SANTOS CATÓLICOS NÃO CANÔNICOS NO NORDESTE DO BRASIL
Há muito tempo, no Nordeste,
pode-se observar a devoção das pessoas a diversos santos
não-canônicos. Sendo assim, os indivíduos canalizam a sua fé nos
poderes sobrenaturais desses santos e, através deles, buscam
alcançar a cura para as doenças, a resolução de problemas
financeiros e/ou afetivos, entre outros.
Segundo Benjamin (2003), tais devoções “têm sido pouco estudadas no
campo da antropologia, do folclore, da psicologia social, das
ciências da religião e da comunicação. No entanto, sabe-se que a sua
prática envolve processos psico-sociais e de comunicação da maior
importância nas sociedades latino-americanas”.
Há algumas décadas, antes da modernização dos meios de comunicação
de massa, os santos não-canônicos só conseguiam ser propagados
através da história oral. Tais santos e os seus respectivos
milagres, porém, vêm se tornando cada vez mais conhecidos, segundo
pesquisas mais recentes realizadas na área do folclore.
Sabe-se que, após a ocorrência das graças ou milagres, os devotos
costumam deixar, junto a esses santos, alguns objetos que
representam, simbolicamente, os pedidos que fizeram. Em outras
palavras, junto com os pedidos e orações, os fiéis procuram deixar
materializadas as suas contrapartidas pessoais, em retribuição
àquilo que foi alcançado. A esses objetos que se encontram
depositados em santuários, cemitérios, oratórios domésticos ou
locais de romaria, dá-se o nome de ex-votos. De acordo com Cascudo
(1974):
O ex-voto é uma voz informadora da cultura coletiva, no tempo e no
espaço tão legítima e preciosa como uma parafernália arqueológica.
Vale muito mais do que uma coleção de crânios, com suas respectivas
e graves medições classificadoras. É um dos mais impressionantes e
autênticos documentos da mentalidade popular, do Neolítico aos
nossos dias. E sempre contemporâneos, verdadeiros e fiéis.
Dentre os santos católicos não-canônicos, pertencentes ao
devocionário nordestino, alguns dos mais conhecidos são os
seguintes: Padre Ibiapina, Dom Vital, São Longuinho, Frei Damião,
Menina-Sem-Nome e Padre Cícero.

São Longuinho
Dizem que Longino era o nome do
centurião romano que transpassou o coração de Jesus com sua lança.
Como era cego, ele não percebeu os respingos de sangue que lhe
caíram nos olhos. Quando isto se deu, ocorreu um verdadeiro milagre:
de imediato Longino voltou a enxergar. A partir daí, falam que ele
se converteu ao cristianismo, ficou conhecido como São Longuinho - o
santo dos objetos perdidos - e o seu dia ficou sendo o 15 de março.
Quando alguém perde um objeto, então, acredita-se que, para
encontrá-lo, basta falar: “São Longuinho, São Longuinho, se eu achar
o que perdi, dou três pulinhos, três assobios e três gritos”. Dizem
ainda que Longino perdera uma das pernas em batalha e, por esse
motivo, queria ver as pessoas dando pulinhos (como ele o fazia
naturalmente em vida) depois de alcançarem a graça concedida.
Padre Ibiapina
O seu nome verdadeiro era José
Antônio Maria. Ele nasceu no Ceará no dia 5 de agosto de 1806, e o
sobrenome Ibiapina veio em homenagem à vila em que morou. Ali, José
Antônio Maria exerceu primeiramente as funções de juiz de Direito e
chefe de polícia. Ao fazer a opção pela vida religiosa e se tornar
padre, tempos depois, o seu apostolado se destacaria pelo incentivo
à educação. Neste sentido, ele avivava algumas crenças nos
sertanejos, na tentativa de afastá-los do bacamarte e da
superstição.
O Padre Ibiapina realizou muitas peregrinações, construiu mais de
vinte edificações - denominadas “casas da caridade” - recolheu e
educou milhares de órfãs carentes do sertão para atuar na esfera
privada, batizou e casou um elevado contingente de pessoas nos
Estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí,
enfim, lutou muito por seu ideal cristão no Nordeste. O religioso
faleceu no dia 19 de janeiro de 1883, na Casa de Caridade Santa Fé,
no Estado da Paraíba.
Dom Vital
O seu nome completo era Vital
Maria Gonçalves de Oliveira. Ele nasceu no dia 27 de novembro de
1844, em um engenho de açúcar, em Pernambuco. O futuro religioso
estudou primeiro no Seminário de Olinda e, depois, viajou para
Paris, onde freqüentou o Seminário de Saint Sulpice. Foi lá que ele
decidiu se tornar um capuchinho, um religioso pertencente à ordem
franciscana.
O padre capuchinho foi preso e perseguido, tendo lutado contra a
maçonaria. Ele entraria para o Convento Franciscano de Perpignan e,
em seguida, para o Seminário de Toulouse, onde ocorreu a sua
ordenação, no dia 2 de agosto de 1868. No final desse mesmo ano, Dom
Vital voltaria ao Brasil, seguindo para o Convento dos Franciscanos,
em São Paulo, local onde iria lecionar.
Em março de 1872, por indicação do Governo do Império do Brasil, Dom
Vital foi consagrado bispo. No entanto, o Papa Pio IX tardou em
aceitá-lo, porque ele tinha apenas 28 anos de idade. Frente à
hesitação de Roma, Dom Vital escreveu uma carta ao Papa, solicitando
a dispensa do cargo e confirmando o desejo de se manter, somente,
como um simples religioso que era. Percebendo todo o desprendimento
do capuchinho, o Papa decidiu logo nomeá-lo, o que ocorreu no dia 24
de maio de 1872, data em que Dom Vital se tornou bispo de Olinda e
Recife.
Frei Damião
Filho de camponeses humildes e
devotos, Pio Giannotti nasceu em Bozzano, um vilarejo da cidade de
Massarosa, na Itália, no dia 5 de novembro de 1898. Demonstrando
inclinação para o sacerdócio, ele iniciou, aos 12 anos de idade, os
estudos religiosos na Escola Seráfica de Camigliano. Anos depois,
ingressou na Ordem dos Capuchinhos, no Convento de Vila Basílica e,
ao receber o hábito, escolheu para si o nome de Damião.
Em 1917, Frei Damião foi convocado pela Força Militar do Exército
para servir na frente de batalha da Primeira Guerra Mundial,
juntamente com os demais padres capuchinhos. E, após o fim da
guerra, permaneceria por mais três anos acampado na região de Zarra,
na fronteira da Itália. A vivência da carnificina produzida pela
Grande Guerra lhe deixaria profundas e amargas recordações para o
resto da vida.
No ano de 1931, Frei Damião foi intimado por seus superiores a fazer
uma escolha: permanecer na Itália e ser um professor, ou viajar para
o Brasil e se tornar um missionário. Ele seguiu a voz do seu
coração, decidindo-se pela missão de evangelizar e, dias depois,
embarcou para o Recife. Aqui chegando, ele adotaria definitivamente
o nome Frei Damião, com o designativo Bozzano, relativo à sua terra
natal.
Frei Damião fazia batismos e casamentos coletivos, dava sermões e
ouvia confissões. Saindo em procissão pelas ruas e estradas, em
busca das comunidades mais distantes e carentes, ele iniciava sua
peregrinação às quatro horas da madrugada, acordando a todos com
cânticos, orações e o badalar de um sino. Devido às constantes
pregações pelo interior do país, ficou sendo chamado de o andarilho
de Deus.
Foi o costume de ouvir os fiéis que lhe deu um grande prestígio
pessoal. Através de sua dedicação ao próximo, então, ele
conquistaria a admiração da população católica. Em suas missões e
romarias, Frei Damião reunia milhares de fiéis e romeiros, os quais
caminhavam longos trajetos a pé, ou viajavam em cima de caminhões,
com o intuito de assistir aos seus atos religiosos. Ele foi, ainda,
o único pregador que visitou o Nordeste em uma missão franciscana.
Por todo esse trabalho, o Frei receberia várias medalhas e
condecorações e, inclusive, o título de cidadão honorário em 27
cidades brasileiras. Na literatura de cordel, Frei Damião
representou uma fonte de inspiração para trovadores e cordelistas
que, sobre ele, escreveriam centenas de folhetos narrando a sua vida
missionária, os seus milagres e o seu imenso prestígio popular.
No entanto, a falta de cuidados pessoais, durante a intensa vida
missionária, repercutiu negativamente na saúde do missionário: ele
adquirira uma deformação progressiva, causada por problemas de
cifose (corcunda) e escoliose, o que lhe causaria dificuldades para
falar e respirar.
Por outro lado, desde jovem, ele
sofria de erisipela e de uma certa insuficiência cardiovascular
periférica, problemas que só se agravariam com as suas longas
peregrinações. Apesar de todos os problemas de saúde, Frei Damião de
Bozzano foi bastante longevo: ele faleceu no dia 31 de maio de 1997,
no Hospital Real Português, no Recife, aos 98 anos de idade.
Menina-Sem-Nome
A Menina-Sem-Nome é uma santa
católica não-canônica inserida na categoria das “vítimas inocentes”.
Segundo os registros, no início da década de 1980, uma menina de 10
anos de idade, aproximadamente, foi encontrada morta, com
características de estupro, na praia do Pina, no Recife. Como a
família jamais apareceu para reivindicar o seu corpo no Instituto
Médico Legal (IML), a criança foi enterrada como indigente no
Cemitério de Santo Amaro, e o seu túmulo ficou sendo conhecido como
o da Menina-Sem-Nome. Até os dias de hoje, esse túmulo continua
sendo um dos mais visitados daquele cemitério e, muitos devotos,
acreditando nos poderes milagrosos daquela Menina, deixam nele as
suas preces e ex-votos.
Padre Cícero
Sem sombra de dúvida, no Nordeste
do Brasil, o mais famoso e popular, dentre os santos católicos
não-canônicos, continua sendo o Padre Cícero Romão Batista. Ele
nasceu no Crato, Estado do Ceará, no dia 24 de março de 1844, e
ordenou-se capelão em 1870, quando Juazeiro do Norte ainda era
chamado pelo nome de Tabuleiro Grande e, em seu povoado, existiam
somente 32 casebres de taipa e palha, além de uma igrejinha sob a
invocação de Nossa Senhora das Dores. Padre Cícero não se dedicou
apenas ao culto: ensinou a lavrar a terra, tratou as doenças das
pessoas, cuidou da bicheira do gado, ensinou os cearenses a
trabalhar com diversos materiais, a exemplo do couro, da palha, do
barro e da fibra.
Um certo dia, a beata Maria de Araújo fez sangrar a hóstia que Padre
Cícero lhe colocou na boca. A partir desse episódio, o fato
milagroso foi espalhado, não mais cessando as romarias para Juazeiro
do Norte, com o objetivo de verem de perto a eleita do Senhor. Com a
chegada de tantas pessoas, a cidade cresceu muito. Junto às
ocupações masculinas surgiram oficinas de sapateiro, funileiro,
seleiro, ferreiro; e, junto às femininas, surgiram rendeiras,
fiandeiras, chapeleiras, oleiras.
Uma Comissão de Inquérito foi formada, então, para apurar os fatos.
Mas, quando chamaram a beata Maria e lhe ministraram uma hóstia, ela
não mais sangrou. Sendo assim, os religiosos julgaram o ocorrido
como um grande engano, o capelão ficou proibido de falar sobre
milagres e de atender aos romeiros. Entretanto, como as romarias
continuavam, os superiores religiosos tomaram uma outra decisão:
proibiram o Padre Cícero de exercer as funções eclesiásticas, o que
permaneceu por mais de duas décadas.
No dia 20 de julho de 1934, quando o padre morreu aos 90 anos de
idade, mais de 70 mil pessoas acompanharam o seu sepultamento.
Daquele dia em diante, mensalmente, a cada dia 20, os fiéis se
reúnem em torno da capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde
repousam os restos mortais daquele sacerdote carismático, amável,
paciente, hospitaleiro, modesto e empreendedor.
E, em Juazeiro do Norte, em uma área de 100 metros quadrados, foi
erigido um grande monumento em homenagem ao Padre Cícero. Junto com
o pedestal, o monumento apresenta 25 metros de altura. A estátua
propriamente dita, contudo, possui 17 metros de altura, 7 metros de
diâmetro, e pesa 357 toneladas. Nas romarias, Juazeiro do Norte
recebe centenas de milhares de peregrinos, que chegam de ônibus,
carros e caminhões, ou mesmo a pé.
Os santos católicos não-canônicos, apesar de não serem reconhecidos
pelo Vaticano, continuam atraindo a atenção de populares, que lhes
atribuem o poder de realizar milagres e neles depositam fé e
esperança.
Após a ocorrência dos milagres, os devotos costumam deixar ex-votos
junto a eles, em cemitérios, oratórios domésticos, santuários ou
locais de romaria. Tais objetos estão associados, simbolicamente,
aos pedidos que são feitos. Os mercados públicos, por sua vez, vêm
comercializando vários objetos relativos aos santos não-canônicos,
podendo ser encontrados, dentre eles, cordéis, fitas, pulseiras,
correntes e ex-votos.
Enquanto mantiverem o poder de atrair as pessoas, os santos
não-canônicos continuarão a ocupar um espaço importante no
imaginário popular. Desse modo, não há necessidade de o Vaticano
canonizá-los: há tempos, eles já foram canonizados pelo povo
brasileiro.
Fontes consultadas:
BENJAMIN, Roberto Câmara. Devoções populares não-canônicas na
América Latina: uma proposta de pesquisa. Rio de Janeiro: Associação
Latino-Americana de Comunicação de Investigadores de Comunicação (ALAIC),
2003. (Mimeografado)
CASCUDO, Luís da Câmara. Religião do povo. João Pessoa:
UFPB,Imprensa Universitária, 1974.
______. Dicionário do folclore brasileiro. 9. ed. Rio de Janeiro:
Ediouro, 1998.
DOM Vital. Disponível em: Acesso em:
25 maio 2004.
MACHADO, Paulo de Tarso G. O Padre Cícero e a literatura de cordel.
Fortaleza: Gráfica Editorial Cearense. 1982.
MARIZ, Celso. Ibiapina: um apóstolo do Nordeste. 3. ed. João Pessoa:
UFPB, Editora Universitária, Conselho Estadual de Cultura, 1997.
PEREIRA, Nilo. Dom Vital e a questão religiosa no Brasil. Recife:
UFPE, Imprensa Universitária, 1996.
RABELO, Silvio. Os artesãos do Padre Cícero: condições sociais e
econômicas do artesanato de Juazeiro do Norte. Recife: Instituto
Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, 1967.
SÃO LONGUINHO. Disponível em:
Acesso em: 25 maio 2004.
SOUTO MAIOR, Mário. Frei Damião: um santo? Recife: Fundação Joaquim
Nabuco, Editora Massangana, 1998.