJA DE SANTO AMARO DAS SALINAS
(Recife, PE)
Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

A igreja de
Santo Amaro das Salinas, cuja lateral dá para a Praça
General Abreu e Lima, está situada no bairro de Santo
Amaro. Nela, pode-se ler: Igreja de Santo Amaro das
Salinas – 1654.
Uma placa afixada na igreja, por sua vez, registra o
seguinte:
Neste local, há trezentos anos, começou a rendição do
Recife aos Restauradores de Pernambuco – depois de uma
guerra áspera e penosa. Homenagem do Governo e do Povo
de Pernambuco aos que resgataram a terra e a gente da
dominação flamenga. (Memória mandada fazer pelo
governador Etelvino Lins e pela comissão do
Tricentenário, 15-1-1654 – 15-1-1954).
O surgimento da igreja de Santo Amaro das Salinas se
confunde, em parte, com a própria trajetória de
Francisco do Rêgo Barros. Nascido em Olinda, filho de
pais nobres e ricos, Rêgo Barros era um juiz ordinário e
de órfãos, em 1593, além de vereador e presidente da
Câmara de Olinda. Ele mantinha nas proximidades de sua
residência, além do mais, um serviço de aproveitamento
de sal, mais conhecido como As salinas. E, nas primeiras
décadas do século XVII, uma animada povoação havia se
constituído em volta daquela fabricação de sal.
Quando os holandeses invadiram Pernambuco, em 1630, sua
primeira investida foi contra a propriedade das salinas
de Rêgo Barros. Esta não era bem protegida, mas os
locais resistiram corajosamente, recebendo os flamengos
com grossa metralha. Ao fim de três horas de lutas, os
invasores se retiraram, carregando os feridos e deixando
setenta mortos. Estes últimos tiveram o mesmo destino
que a polícia volante deu, em 1938, ao bando de Lampião:
as suas cabeças foram degoladas.
Dois meses depois desse episódio, os holandeses
retornaram ao local e conseguiram incendiar a casa da
propriedade. Não conseguindo tomar As salinas, porém,
foram novamente forçados a recuar, deixando um saldo de
vinte e seis mortos. Com o tempo, como era de se
esperar, As salinas caíram em poder dos flamengos, e
eles ali construíram vários fortes, entre os quais o
Forte das Salinas.
No dia 15 de janeiro de 1654, os pernambucanos obtiveram
uma grande vitória: a conquista daquela fortaleza! Como
o dia 15 era consagrado a Santo Amaro, atribuiu-se a
vitória a um milagre desse santo. Derrotados os
holandeses, de uma vez por todas, pôde Francisco do Rêgo
Barros, agora com o título de capitão e foro de fidalgo
da Casa Real (por especial mercê de D. João IV),
retornar às suas terras e As salinas.
Quando Rêgo Barros faleceu, o seu filho mais velho -
Luís do Rêgo Barros - construiu, em 1681, uma capela sob
a invocação de Santo Amaro - o protetor de seu pai -,
sobre as ruínas do Forte das Salinas. Procedeu da mesma
forma o seu irmão - João do Rêgo Barros -, quando mandou
erguer a Igreja de Nossa Senhora do Pilar sobre os
alicerces do Forte de São Jorge.
Por volta da metade do século XIX, os moradores da
localidade já planejavam construir uma Irmandade na
igrejinha, sob a invocação do seu padroeiro. Afinal, em
1870, os últimos herdeiros do antigo morgado (o Conde da
Boa Vista - Francisco do Rêgo Barros -, e José Joaquim
do Rêgo Barros), transferiram, para a Irmandade de Santo
Amaro, todos os seus direitos sobre a propriedade. Os
termos da cessão registravam que aquela incluia:
a Capela e terrenos adjacentes, com a extensão de 450
palmos de norte a sul, sobre a que vai do alinhamento
marginal da estrada de Olinda, ao poente, até 20 palmos
além da fachada lateral do Templo, ao nascente,
inclusive o terreno pelo mesmo ocupado e o seu
respectivo quintal.
A Irmandade de Santo Amaro, posteriormente, fez algumas
reformas no prédio, e a igreja foi aberta ao culto
público. Estabeleceu-se, então, a tradicional romaria
que focalizou o nome Santo Amaro das Salinas, por todo o
Estado de Pernambuco, como o grande santo milagreiro.
Um aspecto interessante do templo diz respeito à posição
em que o prédio foi construído: voltado de lado para a
avenida principal, e com a frente virada para o
nascente. Registra a História que, várias vezes,
tentou-se adotar a posição correta - mudando o altar-mor
para uma posição contrária àquela em que se encontra -,
e que, no dia seguinte à mudança, a imagem havia virado
para a posição antiga, como se isso representasse um
protesto (ou, mesmo, teimosia) de Santo Amaro.
Fontes consultadas:
FRANCA, Rubem. Monumentos do Recife. Recife: Secretaria
de Educação e Cultura, 1977.
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos.
Recife: Fundação Guararapes, 1970.