INSTITUTO RICARDO BRENNAND
Semira Adler Vainsencher
Pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco

Ricardo Brennand nasceu no
dia 27 de maio de 1927, na Usina Santo Inácio, no município do Cabo,
em Pernambuco, sendo originário de uma família inglesa. Aos quatro
anos de idade, porém, veio morar no engenho São João, no bairro da
Várzea, na cidade do Recife.
Durante cinco anos – de 1937 a 1942 – o jovem estudou no Colégio
Marista, tendo sido aluno também do Colégio Oswaldo Cruz. Toda a sua
educação, cabe salientar, foi sempre acompanhada por uma preceptora
que, entre outras coisas, lhe ensinou a falar fluentemente as
línguas inglesa e alemã.
Em 1949, Ricardo concluiria os cursos de engenharia civil e
engenharia mecânica, ambos na Universidade Federal de Pernambuco.
Naquele mesmo ano, ele casava com Graça Maria Monteiro. O casal teve
oito filhos: Ricardo Filho, Antônio Luís (falecido há 5 anos),
Catarina Maria, os gêmeos José Jaime e Maria de Lourdes, Renata,
Patrícia e Paula.
Durante muitos anos, Ricardo Brennand se dedicou ao ramo de negócios
que a sua família desenvolvera: as indústrias de vidro, aço,
cimento, porcelana e açúcar. Mas, como hobby, ele colecionava uma
grande quantidade de armas, adquirindo-as sempre em todos os lugares
viajados (na Europa e na Ásia), através de leilões, museus, ou mesmo
de coleções particulares.
Em 1990, o empresário venderia as fábricas de cimento Atol, Paraíba
Portland, Cimepar e Goiás e, com o consentimento dos seus
familiares, utilizaria parte dos recursos para fundar o Instituto
Ricardo Brennand (IRB), uma sociedade sem fins lucrativos, presidida
pelo próprio empresário. O seu Conselho Deliberativo é formado por
Nélida Piñon, Joaquim Falcão, Edson Nery da Fonseca, Affonso Emílio
Massot e outros.
Através de um projeto pessoal que associou muita coragem,
competência e generosidade, o empresário pôde inaugurar, no segundo
semestre de 2002, em terras que no passado pertenceram a João
Fernandes Vieira, um empreendimento que representava o seu grande
sonho. O Instituto é uma bela homenagem prestada pelo empresário ao
seu saudoso tio homônimo. Com isto, Ricardo Brennand criava um pólo
turístico cultural local, nacional e global de valor inestimável.
Situado na Alameda Antônio Brennand, s/n, no bairro da Várzea, e
todo edificado em estilo medieval gótico, o complexo é formado por
três construções distintas – o castelo, a pinacoteca e a biblioteca
– nas mesmas terras onde o empresário vivera desde sempre. Contém,
também, um auditório para 100 pessoas, com uma área de 1.200 m2.
O Governo da Holanda reconhecendo que o IRB utilizava uma tecnologia
de ponta, no tocante aos controles de umidade e temperatura, entre
outros aspectos, colocou o Estado de Pernambuco na rota das grandes
mostras internacionais, e permitiu que a exposição itinerante
“Albert Eckhout volta ao Brasil (1644 -2002)” fosse transportada
para o Recife, dando ensejo à inauguração da pinacoteca.
O IRB trouxe ao Recife, do dia 12 de setembro a 24 de novembro de
2002, a megaexposição do pintor holandês Albert Eckhout (1610 -
1680). Vale salientar que a liberação das 24 obras do acervo do
artista só ocorreu após uma década de negociações com o Museu
Nacional da Dinamarca, em Copenhague. Eckhout veio ao Novo Mundo
acompanhando a comitiva do conde Maurício de Nassau, um holandês que
governou Pernambuco durante sete anos (1637 - 1644), durante a época
da invasão dos flamengos (1630 - 1654). Eckhout foi o primeiro olhar
estrangeiro a registrar as riquezas botânica e humana do Brasil
colônia.
Na pinacoteca do IRB (cuja área tem 1.200 m2), há uma exposição
permanente de paisagens do artista holandês Frans Post (1612 –
1680), permitindo que o visitante faça um passeio histórico pelo
Brasil holandês.
Frans Post representou um dos integrantes da comitiva holandesa em
Pernambuco, assim como Georg Marcgraff (astrônomo e cartógrafo),
Zacarias Wagner (desenhista), e Peter Post (arquiteto), entre tantas
outras personalidades competentes. Atuando como a memória visual do
conde Maurício de Nassau, Frans Post o acompanhava em todas as
campanhas e viagens.
Na pinacoteca, pode-se apreciar um livro virtual, editado em 1647,
cujas páginas são folheadas mediante a colocação das mãos do usuário
sobre os sensores existentes. Intitulado Rerum octenium in Brasilia,
o livro foi elaborado por Gaspar Barleus, englobando 340 páginas, 57
gravuras, 24 mapas e ilustrações de Frans Post. Além disso, estão
expostas algumas obras do francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848).
Do acervo da pinacoteca constam, ainda, mapas, moedas, cachimbos,
documentos originais do século XVII, e um quadro bastante raro da
coleção de Post, intitulado Forte Frederik Hendrik, que retrata a
Ilha de Antônio Vaz, em Pernambuco. Essa obra faz parte da chamada
primeira fase do artista, época em que ele viveu no Brasil, e
representa as primeiras visões de um europeu sobre o Novo Mundo.
Sabe-se que, naquele período, ele pintou um total de 18 telas, mas,
destas, só restaram 7, estando as demais desaparecidas.
Somente a título de informação, ressalte-se que um quadro de Frans
Post, daquela mesma fase, foi arrematado em 1997, em um leilão em
Nova York, por US$ 4,1 milhões, o que representa o valor mais alto
já pago por um quadro desse pintor, até o presente.
Na exposição permanente da pinacoteca é possível se apreciar,
inclusive, a maior coleção particular do Brasil de pinturas e
paisagens daquele artista holandês. Encontram-se, por outro lado, as
obras dos viajantes que vieram ao Brasil depois da abertura dos
portos, além de outros expoentes da Academia Imperial. Através
daqueles desenhos e gravuras, é possível se conhecer, hoje, como era
o Recife no século XVII, incluindo-se as suas flora e fauna.
Em setembro de 2003, por sua vez, inaugurou-se o Museu Castelo São
João, uma construção em estilo Tudor, cujo projeto arquitetônico foi
inspirado nos castelos da região toscana, na Itália. Esse castelo
possui um calabouço, vitrais antigos (originários de igrejas e
castelos europeus), portas secretas e um altar em estilo gótico.
O local está repleto de armas brancas e armaduras medievais
completas, representando o acervo adquirido por Ricardo Brennand
durante meio século de vida. São pinturas, esculturas, vitrais,
tapeçarias, desenhos, gravuras, canivetes, estiletes, clavas,
adagas, espadas, lanças, armaduras medievais (inclusive para cavalos
e cães) e uma série de outras armas para a caça e para a guerra,
provenientes de vários séculos e de origens distintas, além de um
mobiliário gótico.
No castelo, destaca-se um raríssimo conjunto do século XV, em estilo
Maximiniano, de origem germânica, constando de
cavalo-cavaleiro-com-armadura, bem como conjuntos de combate,
clavas, esferas com pontas e outras peças.
Advindo do século XVI, há uma curiosa armadura para cachorro e
vários objetos interessantes, a exemplo de uma adaga indiana do ano
de 1700, uma caneca de prata com o brasão da Companhia das Índias
Ocidentais, além de espadas-pistola e facas-pistola (lâminas
acopladas com armas de fogo).
Pode-se apreciar, também, valiosas tapeçarias e uma coleção de telas
de artistas renomados, tais como Jean Baptiste Debret, Eliseu
Visconti, Emil Bauch, Eugène Lassaily e Antonio Facchinetti.
Integrando o grande acervo, estão presentes algumas telas pintadas a
óleo - O comércio de escravas brancas (de Domenico Russo), O modelo
do artista (de Eliseu Visconti) e Dançarina do Harém (de Gaston
Guedy) - e a peça Anjo Querubim - uma obra em madeira policromada e
dourada, que foi entalhada pelo Mestre Valentim da Fonseca e Silva
(1750 - 1813). Esse trabalho fazia parte, originalmente, da nave
central da Igreja dos Clérigos, no Rio de Janeiro.
O IRB conta, inclusive, com inúmeros trabalhos em mármore, réplicas
de estátuas elaboradas por famosos escultores europeus (As Três
Graças, O Rapto das Sabinas, Fuga de Vesúvio), outras estátuas
italianas e esculturas mineiras do século XIX.
Vale salientar que, um dos pilares mais importante do IRB é a
realização de programas educacionais voltados para os alunos das
redes municipal e estadual de ensino, e para crianças e adolescentes
deficientes. Esses programas visam complementar o ensino regular de
História, aproximando o conhecimento desta disciplina e das artes
junto às escolas e à comunidade, e ensinando os jovens a melhor
conhecer e valorizar a cultura.
Nesse processo, encontram-se envolvidos os seguintes parceiros: a
Secretaria de Educação e Cultura de Pernambuco; as Secretarias
Municipais de Recife, Jaboatão, Olinda, Paulista e Camaragibe; a
Universidade Federal de Pernambuco; e a Empresa Municipal de
Transportes Urbanos (EMTU).
Dentro do programa de visitas ao IRB, os estabelecimentos de ensino
são agendadas em grupos de 50 alunos (acompanhados por alguns
professores) que, além de desfrutarem da visita ao local, recebem
kits de jogos educativos, baseados na vida e obra de Frans Post.
Cabe registrar que os docentes recebem um kit distinto daqueles dos
alunos, já que necessitam de instruções para poder orientá-los em
seus jogos.
A biblioteca do IRB vem sendo organizada no primeiro andar da
pinacoteca, com enfoque para o período do Brasil-holandês. Ela
contém dezenas de milhares de títulos, muitos dos quais verdadeiras
preciosidades, bem como uma seção de gravuras e cartografia. O
acervo teve o privilégio de incorporar três outras coleções
particulares relevantes: a de um historiador (José Antônio Gonsalves
de Mello), a de um documentalista (Edson Nery da Fonseca) e a de um
escritor musicólogo (Padre Jaime Cavalcanti Dinis).
Para compor a fauna existente em jardins de castelos europeus, o IRB
teve o cuidado de importar várias espécies de aves exóticas,
incluindo cisnes negros e brancos, patos, flamingos, gansos e
outros. Todas as espécies perambulam livremente pelos espaços que
lhes foram destinados nas imediações da localidade.
Três grandes esculturas de rinocerontes, em cor negra, podem ser
apreciadas nos jardins do IRB E estes estão rodeados por trechos da
Mata Atlântica, preservada graças ao enorme carinho do empresário
para com a flora nativa. Os bairros da Cidade Universitária e da
Várzea contêm a sinalização para o acesso ao I.R.B., cuja entrada se
dá através da imponente Alameda Antônio Brennand, que contém dezenas
de palmeiras imperiais.
A obra de Ricardo Brennand representa um gesto de crença e amor, e
um sopro de vida e esperança para o Brasil. Por tanto querer bem à
população brasileira, à sua família, aos seus amigos, à terra que
pertenceu a João Fernandes Vieira, e por tanto desejar que os seus
descendentes nasçam, cresçam e vivam na região, se orgulhando de
serem nordestinos, o empresário disponibilizou e financiou, em vida,
uma obra que protege um precioso patrimônio artístico e cultural.
Fontes consultadas:
BURCKHARDT, Eduardo. Paisagens do tempo de Nassau. Revista Época,
São Paulo, Edição especial 70 -71, p. 1- 2, 23 out. 2003.
DISCRIÇÃO ao estilo inglês: descendência da família remonta à
Liverpool de 1820. Diário de Pernambuco, Recife, 3 abr. 2003,
Caderno Viver, p. 2.
ESCOLAS podem agendar visitas para mostra Frans Post. Disponível em:
Acesso
em: 3 abr. 2003.
GALINA, Décio. Duas vezes Brennand: o castelo de Ricardo e a oficina
de Francisco, ambos no bairro da Várzea,são ótimas justificativas
para dar as costas à orla de Recife. Revista Gol, São Paulo, set.
2005.
INSTITUTO Ricardo Brennand: a obra e o tempo. Recife: Instituto
Ricardo Brennand, [200-].
INSTITUTO Ricardo Brennand ganha prêmio nacional de turismo.
Disponível em:
LACERDA, Ângela. Um castelo, um mecenas e um oásis de arte e
história. O Estado de São Paulo, São Paulo, 29 set. 2003. Caderno 2,
p. 1-4.
MEDEIROS, Amaury. Instituto Ricardo Brennand. Jornal do Commercio,
Recife, 2 jan. 2003. Caderno Opinião, p. 15.
UM PROGRAMA voltado para quem gosta de vários tipos de arte.
Vejanoite, Recife, p. 2 , 29 jan. 2003.