

Semira Adler Vainsencher
semiraadler@gmail.com
Pesquisadora da Fundação
Joaquim Nabuco

A Sinagoga Kahal Zur Israel (ou
Congregação Rochedo de Israel) representa um dos marcos mais
importantes da presença judaica no Brasil-colônia. Ela está
localizada na atual Rua do Bom Jesus, chamada antigamente de Rua dos
Judeus, no bairro do Recife, e representou (de 1636 a 1654) a
primeira sinagoga oficial dos judeus que habitaram as Américas.
A frente da sinagoga ficava na Rua dos Judeus (Bockestraet) e,
anexas, funcionavam duas escolas religiosas (Talmud Torah e Etz
Hayim). Após a expulsão dos holandeses, aquela rua passou a ser
conhecida como Rua da Cruz, e os prédios do antigo templo e das
escolas religiosas receberam o número 26. Somente a partir de 1879,
porém, o logradouro vem a ter o nome atual: Rua do Bom Jesus
(Kaufman, 2000). Esse nome marcou o retorno do predomínio colonial
português.
No início da colonização, bem longe dos autos-de-fé, os lusos
interpretavam com um pouco mais liberalidade as severas leis
religiosas presentes em Portugal. Sendo perseguidos pelos
inquisidores em Portugal e Espanha, os cristãos-novos se refugiavam
na América Lusitana, onde o fanatismo religioso era menor, tanto
pelo relaxamento dos costumes, como pela necessidade de proteger a
colonização. Apesar dessa liberalidade relativa, contudo, a
Inquisição não seguia um traçado retilíneo, apresentando sempre
marchas e contra-marchas. Desse modo, jamais deixou de estender seus
olhos e garras à colônia hebraica brasileira, tendo enviado mais de
500 pessoas a Portugal (Moura, 2002).
Os judeus não convertidos ao catolicismo tinham os seus bens
confiscados e/ou recebiam a condenação à morte na fogueira, por
traição, heresia, bruxaria, ou por impureza de sangue. Na Bahia e em
Pernambuco, nesse sentido, em 1591 e 1618, ocorreram duas visitações
do Tribunal do Santo Ofício.
É importante lembrar que muitos colonizadores lusos que vieram para
o Brasil no início do século XVI, ou seja, inúmeros degredados
portugueses, eram, simplesmente, cristãos-novos ou marranos (os
judeus que eram convertidos à força ao catolicismo, mas que
praticavam a religião mosaica às escondidas), expulsos de Portugal.
Os ofícios e as ocupações exercidos pelos emigrantes judeus e recém
convertidos, segundo Gonçalves de Mello (1979), se apresentavam bem
variados: eles eram médicos, advogados, calígrafos, músicos,
ourives, ceramistas, intérpretes oficiais, tradutores, donos de
engenho, atores, carregadores de navios, compradores de negros
escravos, comerciantes de tecidos, roupa, açúcar, alimentos, vinho,
madeira, entre outros.
Não podendo recusar trabalhadores, devido à sua escassez, os
donatários estenderam às pessoas de origem judaica, inclusive, os
favores concedidos às demais, tendo um dos donatários, Duarte
Coelho, contratado com hebreus laboriosos a montagem de engenhos de
açúcar em Pernambuco, onde eles se dedicaram ao cultivo da
cana-de-açúcar e à produção e exportação do açúcar. Logo, há que se
admitir a influência judaico-marrana na formação histórica do povo
brasileiro.
Devido à tolerância religiosa dos holandeses, frente à prática da
lei mosaica, uma parte seleta de judeus/europeus veio se estabelecer
no Brasil. A Sinagoga Kahal Zur Israel, portanto, só floresceu
durante o período do domínio flamengo em Pernambuco: de 1630 a 1654.
A formação inicial do templo contou com 180 associados,
representados pelos pais das famílias judias residentes no Recife.
A comunidade judaica se reunia, antes dessa época, na sinagoga
Maguen Abraham (Escudo de Abraham), na antiga ilha de Antônio Vaz,
depois Maurícia (por não haver sido construída, ainda, a ponte que
ligava Maurícia ao Recife), e em pequenas congregações existentes em
Itamaracá e na Paraíba. Infelizmente, até hoje não se sabe aonde
funcionou tal sinagoga.
Os expoentes da sinagoga Kahal Zur Israel foram o rabino e primeiro
escritor judeu das Américas, Isaac Aboab da Fonseca; o chacham
(sábio) Moisés Raphael Aguilar; o rubi (professor de escola
primária) Samuel Frazão; o bodek (magarefe do abate ritual judaico)
Benjamin Levy; e o shamash (bedel) Isaac Nahamias.
Vale registrar que Isaac Aboab da Fonseca nasceu cristão-novo, em
1605, por força do batismo de seus pais. Para professar livremente a
religião mosaica, a sua família emigrou para Amsterdã, onde Isaac se
tornou rabino. Ele veio para o Recife em 1642, a convite da
comunidade judaica pernambucana, ganhando um salário de 1.600
florins, acompanhado pelo chazan (cantor litúrgico da sinagoga)
Moisés Rafael de Aguillar. Antes de 1636, a comunidade judaica
utilizava a casa de David Sênior Coronel, na Rua dos Judeus, como
sinagoga.
Com a expulsão dos holandeses, as sinagogas foram fechadas e o
seguimento das leis mosaicas foi proibido, terminantemente. Restou
aos judeus, então, uma única alternativa para manter a identidade
religiosa: a realização das suas cerimônias dentro das próprias
casas. E, para garantir a segurança e a própria vida, a conversão ao
catolicismo se afigurava como a melhor saída.
A esse respeito, vale destacar a trajetória de Izaque de Castro, um
judeu/holandês que sai de Amsterdam, no século XVII, e vem se
estabelecer no Recife. Acusado de judaizar é transportado em ferros
para Lisboa. Sem jamais desistir de professar a religião mosaica
(repetindo sempre que tinha uma boa crença e não podia apartar-se
das leis de Moisés), Izaque de Castro, aos vinte e um anos, recebe a
sentença condenatória máxima do Tribunal do Santo Ofício: a de ser
queimado vivo em uma fogueira.
Em 1656, o prédio da sinagoga Kahal Zur Israel é doado ao insurreto
João Fernandes Vieira. Por sua vez, em 1679, ele e a esposa doam o
imóvel aos padres da Congregação do Oratório de Santo Amaro. Na Rua
do Bom Jesus, até bem recentemente, funcionava no referido prédio
uma casa comercial de material elétrico.
Apesar de a sinagoga Kahal Zur Israel ter ficado escondida sob
muitos pisos durante séculos, as pesquisas do Instituto
Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano e, em particular,
as do historiador José Antônio Gonsalves de Mello, asseguraram a
existência do templo. Por outro lado, os estudos cartográficos e
documentais, feitos pelo arquiteto José Luiz da Mota Menezes,
apontaram o lugar exato para o início das escavações arqueológicas.
Em 1997, nesse sentido, o Ministério da Cultura em parceria com o
Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) desenvolve o Programa
Monumenta: um trabalho arqueológico visando a restaurar e preservar
o centro histórico do Recife. Inserida nesse Programa, incluía-se a
escavação e recuperação da sinagoga Kahal Zur Israel, cujas ruínas e
vestígios deviam estar sob algum piso, em um determinado prédio da
Rua do Bom Jesus.
Mediante os esforços de várias entidades, foi firmado um acordo
entre o Ministério da Cultura, a Prefeitura do Recife, a Federação
Israelita de Pernambuco, a Confederação Israelita do Brasil e a
Fundação Cultural Safra. Vale ressaltar, contudo, que essa Fundação
financiou as pesquisas e as obras de restauração da sinagoga.
Para se ter conseguido localizar (bem como determinar) as
dependências do primeiro templo judaico do hemisfério ocidental, foi
preciso remover 750 toneladas de terra e mais de 1000 metros
quadrados de reboco. Ao longo dos séculos, os alicerces do prédio
haviam sofrido várias modificações, em decorrência dos vários
aterros empreendidos para o assentamento da cidade do Recife.
Através das escavações verificou-se a existência de 8 níveis
distintos de piso, e as obras de restauração ficaram sob a
responsabilidade do arquiteto José Luiz da Mota Menezes.
Somente em dezembro de 2001 a sinagoga pôde ser aberta ao público.
Os móveis do templo, por sua vez, foram desenhados com base em
pesquisas realizadas em algumas sinagogas holandesas do século XVII.
A disposição do mobiliário na sala foi feita, também, mediante o
mesmo procedimento acadêmico.
Durante as escavações, encontrou-se um precioso material
arqueológico: muitos fragmentos de cachimbos holandeses, um pedaço
de louça com a menorah, o candelabro judaico de sete pontas, e
algumas faianças, louças de barro esmaltado trazidas pelos
colonizadores portugueses.
No piso térreo da sinagoga, as pessoas podem apreciar exposições
permanentes sobre a cultura judaica e a história da comunidade
hebréia em Pernambuco, conhecer como as escavações arqueológicas
foram empreendidas, observar o piso original holandês, as várias
camadas das paredes, e a muralha de contenção do rio Beberibe. É no
térreo que se encontra, ainda, um dos alicerces mais relevantes do
templo: o Micvê.
Tal buraco feito de pedras sobre pedras, sem a presença de
argamassa, medindo 0,70 m de diâmetro por 1,70m de profundidade,
representou a maior de todas as descobertas. Sem essa espécie de
banheira, que foi alimentada, no século XVII, por um lençol freático
de água límpida e fluente, os judeus não teriam a oportunidade de se
purificar diante de Deus em diversas situações. O Micvê foi
examinado por um Conselho Rabínico, composto por rabinos do Brasil e
da Argentina, e somente após uma rigorosa inspeção ficou comprovada
a sua autenticidade, dentro das medidas especificadas nas escrituras
sagradas.
Para se ter idéia da importância do Micvê, em uma comunidade
judaica, basta dizer que as mulheres só podem ter relações sexuais
após o término do período menstrual. Como o fluxo sangüíneo da
menstruação é considerado como um elemento impuro, as judias, depois
desse período, têm que passar por um determinado ritual de
purificação. E este ocorre mediante um banho no Micvê.
No segundo piso - a sobreloja - encontra-se um salão de orações.
Esse espaço ficou destinado à realização de conferências e
seminários sobre a cultura judaica. A disposição, o formato e o
material do teto da sinagoga foram frutos de pesquisas efetuadas
junto a sinagogas portuguesas e espanholas do século XVII, e em
residências holandesas em Pernambuco.
A arca que contém a Torah (nome dado à lei mosaica e ao Pentateuco)
se encontra em frente ao púlpito e, este, em direção ao nascente. O
mezanino é repartido em duas partes. Na primeira (supõe-se), está o
lugar de onde as mulheres, sentadas em bancos, acompanhavam as
cerimônias religiosas; e, na segunda parte, está presente o Centro
de Documentação da Memória Judaica de Pernambuco.
Localizado no último piso do templo, o Centro de Documentação
congrega as atividades culturais destinadas à preservação da memória
judaica, em Pernambuco e no país. O prédio da sinagoga, por ter sido
considerado um elemento relevante da memória histórica brasileira,
foi inscrito no Livro do Tombo do Instituto do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional.
FONTES CONSULTADAS:
KAHAL Zur Israel: Congregação Rochedo de Israel: resgate da memória
da 1a. Sinagoga das Américas. Recife: Fundação Safra/Centro Cultural
Judaico de Pernambuco, 2001.
KAUFMAN, Tânia Neumann. Passos perdidos – História recuperada: a
presença judaica em Pernambuco. Recife: Edição do Autor, 2000.
LARGMAN, Esther Regina. Judeus nos trópicos: a comunidade judaica da
Bahia de 1912 a 1945. Morashá, São Paulo,a. 10, n. 36, p.49-53, mar.
2002.
______. Aspectos da vida judaica ...sob o domínio holandês. Morashá.
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LIPINER, Elias. Izaque de Castro: o mancebo que veio preso do
Brasil. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Ed. Massangana, 1992.
MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação. Revista do
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RIBEMBOIM, José Alexandre. Senhores de engenho: judeus em Pernambuco
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SINAGOGA Rochedo de Israel: memória