Sebo - Vilma Matos

Odisséia em Ulisséia

Formas

Observando uma gravura
Admiro o criador
Que bela, que linda!
Quem será ela
Uma mulher ou uma flor?
A pele pode ser branca como a neve
Atormenta o viajor
A boca lembra um botão
A rosa que enfeita o campo
Na primavera do amor.
Feita a capricho
Pelas mãos do criador
Sua beleza plástica pode ser meio
Para fisgar um grande amor
Caso queira harmonizar-se
Com o filho do escultor.
Obra de arte, a mulher
Lapidada, concluída, ganha do criador
Outras formas, para acolher
Outras vidas.


O jantar nos foi servido por volta das vinte e uma horas e como aperitivo, degustamos o delicioso vinho do Porto, safra 1963. Teve como entrada o tradicional pão de mafra acompanhado com bacon, champignon e queijo fresco regional, servido com sal e pimenta. Prato principal: salada verde, bacalhau com nata e, para acompanhar vinho Monte Velho, safra 1990. Sobremesa: bolo com calda quente de chocolate.
Depois do jantar, fomos à sala de visitas, onde, para amenizar o frio, sentamos em frente à lareira, momento em que nos foi servido o tradicional café português acompanhado do delicioso chocolate suíço. Estava certa de que este convívio era o alimento para fortalecer o meu espírito, principalmente, quando discorríamos sobre assuntos de nível cultural e intelectual. Tudo que acontecia era aprazível a todos que ali se encontravam.
As horas se passaram, sem que eu percebesse, por volta das vinte e três horas, meus anfitriões me levaram de volta ao hotel. Confesso que foi muito importante ter conhecido essas pessoas no meu antepenúltimo dia em Portugal, no dia seguinte retornaria ao Brasil, levando comigo um aprendizado e a certeza de que não iria esquecer a cortesia dos amigos brasileiros e lusitanos. Naquela noite, fiquei acordada até altas horas, fazendo um apanhado de tudo que passei, de bom e de ruim, nestes nove dias, principalmente nas tardes prodigiosas, primeiro dia, com Manuela, Carlos e Joana, antepenúltimo dia, com os familiares de Joana Darc, todos são pessoas especiais que até então, não me conheciam, mas que me receberam como se fossemos velhos amigos. Sou-lhes muito grata... Eu estava só, em terras estranhas, carente de atenção e amizades. Obrigada amigos e amigas, portugueses e brasileiros!

Serra de Sintra

A história desta antiga cidadela Moura remota a 1147. Bastante atingida pelo terremoto que sacudiu Lisboa em 1755, foi sendo reconstruído ao longo do tempo.
Atualmente, mesmo não possuindo mais a maior parte de seus elementos originais, o Castelo de São Jorge guarda no interior de suas muralhas o bairro de Santa Cruz. Lá os turistas encontram diversas construções dos séculos XVIII e XIX, praças, jardins e parques, além de restaurantes e bares. O acesso a alguns dos terraços e torres existentes nas muralhas é permitido, oferecendo lindas vistas da cidade.
A Serra de Sintra fica situada no distrito de Lisboa. Num de seus píncaros fica situada o Castelo dos Mouros e noutro o Palácio da Pena... Conquistada aos Mouros em 1147, por D. Afonso Henriques.
Na Serra de Sintra, existe exuberante combinação de verdes (600 tons diferentes, que é único no mundo), de maravilhosos jardins, alamedas, florestas, lagos, nevoeiros, penhascos e precipícios, que coexistem com edifícios de várias épocas e estilos arquitectónicos, desde moradas simples aos serenos palácios, mosteiros e mansões. Na longa história das Descobertas Marítimas, nenhuma outra terra foi tão celebrada, em verso e em prosa, como Sintra, principalmente a sua Serra, testemunho do passado marítimo português: as idas e vindas, a visão de navios de guerra, a descoberta do Comércio.
Gil Vicente descreveu Sintra em "O Triunfo do Inferno", como se fosse uma senhora, sonhadora, romântica, amorosa e desinibida. Mas também outros poetas e escritores portugueses e estrangeiros foram descobrindo-a, ao longo do tempo, chamando-lhe de “labiríntico jardim paradisíaco, onde os românticos se tornam mais românticos, os amorosos mais amorosos, os namorados mais enamorados. Estes jardins seriam dignos de figurarem no Éden...”. Nas tardes de Verão, quando o nevoeiro nasce do Atlântico, o Sol paira como um disco alaranjado, sobre a terra sem vento. A intensidade da luz da cor dá profundidade aos montes alcantilados que se erguem do Atlântico ao encontro da Serra de Sintra...
Em plena Serra de Sintra, ergue-se o Palácio da Pena. Construído no século XlX sobre as ruínas de um antigo convento, este revela uma concepção romântica, pelas características estilísticas e cuidado de integração no ambiente, com bom sentido de cenografia paisagística. No interior do palácio, se tem vista panorâmica ímpar, em Portugal.
A sedutora Sintra é carregada de encantos e mistérios. Próxima de Lisboa, a cidade é repleta de palácios com uma arquitetura belíssima. A cidade cheira romance e sedução, despertando paixões, ideal para quem quer viver momentos a dois. A riqueza de sua natureza misturada com o que o homem criou, faz de Sintra, um dos lugares históricos mais importantes de Portugal. Lá foram dadas as primeiras notícias do descobrimento da Índia e do Brasil.

Monumentos de Sintra

Tempos de reinados
Guerras
Castelos, palácios ...
Promessas não cumpridas.
Fugas,
Torturas,
Orgias
Situações conflituosas.
Conversas inacabadas,
Disputas políticas
Brigas religiosas...
Relações amorosas
Amores proibidos.
Jardins, salões, camarinhas...
Tudo isso retrata a história
De um povo que acreditava
Em sua soberania.

Último dia em Portugal

Acordei às oito horas, liguei a TV para assistir o noticiário. O ambiente estava bem aquecido, nem dava para supor o quanto estava frio lá fora, segundo a repórter, a temperatura girava em torno de 6ºC a 7ºC. A minha primeira tarefa do dia foi organizar a bagagem que tinha aumentado consideravelmente e não cabia mais na mala. Na noite anterior, eu tinha tentado fazer isso, o que não foi possível e acabei adormecendo, mas dessa vez, tinha que concluir, só não sabia era como fazê-lo. Estava cansada e aborrecida de tanto colocar e tirar peças de dentro da mala, daí a camareira chegou para fazer a arrumação do quarto e, por algum tempo ficou me
olhando, como se me dissesse através de seu olhar: - “Desse jeito a senhora nunca terminará com esta arrumação.” Então ela se ofereceu para me ajudar, em pouco tempo, tínhamos deixado tudo organizado. Nada como se trabalhar em dupla, essa é uma boa opção para superar certas dificuldades.
O trabalho foi cumprido e com grande êxito.
Eram dez horas e meu vôo estava marcado para quinze e trinta, em vista disso, dispunha de tempo para ir até a Baixa do Chiado. Tudo ali exalava poesia, talvez fosse pela forte presença poética de Fernando Pessoa.
Por conta da distância, fiquei somente na vontade, o melhor foi permanecer no hotel até a hora de minha partida. Onze horas, pedi que encerrassem minha conta.
Fiquei por mais algum tempo na recepção, precisava agradecer ao senhor Fatela (gerente) pelo empréstimo de um blocozinho de papel, onde fiz todas as anotações, para a elaboração deste trabalho, bem como pelos bons serviços prestados. Após as despedidas, solicitei um táxi. Pretendia chegar ao aeroporto com bastante antecedência, para evitar problemas de última hora. Ainda lembrava das dificuldades que havia enfrentado na minha chegada a Lisboa. Enquanto isso, a recepcionista me informou que o táxi estava à minha espera. Sai levando comigo uma odisséia de histórias.
O taxista, educadamente pegou minhas malas, olhou para mim e, em tom de brincadeira, disse: - “Esses brasileiros quando vêm cá levam quase tudo!”
Durante o trajeto me mantive reservada e quieta, apenas fazia algumas observações. Mesmo que eu quisesse dizer algo, não conseguiria, porque o motorista não parava de falar. Ao chegarmos ao aeroporto, o taxímetro tinha registrado 5,25 Euros. Ele pressionou o botão e apareceu 7,07 Euros. Percebi sua intenção, então lhe disse: - pode deixar lhe pago os 7,07 Euros, o senhor merece! Ele sorriu meio sem jeito e tratou de retirar minha bagagem do porta-malas. Pareceu-me estranho que há dez dias atrás, um outro motorista que fez o mesmo percurso tenha me cobrado 15,00 Euros.
Chegamos as doze e quinze, coloquei a bagagem num carrinho e me dispus a andar de um lado para o outro, sempre buscando informações necessárias ao meu embarque. Sai peregrinando de guichê em guichê e nada.
As informações não eram claras e sempre desencontradas, dificultando a minha compreensão. Quanto mais eu queria ser objetiva, mais me tornava difícil de ser compreendida. Confesso que esta foi uma das situações mais
embaraçosas que já passei em minha vida. Para complicar, quase não se encontrava funcionários naquele local, quando abordava um, ele se esquivava, indicando outra pessoa para me atender. O mais desesperador era sempre ter que empurrar um enorme carrinho, com toda a bagagem. A exaustão e o desespero eram tantos que as lágrimas facilmente vinham aos meus olhos. Pensei: devo estar sonhando. Isso não pode ser real! Queria tanto acreditar nesta hipótese. Em se falando em sonhos, é uma pena que nem sempre estes, sejam da forma que desejamos; às vezes, temos alguns tão ruins que os consideramos pesadelos. Para meu alívio, um senhor muito gentil, também passageiro, ajudou-me a sair dessa encrenca. Depois disso fiquei mais tranqüila. Quinze e cinqüenta, ouvi uma voz que dizia: - “Senhoras e senhores passageiros, queiram nos desculpar, mas o vôo com
destino à Fortaleza – Ceará – Brasil vai atrasar. Sairá somente às dezessete horas”. Nem quero relatar o que me veio à cabeça. Tentei manter a calma, porque não adiantava me estressar.
Durante a viagem, divaguei em busca da paz interior, abalada por tantos acontecimentos. Reorganizei os pensamentos e sentimentos que, até então, estavam bastante fragmentados. Queria escrever sobre tudo que aconteceu durante os dez dias em Portugal, sem esquecer nada, por mais simples ou doloroso que fosse. Algo me corroia por dentro e eu previa mais um desafio, seria imprescindível um confronto com o autor ou autora do
“malsinado trote”. Uma hora eu teria que enfrenta-lo (a). Naquela altura, envolvida por uma onda de tristeza, eu me via, na condição de uma verdadeira viajante do espaço e do tempo. Era assim que me sentia.
Embora tenha sido um trote, ele tinha me causado fortes abalos e um enorme prejuízo emocional, por mais que tivesse falado com Wanessa, por telefone, não era suficiente. Como aceitar que uma pessoa tivesse coragem de fazer tamanha maldade com uma mãe que estava do outro lado do atlântico? O meu coração estava por demais ferido, eu precisava mesmo ver e abraçar a minha amada filha. Tentei esquecer o ocorrido, mas, agora que estava regressando, tudo voltara a fervilhar em minha mente.
Estes foram os dez dias mais longos de minha vida, mas não o suficiente, para eu juntar todos os pedaços de mim. Escutei o comandante de bordo dizer: - “Senhoras e Senhores passageiros, apertai vossos cintos, porque estamos entrando em áreas de turbulências”.
O avião balançava terrivelmente, deixando os passageiros em pânicos, por todos os lados se ouviam choros e gritos, cheguei a pensar que íamos cair no Oceano Atlântico. Um jovenzinho de aproximadamente uns 14 anos de idade, que estava sentado ao meu lado, ficou em grande aflição, enquanto que outro passageiro tentava tranqüilizá-lo. Eu, por minha vez, assistia a tudo, já com o coração sangrando, pelos motivos expostos anteriormente, apenas rogava que os mais aflitos, fossem envolvidos pelo amor Divino.
Ao contar das horas, a aeronave se distanciava da linha do Equador e, em grande velocidade ia cortando o vento, em direção ao nosso amado Brasil.
Passadas as turbulências, os passageiros começaram a se agitar em seus assentos, preparando-se para a chegada. Se não fosse pela chuva que caia torrencialmente, dava para ter visto o brilho e a beleza da famosa terra da luz, a simpática Fortaleza. O avião aterrissou no aeroporto Pinto Martins, zero hora e quinze minutos. O cansaço falou mais alto, retirei as botas, meus pés, já não cabiam nelas. Contudo, tive que enfrentar uma fila quilométrica até passar pela Polícia Federal.
Na primeira hora de um novo dia, eu vi se delinear meu pequeno mundo, onde estava abrigado tudo que fazia parte de minha história, como se fosse um destino pronto. Uma sorte que pode ser entendida, buscada na distância, mas só ali havia uma energia capaz de plasmá-lo. Abraçando minha amiga Francinete Azevedo, a quem chamo carinhosamente de “Tia Nete”, senti que eu havia crescido em maturidade, e chorei abençoando o
momento. Não me julguei uma turista ocasional, cheia de presentinhos e historinhas exóticas para esnobar as amigas. Era uma mulher adulta, uma esposa responsável, uma mãe saudosa, um ser humano profundamente comprometido com os problemas do mundo. Sei, que não pude explorar como devia todos os lugares e aproveitar a companhia das pessoas que conheci. Mas, cada momento novo, feito de palavras, pessoas e atitudes me envolvendo, foi um ponto a mais para minhas reflexões sobre o bem e sobre o mal. Foi mesmo, uma Odisséia em Ulisséia.

Verdade ou fantasia?

Durante esses dez dias em Portugal, pude sorrir, sonhar, pesquisar, fantasiar, mas também me desesperei e chorei muito. Passei bons e maus momentos. É certo que um viajante se expõe, corre risco de se confrontar com diferentes paradigmas, situações que nos forçam superar desafios quase impossíveis de se acreditar. Em particular, voltei fortalecida na vida pessoal, familiar, social, literária e religiosa.
Em relação aos acontecimentos citados neste livro, enfatizo a mensagem velada em Fátima, por ter sido decisiva em minha vida. Tudo é uma questão de confiança, de fé, de crença. Quanto ao grau de elevação do mensageiro, somente Deus é o grande sabedor. Alguns, como eu, podem até acreditar que a mensagem foi transmitida por um amigo espiritual, por permissão de Deus; outros, por um anjo do Senhor e por aí vai. Na verdade, inútil seria buscar uma resposta para este fenômeno, ainda mais se levar em conta a minha fértil imaginação! É bem verdade que o misticismo está presente no cotidiano de cada pessoa, afinal, fatos inexplicáveis acontecem todos os dias, por este lindo e sofrido planeta. Dizem que a fé move montanhas, acredito que ela seja até mesmo capaz de transformar a vida de qualquer pessoa, basta que esta esteja propensa a mudar de comportamento, de atitude. No meu caso, existia uma força que me sustentava e, embora estando sozinha num país estrangeiro, por vezes, sentia-me acolhida pelos braços da paz, do amor e da fraternidade.
Desta viagem, obtive aprendizagem, sem sombra de dúvidas.
Aconteceu no campo da pesquisa, do profissional e do artístico, mas foi, na Doutrina do Amor, que encontrei explicações para “coisas” que eu julgava imprevisíveis e até mesmo injustas. Por isso, busco o amor e acredito na existência de uma força Superior que rege o Universo, aplicando a Lei de Causa e Efeito.
Agora, o que tudo isso pode contribuir ou acrescentar em minha vida pessoal, profissional e literária? Não adianta querer mensurar o que aconteceu de bom, sei que alegrou o meu coração, fazendo-o dançar. Os acontecimentos ruins fizeram meu coração sangrar, alma gemer e arrancar soluços descompassados da garganta até o choro ser inevitável. Na vida, temos altos e baixos. Há um tempo para plantar e outro para colher.
Contudo, uma coisa é certa: “quem acredita, confia, quem confia espera, quem espera alcança”. Depois de tudo se resolver, vi o resultado do meu plantio e, até hoje, estou colhendo os frutos do amadurecimento, do aprendizado, do amor inconteste, por mim, pelo ser humano e, por fim, pela doce vida, expressão utilizada inúmeras vezes pela minha sábia e inesquecível mãe.
Quando a gente descobre o verdadeiro sentido da vida, aprende-se que tudo, até mesmo um punhado de “coisas” que fazemos ou deixamos de fazer, é conteúdo que forma a nossa história de vida, é bagagem que teremos de conduzir para além da vida terrena. Acredito que são essas “coisas” que se aprende no dia-a-dia, até aquelas que passam despercebidas, consideradas insignificantes que levamos para o Plano Espiritual. Existem acontecimentos que consideramos enormes, mas, diante da grandeza Divina, tornam-se pequenos, superáveis...
Enquanto concluía este livro, dois acontecimentos entristeceram o mundo católico: o falecimento da Irmã Lúcia, a última testemunha de Fátima, em 13 de fevereiro de 2005, e do Papa João Paulo II, em 02 de abril do mesmo ano.

 

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